06/01/2007

Espólio (22)


espólio Campos Vilhena, foto de MSS

Mértola, anos 50, construção da ponte sobre o rio Guadiana.

05/01/2007

04/01/2007

O cão deprimido*

Foi agora mesmo. Estava a ser atendido quando tocou o telefone.
A cara da empregada transfigurou-se.
Quando ela desligou o telefone e dado ter ouvido inevitavelmente a conversa, perguntei: Foi o cãozinho?
Ela disse-me que sim e contou-me do aparato policial para pôr fim aos dias do cão deprimido.
E da ameaça de despedimento com justa causa que pende sobre ela e duas colegas. Segundo ela, por terem vendido aos clientes comida para o cãozinho.

Não sei se o cão alguma vez foi de alguém. Creio ter sido, dada a sua docilidade e expressão quando reagia às palavras e carinhos dos humanos.
A ser assim, foi abandonado. Estava quase permanentemente deitado à porta daquele estabelecimento, como se tivesse em si toda a infelicidade que têm os cães.
Foi levado hoje, com aparato policial.
Imagino que fosse um perigo terrível para a saúde pública. Quanto ao aparato, é óbvio que os imbecis que nos governam, nos mais variados níveis, têm que justificar o sugadouro de dinheiro que o Estado é.

Ah sim, os imbecis não têm culpa alguma de o ser. A culpa é obviamente nossa, ao nos demitirmos das responsabilidades e ao deixarmos assim as decisões para eles. E ao permitirmos que a organização do país seja aberrante e ridícula.

Estou revoltado, é claro. E não gosto nada de escrever a quente. E este caso foi a gota que fez transbordar o copo, hoje.


*andava há uns tempos para publicar algo sobre ele.

02/01/2007

Escrita em dia

Já sabia que era assim. Mas tirei a prova dos nove durante o mês em que o computador meteu baixa na caixa.
É-me estranho, cada vez mais estranho, o uso da pena. A comprová-lo o esmorecimento do calo no dedo médio direito.
A minha caligrafia, outrora quase de perfeccionista no que tocava à letra de imprensa, ganhou demasiada liberdade poética. Gatafunhou-se.
A escrita corrida, dita estenográfica, alcançou um período mnemónico ridiculamente curto. Algumas horas depois torna-se indecifrável.

Posto isto, e tal como pretendia há algum tempo, comprei um auxiliar de memória que substitui o tradicional caderno de capa preta.
SG delirou com o aparelho e furtou-mo por uns dias. Afirmou que não escreveu o poema abaixo, disse-o de uma assentada.
Eu revelei-lhe que gravadores de som são coisa velha e relha. Ele, lá das nuvens, retorquiu: Ah, sim? Deste tamanho?

01/01/2007

Sinceramente, brincando

Sincebrincando o boneco vector.
Pequenos companheiros
Admoestando poetas e pinheiros.
Sincebrincando a merenda do pastor,
Vemos vagueiros arrastando lamas e pinheiros.
Sincebrincando romenas e romeiros.
Voltamos inteiros,
Penas e sobreiros.
Sincebrincando, temendo torneiros.
Facas de lanceiros,
Copos de escudeiros,
Longe de terreiros,
Marcas de carreiros,
Prisioneiros.
Sincebrincando velas e veleiros.
Pélagos, pesqueiros.
Escasseia a vaga, é dia primeiro.
Sincebrincando um denso nevoeiro.

SG, inéditos, 2006
Deixa lá fazer umas previsões também



Na vizinhança da centena de baixas. Para aí.
Portugal, 2007



Antes do levante, do local de sempre.

31/12/2006

Na Mésia

Vejo-te de cerejas.
Vejo-te de flores.
Recebo-me contigo.
Há setecentos anos, hoje que seja. Hoje que sejas.

SG, inéditos, 2006

Ano velho

Na preguiça de quem carrega mais um ano às costas, como se fosse eu o único, socorro-me de mim próprio, em autocitações imodestas:

de 1 de Março de 2004
de 16 de Agosto de 2004
de 31 de Deezembro de 2004
de 19 de Novembro de 2003

Talvez devesse dizer-lhe, lembrar-lhe, que não me será indiferente que às 22:00 se dê a entrada da Bulgária na União. Talvez SG me socorra. Ele que me apareceu estes dias.