04/01/2004

Vamos a votos

Já muitos outros se devem ter lembrado disto, não é nada de novo.
Mas que era um boa maneira de matar dois coelhos de uma cajadada, não há a menor dúvida.
Isto porque, apesar de não ser um amante apaixonado do mundo do pontapé na bola, hoje estou tocado pelo espírito daquela cidade britânica, como é que se chama? Derby, acho eu.
Já aqui fiz referência à minha côr clubística. Não é nada de muito importante ou talvez seja.
Mas voltando à vaca fria, dizia eu que há uma boa forma de esclarecer de vez, pelo menos por quatro anos, aquela dúvida que paira sobre todos nós:
"Haverá seis milhões de benfiquistas?"
Eu confesso que não sei. Nem sei como é que é possível saber sem irmos a votos.
As amostras não chegam. É preciso ir mais fundo.
Eu próprio nunca cheguei a saber muito da côr clubística da minha família. Às vezes, por um acaso descobre-se qualquer coisa. O espanto que foi para mim perceber que o meu avô materno tinha simpatias sportinguistas, que a minha avó era vagamente benfiquista, que a minha mãe gosta que o Sporting ganhe.
Saber ainda que um dos meus tios desligou certa vez a televisão quando o Manuel Bento sofreu o quarto golo. Nunca me tinha passado pela cabeça, confesso.
Quanto ao meu pai, nunca dei por nada. Fico hoje com a impressão, ligando isto e aquilo, que poderia ser benfiquista. Não sei.
Ora tudo isto releva, digo eu.
Como é que o cidadão comum sabe quantos torcedores tem o seu clube? Não sabe. Usa daquela magnífica manobra intelectual que é pensar de acordo com a vontade (já que hoje é dia de Derby, wishful thinking).
Por isso, é da mais elementar utilidade fazer uso da máquina eleitoral para apurar o verdadeiro sentimento do povo.
Reparem que o voto flutuante é quase nulo (não se diz que se troca de mulher, de religião e de partido mas nunca de clube?).
O voto útil já constitui um problema. Tende a eliminar os clubes de menor dimensão. Há inúmeros casos de simpatia pelo Oriental e pelo Belenenses, e é certo que sairão prejudicados todos os clubes que figuram em segunda e terceira prioridades. Mas isso é o que acontece também com os pequenos partidos. Poderíamos eventualmente considerar desde já uma revisão da lei eleitoral.
Mas o importante é conseguir chegar a um resultado eleitoral expressivo. Conhecer as verdadeiras preferências dos portugueses (porque não dos brasileiros? - mas aí eu não posso nem devo interferir).
Ao mesmo tempo, conseguia-se uma eliminação espectacular da abstenção. Integrar um referendo deste tipo numa eleição parlamentar seria um autêntico ovo de Colombo (ou Cavalo de Tróia?).
Por último, já repararam que nem sequer seria preciso fazer uma campanha eleitoral?

Não é por nada, mas

Gasolim em estradas inexistentes

Marte à vista



Se não me engano, recitava-se a Aida no Estádio de Honra, na vertente do Jamor, ao tempo em que a curiosidade apertava para ver as imagens de Marte.
É certo que já se tinham visto as fotografias da Viking, mais ou menos vinte anos atrás.
Mas já na época da informação instantânea, a coisa era diversa. Muitos nem sequer cá estavam ainda na noite em que se esperou ver e se viu como era a Lua.
Hoje, depois do ainda presumido falhanço da nave europeia, renasce a expectativa.
Só não entendo esta catadupa de comentários, aparentemente feitos por especialistas, sobre a relação entre água e vida.
Água e vida. Água e vida. Então não são capazes de imaginar formas de vida independentes da água? Tem toda a forma de vida que ser uma mistura de gato e de alface?
Se não é assim, e se ela fôr detectável à nossa escala, é bem provável que não dêem por ela, se a encontrarem algures, em algum tempo.
Fazem-me lembrar, mal comparado, aquele participante de um qualquer concurso Nem Sim Nem Não, que certa vez ouvi na rádio.
Depois de ter resistido alguns segundos sem dizer as duas palavras proibidas, lá se espalhou.
Quando o apresentador lhe perguntou: “Então, amigo, como é que foi isso?”, respondeu: “É que eu estava tão concentrado em não as dizer, que me distraí!”

imagem da página da NASA
O homem da casa

O herdeiro natural



Já me tinha apercebido de que as minhas cartas à Junta de Freguesia tinham pouco acolhimento.
Mesmo que fosse a anunciar a criação de uma página sobre a vila, oferecendo os préstimos a troco de nada.
É que há sempre a hipótese de eu estar a trabalhar para ter direito a uma placa com o meu nome numa esquina disponível.
Depois, pus-me a pensar. Não pode ser só isso. Não serei eu o herdeiro natural da cadeira de presidente dos fregueses?
Isto de carregar dois apelidos que se revezaram na referida cadeira durante décadas dos séculos XIX e XX, não terá como consequência óbvia a minha entronização no meio de foguetório e arruada?
Se calhar, tem.
Qualquer passo meu em direcção à porta da junta, mesmo que seja só por carta, deve ser visto como mais um marco na minha caminhada triunfal.
Pois é, está explicado. Já sei que nunca vou obter resposta às minhas missivas.
Aqui para nós, uma vez tive. Há uns bons anos, pedi para consultar uns canhanhos.
Puseram-me à disposição a secretária do presidente.
O que é que acham? Candidato-me ou não?
Um dia falarei das movimentações que estiveram por detrás de uma minha suposta candidatura (imaginem!) à Câmara Municipal!
Amigos do Brasil, há quem me diga que eu ando a ver muitas novelas.

03/01/2004

Sinalizando



Como diria um amigo meu, estes sinais não enganam quem conhece o caminho.
Na minha experiência, uma das coisas que mais vezes surgiu evidenciada, é a incapacidade generalizada de se darem boas indicações a quem não sabe que caminho tem que tomar.
É de facto um mal geral.
O que talvez justifique que não se consigam encontrar as pessoas capazes de elaborar um projecto de sinalização capaz.
Eu conheço muito poucos.
Para não falar nas estradas e no ridículo de quase todas as novas sinalizações, apenas vos digo que foi em vão que tentei convencer da inutilidade do seu gesto um funcionário que teimava em colocar-me sobre a única porta de um gabinete que ocupei, um sinal de saída.
Que era assim que tinha que ser.
Quando saí do gabinete um pouco depois, verifiquei que no corredor junto ao acesso às escadas, não existia uma única placa de sinalização.
Fazer o quê?
Eu até aceito que alguém, que ali estivesse naquela sala de 10m2, no meio de um incêndio, sem luz de nenhum tipo, conseguisse divisar a placa a brilhar no escuro. Que o fumo, e mais não sei que desorientação pudesse tornar minimamente útil a placa.
Depois descobri que faltavam não só as do acesso às escadas, mas em muitos outros locais de dúvida.
Não vale a pena dizer mais nada, pois não?
O estranho caso do loto



Já não há lotos como antigamente.
Nos clubes, com cartões da Majora e marcados com feijões.
Quando o M.C. fixava os números e escondia os cartões debaixo do rabo. Eram os que saíam à borla.
Agora é tudo com impressos para riscar.
Uma das primeiras vezes que fomos experimentar a novidade, íamos sete ou oito.
Entrámos no clube aqui da terra ao lado e ala para o loto. Para o loto, não. Para o bingo, se faz favor.
Lá nos sentámos. Sala vazia. Não havia quorum.
Vieram as simpáticas moçoilas com os bolinhos e o vinho do Porto, e a gente à espera.
Nada de minis como no antigo loto.
Lá chegaram mais uns quantos desocupados naquela tarde de sábado e rolaram as esferas.
22 - eu à espera de ouvir "dois patinhos". Nada. Tudo muito profissional.
Quando saiu o 11, disse baixinho o que estava à minha esquerda: "O número da cabeça".
Mais umas bolas e grita o que estava à minha frente "Linha!"
Boa! Está a começar bem. Eu a olhar à volta e a ver meia-dúzia de mesas ocupadas e a pensar que o prémio devia ser uma carrada de dinheiro.
Mais uma rodada de bolas com voz fina, nada de gritos guturais como no loto, e zás: "Bingo!" Desta vez foi o meu parceiro do lado.
Depois de mais bolos, a bandeirinha. E a massa. Uma resma de notas, nem dava para pagar as cervejas.
Havia um que tinha que ir ter com a namorada mas como lhe saiu um bingo na terceira jogada da tarde, fechou-se em copas e ficou.
O mais estranho é que, ao fim de algumas horas, ou a gente estava mesmo com sorte ou sei lá o quê, mas não houve um só da companhia que dissesse que tinha perdido dinheiro.
Admirei-me. A sala continuava com muito pouca gente. De onde é que teria vindo o dinheiro?

imagem em
Lagoa Azul - Peninha - Sintra

Momento nostálgico.
Para todos os que participaram nessas romarias de Sintra, Montejunto e Arganil entre os meados de 70 e 86 (o ano do desastre de Joaquim Santos).
E que sabem o que é um Fiat 131 Abarth e um Ford Rs 200.





imagens aqui e aqui

02/01/2004

Totoloto

Bem, vamos lá esclarecer as coisas.
A todos os que ainda aqui possam cair na mira de um palpite milagroso, através de pesquisas tais como “como prever totoloto” (as aspas são minhas!), do dia 14 de Dezembro passado.
Pois... não sei!
Se eu soubesse, acham que dizia?
É certo que, contra a opinião de muitos, incluindo o meu caro amigo que lecciona estatística lá em Atenas, mas com o apoio e a motivação de um velho amigo economista, há cerca de vinte anos, ainda a coisa era só totobola, que mato a cabeça a lutar contra as probabilidades.
Mero exercício de recreação, dirão os mais lúcidos.
O certo é que se conseguem resultados interessantes.
E fascinantes. Modéstia muito à parte, já vi e analisei muito do software que outros loucos portugueses produziram, e nenhum é um disparate tão completo como este que conta com cerca de 20 anos de trabalho e 27 versões. A 28ª está em estudo e tal como na fórmula 1, ainda se utiliza a versão do ano anterior.
Resultados? O algodão não engana - diz o mordomo.
Maus. Muito maus.
Mas a verificação de que, em certas condições, identificáveis a priori, e que não coincidem necessariamente com os grandes bolos acumulados, há boas probabilidades de uma aposta forte ser altamente lucrativa. Como nunca me dispus a aventuras, nem é meu hábito jogar todas as semanas, fica apenas a constatação dos resultados.
Entretanto, o meu amigo M.C. já conseguiu comprar um carro à conta. Há muitos anos.


Coisas que ainda hoje não faço

Perguntar onde é a praia em Messejana.
Perguntar pelas saídas em Entradas.
Perguntar as horas em Aguiar.
Dizer moita-carrasco na Moita.
Em quantos mais sítios há ditos proibidos?
Teste

Duas imagens que são negativos uma da outra. Aceitam-se apostas para saber qual é a original.



sempre estas câmaras

01/01/2004

A Marcha Radetzky, vinho do Porto e jornais de anteontem

Ainda não descobri melhor forma de iniciar o ano.
Mentira. Já descobri muitas outras.
Mas hoje faz-me falta qualquer coisa que surge neste trecho de SG em dia de Ano Novo:

"Como não teve réplica, saiu. Para a morrinha cinzenta que preenchia as ruas de gotas lentas e mornas.
Escolheu ao acaso uma direcção e teimou com a humidade que quase lhe apagava o prazer de uma cigarrada.
Ao atravessar a ponte sobre o canal, viu aparecer o Rodrigues a correr esbaforido, trazendo atrelada uma moça alta, tão alta como ele, que era um homem alto, e que lhe berrou, escolhendo-o para confessor:
- Roubei a mulher ao morto!
João, ainda que momentâneamente surpreendido, absolveu de imediato o seu velho conhecido:
- Não lhe vai fazer grande falta!
Rodrigues nem se detivera.
João nem sequer sabia quem eram o morto e respectiva viúva mas tinha a certeza que o Rodrigues já era casado.
Todavia, resolveu inverter a marcha, temendo encontrar-se com a família do morto, pois já se considerava cúmplice dos fugitivos.
Optou por recolher-se da chuva na Sociedade Recreativa, onde se foi anichar a um canto. Perto, uma grande janela dava para um pátio calçado de seixos onde a humidade azulbrilhava sobre as pedras. Aí ficou, lendo o jornal da antevéspera, fumando muito sobre sucessivas chávenas de café e olhando o que restava da tarde através de cálices de medronho.
"



Tenham um bom ano
O ano dos 45

Antigamente mandar-me-iam para casa, onde já estou, com isto nos ombros.

31/12/2003

As idades

Todos nós temos uma disputa com a idade.
Quase sempre se inverte a certo ponto. Primeiro puxamos para a frente, queremos mais anos. Depois, para trás, à cata da juventude que se esvai como um sonho matinal.
Se não é assim com todos, é com uma maioritária maioria(?).
É certo que o ciclo solar faz sentido. Tanto o diário como o anual. O lunar já é de mais duvidosa utilidade, mas aceita-se que sirva a pescadores e a parteiras.
A uns com mais propriedade que a outros.
O certo é que, ambos, sol e lua foram precursores dos deuses.
A minha questão é só esta: o tempo passou ou não sobre a espécie humana?
Se passou, modificou-nos ou não?
Se nos modificou, em que é que o fez?
Terá sido em mostrar que os deuses eram de um tempo anterior?
Se foi, porque é que as religiões ainda fazem sentido?
Se não fazem, se são apenas instrumentos de controlo social, quanto tempo mais teremos de esperar para que se não temam deuses?
O tempo para percebermos que apenas devemos temer os nossos feitos?
E se assim é, quanto tempo até lá?
Convenções

Ver 2004 a partir de 2003



Tal como todos os dias podemos ver o dia seguinte. Nada de novo na frente.

imagem de câmara de tráfego na Finlândia, mais uma vez.
Era velha

O céu já escondeu o último sol
Que a esta terra do verde ainda aqueceu.
Marca-se outro traço na angústia
Cimentada às quatro paredes gradeadas,
Véu que se abate ou se destapa,
Sol que renuncia ou se resolve,
Pré-destino que as calendas pretenderam!
Era uma era que outra era anunciava,
Elo em sequência, sem cadência
Que a marcar possa sem assaltos!
Era efémera, diluída na razão
Que a sua ponderação tem nos tempos todos.
E com a era, já eram satisfeitos
Tratos e contratos e outros aparatos
Que, na era nova, obsoletos,
São pesos-mortos no contar dos anos.
E cá estamos!
Reza o relógio no tique-taque baixo
Que se confunde com o cardiorritmo!
Sufraga-se a vela que se consome
Como a vida, era após era!
Rasguem a página que esta já era!

1985

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Um erro de data



trecho de imagem da SIC
Grrr... isto não é o cabo de Sagres

Mesmo que se trate de música sacra de Haendel
Este som não me preenche a lacuna
A que sal basta para ficar desinfecta.
Melodia de paisagens em língua desconhecida,
Concebida para audições solenes a desoras
De modo a que o ventre a que se refere
Se recorte vago numa qualquer parede de fundo.
Mensagem hidráulica e fetal
De vitais fluidos repleta
Ecoando sinais que remontam às origens
Num caldo de cultura viciado
Com os dados que o Operador manipulou.
A verdade esconde-se assim num retrato genético
Perpetuado em difusas multiplicações
Carentes de uma explicação arrumada e demonstrativa
De uma Lógica anciã e incorrupta
Que alinhe os pontos discerníveis
Numa emocionabilidade pura
Pelas convulsas contorções dos geniais cérebros.
A paz e a procura porque não compatíveis,
Subsistem em contempladas pausas de percurso,
Eivadas desta melodia simples e esmagadora
A que o céu não é estranho.
A noite é ainda madrinha desta encruzilhada
Em que a interrogação se levanta a cada passada
Como o pó dos caminhos velhos que já percorremos.
Embora a imagem que subsiste
Não se afaste muito do espectro embrionário que já fomos,
Começamos a vaguear cansados
Por sobre a História ou do que resta dela.

1985

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Com alguma sorte



tentaremos chegar ao fim de 2004 com um 9155 na placa

30/12/2003

Dias sem Brylcreem



Quase a dobrar a meta volante dos 2003 anos depois de uma data em que ninguém sabe o que aconteceu de relevante, reconheço que há dias sem Brylcreem.
Fiz aqui uma aposta de escrever o que me viesse à cabeça quotidianamente.
Logo com a condição de não comentar as actualidades.
E, se há quem me leia, é porque alguma coisa com interesse aqui venho gravando.
Mas há dias em que a coisa é chocha, muito chocha.
Vejo este blogue muitas vezes como o comentador lateral das coisas.
Como se num grande acidente rodoviário, apenas descrevesse com pormenor o símbolo da marca do automóvel cravado na retaguarda.
Outras vezes como o leitor de almanaques que sabe quantos parafusos tem a torre Eiffel. Memorizou o número, sem cuidar que provavelmente a torre nunca teve em dia nenhum da sua existência, esse exacto número de parafusos.
Outras ainda como a personagem sentada numa esplanada que faz perguntas sem sentido a quem passa perto.
E muitas vezes me ocorre a sapiência desregulada de um velho vizinho que teimava em dar explicações ao monarca, encomendar sandes de produtos químicos, fumar nos parapeitos e nadar em medicina. Disse-me certa vez que estava em Ceuta em '415, à espera das tropas de D. João I.
Às vezes estou como ele. Em dias sem Brylcreem.

imagem em www.anzwers.org/free/tackorama/ clipart_ads_2.htm (link perdido)
O feijão tem bicho

Pois tem – dizia o Zé da dos Barros, confirmando.
Queres ver que tá todo assim – picava-o a mulher.
Tu nem me digas isso.
Mas estava.
Nessa tarde, depois de uns copos, já culpava o vizinho mais o tratamento que tinha dado às oliveiras.
O Jaquim da Moca meteu-lhe mais ferro, que era do efeito de estufa.
O cunhado que foi lá jantar, perguntou-lhe se ele tinha posto cabelos à roda da horta para afastar os ratos. Fez cara feia, pensou o que é que o cú tem a ver com as calças e não disse nada.
Mais à noite, depois do café e do bagaço, foi o Toino Moura que lhe veio dizer que andavam a pôr umas cercas na Herdade das Bichezas para criar avestruzes.
É dessa merda das avestruzes, podes ter a certeza! – concluiu o Zé, encostado ao balcão.
Quando chegou a televisão, já ele culpava também a falta de “subsílios”.
A culpa não morre solteira.
E todos os dias o feijão tem bicho.
Em preparação

Um pare, escute e olhe



trecho de imagem da SIC
Ordem unida



trecho de imagem da Sky News

29/12/2003

Mouro na costa



foto de MSMS
O chefe e o técnico

Primeiro foi o chefe.
Todos tinham que ser chefes. Operário-chefe, maquinista-chefe, chefe de vendas.
Não havia restaurantes mais populares do que esses onde se ouvia um “Ò chefe!” a cada três minutos.
Depois, já não bastava.
Era preciso ser técnico. Técnico de vendas, técnico de compras, auxiliar técnico.
Uma certa necessidade de promoção semântica, desvalorizada rapidamente pela inflação.
Mas a moda há-de passar.
Se assim não fosse, ainda haveria reposteiros, almotáceis, aguadeiros, uns mores outros não.
Saudades da pré-história

O Colégio do Bom Senso

Às vezes penso que devia existir uma instituição assim.
Acima da Lei, derradeiro recurso em todas as circunstâncias.
Não existe ainda em certas sociedades o apelo à sabedoria dos velhos, para esclarecer questões mais complicadas?
Não seria um tribunal, não seria um senado, não teria que se sujeitar a lei escrita ou consuetudinária.
Apenas um colégio de homens-bons com o poder supremo de utilizar o bom senso e contrariar o Direito, se necessário.
Uma utopia. Eu sei.
Como escolher as pessoas certas?
Mas que faz falta, faz.
Alguém vê o bom senso por aí, seja lá isso o que fôr?
Cumprindo

Gasolim e as marcas obrigatórias

28/12/2003

A natureza e o tempo

Tomemos como bom que o conceito de natureza é o conjunto da matéria original do planeta Terra e tudo a que ela deu origem, com o tempo.
Tomemo-lo inevitavelmente num sentido um pouco mais lato, incluindo os factores exteriores mais conhecidos e indispensáveis: os raios solares, a atracção gravitacional da lua e a matéria cósmica que penetra no sistema terreno.
Nada disto parece controverso.
Já o tempo, que é um elemento integrante deste conceito, é impossível de definir.
A Natureza é uma nomia inventada pelo homem para designar algo que compreendeu (no sentido matemático) - algo com o qual formou conjunto. Mesmo que os contornos desse conjunto não sejam muito precisos quanto aos factores externos e quanto à origem primordial dos seus elementos.
Mas o conceito existe, é universal e aceite.
Não sabemos então o que é o tempo.
Temos a ideia de que actua sobre a matéria e que a transforma.
Dizemos que as coisas envelhecem naturalmente com o tempo.
Aceitamos assim que a natureza se transforma com o tempo, não deixando de ser natureza, como decorre do conceito.
Às vezes confundimos algumas coisas: foi a Natureza ou o tempo que destruiu os dinossauros? É claro que foi a Natureza. O tempo é apenas um dos factores que a integram e que dá sentido ao conceito.
De acordo com o que conhecemos e pensamos conhecer, se o tempo não fosse um factor integrante, toda a Natureza estaria no seu estado natural, primordial. Haveria um momento natural, nada mais.
Aceitemos então definitivamente o conceito.
Ao fazê-lo, não podemos deixar de incluir o homem como elemento integrante do conjunto natureza.
E sendo-o, é, por agora, tão importante como os castores, as formigas, os abetos, o granito.
O tempo transformou coisas com outros nomes em castores, em formigas, em abetos, em granito.
Em homens.
São então formigas e castores elementos naturais (elementos do conjunto natureza).
E os homens.
Sendo as formigas elementos deste conjunto, os formigueiros sê-lo-ão também?
Sendo os castores elementos deste conjunto, as barragens sê-lo-ão também?
Serão os expedientes de cada um dos elementos integrantes, elementos de outro conjunto que não o inicial?
A função criação de será uma função em N (conjunto natureza)?
Não poderá deixar de o ser.
O conceito de natureza a isso obriga.
Vamos então ao homem.
É ele um elemento natural?
Não encontro nenhum argumento que o contradiga, a não ser a visão antropocêntrica do mundo, que coloca o homem numa dimensão à parte.
A verdade é que, mesmo para os dependentes desta maneira de ver, é necessário recorrer à classificação do homem como elemento natural (animal) para teorizar sobre certos fenómenos.
Passarei pois adiante sem me deter neste aspecto.
Outro argumento que me parece pouco polémico é que grande parte, diria quase a totalidade da massa de problemas com que nos debatemos, dos fenómenos visíveis, é consequência da intervenção humana sobre o planeta, porventura será esta constatação, ela própria decorrente do antropocentrismo.
Assim, direi que para todos os que não têm uma ideia consistente do que é ou não natural, a maioria dos fenómenos visíveis é de origem não-natural ou humana.
Ora, não havendo dúvida de que o homem pertence ao conjunto N, todas as suas criações não poderão também deixar de pertencer-lhe.
É aqui que desaparecem conceitos como artificial, laboratorial, sintético(?!), nas asserções anti-naturais a que nos vimos habituando há algum tempo.
Gasolim às armas


A capa de quê?

A discussão pendurada

Ainda faltavam oito anos para a campanha do PS de 95, e ainda não se discutia, sem se ler, a obra do Prof. Damásio.
Razão e emoção não andavam assim tanto nas bocas do mundo.
Discutia-se arquitectura. Na medida em que ela é discutível ou não.
E houve quem, no meio disso, dissesse que a Matemática, por ser uma ciência-ferramenta, de construção e complexidade humanas, e não ser uma ciência de exploração e desconstrução de complexidade universal, estava absolutamente dependente da razão, ao contrário das outras, da Física, da Química... mais sujeitas ao contributo da emoção.
Houve quem se levantasse e tentasse argumentar contra.
O professor entendeu que a discussão se desviava muito do tema. Ele próprio também tinha a sua opinião e o seu partido, mas que isso ficaria para depois da ordem do dia.
E ficou. Até hoje.
O que eu gostava de juntar as mesmas pessoas.
Faltam-me 2



H G U desconhecido em África e na Oceania.
Imagens e música

Primeiro foram os tele-discos, os clips ou o que quer que seja.
Agora, estamos na fase dos DVD.
Mas a ideia assombrosa é sempre a mesma: impingirem-nos umas imagens a acompanhar a música.
Como se cada um de nós não tivesse as suas imagens associadas a cada melodia. Como se tivesse alguma utilidade.
E não terá? Não será mais uma forma de uniformização?

27/12/2003

Roubando um post a Dona Lilian



espero que sim
Aprender a pensar

A rapariga era estudante de medicina.
Certo dia, depois da conversa com os amigos ter esmorecido, disse qualquer coisa assim:
“Sabes, ando agora num grupo para aprender a pensar.”
A ponte e o Bolo

26/12/2003

Iagos e Vídeos

Ainda não encontrei uma explicação satisfatória para haver Tiagos e não haver Tantónios.
Excepção feita a Tantónio Barbosa, o violinista, que não conheço.
Claro que confirma a regra.
Mas e os Tonofres? Os Teliseus? Apenas o Bonfim Machado, motorista suponho que em Rio Branco?
Não percebo. Porque é que os Tiagos proliferaram e os outros não?
Deve haver alguma conjura secreta.
Por aqui, vamo-nos contentando com o Santo Vídeo, ou Santo Bídeo. Ali para Gaia.
Em dia de São Testêvão.



imagem em
Boxing Day

O bodo aos pobres, um dia depois.



imagem de
Planos a médio prazo

3 de Outubro de 2005

Assim cá esteja. E seja possível deslocar-me.
Estarei aos alvores lá para Miranda do Douro ou coisa que o valha.
E para quê?
Ferragens, fazendas e imagens

Ferragens e fazendas


Bifes e alcatrão

Lá vem mais uma vaga contra a vaca.
É assim de vez em quando.
Há, no entanto, um explicação que me falta:
Porque é que as pessoas que se eximem de comer carne de vaca, continuam a viajar de carro?
Não só não atinjo a lógica da coisa como tenho o palpite que, se seguissem a voz da razão, as estradas ficariam muito menos perigosas.
Ou não seria assim?
Isto não tem nada a ver com os vegetarianos, obviamente.


Quadrados (faz de conta que são)

25/12/2003

E ao frio

A noite de Natal

26 anos depois



Acordarem-nos naquela fase inicial do sono é o que dá.
A noite de Natal era apenas uma noite mais de diversão.
Um bailarico, as amigas do costume.
Ainda entrámos em palco mas não nos deixaram substituir os nossos amigos instrumentistas.
E à cama cheguei tarde e a más horas.
E fui acordado menos de uma horita depois, pela minha mãe (nem ouvi as pancadas na porta):
"Está ali um amigo teu que precisa de ajuda!"
Fui ver. O A.M. estava à porta, enregelado e a rir-se. Eu a tentar perceber porque é que ele não tinha ido para casa.
Como a noite era de forte geadão, eu já tinha saído do quarto equipado com samarra e botas caneleiras.
E ele a rir-se. "Eh, pá, tive dois furos..."
"Dois furos?"
Agora, era eu quem esboçava um sorriso: "Dois furos?"
"Sim! Desenrasca-me lá! Tive que vir à boleia numa bicicleta a motor."
Fui dizer ao meu pai que eram dois furos, que o rapaz precisava de ajuda: "Posso levar o carro outra vez?"
O meu pai a calcular outras aventuras mas admirado por me ver de pijama e samarra. Afinal...
Lá fomos.
O moço tinha saído da estrada numa recta, deu-lhe o sono e lá estava a carrinha com duas rodas na valeta.
O primo da namorada enregelado e enrolado no banco olhava para nós como para um filme que ele teimava em ver, lutando contra o sono.
Foi quando passou um matinal, fumegante e admirado motociclista que eu me dei conta que estava a começar o dia de Natal no meio do mato, em pijama.
Lá desmontámos as duas rodas, deixámos a carrinha ancorada nos macacos e ala para casa do M.V. que ele é que percebe de oficinas.
Mas ainda me lembrei de ir a casa vestir-me.
Quando chegámos a casa do outro, ainda eram sete e tal.
Relutantemente, lá nos abriram a porta e encaminharam para o quarto do moço.
Acordou connosco a abanar a cama.
Ria-se, ria-se, só se ria.
"Tal não foi o espectáculo?" - e sufocava ao rir-se deitado na cama. E a gente a baralhá-lo, a contar-lhe histórias.
É claro que foi depois preciso uma boa meia-hora para o convencer definitivamente de que o caso era urgente.
E lá o arrancámos da cama, a caminho da estação de serviço.
Depois de arranjar as cacetadas nas jantes e de remendar os furos, de voltar uns bons vinte e tal quilómetros até à carrinha e pôr tudo em condições, dei comigo ao meio-dia de Natal a beber conhaques e a fumar charutos espanhóis, no café das bombas de gasolina.
Mas já não estava em pijama.
Alguém devia estar à nossa espera para o almoço.

imagem em
Prendas de Natal

de alguém



extracto de imagem da TVI

24/12/2003

Gato persa

Elidir os factos
Submersos ou não
Empurrar os dados
Com as costas da mão.
Tombar registos
Evitar ciladas
Entrar pelos vistos
Nas noites veladas.
Semear percalços
Envoltos em pó
Contornar os traços
De rectas, a só.
Empilhar retratos
De outras idades
Vestir novos fatos
Em novas cidades.

SG, inéditos, 2002
A meu lado



por aí
Cem invernos e cem verões



a casa das memórias atrás do muro
Geadão

Alguidares de gelo
Rachas de lenha
Frio barbeiro
A caminho do monte
Samarra e boina.
Há quantos anos?

23/12/2003

Um desses dias

O nó da gravata

Há poucas coisas que sejam mais de homem para homem, de pai para filho, do que a transmissão da técnica do nó da gravata.
Todas as excepções confirmam a regra.
Um dia, sem se saber porquê, coloca-se uma gravata à volta do pescoço.
E de repente, damo-nos conta que não sabemos fazer o nó: “Pai!”
E o segredo transmite-se, frente a um espelho.
Pura magia.
Eu herdei o four-in-hand



imagem composta a partir de
Um susto de morte

Mais uns envelopes a monte na caixa do correio.
Propaganda. Mas também alguns catálogos que eu pedira.
Fui abrindo, da embalagem mais mal apresentada à mais interessante, o tal fecho com chave de ouro.
O último envelope era gordo. Catálogos, tabelas, fichas técnicas.
Uma brochura sobre a fábrica.
Abri. Papel de qualidade, boas fotografias.
E um susto de morte ou algo parecido.
A páginas tantas, no laboratório da fábrica, estava eu a olhar atentamente para alguma coisa sobre uma mesa. Não, não era a imagem do espelho de fazer a barba. Era mesmo a minha fotografia, igual a tantas outras semelhantes.
Ainda hoje não sei quem era o homem da foto. Também nunca fui à procura dele. Talvez um irmão gémeo.
Ano Novo



carros velhos

fotos extraídas das câmaras de tráfego finlandesas

22/12/2003

Ainda a calçada à portuguesa

E se fosse assim?

Em torno de um berbequim

Também já ninguém se lembra.
Eu próprio confesso que não me lembro dos intervenientes, nem do local.
Mas lembro-me do conteúdo.
Tratava-se do arranjo formal de uma determinada calçada à portuguesa (perdoem-me todas as incorrecções).
Creio que o autor do projecto pretendia incluir motivos da contemporânea idade no desenho da calçada.
Entre outros objectos, figuravam berbequins.
Levantou-se logo o habitual coro de protestos.
Continuo sem saber muito bem como é que se discute uma obra de arte, mas isso é outra história.
Agora que se levantassem contra os berbequins, é a habitual tacanhez pura e dura.
Não fazem eles parte da nossa vida quotidiana? Não precisamos deles todos os dias?
Não os mencionou António Lobo Antunes nos seus livros? Não está lá toda a nossa vidinha?
Os motivos manuelinos vieram de que século?
Arre macho, mais uma vez! Ponham lá os berbequins, os discos compactos, as jantes, os telemóveis, caramba!



imagem de acordo com o modelo 7152 da B&D, segundo catálogo
Ainda as viagens de automóvel

Já não sou do tempo dos quilómetros de arranque.
Experimentei apenas as vertigens das rectas de Pegões e de Alcácer.
E consegui uma coisa de que eu próprio me admiro, atravessar a Península Ibérica cruzando, ultrapassando e sendo ultrapassado por uma escassa dúzia de automóveis. E sempre por estrada alcatroada.
Tenho a nostalgia do pouco trânsito. Um elitismo sem sentido e sem objectivo.
Possa eu traçar rotas ignotas que sempre encontrarei companhia. Já nada como dantes.
Mas ainda faço viagens só por fazer. Fora de época, em dias de semana e para sítios onde quase ninguém vai.
Cada vez mais, fujo da estrada se ela me irrita. E ela irrita-me em épocas destas. Não me mexo.
O menino Jesus terá de apanhar-me de outra maneira.

No tempo em que os carros eram assim



E as estradas tinham marcos brancos nas curvas de montanha, os camiões fumegavam de velhice e as bombas de gasolina eram por vezes obras de arte, era difícil encontrar-se o que comer em certas zonas.
Naquela passagem de nivel havia uma taberna com maravilhosas sandes de presunto e paio.
Para a meia-hora que às vezes demorava o comboio, havia sempre o conforto do pão fresco e da carne bem curada.
Era vê-lo, ao dono da casa, de carro em carro, a fazer negócio.
Quando começaram as obras da passagem superior, amaldiçoava os pobres operários.
Houve até quem tivesse falado em apedrejamentos.
A obra ficou pronta há uns trinta anos.
No outro dia, fiz um desvio e fui espreitar a velha passagem de nível.
A taberna é agora um café.
Nada indica que haja saborosas sandes de paio e de presunto.

imagem adaptada do Armstrong Siddeley Saphire em

21/12/2003

Duas de mar





O mesmo Atlântico em Dezembro

imagens de MSMS e Sky News
Fahrenheit 451

Às vezes, tudo é cinema.
Naquela manhã, do alto da chaminé industrial, chamei pelo telefone um velho amigo do complexo fabril.
Precisava de energia. Vi-o chegar, desgrenhado como sempre, gesticulando para a direita e para a esquerda enquanto falava ao telefone com alguém.
Era um peão, uns bons metros abaixo.
Depois, o meu telefone tocou. Que estava tudo arranjado, dizia-me com o braço livre a desenhar gestos no ar.
Quando desci, já ele se retirara.
Mas passados minutos, chegou outra personagem, impecável no seu fato vermelho de bombeiro, capacete anos 60, ao volante de um pequeno jipe que trazia atrelado um gerador, tudo vermelho. Reconheci-o de imediato, era Montag.



imagem do filme em
No correr do tempo



Objectos

Rijomax, o relógio. Informação aqui e aqui.

imagem da SIC