Se eu tivesse a mania da perseguição, haveria de haver vezes em que me esconderia tão bem que nem eu próprio soubesse onde estava.
Mas não é o caso.
Nunca tive tal tipo de preocupações. Em primeiro lugar, julgo não haver nada de interessante nas minhas actividades que justifique a curiosidade alheia. Em segundo, os ódios de estimação que possa ter granjeado não me parecem muito consequentes, mas vá-se lá saber...
Ora sucede que este tranquilo cidadão circulava há tempos pela E.N.362 quando se apercebeu que uma viatura circulava na sua cola, a idêntica velocidade, está bem de ver. Como a velocidade era da ordem dos 60 Km/h, estranhou que o carro se não aproximasse. É que isso de andar devagar já não é assim tão comum.
Depois de cruzar alguns nós com outras estradas e mantendo-se a situação inalterada, este pacato condutor achava, nunca deixou de achar, que o facto de se tratar de uma coincidência era o mais provável.
Resolveu brincar um pouco.
Acelerou e no primeiro lugar próprio que lhe surgiu, zás, fora da estrada a coberto de umas árvores.
Viu o outro passar.
Inverteu a marcha em cima das ervas e quando estava pronto para entrar na estrada, vê surgir o dito cujo de volta, em baixa velocidade e de cara à banda.
Mirou-o bem. Tinha mais aspecto de polícia do que de bandido.
Continuou a sua marcha até à localidade mais próxima e estacionou o carro bem à vista da estrada.
Atravessou e foi instalar-se num café com vista para o alcatrão. O perseguidor não apareceu ou então trocou de carro.
Até hoje, este pacato cidadão que, repito, não tem a mania da perseguição, ainda não sabe a que se deveu tão insólito interesse.
A única coisa duvidosa que fizera nesse dia fora parar junto a uma brigada da GNR e solicitar uma informação sobre o estado de uma determinada estrada.