As primeiras pedras
Nas casas, no sentido de património comum a uma família, há objectos que são simbólicos e sobre os quais se edifica. As primeiras pedras.
Sempre julguei serem basilares numa casa uma pedra pomes e uma pedra d’amolar.
Na casa dos meus pais, lá estavam elas, afectiva e efectivamente arrumadinhas cerca uma da outra.
O certo é que não sei delas. Nem duma nem doutra.
A pedra d’amolar é relativamente fácil de arranjar, basta passear na praia e escolher um bom arenito.
Já a pedra pomes é mais difícil de substituir.
Pensando bem, hoje já não se emborneiam as mãos como outrora. Já não se muda o óleo aos carros na garagem. Já não se mete a mão na mecânica dos cavalos de lata como antigamente. Já nem sequer nos rebentam nas mãos as esferográficas ou se desabrem os continentes da tinta permanente.
A pomes faz assim menos falta.
E, claro, há para a função das duas, milhentas outras fórmulas e instrumentos mágicos.
Mas eu sou mais pela tradição. Sou da idade da pedra.
Não sei para que digo isto, se inda hoje fui de chocalho tapado ali à feira comprar uma “pedra” daquelas dos chineses para amolar as facas.
26/04/2008
25/04/2008
INCI
Do Imposto Nacional para a Convivência com Imbecis deverão sair os fundos para:
Reparar edifícios públicos calculados pelos ditos e que entram em colapso.
Reparar edifícios particulares magicados pelos ditos que depois exigem subsílios quando estes entram em colapso.
Indemnizar as vítimas dos ditos sempre que estes tomam decisões compatíveis com o seu quociente de inteligência.
O mais que couber em alínea d).
Do Imposto Nacional para a Convivência com Imbecis deverão sair os fundos para:
Reparar edifícios públicos calculados pelos ditos e que entram em colapso.
Reparar edifícios particulares magicados pelos ditos que depois exigem subsílios quando estes entram em colapso.
Indemnizar as vítimas dos ditos sempre que estes tomam decisões compatíveis com o seu quociente de inteligência.
O mais que couber em alínea d).
23/04/2008
Os preconceitos estúpidos
Há pouca coisa que mais me irrite do que a minha estupidez.
Estupidez a minha ao irritar-me com a minha estupidez – goza da propriedade telescópica esta asserção – mas é assim. Irrito-me, pronto.
Chegado a penates, vejo as horas aqui no canto do écran, onde tenho uma espécie de bateria globetrotter de relógios, como era uso de redacções e serviços estratégicos.
Qualquer coisa não batia bem. Mirei o relógio que hoje, por acaso, ostentava no pulso e havia um desfasamento de vinte e tal minutos. Que raio, o relógio nunca me falhara. É de uma qualidade admirável para brinde publicitário, posta à prova em oito anos e apenas soçobrando à falta de pilha. Teria eu inadvertidamente mexido nos ponteiros?
Lá o acertei pelo do sistema operativo.
Foi então que liguei a televisão, no canto do écran oposto ao do relógio.
Estavam as horas certas com o relógio imputável.
Irritei-me com a minha estupidez, com o preconceito de ter imediatamente posto a confiança do lado da máquina mais evoluída, em detrimento da mais elementar. E mais ainda, por tudo isso ter cilindrado o meu relógio mental no qual deposito uma confiança quase inabalável, apenas se batendo com a bússola que está ao lado.
Qualquer coisa aconteceu portanto aqui no PC enquanto andei lá por fora, enquanto mirei montras há anos tapadas com páginas de necrologia que me suscitaram uma rápida reflexão sobre as diferentes formas de lidar com a publicidade da morte no nosso país, que há no norte e no sul.
E com o eco que um anúncio de morte deixado numa montra a amarelecer faz dessa notícia.
Até da forma dos caixões – secção longitudinal horizontal rectangular no meridião e e em hexágono irregular no setentrião – me lembrei.
E com mais milhentas considerações poéticas sobre o caso que a nada levam a não ser a prosaicos versos brancos.
Há um prenúncio de morte nesta máquina. A minha imagem virtual um destes dias desaparece às mãos de um processador, de uma memória. São estes os nomes das coisas. Reais ou virtuais?
Como me irrito com a minha estupidez!
Há pouca coisa que mais me irrite do que a minha estupidez.
Estupidez a minha ao irritar-me com a minha estupidez – goza da propriedade telescópica esta asserção – mas é assim. Irrito-me, pronto.
Chegado a penates, vejo as horas aqui no canto do écran, onde tenho uma espécie de bateria globetrotter de relógios, como era uso de redacções e serviços estratégicos.
Qualquer coisa não batia bem. Mirei o relógio que hoje, por acaso, ostentava no pulso e havia um desfasamento de vinte e tal minutos. Que raio, o relógio nunca me falhara. É de uma qualidade admirável para brinde publicitário, posta à prova em oito anos e apenas soçobrando à falta de pilha. Teria eu inadvertidamente mexido nos ponteiros?
Lá o acertei pelo do sistema operativo.
Foi então que liguei a televisão, no canto do écran oposto ao do relógio.
Estavam as horas certas com o relógio imputável.
Irritei-me com a minha estupidez, com o preconceito de ter imediatamente posto a confiança do lado da máquina mais evoluída, em detrimento da mais elementar. E mais ainda, por tudo isso ter cilindrado o meu relógio mental no qual deposito uma confiança quase inabalável, apenas se batendo com a bússola que está ao lado.
Qualquer coisa aconteceu portanto aqui no PC enquanto andei lá por fora, enquanto mirei montras há anos tapadas com páginas de necrologia que me suscitaram uma rápida reflexão sobre as diferentes formas de lidar com a publicidade da morte no nosso país, que há no norte e no sul.
E com o eco que um anúncio de morte deixado numa montra a amarelecer faz dessa notícia.
Até da forma dos caixões – secção longitudinal horizontal rectangular no meridião e e em hexágono irregular no setentrião – me lembrei.
E com mais milhentas considerações poéticas sobre o caso que a nada levam a não ser a prosaicos versos brancos.
Há um prenúncio de morte nesta máquina. A minha imagem virtual um destes dias desaparece às mãos de um processador, de uma memória. São estes os nomes das coisas. Reais ou virtuais?
Como me irrito com a minha estupidez!
21/04/2008
Das gaivotas que dão em borboletas
Mais uma Biblioteca de Alexandria que se vai.
Ou como a poesia (a crer no que está escrito) é uma tábua de ligação dos andaimes mentais.
Mais uma Biblioteca de Alexandria que se vai.
Ou como a poesia (a crer no que está escrito) é uma tábua de ligação dos andaimes mentais.
20/04/2008
Os sonhos
Para quem se lembra deles ou para quem se dá ao trabalho de os ditar em fresco para um aparelho, como é o meu caso ultimamente, são um manancial de surpresas.
Durante uns tempos coleccionei sonhos despovoados, sem gente, sem animais.
Agora parecem-se mais com coisas plausíveis, mas poucas vezes lhes entrevejo pontos de ligação com a realidade que eu conheço e vivo.
Aqui há coisa de ano e meio, tive um sonho que aqui tentei descrever sob o nome d’“O palácio dos dois zz”.
Para além das duas personagens conhecidas e bem identificadas e tão longínquas nas minhas relações, tudo o resto não me dizia nada.
Havia a referência a Mafra e a habitual distorção topológica e era tudo.
Hoje, leio o que escrevi e apenas baseando-me no que está reduzido a escrito, evitando confundir falsas memórias com os acontecimentos, verifico que há ali demasiadas notas de um futuro – que é agora o presente – demasiadas notas com que me cruzei por estes dias, sem ter ido à procura delas.
Não me recordo de ter alguma vez passado por tal sensação.
Para quem se lembra deles ou para quem se dá ao trabalho de os ditar em fresco para um aparelho, como é o meu caso ultimamente, são um manancial de surpresas.
Durante uns tempos coleccionei sonhos despovoados, sem gente, sem animais.
Agora parecem-se mais com coisas plausíveis, mas poucas vezes lhes entrevejo pontos de ligação com a realidade que eu conheço e vivo.
Aqui há coisa de ano e meio, tive um sonho que aqui tentei descrever sob o nome d’“O palácio dos dois zz”.
Para além das duas personagens conhecidas e bem identificadas e tão longínquas nas minhas relações, tudo o resto não me dizia nada.
Havia a referência a Mafra e a habitual distorção topológica e era tudo.
Hoje, leio o que escrevi e apenas baseando-me no que está reduzido a escrito, evitando confundir falsas memórias com os acontecimentos, verifico que há ali demasiadas notas de um futuro – que é agora o presente – demasiadas notas com que me cruzei por estes dias, sem ter ido à procura delas.
Não me recordo de ter alguma vez passado por tal sensação.
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