21/08/2004

A paranóia securitária



Já aqui falei sobre o conceito de acidente.
E de como se pode estabelecer uma relação entre o grau de conhecimento das condições envolventes e a ocorrência de acidentes.
Grosso modo, a queda de um raio sobre uma pessoa é um acidente. Mas se essa pessoa dispuser do conhecimento que lhe permita fabricar um pára-raios e não o tiver feito, pode dizer-se que concorreu para o desfecho.
No limite, se se domina completamente um sistema e se alguma coisa falha, alguém terá falhado em algum lugar. É a velha máxima de que o material tem sempre razão.
Não se trata assim de acidente, trata-se de uma falha.
O problema aqui é que normalmente todos nos esquecemos de que somos humanos. Os outros tanto quanto nós.
Vários factores concorrem hoje para a paranóia securitária em torno de tudo e mais alguma coisa.
O primeiro, que é aparente e sendo aparente não deixa de ter reflexos reais, é essa espécie de ingenuidade que transparece das vozes que se espantam com a morte.
Porque é que eu digo que é aparente? Porque sabendo todos nós que a morte nos ronda do primeiro instante ao penúltimo, já que no último ataca finalmente, continuamos ingenuamente a julgar que assim não é. É o que vemos diariamente nas televisões, é o que lemos nos jornais, é o que ouvimos na rua - Não devia ter acontecido.
Dir-se-á que essa ilusão é fundamental à sobrevivência. Assim o julgo também.
O segundo, é essa espécie de superprotecção a que todos nos julgamos com direito, mesmo que os nossos comportamentos sejam arriscados. E que reivindicamos peremptoriamente para as crianças, sem que muitas vezes as alertemos para os riscos que correm.
Mais ainda, é ignorarmos que todos nós, enquanto crianças, corremos riscos. E que são esses riscos que corremos com maior ou menor consciência e os actos falhados de que resultam mazelas, que nos ensinam e nos alertam mais do que qualquer conselho.
Acidentes houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com eles.
Incúria houve, há e haverá. É inútil pensarmos que acabamos com ela.
Incúria de quem sofre os acidentes ou de quem os propicia.
Mas se se combate com unhas, dentes e gritos ferozes a incúria dos segundos, não será também altura de ensinar algo aos primeiros?
As coisas novas sempre provocaram morticínio. A máquina a vapor, o caminho de ferro, a electricidade, os automóveis, até os banhos de mar para os de sequeiro.
Mas depois atinge-se um patamar.
O que espanta às vezes é que se volte atrás.
Parece que se criou uma ilusão de que nada comporta riscos.

20/08/2004

CDC - Clube das donas de casa


A calamidade que chega por decreto

Às vezes, vêm-me à cabeça as desgraças biblícas. Ainda que, em alguns casos, seja patente o castigo divino e a precedente sentença, não há notícia de redução a escrito dos divinos desígnios.
No mundo dos ateus, onde estas coisas são um bocadinho mais prosaicas e as desgraças chegam ou pela mão do homem ou pela força dos elementos, há, desde há alguns anos, essa figura bizarra da calamidade por decreto.
Decretar uma calamidade é um gesto político da mesma grandeza e teor do de pedir uma maioria absoluta.
Quem pede uma maioria absoluta, quase sempre o faz tendo em vista uma certa marca de vodka e copo cheio, é bom de ver. É um pedido interessante, tão interessante que todas as campanhas eleitorais são marcadas pela sua ocorrência. Há o antes e o depois do pedido de maioria absoluta. Já pediu a maioria absoluta? Desde que pediu a maioria absoluta...
Já se pedem votos há muitas centenas de anos mas fica sempre bem mudar os vocábulos.
Decretar uma catástrofe (e pedi-la) suscita as mesmas empolações junto de jornalistas e, muito mais, junto dos autarcas envolvidos.
Só que aqui a coisa é mais palpável, embora também fortemente metáforica. Não é obviamente a catástrofe aquilo por que tanto anseiam uns e outros. É o dinheirinho.
Fica mais adequado pedir a catástrofe. É que pedir dinheiro dá ao outro o estatuto de esmoler.
Mas algum dia, alguém haveria de pegar na palavra e dar-lhe a volta. Foi agora.

Espero que o estado ajude quem precisa.
Espero também que o estado saiba legislar para punir exemplarmente os responsáveis por futuros casos semelhantes. Se não pode exercer o direito de regresso sobre quem causou avultados prejuízos, é bom que saiba afastá-los de uma vez por todas e por longo tempo do convívio social.
E já agora, mudem lá o nome à coisa. Calamidades por decreto - não, obrigado.

19/08/2004

O público louvor

Há os da praxe. Ordens de serviço. Diários da República.
Há os do palco e transmissão em directo.
De cada vez que vejo um ajuntamento de louvados, vou sempre à procura das caras desconhecidas. Há poucas.
Não há ninguém perfeito e isso de prestar serviços à Pátria é o raio de uma coisa danada de se medir.
Mas há gente, até em bom número, que aqui e ali, tem servido e bem os outros. Não tenho disso a menor dúvida. Tanto quanto mo permite a conjectura e a amostra que conheço.
Já duvido e muito que o proveito seja igual à fama. Não duvidamos todos?
Por isso, de cada vez que vejo as tais caras desconhecidas, fico satisfeito. Pode até ser que me engane. Mas fico.

17/08/2004

Causas e efeitos

Um bom carro, em bom estado de conservação, um condutor calmo, experiente e dominador da máquina, uma estrada bem projectada e bem mantida, boas condições atmosféricas e boa visibilidade, tráfico reduzido, eis o risco reduzido na circulação.
Se em vez dos 120, pudesse rodar a 160, a 180, certamente que o poderia fazer ainda em segurança, em alguns troços e sob determinadas condições.
O busílis da questão é que quando se aumentam ou reduzem os limites de velocidade, o número de acidentes acompanha a variação.
Não vale a pena vir com isto e com aquilo, os números estão lá para contrariar.
A nossa ciência, não nos esqueçamos, é em grande parte de base estatística.
É com base em estatísticas que avança a medicina, a engenharia, a agronomia e outras disciplinas menos científicas.
O mesmo é dizer que, não se conhecendo em pormenor os mecanismos que regem determinados fenómenos, é com base na experimentação e na catalogação de resultados que se tiram prováveis conclusões.

Interessa-me hoje falar numa questão que é mais ou mais menos conhecida. E que é descrita e denominada de diversas formas. Chamemos-lhe auto-alimentação, reacção em cadeia ou outra coisa qualquer.
Observa-se que o fenómeno do suicídio parece auto-alimentar-se.
O conhecimento de um acto suicida parece despoletar em outros a mesma intenção. Há assim uma espécie de crises limitadas no tempo e que se limitam no espaço dependendo da propagação da notícia.
Já aqui referi o bizarro e tragicamente irónico caso da avenida de Ceuta, anos atrás.
De como a ampla divulgação do caso parece ter despoletado uma crise.
De como um grosseiro erro jornalístico motivou a deslocação do cenário dos suicídios, do local onde o primeiro ocorreu para o local que erradamente os jornalistas deram como tendo sido o da tragédia.

É sabido que em tempos mais remotos se tendia a esconder uma tragédia ou a sua verdadeira dimensão. Concorrendo com isto, havia também um reduzido leque de meios ao dispor da imprensa.
Tome-se o caso tão discutido das inundações de Novembro de 1967.
Ainda hoje se não sabe a extensão dos danos pessoais que causou.
Algures entre os acanhados números oficiais e os decerto empolados palpites jornalísticos, há-de estar um valor realista.

Hoje, a imprensa selecciona mais ou menos arbitrariamente as tragédias a divulgar.
Um exemplo disso é a comparação entre as reportagens dos incêndios deste ano. Comparar a divulgação dos que ocorreram durante o Euro 2004 e os que ocorreram após.
Claro que são as prioridades. Os meios não chegam para tudo, sabemos isso.

Partamos agora do princípio conjectural de que o incendiarismo é um fenómeno que pode ser auto-alimentado da mesma forma que o suicídio.
A questão que se coloca é que, a ser verdadeira esta conjectura, de cada vez que se propagandeia um fogo, se está a incutir em quem tem essa pulsão, o desejo de incendiar.

Como é que se arrumam todas estas linhas?
Da seguinte forma:
Se é certo que as estatísticas nos fornecem dados úteis para avaliar os fenómenos, porque não testar isso em alguns campos?
Se a conjectura que acima expus e que é de resto partilhada por muitos, tem alguma probabilidade de ser verdadeira, porque não pô-la à prova?
Se ao tempo da censura e do lápis azul, sucedeu uma aparente licença de tudo publicar, não haverá campo para restringir a informação em fenómenos como o do incendiarismo que, até prova em contrário, não porá em casa nenhum dos valores democráticos tão insistentemente reclamados a troco de tudo e nada?
Até porque, como se viu, nem sempre os fogos são matéria interessante. Havendo futebol a rodos, lá ficam para trás.
Fosse isto experimentado e feitas depois todas as correcções relacionadas com as condições atmosféricas, sabendo já que todos os factores da dita correcção são falíveis e incertos, ter-se-ia uma ideia se vale ou não a pena.
É claro que essas notícias vendem jornais e espaço publicitário. Eu sei disso.
É claro que tudo isto é de uma ingenuidade gritante.

Tenho notado, no entanto, que não tem havido divulgação de suicídios na imprensa. Que eu tenha dado por isso.
Ou de carros a circular em contra-mão.

16/08/2004

Mudança de ano

O pai de J. não sabia como e quando ele tinha começado a ler. Só as maiúsculas de imprensa.
Lia e escrevia, conquanto-a-escrita-se-fizesse-com-hífenes-a-separar-as-palavras-já-que-J.-não-dominava-os-espaços-entre-as-letras-e-entre-as-palavras-e-sabendo-disso-era-dessa-forma-que-separava-uma-palavra-da-outra.
Talvez que J. soubesse ler as palavras, mas decerto não lhes conhecia o significado muitas vezes.
O que é isto? O que é que quer dizer?
Nesse dia, o pai de J. lia o jornal que o fornecedor habitual acabara de lançar quinze metros no ar até à janela.
J. estava virado para a primeira e última páginas, atrás das quais o pai se escondia, e deu-lhe para perguntar porque é que o jornal era todos os dias diferente, excepto o cabeçalho e um certo número.
Qual número?
Este.
Ah, isso é o ano.
E o ano também muda?
Ditos

Quem não sabe o que há-de fazer, faz colheres.
Ou fotografa talheres.
Ou escreve um blogue.


15/08/2004

Linha de meta


A carreira

Não se pode dizer que nesse tempo o homem passasse com distinção no teste do álcool.
A verdade é que as paragens da camioneta eram tabeladas pelo gorgolejar da mini, a mão esquerda em punho sobre o balcão, o corpo a três quartos de volta, o olhar de esguelha para os passageiros embarcados, e pelo monossílabo abaladiço enquanto a mão direita compunha a bóina.
Era assim.
Mas nesse dia, depois da trovoada associada à depressão de origem térmica, o horário foi furado.
Numa das paragens saí da camioneta também. Fui à mini, tal qual o homem.
De volta à carreira, vi-o dar mais três passos do que a conta.
Quatro ou cinco homens olhavam para o chão.
Um deles atirou qualquer coisa.
Folhas de couve de chapa nove e almirantada efígie circulavam calmamente de mão em mão.
Numa poça de água, melhor dizendo num buraco cheio de água, as moedas caíam e recuperavam-se em ritmo lento.
A carreira atrasou-se uns cem escudos nesse dia.



imagem retirada de