O cão deprimido*Foi agora mesmo. Estava a ser atendido quando tocou o telefone.
A cara da empregada transfigurou-se.
Quando ela desligou o telefone e dado ter ouvido inevitavelmente a conversa, perguntei: Foi o cãozinho?
Ela disse-me que sim e contou-me do aparato policial para pôr fim aos dias do cão deprimido.
E da ameaça de despedimento com justa causa que pende sobre ela e duas colegas. Segundo ela, por terem vendido aos clientes comida para o cãozinho.
Não sei se o cão alguma vez foi de alguém. Creio ter sido, dada a sua docilidade e expressão quando reagia às palavras e carinhos dos humanos.
A ser assim, foi abandonado. Estava quase permanentemente deitado à porta daquele estabelecimento, como se tivesse em si toda a infelicidade que têm os cães.
Foi levado hoje, com aparato policial.
Imagino que fosse um perigo terrível para a saúde pública. Quanto ao aparato, é óbvio que os imbecis que nos governam, nos mais variados níveis, têm que justificar o sugadouro de dinheiro que o Estado é.
Ah sim, os imbecis não têm culpa alguma de o ser. A culpa é obviamente nossa, ao nos demitirmos das responsabilidades e ao deixarmos assim as decisões para eles. E ao permitirmos que a organização do país seja aberrante e ridícula.
Estou revoltado, é claro. E não gosto nada de escrever a quente. E este caso foi a gota que fez transbordar o copo, hoje.
*andava há uns tempos para publicar algo sobre ele.