LP Não sei se era ele. Mas pareceu-me que sim.
Apareceu pela manhã e soltou primeiramente as suas habituais imprecações.
Poupo-vos às enormidades que pronunciou.
Depois sentou-se, acalmou, fumou uns quantos cigarros, oferecendo-me sempre o maço, esperando que eu declinasse, já que sabe que eu há pouco mais de um ano mandei o vício ao tapete mais uma vez, e disse:
Foda-se, não percebes nada disto!
Isto é assim - disse, com todas as certezas deste mundo debaixo do braço - tu queres escrever quatro posts em um mas falta-te a arte.
Então vejamos. Os pontos são os seguintes: a moça persegue-te nos sonhos.
Persegue, sim.
Pois, mas no final é à
Costa dos Esqueletos que aportas.
Claro. Querias o quê, LP?
Que não fosses parvo, Manel. Às vezes - e ria-se - és uma besta!
Ok, ok, deixa-te de comentários.
Então, diz-me lá, que história é essa da moça não te deixar dormir?
Não me deixa - não! É, antes pelo contrário, nos sonhos que me assola.
Huuuuuu - estou a ver, uma fixaçãozinha.
Talvez, sei lá, já não digo nada. Ontem apareceu como irmã do Espanhol, hoje como a viandante. De feições diferentes.
É o Diabo, companheiro, tenta-te com quantas caras tem.
O Diabo, o cara..., é mas é uma fixação com uma mulher, pá!
E sabes com quem?
Sei. Uma mistura da moça de beige com a selecção feminina do Resto do Mundo.
É pouco para uma definição por compreensão. E pouco é para uma identificação.
Será!
Tens a certeza de que não queres usar um dos meus textos para encher chouriços?
'Péra aí, pá. Isto ainda não chegou a esse ponto. Respeito quem aqui costuma vir ler o que escrevo, ver o que fotografo.
Ah, agora os meus textos são uma falta de respeito! Belo!
Mas diz lá, isso da G3 e da moça. Conta lá.
Ui, é uma longa história. Posso começar pelo primeiro caso. Aparentemente não relacionado.
Ela apareceu com um fulano alourado. E outro casal. Vinham num carro pequeno e andavam de companha comigo e com uma prima.
Nesse dia, eu tinha comprado uma carrinha Ford Escort mk III, azul escura
[1].
E claro que ela aparecia estacionada em todo o lado a que eu chegava com o meu carro velho. Para ter a oportunidade de mudar de veículo em plena fuga.
E apesar das tentativas para a convidar para me acompanhar, ela seguia sempre o louro embora logo estivesse a meu lado, enlevadíssima. Era dada aqui como sendo irmã do Espanhol. Mas eu que conheci as irmãs dele Espanhol sei que não era nenhuma delas. Mesmo assim, relatei-lhe a vez que lá estive em casa e a forma como havia conhecido o pai dela.
Mas já te digo, pá, que o pior veio a seguir.
Estás a ver um editor de imagem em que combinas, com uma certa transparência, três imagens diferentes?
Pois bem, a acção decorria num atelier de um antigo alfaiate leiriense, na garagem do último piso daquela banda de prédios que a gente sabe e num certo bar de ingleses no Algarve - tudo num só ambiente.
Aí, havia um frenesi de abalada. Era para irmos não sei onde, em bando.
Lembro-me de ter telefonado à primeira das forasteiras a dizer que não ia. Ela respondeu-me que nesse caso também não saía de casa.
Não me recordo foi se telefonei à forasteira-dois. O certo é que, se tentei, não o consegui. Isso fez com que ela aparecesse, como combinado.
A primeira coisa que lhe disse foi: A forasteira-um não vai nunca acreditar que eu não fiz de propósito.
O facto de entrementes ter entrado no comboio-autocarro, armado conspicuamente de G3
[2], reforçando a segurança do Presidente e ostentando os meus galões, é despiciendo.
A seguir é que sim, desembarcado que fui à porta do café e logo a discutir com os demais as questões de segurança que eles levantavam tal como a ouvir as indicações que me forneciam, cheguei ao ponto de me resolver a levar a forasteira-dois (doravante referida como "a moça") a sentar-se comigo na mesma mesa do Manel onde ocorreu o
episódio da Idade da Glaciação, e a ter com ela demorada entrevista.
Aqui sim desenvolveu-se um acentuada ternura pela moça.
A G3 encostada à parede do fundo, completamente desarmado, ouvi longamente a sua exposição, alheado dos acontecimentos que se desenrolavam em redor.
Este desarmamento desarmou-me. Fixei-me nela.
Quando finalmente nos levantámos e que ela pediu a outra das minhas primas permissão para ir a casa dela mudar de roupa, um dos anciãos veio por um conselho e convidei-o a sentar-se comigo na mesma mesa. Foi quando não vi a espingarda.
Eu sabia que naquela parede
[3] em particular as G3 desenvolviam a camuflagem ao ponto de se tornarem intangíveis, mas cri que era antes coisa do Manel. Acertei.
Deu a sua habitual justificação e entregou-me a arma. Já eu me retirava - ignorando o ancião - quando reparei que a arma que ele me entregara era uma espécie de caricatura de G3 feita de arame grosso
[4].
Com toda a calma, expliquei-lhe que se tratava de uma arma e não de um brinquedo.
Ele voltou à casa de banho, de onde retirara a primeira, e mostrou-me uma G3 sem cano e sem carregador. Eu ri-me e disse-lhe para procurar melhor. À terceira foi de vez, devolveu-me a arma.
Saindo para a rua, tropecei na moça, já de roupa nova.
De volta ao balcão do Manel, entre duas bicas, ela disse-me:
Fazes bem em procurar os tais olhos. Eu faria o mesmo.
LP sorriu, desenhou uma pirueta e, puxando do enésimo cigarro, disse. Quais disse? Escreveu:
Sou, então, desde que caldeus e visigodos se reuniram em torno da caldeirada penicheira, bacharel em pernas de donzela e meus meio-inimigos não mais me perdoarão por ter denunciado a solicitude com que o benjamim de entre eles se ofereceu para restaurar a veleidade pagã no seio da hipocondríaca nação a que todos estamos ligados.
Viro-me pois para a heresia descontente das sabatinas ao sol-pôr e já não apelo para o Supremo Tribunal porque tal não me diz nada.(30-4-80)
Eu repliquei - julgo que de viva voz.
Duas coisas, meu Caro, duas coisas. Esta noite foi um ver-se-te-avias de abrir e fechar portas de cafés-museus ali para a zona de Belém. Ver de plano alto uma ampla zona a sudoeste onde se identificava um edifício que trazia um certo desgosto. E sair da tal praça de onde se só se podia sair sendo-se mimo. E tentar entrar no tal beco completamente preenchido pelo camião-escavadora cuja articulação se conformava com a topologia do sítio.
E esta tarde, no mundo de Alice, uma segunda versão de
La Nuit. Parecida, muito parecida, com uma pessoa que não conheço. Mas em bom. Em muito bom. Até me passou a mão pelo pelo, no primeiro round.
E ele disse qualquer coisa que me pareceu I rest my case. Achei estranho. Sei que não é muito de línguas estrangeiras.