Um par de cornosSim. Mas o melhor foi que, no meio daquilo tudo, houve um tipo que descobriu que a mulher lhe metia os cornos.
Andava doido pela rua a dizer que fazia e acontecia.
Então quer dizer que não há mesmo festival?
Não, pá. Os tipos da Sagres é que descobriram a coisa. Disseram que não deixavam a cerveja sem receberem. Os tipos que estavam a montar os andaimes ou o palco ou o que aquilo era, pararam. Os artistas começaram a chegar e correu logo a coisa que não havia dinheiro. Chegavam e abalavam quase ao mesmo tempo.
E pessoal? Tava muita gente?
Tava, sim. Ficaram todos a saber que a mulher do outro lhe metia os cornos.
Foi mais ou menos assim, ciscando a memória, que o meu velho amigo M. me descreveu as peripécias em Panóias, depois do cancelamento do divulgadíssimo festival.
Ele tinha acabado de chegar de lá na sua bicicleta a motor, e punha-me assim ao corrente dos sucessos, em frente a umas quantas redondas no café da vila.
Estávamos no início dos anos 80 e ainda ia demorar década e meia até o Alentejo ter o seu primeiro grande festival rock.
Nesse dia de 97, chegava eu aos algarves para comer um petisco com os amigos por lá instalados quando um deles, já de uma geração mais temporã, me disse:
Atão e aquilo lá na Zambujeira? Parece que a coisa está mais ou menos em estado de sítio. Diz que não há comida nem bebida para tanta gente. E que já houve porradaria valente.
Veio-me à ideia Panóias. E um certo par de cornos atribuído a não sei quem por não sei quem, por via de não sei quem. Calculei que isso fosse agora pouco provável na Zambujeira. E previ que dessa vez talvez houvesse mesmo festival.
Se é verdade que não sou, nem nunca fui, um aficionado da
Zambujeira, é também verdade que lá recolhi uma bateria considerável de memórias nos últimos quase 50 anos. E que hoje essas memórias começam a conferir ao sítio um aroma mais agradável. Talvez a pinhal e a noites do Clube da Praia.
O que acabei de escrever é uma espécie de manta de retalhos cuja linha de cosedura apenas se lê na minha memória.
Sei que o Sudoeste começa hoje.
cavaleiros na costa da Zambujeira, em 1932 - espólio Campos Vilhena - foto de JAM