Às moscas
Desta vez não recorri à praça de táxis
1. Experimentei o acaso da era da informação e escolhi o nome que mais me pareceu da lista de restaurantes que o aparelho me estendia.
A situação esteve quase a ser revertida pois antes de estacionar o carro antevi uma lista em ardósia que me cheirou bem.
Estacionado o carro, encarei o nome do restaurante que o aparelho sugerira e por baixo também uma ardósia. Já ia a entrar por um corredor escuro por onde vira desaparecer uma mulher com trajos de cozinheira quando ouvi uma voz dizer que isto hoje está tudo às moscas.
Esperei que a minha aparição contradissesse em parte o orador assim que entrei num espaço mais iluminado onde já via gente e era visto.
A luz vinha forte de uma porta quase em frente pela qual se adivinhavam uma mesas de esplanada.
Saí pela porta e escolhi mesa. Nem vivalma.
Sentado, a mesma mulher que eu vira à porta perguntou-me se eu não quereria comer lá dentro, apontando para uma construção do outro lado do pátio em relação a mim.
Disse que não, ainda que ela me tivesse falado das moscas.
Já com vinho, pão e azeitonas, vi sair da denominada sala de refeições um indivíduo que me perguntou se eu tinha preferência pelo pátio em vez da sala de onde ele acabara de sair.
Respondi-lhe que não podia ter, visto não ter experimentado a sala. E que estava ali bem.
Como que parecendo concordar comigo fez menção de escolher a mesa à minha frente para se sentar, de costas para mim, a ler o jornal.
Julgou depois que seria melhor enfrentar-me e escolheu a cadeira na diagonal da minha no rectângulo que era aquela minha mesa de quatro lugares.
Começou a ler o jornal, tinha dois
2 com ele, pertencendo a ambas as mesas, com um braço cá outro lá, sentado de lado em relação às duas.
Fez-me esta atitude lembrar a de
um dono de uma casa que recentemente dei por estar fechada lá para a serra de Monchique.
Nada lhe disse e ele sobre nada me interpelou. A páginas tantas do primeiro jornal, sem tugir nem mugir, mudou o assento para a mesa vazia e deu-me as costas. Estava a comida a chegar.
Comi bem, barato e com moscas. E fiquei com vontade de lá voltar. Para ficar a saber sei lá eu o quê.
1 – É sabido que qualquer motorista de praça indica bons restaurantes.
2 - A Bola e o Diário de Coimbra.