Gasolim e a estrada
Já aqui disse que não compreendia o argumento segundo o qual as pessoas se transfiguram ao volante, fazendo as maiores atrocidades.
Basta estar atento em todo o lado, por alguns momentos, para nos apercebermos de que os mesmos comportamentos bizarros se verificam também fora das caixas de lata.
A questão é que as caixas de lata derivam em caixões. E em mísseis mal guiados.
Fossem os telemóveis, os chapéus de chuva, os carrinhos de supermercado, as cadeiras de restaurante, as senhas de vez, armas letais e então ver-se-ia.
Não sou exemplo para ninguém. Não venho dar lições nenhumas.
Mas se há ou não um mal generalizado nas nossas estradas, é bom que se estude o assunto de forma racional.
Começando por perceber o que é que se passa.
Uma das coisas que conhecemos mal são as efectivas causas dos acidentes.
Primeiro, porque os próprios intervenientes quando sobrevivem, não sabem ou não querem perceber as causas.
Segundo, porque os elementos que as autoridades apuram são manifestamente insuficientes. Estas limitam-se a enquadrar numa tabela incompleta mais ou menos o que lhes parece.
Terceiro, porque há uma espécie de véu sobre as coisas, que permite que se construam mal as estradas, que as sinalizem mal e que se passem licenças de condução a qualquer um.
Não vou abordar aqui aquilo de que outros estão fartos de falar.
Apenas recordo e chamo a atenção para aspectos de que se têm esquecido.
Há anos, havia na rádio um programa interessante sobre a estrada. Nesse programa, ouvi com o mesmo pasmo do apresentador, um ministro dizer que agora é que se iam acabar com os acidentes! Era de calcular que fôssemos longe com tão ridículas sentenças.
Basta apreciar o
relatório da sinistralidade da DGV para perceber várias coisas:
Existe um sem-número de dados estatísticos não relevantes.
Existe uma tabela de causas mal elaborada.
Algumas tabelas relevantes deviam ser ponderadas proporcionalmente (ex: nº de acidentes por idade de veículo, por idade de condutor, por anos de carta)
Percebe-se que não é o álcool que causa agora os acidentes (isto não tem nada a ver com a justeza da penalização!), mas ajuda saber que para combater a sinistralidade é preciso virar a atenção para outros lados e não bater sempre na mesma tecla.
E que a confusão entre excesso de velocidade e velocidade excessiva também não ajuda.
Uma coisa é exceder os limites impostos, outra completamente diferente é não ter noção nenhuma de qual a velocidade adequada em determinadas circunstâncias (as atmosféricas, o carro, a estrada, a capacidade do condutor).
Já vi pessoas despistarem-se e quase morrerem a 20 Km/h! É que não convém confundir os pedais de travão e de acelerador num gancho sobre um precipício.
Lá vem mais uma época de funerais.
Pai Natal em