04/11/2026

Explicações

Quando não se consegue explicar uma coisa a um caixa de supermercado é porque está mal explicado. Mea culpa.

Levo aqui quatro pães. Cada um a 23 cêntimos. São 92 cêntimos, certo? Paguei com uma moeda de 2 euros. Acha que o troco está certo?
O senhor não está a perceber. A minha colega enganou-se, os pães são todos iguais mas ela pensou que não eram...
Esqueça a sua colega. Devo pagar 92 cêntimos. Entreguei um moeda de 2 euros. Acha que o troco está certo?
O senhor não está a perceber. Tenho que lhe devolver este troco porque a minha colega se enganou...
Esqueça o engano da sua colega.
O senhor não está a perceber. A minha colega enganou-se, os pães são todos iguais. O preço de uns é...
Ó minha senhora, não complique o que é simples...
O senhor é que está a complicar!


[O troco estava certo. Pelo complicado cálculo da senhora, tira e põe mais o erro da colega, a demasia estava certa – erro da colega que se enganou a registar os pães, baralhação da senhora que estava com o complicómetro ligado e só repetia a mesma lengalenga, erro do cliente que confundiu diâmetros de moedas de cêntimos de euro e que por uma ninharia se indispôs com a simplicidade.
O problema é que o complicómetro da senhora está avassaladoramente distribuído pela ecúmena.]

03/11/2026

Aeroporto

Se bem entendi as palavras de Centeno, o novo aeroporto deveria ser no entender dele um pólo de desenvolvimento habitacional.
Julgava eu que uma das razões para a sua construção era justamente a retirada de tal infraestrutura de uma zona urbana.
São opiniões...
O pobre

O pobre hoje não disse “portugueses e portuguesas”.
Portugal, 2008

01/11/2026

Borges

E já vai tarde
Uma no cravo outra na ferradura

O pessoal fardado de rebelde sem causa ou com muitas causas o que redunda no mesmo foi dispersado mais uma vez de uma praça ou de duas praças, depois de desobedecer à polícia.
A polícia, tolerante em excesso com todos os outros incumpridores da lei e da ordem, mostra-se pouco tolerante com meia-dúzia de fardados da luta.
Os primeiros decerto acham que é assim que se faz uma revolução.
Os segundos estão dependentes das ordens de um estado tíbio, só forte com os fracos.
É isto.

29/10/2026

Notícias do manicómio

É nestas alturas de catástrofes acidentais que surge uma enxurrada de lama mental proporcionada por distintos carimbados e certificados que não conseguem discorrer duas seguidas.
O povo, sem perceber minimamente o que está em causa, adopta opiniões destas celebridades e insulta-se a cada esquina sempre que vê um contrário.
O pior é que esta lama tudo submerge. Mostra bem o tamanho do manicómio em que nos encontramos.

27/10/2026

Totalitarismo higienista

Em estilo 1984, a jornalista diz qualquer coisa como isto: a imagem perdeu a beleza porque não é nada bonito ver deputados a fumar às janelas do Parlamento.
Eram do Chega, ‘tá claro.
Merecem-se uns aos outros. A caminho do totalitarismo, higienista ou não, pelo qual anseiam.
Miss Universo

O Presidente da República, algo ofegante coisa que lhe não tem sido natural, proferiu um discurso de Miss Universo com inúmeras menções ao diálogo - coisa que fez lembrar o outro senhor e que a mim continua a fazer-me lembrar o gesto do deslizar continuado do polegar pelo indicador.
Caruaru, 2017

Alucinação

Há uma imensa maioria que ainda não percebeu que o país está preso por arames e tem vindo a afundar-se ingloriamente. Continuam a reivindicar tudo e mais um par de botas à espera que uma entidade divina pague a factura.

Há uma minúscula minoria que, percebendo a alucinação e a alienação da maioria, se entretém a delapidar em proveito próprio o pouco que resta, sem pudor algum.

Há os restantes, apáticos.

25/10/2026

O motorista belga


cartoon de Deligne aqui

A primeira vez de que me lembro da história do motorista que, em contramão, achava que todos os outros iam do lado errado, aplicava-se a um automobilista belga numa auto-estrada francesa.
Há pois uma tendência universal entre os simples de achar que quem se comporta de maneira diferente é estúpido.
Entre os simples, quem está do outro lado da barricada política é néscio. Só pode ser.
Suponhamos agora que aquele fatídico dia de muitos acidentes em 1928 nunca aconteceu, que continuamos todos a circular na estrada pela esquerda.
Naturalmente, os imbecis teimarão a circular pela extrema-direita (é o que vemos, corrigida a imagem ao espelho, nas auto-estradas, ainda que do lado certo do separador central).
Ora é justamente essa a figuração que por cá se faz do extremista de direita, um grunho.
Descontando a ideia absolutamente estrondosa que há uma franja de extremistas de direita – saberá quem os assim define, definir uma ideia de direita? – temos sempre a garantia, por tal teoria, de que os grunhos, os mentecaptos, circulam sempre mas sempre pela extrema-direita.
Revisitemos o motorista belga. Todos os que vão do outro lado do separador são uma bestas.
Em Portugal todas as bestas são de extrema-direita, pois continuamos a circular pela esquerda – é o que acha o mentecapto que se julga de esquerda.
Sucede que desde o tal dia de 28 – vai fazer em breve um século – a circulação automóvel é pela direita.