No comboio da noite
Nesse comboio da noite, de há quase vinte anos atrás, o nosso companheiro de viagem tinha um sotaque arrevezado com que se expressava em inglês. Quando finalmente disse de onde vinha, usou a expressão de uma terra infelizmente muito na moda, pelas piores razões!
Era sérvio e estudava em Coimbra. Uma especialidade de Medicina, se a memória não me trai.
Tinha grande admiração por Milosevic e transmitia a ideia de que assim seria com a maioria dos sérvios.
Falava da preparação e da inteligência superiores do líder, do seu carisma e das ideias apropriadas que tinha para a Sérvia.
Nessa época, a guerra já tinha assolado a Eslovénia e passado para a Croácia. Ainda não se ateara na Bósnia, cercando-a. Lembro-me de lhe ter perguntado qual a razão para essa poupança. A resposta dele foi de que a Bósnia era uma terra sem interesse, de gente atrasada e sem recursos.
Enganou-se no desenvolvimento da guerra. Quanto a outras opiniões que expressava, algumas batiam certo com as minhas. Nomeadamente na cegueira europeia ao avanço do islão e ao atraso, que se mede com um relógio - por atraso ser - de certas civilizações em relação a outras.
Nesse tempo, eu já havia dito que talvez os sérvios não fossem os maus da fita.
Gostava de saber hoje onde anda esse homem e qual é o sentimento dos sérvios, hoje também, em relação a Milosevic.
O comboio ficou em Madrid.
11/03/2006
10/03/2006
O remédio eficaz

Quando vier a tal praga global, o problema que aqui mencionei dois anos atrás, será um dos difíceis de enfrentar - a restrição das liberdades individuais.
Ver-se-á então se estas munições não serão elas também munições contra a doença. É que, se assim não fôr, algo mudou de facto na natureza humana. E eu não creio que isso tenha acontecido.
Quando vier a tal praga global, o problema que aqui mencionei dois anos atrás, será um dos difíceis de enfrentar - a restrição das liberdades individuais.
Ver-se-á então se estas munições não serão elas também munições contra a doença. É que, se assim não fôr, algo mudou de facto na natureza humana. E eu não creio que isso tenha acontecido.
08/03/2006
Meia Nalga
E digo mais, há uma coisa que não te desculpo.
É teres ido assim (és o terceiro a que assinalo a partida desde que abri este placarde electrónico) e assim privares-nos entre outras coisas de repetir o que só tu dizias com piada e genuinidade.
No Meia Nalga ou na tasca da estação. No restaurante de todos os dias frango ou no bar do hotel onde estava a tal gaja a quem ensaiavas discursos.
Nunca se ficará a saber a verdade sobre a cozinheira do Sebastião. Essa é que é essa.
E desconfio que a cama da velha não chegou a ser arranjada.
E que a tua cadela continua retratada com orelhas de burro no "Cuidado com o cão!"
Porra pá!
E digo mais, há uma coisa que não te desculpo.
É teres ido assim (és o terceiro a que assinalo a partida desde que abri este placarde electrónico) e assim privares-nos entre outras coisas de repetir o que só tu dizias com piada e genuinidade.
No Meia Nalga ou na tasca da estação. No restaurante de todos os dias frango ou no bar do hotel onde estava a tal gaja a quem ensaiavas discursos.
Nunca se ficará a saber a verdade sobre a cozinheira do Sebastião. Essa é que é essa.
E desconfio que a cama da velha não chegou a ser arranjada.
E que a tua cadela continua retratada com orelhas de burro no "Cuidado com o cão!"
Porra pá!
De ferro
Já não sei ao certo se aqui postei algo sobre ti.
Nem sequer há uma vaga menção no post da barrilada à tua repetida exclamação :"É só comédias! É só comédias!"
Nem sequer aqui verti em tipos o timbre da tua mulher imitado pelo R.C. quando adormeceste à mesa do jantar.
Nem te descobri o ponto fraco quando pedias: "Falem-me de gajas que eu pago copos!"
Na verdade, fomos uns amigos bizarros. Amigos próximos em épocas muito espaçadas no tempo. Durante cerca de 40 anos, tivemos épocas de todos os dias bebermos juntos o café. Depois uma década sem nos cruzarmos, talvez.
Esta última aproximação, um mês de Algarve, a trabalhar um porradão de horas por dia, deu para muita conversa.
No verão seguinte, ajudaste-me a esvaziar as memórias do casarão. Dei-te o frigorífico que me pediste.
Um destes meses, sonhei que andávamos ambos à volta de uma espécie de café manhoso, de planta trapezoidal, num bairro de casas sem reboco. Ias tu à frente, com uma caixa de ferramentas na mão.
Estranhamente, anteontem as paredes sem reboco vieram outra vez à baila. Soube hoje a notícia.
Foste de facto à frente, amigo. Descansa em paz.
Já não sei ao certo se aqui postei algo sobre ti.
Nem sequer há uma vaga menção no post da barrilada à tua repetida exclamação :"É só comédias! É só comédias!"
Nem sequer aqui verti em tipos o timbre da tua mulher imitado pelo R.C. quando adormeceste à mesa do jantar.
Nem te descobri o ponto fraco quando pedias: "Falem-me de gajas que eu pago copos!"
Na verdade, fomos uns amigos bizarros. Amigos próximos em épocas muito espaçadas no tempo. Durante cerca de 40 anos, tivemos épocas de todos os dias bebermos juntos o café. Depois uma década sem nos cruzarmos, talvez.
Esta última aproximação, um mês de Algarve, a trabalhar um porradão de horas por dia, deu para muita conversa.
No verão seguinte, ajudaste-me a esvaziar as memórias do casarão. Dei-te o frigorífico que me pediste.
Um destes meses, sonhei que andávamos ambos à volta de uma espécie de café manhoso, de planta trapezoidal, num bairro de casas sem reboco. Ias tu à frente, com uma caixa de ferramentas na mão.
Estranhamente, anteontem as paredes sem reboco vieram outra vez à baila. Soube hoje a notícia.
Foste de facto à frente, amigo. Descansa em paz.
07/03/2006
Enquanto muitos dormem
A RTP inventou, devo dizer aceitou, uma versão tardo-qualquer-coisa da Laranja Mecânica.
Experimentem aí pelas 5 da manhã.
Quando começa o espaço das televendas.
E quando passar o primeiro anúncio do relógio da selecção, não desliguem. Esperem pelo próximo. E pelo próximo.
É uma espécie de tortura hilária. Decerto poucos lhe resistem.
A RTP inventou, devo dizer aceitou, uma versão tardo-qualquer-coisa da Laranja Mecânica.
Experimentem aí pelas 5 da manhã.
Quando começa o espaço das televendas.
E quando passar o primeiro anúncio do relógio da selecção, não desliguem. Esperem pelo próximo. E pelo próximo.
É uma espécie de tortura hilária. Decerto poucos lhe resistem.
Vinte anos

Falávamos
Dormia uma palmeira
Sobre as nossas vozes
Quando no escuro
Estimávamos direcções
No infinito.
Que se curvavam.
Em sorvedouros
Como as esferas
Na quadrícula
De Vasareli.
E no regresso
Pousávamos
Na nossa ignorância.
Tínhamos o peso
De não conhecer.
E o medo
Da sabedoria.
Esmagados
Sob o mundo
Levantado
Por uma alavanca.
Afogados
Em água espacial
E mortos
Num cantinho do tempo.
Sem o universo
Ter nossos sinais.
Perdidos.
O infinito.
Não sabia então
Ainda isto
Que
Agora sei
Que não mais
Te verei.
Nunca mais!
SG, inéditos, 1994
Falávamos
Dormia uma palmeira
Sobre as nossas vozes
Quando no escuro
Estimávamos direcções
No infinito.
Que se curvavam.
Em sorvedouros
Como as esferas
Na quadrícula
De Vasareli.
E no regresso
Pousávamos
Na nossa ignorância.
Tínhamos o peso
De não conhecer.
E o medo
Da sabedoria.
Esmagados
Sob o mundo
Levantado
Por uma alavanca.
Afogados
Em água espacial
E mortos
Num cantinho do tempo.
Sem o universo
Ter nossos sinais.
Perdidos.
O infinito.
Não sabia então
Ainda isto
Que
Agora sei
Que não mais
Te verei.
Nunca mais!
SG, inéditos, 1994
06/03/2006
Do cauteleiro aos óscares, uma saga russa e uma face para sempre
Pela primeira vez, e graças à réplica da RTP ao espectáculo dos óscares, consegui ver de fio a pavio o Doutor Jivago. E consegui-o graças ainda a uma inexplicável fiabilidade do meu velho receptor de televisão que, frequentemente, me priva de som e imagem. O que só não é mais grave, dada a minha concordância com ele. Não vale mesmo a pena o som nem a imagem.
Deste filme, que me foi apresentado pela primeira vez numa época em que me estava supostamente vedado pela idade, valeu-me então o conhecimento que meu Pai, habitual comprador de fracções da Santa Casa, tinha com o cauteleiro-porteiro do Cine-Teatro Vasco da Gama, em Sines, para poder adormecer logo ao primeiro nevão.
Depois dessa primeira experiência, em que não me recordo da estrela vermelha por cima do portal, algumas vezes mais tentei, na televisão, pois creio que no cinema não o fiz, vê-lo até ao fim. Sempre debalde.
Ontem finalmente consegui-o e a única coisa de que, de facto, me recordava bem de todas as experiências anteriores, era do rosto de Julie Christie.
Dos que não esquece mais. Como o de Binoche em Azul ou o de Bellucci em Apartamento.

fotomontagem a partir de fotografia do autor e cartazes daqui, dali e d'acolá
Pela primeira vez, e graças à réplica da RTP ao espectáculo dos óscares, consegui ver de fio a pavio o Doutor Jivago. E consegui-o graças ainda a uma inexplicável fiabilidade do meu velho receptor de televisão que, frequentemente, me priva de som e imagem. O que só não é mais grave, dada a minha concordância com ele. Não vale mesmo a pena o som nem a imagem.
Deste filme, que me foi apresentado pela primeira vez numa época em que me estava supostamente vedado pela idade, valeu-me então o conhecimento que meu Pai, habitual comprador de fracções da Santa Casa, tinha com o cauteleiro-porteiro do Cine-Teatro Vasco da Gama, em Sines, para poder adormecer logo ao primeiro nevão.
Depois dessa primeira experiência, em que não me recordo da estrela vermelha por cima do portal, algumas vezes mais tentei, na televisão, pois creio que no cinema não o fiz, vê-lo até ao fim. Sempre debalde.
Ontem finalmente consegui-o e a única coisa de que, de facto, me recordava bem de todas as experiências anteriores, era do rosto de Julie Christie.
Dos que não esquece mais. Como o de Binoche em Azul ou o de Bellucci em Apartamento.
fotomontagem a partir de fotografia do autor e cartazes daqui, dali e d'acolá
05/03/2006
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