23/04/2005
22/04/2005
Jornal
É verdade. Há muito que não lia um jornal diário em papel.
O há muito é o bastante para significar que certas coisas me espantaram.
A primeira foi ter verificado que ainda existe a secção da necrologia.
Foi nos antigos "O Século" e "Diário de Lisboa" que fiz o meu tirocínio como leitor de jornais.
Mais n' "O Século" pois era este o único que o meu avô assinava. Aqui pelas bandas dos subúrbios citadinos, o meu pai trazia os dois. Um à hora do almoço, outro à hora do jantar.
E em dias de guarda, lá vinha a formidável pontaria do homem que lançava jornais às janelas, a quase quinze metros do chão. Ignoro se o formato tablóide dá dobra para tal projéctil.
N' "O Século", depois de ultrapassada a fase em que só lia as maiúsculas, a morbidez inclinava-me para as secções Viação Perigosa e Dia-a-Dia. Notícias breves de acidentes de automóvel e de rixas de vizinhos. Claro que havia também as insuspeitas doenças súbitas. Desaguava então na referida necrologia.
Hoje, verifiquei por exemplo que as múltiplas chamadas dos pequenos anúncios envolvendo nomes de localidades não se referem a andares à venda mas a bustos 44, atendimentos personalizados e massagens não sei de onde. Verifiquei que as farmácias de serviço, no caso era uma necessidade, não figuram. Verifiquei muitas outras coisas de somenos importância - que ainda há estranhas formas de ajudar os apostadores a jogar no totoloto, horóscopos, palavras cruzadas e outros passatempos com letras. Mas falta o salto de cavalo. O salto de cavalo em falta é imperdoável.

Soluções no próximo número
É verdade. Há muito que não lia um jornal diário em papel.
O há muito é o bastante para significar que certas coisas me espantaram.
A primeira foi ter verificado que ainda existe a secção da necrologia.
Foi nos antigos "O Século" e "Diário de Lisboa" que fiz o meu tirocínio como leitor de jornais.
Mais n' "O Século" pois era este o único que o meu avô assinava. Aqui pelas bandas dos subúrbios citadinos, o meu pai trazia os dois. Um à hora do almoço, outro à hora do jantar.
E em dias de guarda, lá vinha a formidável pontaria do homem que lançava jornais às janelas, a quase quinze metros do chão. Ignoro se o formato tablóide dá dobra para tal projéctil.
N' "O Século", depois de ultrapassada a fase em que só lia as maiúsculas, a morbidez inclinava-me para as secções Viação Perigosa e Dia-a-Dia. Notícias breves de acidentes de automóvel e de rixas de vizinhos. Claro que havia também as insuspeitas doenças súbitas. Desaguava então na referida necrologia.
Hoje, verifiquei por exemplo que as múltiplas chamadas dos pequenos anúncios envolvendo nomes de localidades não se referem a andares à venda mas a bustos 44, atendimentos personalizados e massagens não sei de onde. Verifiquei que as farmácias de serviço, no caso era uma necessidade, não figuram. Verifiquei muitas outras coisas de somenos importância - que ainda há estranhas formas de ajudar os apostadores a jogar no totoloto, horóscopos, palavras cruzadas e outros passatempos com letras. Mas falta o salto de cavalo. O salto de cavalo em falta é imperdoável.
Soluções no próximo número
20/04/2005
Mania de ser elefante
Mais tarde ou mais cedo, havia de acontecer.
Não me faltavam, nem a nenhum de nós, suponho, lições sobre como e porquê reescrever a história.
Talvez o porquê seja inatingível, na medida em que não acredito que a história se decida por vontades e com explicações claras e objectivas. Mas isso é, com perdão do conceito redundante, outra história.
Esta mania de recordar factos passados só se torna perigosa quando eles se avivam na mente de quem escuta. Quando o interlocutor percebe que não há ali invenção ou fantasia. Foi assim mesmo. Também se recorda afinal.
Eventualmente recorda-se de um ou outro esqueleto que guardou no armário desde essa época.
Pois é. Por alguma razão, existe esta figura do direito ao esquecimento.
Esta mania de ser elefante trouxe-me um dissabor. Cuja causa não entendi nem quero entender. É o meu direito à ignorância.
Mas é, por outro lado, a confirmação do que há muito sabia. Para alguns, o esquecimento é fundamental. Afinal, assim são as coisas na nossa cabeça. Não sabermos já o que almoçámos anteontem.
Mais tarde ou mais cedo, havia de acontecer.
Não me faltavam, nem a nenhum de nós, suponho, lições sobre como e porquê reescrever a história.
Talvez o porquê seja inatingível, na medida em que não acredito que a história se decida por vontades e com explicações claras e objectivas. Mas isso é, com perdão do conceito redundante, outra história.
Esta mania de recordar factos passados só se torna perigosa quando eles se avivam na mente de quem escuta. Quando o interlocutor percebe que não há ali invenção ou fantasia. Foi assim mesmo. Também se recorda afinal.
Eventualmente recorda-se de um ou outro esqueleto que guardou no armário desde essa época.
Pois é. Por alguma razão, existe esta figura do direito ao esquecimento.
Esta mania de ser elefante trouxe-me um dissabor. Cuja causa não entendi nem quero entender. É o meu direito à ignorância.
Mas é, por outro lado, a confirmação do que há muito sabia. Para alguns, o esquecimento é fundamental. Afinal, assim são as coisas na nossa cabeça. Não sabermos já o que almoçámos anteontem.
Subscrever:
Comentários (Atom)