O palácio dos dois zz
Se me perguntassem, nunca o diria.
Nunca diria que o palácio rosa-creme dos jardins de buxo ficava para os lados de Mafra. Na orla da Tapada. Nem me ocorreria que o seu nome fosse italiano e com dois zz.
E a verdade é que ainda tenho as minhas dúvidas.
Não obstante ter verificado hoje que a magnífica urbanização militar que se encontra novazinha a estrear está defronte dos edifícios outrora fronteiros ao tal palácio.
Isto pode significar que o palácio foi sacrificado às novas edificações ou que eu estou redondamente enganado.
O certo é que nas poucas vezes em que passeei pelos jardins à francesa, experimentei sempre aquela sensação magnífica de perfeição. Eu e a doutora. Coisas desse tempo.
Havia, se não me engano, no topo norte do jardim, um portão metálico e com rede, que dava acesso a uma zona onde existiam alguns campos de ténis. Depois de descer uma estreita vereda.
Eu sei que me disseram que o procurasse pelo nome na carta militar - era só meter os zz seguidos - ou que fosse ali para a zona da Venda do Pinheiro ou das Caldas da Raínha (atente-se no sinal ali em baixo), para experimentar as zonas mais prováveis onde crescem ou se dão palácios tais, rosa-creme com jardins ornados a buxo.
Mas ali as novas edificações também me impressionaram. Descontando o banco preto que não resistiu ao meu peso, havia a torre negra, imponente, militar, da orla sul. Havia os edifícios de nascente, de traços pouco vistos, onde parecia não habitar ainda ninguém.
Mas foi nos de poente e naquela torre imediatamente à esquerda que entrei.
A porta pareceu-me despropositadamente modesta para o conjunto. Parecia haver ali um café, do qual só se via uma ponta de um balcão, pela porta encostada e uma espécie de repartição onde uma amanuense se entregava às delícias da dactilografia.
Foi pois entrada por saída, como dizem alguns. Ainda vi através de uma vidraça de uma loja desocupada uma zona onde se amontoavam restos de obra. As inevitáveis tábuas, montanhas de areia, uma betoneira abandonada, ferro de duas ou três secções diferentes e muita lama.
Ao voltar para trás, distingui claramente distinguida uma cópia de empadas, pastéis de Chaves e similares ainda em cru que se encontrava dentro de uma espécie de corette junto à acima dita porta acanhada.
Mais de perto notei que entre eles e a minha gula havia uma porta transparente de forno.
Encolhi os ombros e saí. Verifiquei depois que estava a utilizar uma porta privativa do tal café. Ninguém deu por nada.
Transposta mais uma zona ainda por acabar, com cascalho amontoado e terra em moitões, desemboquei de novo na avenida.
O meu velho amigo capitão miliciano aguardava-me dentro do seu MG Magnette. Ao volante estava o Costa de São Brás de Alportel. E ainda havia mais uns quantos militares que tinham também ido ver ao antigo estádio José de Alvalade um jogo entre o Sporting e o "O Elvas".
Aproveitei a boleia pela avenida de Mafra, entre rotundas, trajecto no qual tivemos ensejo de ultrapassar várias relíquias automóveis, tão ou mais velhas do que o MG. Mas declinei o convite para regressar de carro. Disse-lhe que ou iria a pé ou de comboio. Apeei-me ali ao pé do Tribunal.
É certo que o ou ir a pé ou de comboio era uma espécie de catarse e de bolo.
Catarse face aos automóveis, no sentido de distanciação. Catarse face ao andar a pé, no sentido de alcançar uma certa purificação, de suor feita, já que as léguas de Mafra à estação que lhe leva o nome são mais do que suficientes para tal.
Bolo porque tudo isto era de facto um bolo de ideias, mal (arg)amassado.
Lá fui.
Antes de chegar à estação - que afinal era logo ali, ao lado do convento - tive que ousar atravessar uma passagem de nível onde o perigo eram não os comboios mas as bicicletas com estranhos motores de combustão. Inumeráveis as ditas, a surgir de uma curva no fim de um furadouro e ziguezagueando em seguida até a uma espécie de Largo da Estação.
Lá me apanhei na gare mas não dei com a bilheteira. Só via coisas que vendiam comida ou jornais e tabaco.
Palpitou-me que os tipos que andavam vestidos de carteiros, mas com mais vermelho e menos cinzento, eram da casa. Eram. Perguntei pela bilheteira a um deles que devia ser muito mais alto do que eu ou então eu estava sentado. É que o tipo olhava-me de alto, mas com um olhar perdido, e lá dizia: Ah, isso pois, os bilhetes - ria-se - é que isso é no comboio.
Mais ou menos nessa altura, entrou uma daquelas automotoras do metro de Mirandela, pelo lado noroeste da gare. Perguntei então qual era o destino. Loures. Loures - repetiu. Loures? E depois? Depois, pára no Cacém. Ah, ok.
Lá fui a correr, atravessando linhas, subindo e descendo plataformas.
Depois de fazer rewind aos últimos saltos da linha 5 para a linha 6, não fiquei a perceber se tinha ou não apanhado a automotora. Mas uma coisa eu sabia, a Estação de Pero Negro era para o outro lado. Embora isto fosse de facto irrelevante.