25/10/2008

O livro preterido



Foram muitos anos, disso a tenho a certeza. Muitos anos em que este livro entrava para a bagagem de férias directamente da estante dos meus avós.
Media-se então (e suponho que ainda se meça) a intensidade dos verões pela percentagem de livros que voltavam por ler. No meu caso, era sempre muito alta.
Como disse, foram muitos anos a carregá-lo para férias. E de todas elas voltou virgem.
Recordo-me de, ao ter desmanchado a casa no início deste século, ter tido o cuidado de o poupar às caixas que iam para os montes, variante dessa espécie de antecâmara da morte dos objectos que são vulgarmente os sótãos, as arrecadações e as garagens urbanas.
O mistério perdeu-se em parte – está a perder-se neste preciso momento – ao ver o filme. Encontrei o livro há pouco.
Irá comigo nas próximas férias.
Das coincidências

Andei hoje à procura de um livro em particular, uma edição francesa do Amante de Lady Chatterley com o qual livro mantenho um estranho litígio há décadas.
Lembrei-me dele hoje, vá lá saber-se por quê. E não é que tropeço quase de seguida, na programação da RTP2, com uma emissão de um dos filmes feitos a partir dele?!
Voltarei ao litígio com tal livro – que ainda não encontrei – um destes dias.
Os sites institucionais



Há uns anos, quando os computadores e as impressoras se vulgarizaram, as tabernas e afins começaram a ostentar, em vez dos tradicionais letreiros manuscritos, umas folhas A4, por vezes coloridas, em que em escrita rampante, em arco, floreada, gongórica, por vezes ideográfica se comunicava ao freguês a sande diversa, o caracol, a bifana.
Hoje, a evolução darwinista fez com que na maioria dos sites institucionais nos deparemos com o equivalente em versão ilustrada.
Umas animações desnecessárias e pesadas (desde há uns tempos já com o botão de “passar à frente”!!!), uns menus incompreensíveis, uma organização labiríntica que mostram que quem os concebeu está dentro das técnicas da animação, da criação de menus e de ligações, da introdução de texto e de imagem, mas não tem a menor noção das proporções, não está habituado a “dar informações” nem é capaz de se pôr no lugar do outro.
Como diria um velho amigo meu, agora a propósito da informação das estradas que “quem sabe o caminho, nunca se engana com estes sinais.”

24/10/2008

Até porque pode ser complexo

Não é raro ouvir-se o que acabei de ouvir na RTP N: [...] para deixarmos os números, até porque pode ser complexo para quem nos está a ver [...]
O problema é que quase sempre são os números que dão o valor às coisas. Se os deixamos, ficamos sem forma de valorizar seja o que fôr que se discuta.
As pessoas que se dão ao trabalho de assistir a certas discussões terão assim tanta dificuldade com a “complexidade” dos números? Ou é o jornalista que os acha complexos?
Organismo

Os acontecimentos dos últimos meses na economia mundial tiveram, entre muitas outras coisas, o mérito de mostrar mais uma vez que não há teoria que compreenda o funcionamento orgânico das sociedades, sejam elas governadas por que sistema forem.
Por maioria de razão, não há dogmas que se aguentem.
Hapax legomenon

Não vou escrever aqui de novo a palavra, pois se o fizesse deixaria de o ser.
O certo é que, depois de um incerto googlador ter tropeçado numa descrição da casa dos meus avós, bisavós e trisavós, minha que foi pela posse e pelo uso, só depois disso me apercebi de que mais ninguém e em altura alguma a havia escrito aqui na rede.
A palavra é esta. Os alentejanos conhecem-na bem. Ou conheciam, já não sei.
Vértice Geodésico Mama Sul, 2008

23/10/2008

De Inglaterra

A acusação de homicídio feita a um camionista português em Inglaterra não diz nada sobre a justeza das leis e das decisões judiciais por lá tomadas.
Mostra o ruído da imprensa que a coisa, para além das mortes de crianças, se prende mais com ser estrangeiro e português, ao serviço de uma empresa espanhola, do que com ser um simples com um volante nas mãos.
Mas esta acusação – que é apenas uma acusação – contrasta com a complacência do sistema português com os assassínios na estrada.
É um sistema que pune e bem os quase criminosos que, por excesso de velocidade e bebida a mais, se colocam em posição de potenciais matadores mas, inexplicavelmente, esquece os que matam deveras.
Só muito raramente os pune, como foi o caso do tipo que matou em contramão ao volante de um jipe Vodafone, lá para os arredores do Porto.
E que também excepcionalmente agora acusa uma condutora de matar dezasseis pessoas ao pé do Fratel. Isto porque, provavelmente, foram uma e outra coisas muito noticiadas.
Mas a regra é deixar passar, especialmente se é burrice o que está por trás da tragédia. Quando não há nem álcool nem velocidade a mais, só burrice e incapacidade.
Lembro-me sempre de uma senhora que se ia matando e a mais duas pessoas, a 10 à hora, não mais, nas curvinhas de acesso à praia de Sines.
Numa das curvas em gancho sobre o precicípio assustou-se. Já seguia muito devagar, mas ainda assim quis travar. Ao invés, acelerou. O carro embateu num muro de protecção e ficou preso com as rodas na frente no ar.
Os destroços do muro não esmagaram por acaso um casal que se encontrava sentado um pouco abaixo, apreciando a paisagem.
Não tinha bebido nada e não ia em excesso de velocidade...
Quantos acidentes com mortes se devem a situações similares, ainda que não tão caricaturais?
E esta gente não é punida por quê? Por ser simples?

22/10/2008

Coisas fora do anormal*

Em devido tempo, dirigi-me à bilheteira para reaver o dinheiro que gastara na compra de um ingresso para o grande espectáculo alienígena de 14 de Outubro, logrado que estava.
Porém, dois dias volvidos, ao quilómetro zero de uma das estradas nacionais do plano de 45, vi tal coisa:



Os mais optimistas asseveravam que a apoteose de 14 de Outubro se prolongaria por mais dois ou três dias. Fui tocado por ela, está visto.


*expressão do meu candidato ao prémio Capitão Moura, António de Balasar (aos 18 segundos deste vídeo)
Velhice

É dar-me conta de que jamais abriria a boca num colectivo “oh!” ao saber que o Sporting e o Porto acasalaram no sorteio da Taça.
Notícias

Quem tenha ouvido as notícias na RTP sobre a inauguração do LHC do CERN e esteja a leste da coisa, jamais terá pensado que se trata da mesmíssima instalação de onde há pouco mais de um mês se dizia poder vir o buraco negro que engoliria a Terra.

21/10/2008

Paga atrás

Os tempos que vivemos, pontuados pelo poder nas mãos de notórios e notáveis mentecaptos, são a materialização global do tradicional “paga atrás” das filas para o baile.
Não me lembro também de um tempo de paz e sem carência de ocupação do território em que se tenha promovido tanto a indulgência com os relapsos, transgressores e criminosos.
Conhecemos todos os que cumprem com todas as suas obrigações.
Fazem-no para se manterem verticais no seu próprio espelho, ainda que bombardeados com as notícias do sucesso daqueles que beneficiam com a indulgência dos dormentes, dos anestesiados e dos mentecaptos.
Esta tropa que não poderá nunca ter uma ideia da dimensão da sua própria estupidez, vai talvez acabar por ter dela notícia da pior forma.
A maior parte nunca ouviu falar no Dente d’Ouro.