19/06/2004

Enquanto se aprova a constituição

E a ser verdade o que circula na imprensa, o Reino Unido faz tábua rasa de decisões judiciais dos competentes órgãos portugueses, informando que a pena aplicada a um dos habituais integrantes do lixo que costumam exportar, não se coaduna não sei com quê.
Pelo que, e repito, a ser verdade o que se diz, continua a fazer todo o sentido condenar aqui e expatriar depois. Brincamos à justiça.
Bem sei que o Reino Unido não é signatário dos Acordos de Schengen. Mas também sei da facilidade com que um passaporte ou documento de identificação comunitário transpõe uma fronteira dessas que se dizem quase eliminadas. Fará assim algum sentido falar em penas de expulsão do território nacional? Não andamos todos equivocados?
Enquanto isso, aprova-se uma constituição e o Reino Unido continua a encolher os ombros à costumeira e criminosa escória que a gente sabe.
Por falar nisso, e mais uma vez a ser verdade o que nos conta a imprensa, qual será a pena em que incorre um indivíduo que rouba uma ambulância em serviço de urgência?
Espero que eles se queixem se a polícia lhes bateu. Pode ser que isso acabe por ter boa publicidade. Se não vai a bem, pode ser que vá à mal.
Eu sei que ando com azia. Desculpem-me, meus caros.

18/06/2004

Sinais de perigo (II)



A verdade é que, à medida que as condições das estradas melhoraram, e melhoraram muito, à medida que os automóveis se tornaram mais seguros, e tornaram-se muito mais, aumentou a nossa sensação de segurança.
Para quem não tem o histórico dos automóveis com três velocidades, dos travões sem servo-freio, das direcções sem desmultiplicação e das estradas de maquedame ou apenas de terra batida e dos tapetes de alcatrão onde era necessária toda a cautela e um bom meio-metro de berma para que dois camiões se cruzasssem, para quem não tem essa experiência e nela não baseou a sua aprendizagem, é perfeitamente natural que o nível de confiança cega (todos nós temos um limite de confiança cega quando circulamos) seja alto.
É natural que habituado às vias actuais (ainda que algumas delas sejam ardilosas) não conte com uma curva de perfil transversal desadequado, não conte com um entroncamento mal sinalizado no final de uma recta larga e comprida, não se dê conta que num certo troço de auto-estrada, a visibilidade não se adequa à suposta velocidade de projecto.
Digamos que, inversamente mal comparado, se trata da ausência de necessidade que não contribui para o aguçar do engenho.
Tornaram-se os perigos menos evidentes? Creio que não.
Aumentou o limite da nossa confiança cega.
A confiança que nos permite descrever uma curva (excepto em algumas zonas do país) e esperar que não esteja um carro estacionado na via à saída da mesma.
A confiança que nos permite transpor uma lomba e esperar que não se encontre uma vala aberta a toda a largura da estrada.
Essa confiança tinha outrora um limite mais baixo. Na época do tomate (ainda acontece) não era raro tropeçar num reboque carregado deles à saída duma curva. Em dias de feira, poderia ser uma carro de parelha e um cão atrás. A certa hora do dia, um enxame de Faméis à saída de uma fábrica.
Para não falar de tapetes de alcatrão que terminavam de repente sem aviso. De estradas que passavam para dois terços da largura sem sinal e de muitas outras curiosidades, naturais ou não, que propiciavam o acidente ao mais incauto.
Nessa época estávamos equipados para enfrentar a coisa. Agora, aparentemente, não estamos.
Sinais de perigo



Se há coisas que nos parecem ser diferentes ontem e hoje, esta é para mim uma delas.
As minhas primeiras estradas foram tortuosas, difíceis de seguir. Não precisei que me apontassem os perigos para saber que eles lá estavam.
É claro que em alguns locais havia sinais de PERIGO DANGER. Quase sempre em curvas e contracurvas antes de atravessar alguma ribeira ou rio mais importante.
Mas nunca precisei que me dissessem que era proibido ultrapassar onde não devia, antes de lombas, de curvas sem visibilidade, de cruzamentos.
Sermpre me fez mais falta a sinalização provisória. Essa sim. Mesmo que não tenha acertado nas divisórias de betão com que alguém se divertiu a bloquear uma curva sem visibilidade, cortando a estrada em toda a largura, sem que o tivesse sinalizado.
Vivemos hoje um tempo diferente. É necessário assinalar perigos evidentes, talvez porque as cabeças andem cheias de coisas que só atrapalham.
Talvez porque tenhamos ensinado mal as gerações que vieram depois a andar na estrada.
Talvez isso aconteça porque poucos são os que têm os tais atavismos que só se ganham ao fim de três ou quatro gerações com um volante nas mãos.
Será que estas considerações, perto ou longe de valerem alguma coisa, não se aplicam também ao resto das coisas?
Dava a coisa pano para mangas, se fôssemos pelos caminhos da confiança e da visibilidade. Fica para outra altura.
Restos de traços


17/06/2004

Imprecisão

Acidente na E.N. 18 (Guarda ? Ervidel), em direcção ao Porto, junto ao Campo de Tiro de Alcochete.
Diria eu que é a 118, no sentido de quem vai para o Porto Alto.
É verdadeiramente impressionante a percentagem de erros neste tipo de informações.
Interessará assim tanto em que sentido se deu o acidente? Ou será que querem dizer que é depois do Campo de Tiro, para o lado do Porto Alto? Para quem vai do Montijo claro.
Ecos

Hoje, mais uns ecos de progresso no teletransporte.
Não consegui encontrar nada de substancial sobre a notícia em causa.
Sabe-se bem como certas notícias são difundidas. Se quem as transmite não tem a menor ideia do que está a dizer, é muito difícil separar o trigo do joio nas linhas assim lidas.
Uma coisa é certa. Damos passos, damos passos e um dia destes dias teremos uma revolução inimaginável mesmo para aqueles que se detiveram com estas ficções.

16/06/2004

As always (ainda as contas)

Confesso também que há uma coisa que sempre me diverte nestas alturas de fazer contas à vida, a bola pois.
É que não se aproveita uma.
Será que cada um diz o que lhe apetece?
Será mesmo verdade que os computadores só servem como máquinas de escrever?
Mas à mão também se fazem contas. Aprende-se lá para a escola primária.
São Pedro e os outros

Confesso que sempre ouvi com as orelhas à banda o tal argumento do acréscimo de turistas à conta do Euro 2004.
Haveriam de vir, como vieram, as equipas, os jornalistas, os adeptos.
Que isso tivesse algum impacto no tempo posterior, sempre duvidei.
A França tem mais visitas desde que organizou o Mundial de 98? A Holanda? A Bélgica? A Coreia do Sul? O Japão?
Se têm, qual foi o aumento?
Que se mostraria o país, isto e aquilo, as televisões...
Basta já ter visto reportagens em uns quantos canais de televisão de acontecimentos desportivos como este, para saber que tudo isso são quimeras.
Portanto, estava céptico quanto a esta capacidade atractiva do país e ao seu aumento por mor do torneio.
Mas esqueci-me deles.
De São Pedro e dos outros. Do nosso António (seja Fernão ou Fernando) e do Baptista.
Quis o primeiro, e é a ele que devemos o tempo que temos e não aos manda-chuvas, já toda a gente o sabe, que a temperatura subisse e se mantivesse alta pelo menos nos primeiros dias da coisa.
O segundo deu festa em Lisboa, com alguma porrada nos habituais suspeitos pelo meio, e o último decerto descarregará não alho-porro mas martelinhos de plástico nas cabeças já atordoadas dos nossos convidados, mesmo que os jogos no Porto não tenham um calendário favorável a essa coincidência.
Ora esta temperatura que vamos tendo em meados de Junho, não sendo inusual, é decerto surpreendente para quem nunca aqui pôs os pés.
Sabemos todos como certos povos se deliciam com os prazeres do sol.
Ao encontrarem um clima assim, na ponta de um voo charter de poucas centenas de euros e cerveja a preços de saldo (digo eu, que não sei os preços que agora se praticam) é possível que voltem.
Depois, lá vem a questão. Será que isso é bom para todos nós?

15/06/2004

As contas

Se uma vitória pode ser suficiente, também duas podem não chegar.
Depender dos outros, como sempre...
É a bola, pois.

14/06/2004

O ponto de vista do pedreiro

Divide-se essencialmente em duas categorias:
O ponto de vista de quem não consegue prever as consequências desta ou daquela solução mal engendrada e o ponto de vista de quem já não vai estar ali quando os defeitos se evidenciarem.
Entre uns e outros, há os mais propensos à argumentação. Uns convencidíssimos de que o interlocutor não percebe nada se desatarem a falar em prumos, em traços, em cimento branco e em roscones. Outros mais radicais, usam o lapidar então o senhor não vê que assim é que está bem?
Quase sempre se torna cansativo e pouco prometedor rebater a inexpugnável lógica com que nos esmagam.
Das duas uma, ou o paciente acaba por se render se não se julga à altura das sólidas razões aduzidas ou entra na lógica do faz-se isto e não discuta comigo.
Neste último caso, corre sérios riscos de enfrentar continuados resmungos e sorrisos trocistas, se a coisa não descambar para uma greve de zelo.
Eles é que sabem, eles é que sabem.
E ai daquele que tenha encolhido os ombros e mais tarde ouse chamá-los com um venha cá ver a merda que fez!
Que não, que não estava assim quando se acabaram os trabalhos. Irrebatível. De facto não estava.

13/06/2004

Europa

Como tudo na vida, a ideia de uma União Europeia é um cadinho de contradições.
A organização social dos homens é, aos olhos de um leigo, um processo demasiado complexo e cheio de incertezas, do qual se sabe apenas, e com o rigor possível, alguma coisa dos últimos dois mil anos.
Assistimos pelos relatos históricos a uma sedimentação de relações sociais com base num território, em ciclos de séculos.
Criar uma Europa Unida por decreto não será fácil. Deixar que ela se crie apenas pela mobilidade e pelas referências conjuntas dos cidadãos também não é garantido.
A questão da identidade é uma questão de escala.
À escala da aldeia, os da aldeia vizinha são forasteiros.
À escala da região, os da região ao lado têm outros costumes.
À escala dos países, os estrangeiros falam (ou não) outras línguas, comem outras coisas, manifestam-se de outro jeito.
Há ciclos de expansão de identidade e outros de recessão. Umas vezes defendemos a França, outras guerreamos os vizinhos do bairro.
Mas a Europa actual enquanto ensaia a moeda única, empurra petroleiros em risco de naufrágio, através de linhas de fronteira que ninguém distingue no mar.
Enquanto se comove com os atentados à sua civilização, degladiam-se os estados que a integram por protagonismos nesta ou naquela direcção.
Enquanto rasga estradas e vias férreas, preocupa-se com a excessiva atracção de alguns dos seus pólos.
Nada é garantido. A não ser que, em alguns séculos, uma realidade diferente terá lugar. Quanto tempo demorará, julgo que ninguém se atreve a palpitar.

12/06/2004

Leveza

Se a leveza é a das bandeiras que tremulam
Se o ânimo pode ser subido pelos golos
Juntemo-nos então ao espírito da coisa
E desagrademos assim hoje a gregos.

11/06/2004

Os ses na base da argumentação

Ainda devia estar fresco na memória. Mas já passaram três meses...
Os atentados terroristas em Madrid suscitaram, no plano político, as mais delirantes análises dos resultados eleitorais que se lhe seguiram.
Infelizmente, aqui, por razões diversas mas também trágicas, já vai sucedendo a especulação mirabolante, embora em pequena escala.
Em relação a Espanha, não houve dúvidas. Da esquerda à direita, todos se precipitaram a tirar conclusões impossíveis do desfasamento entre as últimas sondagens conhecidas e os resultados que se vieram a verificar.
A ninguém ocorreu que as sondagens pudessem estar muito longe da realidade.
Como tinham estado na última reeleição de Felipe Gonzalez.
Como estiveram aqui, por exemplo, nas últimas eleições autárquicas.
Em ambos os casos, não houve fenómenos de última hora que pudessem justificar tal afastamento.
Ouço hoje, ao serem mencionadas situações como a morte de Sá Carneiro e a sua repercussão nos resultados eleitorais, que as sondagens nessa época eram muito pouco fiáveis.
Tal como todas as outras ferramentas do dia a dia, de há vinte e quatro anos para cá, se verificou evolução. É natural que as sondagens hoje sejam mais precisas. Como natural é que, daqui a um quarto de século, se olhe com um sorriso para a forma como se fazem hoje.
Em relação às últimas legislativas em Espanha, sabe-se bem que muitas das análises que se ouviram sobre o assunto, cá e lá, mais não eram do que formas disfarçadas de se querer chegar a algum ponto político na argumentação.
De penalizar erros de primeira e de última hora, consoante o ponto de vista.
Um dado curioso, de que quase ninguém falou nessa altura porque não interessava, é o resultado das sondagens que apareceram já depois das urnas encerradas. Quase todos muito longe do alvo.
Tudo isto dá campo para muita opinião sobre os reflexos da trágica morte de Sousa Franco.
Quase todas elas baseadas em nada.
Pelo menos, ainda há quem face a esta situação, reconheça que não é capaz de se pronunciar sobre as eventuais modificações no voto por ela causadas.
Em muitos casos, o que se diz incapaz é o mais capaz de todos.
Veremos ainda se a questão se resume à atribuição do 24º mandato.

09/06/2004

Blogues e a vida lá fora

Interessa-me pouco a caracterização dos blogues. Como todas as caracterizações, será redutora quando fôr feita por alguém capaz para tal tarefa.
Assinei por baixo um post de JPT no Ma-Schamba aqui há uns tempos. Falava ele da possibilidade de se constituir um arquivo desta forma de escrita que surtou nos primeiros anos do séc. XXI.
Interessante seria por muitas razões.
Uma delas a de poder dispor de um outro instrumento além da imprensa para rever as actualidades desta época.
Aqui, pouco se falou de actualidades.
E é justamente por isso que saem estas linhas.
Em dias como o de hoje, em que os acontecimentos são marcantes e há abundância de referências cruzadas, surge uma dificuldade a mais para quem escreve sem atender ao momento.
Ter que o mencionar? Ter que dizer algo a propósito?
Faço-o quando sou impelido a isso. Nem sempre o sou.
Hoje, saíram-me curtas linhas.
Aprecio os que se detêm sobre os factos correntes e quase troco a leitura da imprensa pela de alguns blogues que a isso se dedicam.
Aprecio também os que o não fazem. Que mais ou menos poeticamente, mais ou menos racionalmente falam de coisas sem tempo.
Caracterizá-los não sei como se fará.
Mas que é pena deixar que desapareçam sem deixar rasto como fotografias que se abandonam ao sol, lá isso é.
A vida lá fora foi hoje ao ritmo de antanho. Sem energia, sem notícias, sem luz que não a do Sol.
Arruaça

Quando escrevi o último post, ainda não sabia da notícia do dia. Coisas de viver fora do mundo.
A arruaça é o que é. Nunca gostei de arruaças. Sejam elas promovidas por quem forem, da esquerda à direita.
E ainda dizem que o povo se transfigura ao volante.
A bandeira nacional



Na minha vida há duas bandeiras verde-rubras.
A primeira, desaparecida sabe-se lá por que artes, era aí de 1911.
Contava a história que tinha sido oferecida a um bisavô meu, consabido republicano, e era das primeiras confecções na forma actual.
Infelizmente perdida.
A segunda veio de onde tinha que vir, fazendo o trajecto inverso ao da glória.
Comprei-a na loja mais altaneira do Portugal continental. E lá veio, descendo a E.N. 339 pela serra abaixo, até ao Q.G..
Em dias de bandeira à futebol, está a bom recato. Não crê que a Pátria dependa de cinco ou seis pontapés numa bola. Envergonha-se. Não quer sair para não ser confundida com a arruaça.
E até já me confessou: só se lembram de mim por causa disto?

08/06/2004

Pausa a preto e branco

Que já soam sirenes


Divergências

Eu nunca aprendo. Tens razão. Assim nunca aprendo.

#@!%!*£@!

É verdade, não aprendo mesmo.

#@!%!*£@!

Talvez se me dissesses onde eu me enganei...

#@!%!*£@!

Em que argumento está o erro. Que implicação é imprópria.

#@!%!*£@!

Se me ouvisses de novo, calmamente, e me mandasses parar onde achas que erro...

#@!%!*£@!

Pois é. Eu nunca aprendo. Assim não aprendo.
Atã, mas...



Pensava eu que se tratava de Vénus à frente do Sol, com todas as conotações que a coisa pode ter se se lhe juntar a palavra monte, quando afinal...
Eu sabia que devia ter ido hoje de manhã lá para a altura da Malhada, mas nunca previ tal coisa.
5 pesquisas 5 indagando sobre esta foto: OVNI, Alentejo, foto.
Das duas, três. Eu não me admiro que a maior parte das pessoas não tenha identificado o ponto à frente do Sol. Dizem que é Vénus, mas nunca se sabe... Agora, e se os moços lá dos espaços lhes deu para aproveitar e se puseram disfarçados à frente do sol a ver se passava...
Esta foto eu garanto. Estava vento e fiquei até com a cabeça descoberta.
Mas afinal, aconteceu alguma coisa?
Em vez de bola, vai um ringue?


07/06/2004

Não olhem para o sol



Volta e meia, há destes avisos.
Não olhem para o sol, não façam isto e aquilo.
Eu fico de boca aberta. Bem, pode ser que batam na tecla por causa das crianças. Mas depois vem-me à cabeça a inevitável vontade de contrariar que os homens em tenra idade possuem. Será que repetir isto a torto e a direito não é contraproducente?
Quanto aos adultos, haverá alguém no seu estado normal de razão que se disponha a queimar a retina? Isso não faz parte de um certo instinto animal, com o qual já de crianças estamos equipados, independentemente da informação que possuímos?
Não haverá dados sobre o assunto? Quantos casos de cegueira se conhecem, causados por tal situação?
Valerá a pena tanta conversa?
Se vale, se realmente vale, então a evolução é um mito.
E, às vezes, face a certas campanhas e a certas afirmações é a conclusão a que chego.
Há gente que já não tem os pés assentes na terra. Isso será evolução ou será o quê?

Imagem em
Traços velhos


06/06/2004

Le jour J plus 21915

Hoje fiz uma coisa que é raro fazer. Pendurei-me na televisão e ali fiquei a ver as cerimónias.
Fiquei com a impressão de que bateram as de há dez anos.
Nesta coisa de comemorar as décadas, daqui a uma mais, já não haverá muitos sobreviventes.
Uma coisa que vi acontecer nas manhãs da Avenida da Liberdade, em onzes de Novembro sucessivos. Cada vez menos homens em sentido frente à estátua.
Compreende-se assim que estas comemorações tenham sido grandiosas.

Não enveredo por outras explicações mais complicadas.
Inúmeras considerações inúteis se poderiam fazer.
Mas a História, seja a história desta comemoração seja o do evento celebrado, não se justifica.
Acontece.
Iludidos andam aqueles que procuram justificações para tudo e para nada.

Na verdade, a única certeza que a História nos ensina, é que não há justificações para a História.
O que fez desencadear a guerra?
Uma coisa é certa. Não bastou um cabo austríaco para incendiar o mundo.

Talvez um dia quando o tal algoritmo evolucionista fôr descoberto e as condições iniciais se estabeleçam tal e qual, se saibam estas e outras respostas.
Até lá, é inútil tentar justificar a História. Mesmo esta que nos é coetânea.

05/06/2004

Em casa

Não me informei sobre a origem da expressão imortalizada em azulejo.
Os de língua inglesa também a usam, suponho que a nossa é uma tradução à letra. Não faço ideia.
Se fosse possível averiguar junto dos outros animais se este conceito também a eles se aplica, independentemente de ser uma planície, um lago, uma gruta, uma montanha, uma praia, um banco oceânico, talvez se conseguisse perceber mais sobre a fixação animal dos homens aos lugares...
Se... se... talvez... Surpreendo-me muitas vezes com a inutilidade de reflexões deste jaez que me passam pela cabeça.
Podia ser um pouco mais claro, meu caro? Ingleses, animais, azulejo, lugares... está a falar de quê?
Home, sweet home - será isso?
Bem, a verdade é que hoje li algo que me transportou de novo para...
Para a janela dos pardais? Para o muro de cem anos?
Para o meu lugar. Se não é o lugar de um homem a casa onde viveu grande parte da sua vida, onde deixou a marca de água nas madeiras, nos rebocos, nas árvores, aquele casmineiro não terá nascido da insistência em enterrar caroços?
Começou o verão, falta-te o muro e o azul, pardais madrugadores e folhas de nespereira.
Começou o verão do sol, que o oficial é só daqui a dias.

04/06/2004

A propósito de verões, ozono, mulheres e médicos

É sabido que em 1993 se verificaram os mais baixos níveis de ozono estratosférico registados sistematicamente.
O abaixo assinado não contava até então nos seus próprios registos uma que fosse queimadela do sol.
Numa tarde desse ano, e por circunstâncias que não vêm ao caso, descuidou-se.
Não se queimou muito mas ficou com aquela picadinha irritante debaixo da pele. E um bocadinho abananado.
Ao fim de um dia de férias estragado, lá se dispôs, cabisbaixo, a enfrentar a fila do Centro Médico. As mulheres acham sempre que os homens se deixam abater mais do que a conta.
Depois de uma horita de espera, lá se abre a porta amarela. O próximo.
"Então, c....., o que é que fazes aqui?"
Quando saí, risonho e triunfante e no vê lá tu quem é que estava a dar consulta, nem a cara dela me fez parar a pequena resenha das aventuras dos anos de Lisboa.
Já na farmácia, para o avio, é que me dei conta que elas às vezes podem ter razão.

02/06/2004

Ciência e cepticismo

Uma das coisas que me põe os cabelos em pé, em se tratando de ciência, é a desabrida conclusão do "nothing happened" face à igualmente desabrida inquietação dos especuladores.
Quando acontece qualquer coisa que não é fácil de entender, como o caso dos avistamentos de ontem, é sabido que as hostes do sensacionalismo e de outros ismos fazem uma festa.
Mas o que me choca é que face à onda de disparates que rapidamente se propaga, se assista a uma reacção supostamente científica de tentar explicar de imediato e de qualquer forma o que sucedeu.
As explicações como facilmente se percebe são meras efabulações. Muitas delas encerrando o próprio contraditório e pouco ajustadas aos relatos e às observações dos aparelhos.
Esta pressa da ciência em se querer equiparar à especulação em nada a ilustra.
Ainda estou à espera de saber o que aconteceu no verão de 1979. Que comparando com ontem foi um fenómeno de muito maior visibilidade.
Desanuviando



Foto de MSMS
Ah, pois!

Não sou, nunca fui adepto desta expressão.
Mas é o que me apetece dizer às vezes.
Há umas quantas situações para as quais não fui construído.
Uma delas é enfrentar alguém que nos julga completamente idiotas.
Isso pode suceder face a um vendedor de qualquer coisa, pode suceder com um comprador que se julga de olho vivo, pode suceder com um conhecido que nos aborda a propósito de qualquer coisa, tendo em mente outra diferente e que pensa que nos enrola.
E pode suceder em muitas outras circunstâncias.
As pessoas que assim agem, têm-se em tão alta conta que nem sequer se apercebem das suas muitas limitações. Geralmente, dá bota o discurso que preparam ou que lhes sai torrencialmente.
Não sei se sou muito desconfiado, não sei se é por ser alentejano
A verdade é que a tentação vai logo no sentido de uns quantos enfastiados "Ah, pois!" que lá consigo evitar à última hora.
Reajo mal ao comprador que desfaz quando não é meu hábito valorizar o que vendo. Faça o favor de inspeccionar o material, o preço é xis. Quer, quer, não quer, fica para a próxima.
O mesmo na situação inversa. Talvez a minha costela de regateio esteja hipotrofiada. Deve ser isso.
Mas o que mais me incomoda, e isso incomoda-me mesmo, é aquela coisa de conversa mole a propósito dos astros quando se está a ver que o objectivo é outro e parece que nos andam a sondar.
Não tenho mesmo poder de encaixe para isso.
Com este, já são dois posts de indignação. Nada a ver com a vida virtual. Mas com tudo a ver com o que se passa fora das quatro linhas do monitor.

O "Ah, pois!" de que eu gostava era dito por um velho amigo à passagem dos tais exemplares femininos. E a entoação era outra, muito diferente.

Desabafos, pois.

01/06/2004

Condutas

Quer a gente queira quer não, ética e moral a cada um a sua.
Talvez apenas por não ser homem de fé, sempre desconfiei dos excessivos ordenamentos sobre uma e outra.
Claro que são essenciais. Essenciais na medida em que do ponto de vista histórico, chegámos onde chegámos mercê de imposições que os homens atribuíram aos deuses.
Mostrando assim que o castigo é certo.
Mais do que as leis dos homens, as leis e os castigos divinos amedrontaram muita gente.
Vá-se lá demonstrar que assim foi. Mas descansa-nos pensar que sim. Como se isso agora fosse importante.
Não creio que seja muito difícil aceitar que o homem mais do que à justeza das leis, reage ao risco do castigo.
Se não crê que haja castigo divino, apenas teme o castigo dos outros homens.
O que não invalida que não construa a sua própria ética, a sua própria moral, provavelmente a partir de um base atávica fundada na religião dos seus antepassados.
Anda assim entre os limites auto-impostos e as barreiras que a sociedade lhe impõe, quer estes intervalos coincidam (o que é muito pouco provável) ou não.
De outro ponto de vista, há os que acreditam na bondade dos homens e os que não.
No meu caso, considero apenas que os homens são máquinas que lutam para sobreviver e para se reproduzir e que nada de bom ou de mau há à partida nelas.
Aceito isso dessa forma e sendo eu uma máquina igual, luto também pelo mesmo. Só isso.
Todas as minhas decisões se subordinam a esses dois princípios. Disso me convenço.

Optei por manter um certo grau de anonimato neste blogue.
Não tenho nada contra nem a favor de quem optou por se identificar.
Cada um sabe de si.
A decisão que tomei, subordinada ao que acabei de dizer sobre a espécie humana, vá-se lá saber como é que se formou.
Mas formou-se tendo como pano de fundo a ideia de que o anonimato não permite muita coisa. Não permite crítica directa, não permite apreciações específicas e também não deve albergar grandes encómios.
O que é uma limitação que não me importo de me impor, tendo em conta certo número de vantagens.
Entre essas vantagens inclui-se a baixa probabilidade de sofrer ataques pessoais.
Não é que os tema, mas aborrecem-me. E não escrevo aqui para me aborrecer.
Em boa verdade, não serei dos que mais inimigos de estimação fomentaram. Mas toda a gente os tem. Se me perguntarem quem são, não saberei identificá-los. Será falsa modéstia? Não sei.
Perdoem-me desde já todos os meus leitores.
Todos eles, sem uma única excepção, de uma elevada atitude quando por aqui deixam a sua achega, concordante ou discordante. Não tenho por isso a mínima razão de queixa e talvez soe a despropósito este texto.
Mas aceito mal ataques que vi nos últimos dias e que tenho visto ao longo do tempo, a pessoas que considero neste universo blogueiro.
Ataques cobardes, anónimos (o anonimato dos cobardes não deve, não pode diminuir a todos os que o escolhem) e pessoais.
Pessoais porque se dirigem só à pessoa que escreve e nada ao que está escrito.
Não quero dar lições a ninguém e nunca tive o sonho de mudar o mundo. Aceito as coisas como são. Há pessoas que para sobreviver precisam de ter uma ética muito própria, que repugna à maioria.
A mim, repugna-me. Mas tenho que viver com isso.
E porque tenho que viver com isso, decidi pelo anonimato.
Mais uma vez, peço desculpas aos meus leitores.
Vós não mereceis que estas linhas aqui saiam. Mas também não é a vós que me dirijo.
Hoje escrevo para quem me não lê. E ainda bem.

31/05/2004

Objectos únicos



Anteontem à noite, Peter Gabriel trouxe-me à memória uma presente de aniversário recebido há umas décadas.
Trata-se do LP Peter Gabriel 2. O exemplar que me ofereceram é feito a partir de massa preta e branca.
Um LP raiado. Haverá outros de outras edições de outros autores. O meu, ao que me disseram na época, é unzinho e foi feito de propósito.

30/05/2004

Aberto o concurso

Declaro aberto o concurso público para a atribuição do meu voto nas eleições europeias de 13 de Junho de 2004.
Serão admitidos a concurso todos os candidatos enquadrados em listas de acordo com a Lei em vigor.
Serão excluídos todos aqueles que não consigam entender a diferença entre acesso(s) e acessibilidade.
Não terão acessibilidade é o que é.
Os cheiros do verão

Este ano está chocho. Estamos aqui, estamos em Junho e nada.
Talvez eu cometa um erro ao afirmar que os aromas do verão me marcam mais do que os de outras estações do ano.
Muita gente cita os dos primavera.
Mas a verdade é que guardo na memória uma colecção de perfumes estivais.
Uns mais naturais do que outros.
As praias têm cheiro. Cada uma o seu.
Os carros cheiram a quente.
Os montados cheiram a cortiça.
Os caminhos cheiram a pó.
Mas este ano está chocho. Muito chocho.
Mudem lá isso para o verão.

28/05/2004

Isossistas da comoção



Tomemos como exemplo o terramoto de 1755. Ainda hoje se tentam reconstituir as isossistas desse dia. Quantos abalos houve? Centrados onde?
As fontes são inúmeras, toda a gente o sabe. Um fenómeno natural que para a época quase anunciava o fim de l'Ancien Régime.
Mas são pouco esclarecedoras. Não fosse a colecção de registos do Inquérito às Paróquias e outros documentos de acervos locais, o quadro da desgraça não seria tão conhecido.

Suponhamos agora que a comoção é uma grandeza escalar. Sem grande rigor, uma Mercali das sensações.
Suponhamos também que a importância de um acontecimento mortífero é uma grandeza escalar, directamente proporcional ao número de mortes.
Sabendo que um acontecimento deste tipo pode consensualmente ocorrer num intervalo de tempo mais ou menos extenso, quer de trate duma guerra, duma peste, dum furacão, dum terramoto, de um acidente causado pelo homem, suponhamos que é possível relacionar directamente um certo número de mortes com o sucedido.

Atrevamo-nos a dizer que existe uma relação linear ou não, entre a importância de um acontecimento deste tipo e a comoção por ele provocada em grupos humanos.
Se existe essa relação e se tanto a importância do acontecimento como a comoção geradas podem ser medidas, por serem grandezas escalares, poder-se-á decerto mapeá-las.
A um acontecimento produzido no local L, de importância I, corresponderá, em certo instante pertencente ou não ao intervalo da sua duração, um conjunto de isossistas (chamemos-lhe assim) passando por grupos humanos sujeitos a uma comoção de igual grandeza.

Suponhamos que tudo isto é possível.
Que surpresas nos guardariam os mapas de alguns dos acontecimentos recentes?
Que factores se teriam de levar em conta para explicar o desenho das curvas?

27/05/2004

Subtis, o cacete...

Eu sempre tive a impressão que batatas com bacalhau não era a mesma coisa que bacalhau com batatas.
Acho que não foi na escola, não foi em casa. Foi algures no mundo que aprendi ou que ganhei essa impressão.
Mas vejo essa diferença ser hoje ignorada. Da mesma forma que não há mestres de cantaria, entalhadores artistas e outros profissionais do milímetro, as subtis diferenças também se foram.
Nem em tudo, é claro.
Mas dir-se-ia que no geral, para quem é, bacalhau basta! Ou serão só as batatas?

26/05/2004

Pistas

Aquele era o sítio.
Pequeno por dentro, grande por fora.
Música que se amaciava dos decibéis a mais, à medida que caminhava na direcção da praia.
Escadarias, pequenos recantos, a lua por acaso cheia.
Olhava o rosto dela a essa luz.
Não sabia muito bem que rótulo lhe apor. Segunda escolha?
Segunda escolha decerto não naquele dia. Naquele dia não. Olhara para ela com outros olhos.
Um rosto que ele supunha não voltar a ver. Ofuscado que estivera sempre pelo sorriso de uma estranha presença.
Não. Segunda escolha não. O que seria feito da pequena princesa atormentada que surgia sempre do nada?
Essa sim, essa não apareceria mais.
Não ofuscaria o brilho ligeiramante estrábico daqueles olhos. Não. Não viria.
De repente, o remorso. Porquê? Por que carga d'água nunca reparara a sério naquela face?
A música apenas se misturava com o som do mar. Com as palavras pouco mais do que ciciadas que ela pronunciava.
Teria reparado outrora? Seria por isso que a sentara no banco das suplentes?
Não. Agora, o banco era de tijolo, muro acabado a tartaruga. Tudo branco. Branco brilhante nos contornos da íris castanha. Pequena divergência.
Suave a pele, tão suave. Morena. E serenas as palavras, sempre serenas.
Não mais procurou fosse quem fosse. Apenas um ou dois copos apanhados no bar, à revelia da comitiva. Aquele rosto não fazia parte do catálogo que os outros lhe atribuíam.
E ninguém mais se acercou da pequena plataforma sobre a praia.


Caminhou lado a lado com a inevitável companhia mais uma vez.
No terraço, seguiu o mesmo caminho.
Quando reparou que ela se encostava ao mesmo muro, da mesma forma, voltou a lembrar-se da segunda escolha.
Depois, ela tocou em qualquer coisa que estava no chão.
"Olha lá, onde é que te meteste ontem à noite?"

Dançaram como sempre. As mesmas músicas.
Ao fim da noite, discretamente, voltou ao recanto e roubou do chão o copo da véspera.

25/05/2004

Sob estes olhos

Vento do deserto
E mar suado.
Na costa dos Esqueletos
Aportei.
St. Exupéri caiu mais a norte,
Mas não tenho bússola
Que me desdiga.
Há um rosto na praia
Entre barcos em ruínas.
No olhar, pistas, rumos,
Travessias.
Farol falso de contrabandistas
E piratas.
Travessias dos desertos
Ou morrer na praia
Sob estes olhos?

SG, inéditos, 1998

24/05/2004

Pantalássico

Estatísticas, registos, anotações.
Eu sempre fui mais pelos sítios onde ousava abandonar o estado de vigília. Uma espécie de mapa dos locais seguros para baixar a guarda.
R.C. ao contrário, anotava as bacias hidrográficas onde vertia águas. Tinha o objectivo último de ser pantalássico. Contribuir para a massa de todos os oceanos, sendo que todos são um.
Soube disto num cais qualquer do Sena.
Faltou então o terceiro português para completar o provérbio.



Foto de MSMS
Os habituais disparates

Nada disto é, mais uma vez, novo.
Gosto pouco de falar de actualidades, mas há algo recorrente nestas coisas que, aparentemente, não é visto, não é assinalado.
Falo do colapso da estrutura de betão do aeroporto de Roissy.
Há qualquer fenómeno na nossa sociedade, decerto já estudado por alguns, que parece dividir os cidadãos entre os filhos da filosofia grega e os repetidores de argumentos sem sentido.
Uns dirão que é a massificação da comunicação, outros que sempre assim foi e que o que essa massificação faz é não difundir o erro mas ampliá-lo. Sendo coisas diferentes.
Dou de barato que o racionalismo não é tudo na vida. Já aqui o disse por mais de uma vez. Mas continuo convencido de que, tenha ele as bases onde as tiver, falte-lhe a consistência e os dados que lhe faltarem, nos trouxe até ao patamar em que estamos.
E que é difícil (só difícil?) discutir seja o que fôr sem usar lógica. Depois, até podemos discutir (?) a discussão em si, a sua validade, por aí fora...
Retomando.
Independentemente da minha falta de informação, pois apenas disponho dos dados que obtive nas televisões e nos jornais, parto do seguinte conjunto de informações:
Existia uma estrutura em betão do tipo túnel com janelas, em que assentava uma outra estrutura metálica de suporte a vidraças.
Essa estrutura colapsou depois de fissurar.
Suponho (com algumas dúvidas) que o troço que colapsou era idêntico aos adjacentes.
A estrutura estava ao serviço há cerca de um ano.
Ouço depois as habituais lengalengas:
Que a estrutura foi feita à pressa.
Que a data da inauguração prevista foi postergada por mor da falta de condutas secas (?) para os bombeiros, de sinalização e ainda por ter caído um candeeiro.
E que durante a obra, as falhas de segurança do estaleiro eram evidentes.
Isso foi o que ouvi e que li.
Ora isto leva-nos onde?
Leva-nos a um primeiro ponto que é recorrente e esclarecedor: quando acontecem coisas destas, há sempre um sem número de factores irrelevantes mas supostamente negativos que nos é apresentado como decisivo - a falta de sinais, a falta de condutas, o candeeiro caído e a insegurança do estaleiro. Faltou dizer que o engenheiro chefe usava sempre uma camisa negra e que as garrafas de água bebidas pelos operários eram de duvidosa proveniência.
É com esta espécie de argumentação que se pretende explicar o sucedido.
E leva-nos mais longe, leva-nos a ignorar que quando colapsa uma estrutura destas, uma de três coisas deve ter acontecido: ou foi mal calculada, ou foi mal executada ou foi sujeita a esforços para os quais não estava dimensionada.
Dando de barato que não houve um sismo de grande magnitude em Roissy ontem de manhã, que nenhuma aeronave colidiu com o terminal e que não se procedeu a uma demolição propositada da estrutura, podemos eliminar a terceira hipótese.
Ficamos com o erro de projecto ou com má execução.
Aqui faz algum sentido apanhar o sentido das frases soltas que se ouviram - foi tudo feito à pressa!
Ah, pois foi! E não é isso o que sucede hoje em dia em todo e qualquer lado? Que obra pública ou privada se faz hoje sem que haja uma correria desenfreada contra o tempo?
A frase ridícula de alguém que dizia que agora pensava duas vezes antes de entrar num aeroporto poderá ter sido dita por quem reside num edifício construído à pressa, por quem transita por vias feitas à pressa, por quem assiste a jogos de futebol em estádios feitos à pressa...
Tudo se faz a correr. É o sinal dos tempos. Não adianta berrar a torto e a direito, porque quem decidiu isso fomos todos nós. Todos queremos mais produtividade, mais riqueza criada pelas nossas mãos, mais dinheiro ao fim do mês.
Às vezes pagamos caro por isso.
Ainda se há-de descobrir o que aconteceu. Mas de certeza que não foi por não haver sinalização, condutas ou pela cor da camisa do engenheiro responsável que a coisa se deu.

23/05/2004

Z - À falta de material



Podem, sim. A gente tem pressa no trabalho feito.
E depois, como é que fazemos? Para fechar as portas, essas coisas...
Ah, não se preocupem, o guarda há-de vir aqui. Depois, avisam-no quando saírem...

E assim foi, a tarde caiu. A noite fechou-se, os holofotes lá apontavam para as reparações que iam sendo feitas.
O cansaço acumulava-se, até porque a semana já tinha incorporado outras noitadas.

Ô. Ô. Ô. - era assim a modos que um grito. Uma vaia sem vocativo.
A parte da nave industrial que os holofotes não cobriam apenas tinha aqui e ali um ténue brilho de reflexão. Parda.
Do meio disso, surgiu a figura. Baixa, com uns óculos de massa e um boné de orelhas, que o frio apertava. Não para eles que trabalhavam para aquecer. Um cão pouco mais que minúsculo, acompanhava as botas que podiam ser de elástico. E levantava, orgulhoso ou requerente, o focinho.

Não esperavam já guarda nenhum. Eram quase três da manhã e ainda havia muito para fazer.
A figura surpreendeu-os, de facto.

Então, aqui andam, a trabalhar...
É verdade.
Não me disseram nada.
Não?
Não. Ninguém me disse que vocês aqui estavam. Até podia ter trazido o cão. Ou a arma. Mas nunca solto aquela fera. E não gosto de apontar uma arma a um homem, atão e agora?
Quer dizer que estávamos sujeitos a ataque?
Ladrões... ladrões... atão veja lá. Ninguém me disse nada. Eu é que não quis trazer a arma. Nem o cão.
Pois é, a gente disse ao seu patrão que ia ficar. Ele disse que o avisava.
Mas estão a trabalhar... Se vocês soubessem como os outros aqui penaram... à falta de material. Eles bem queriam trabalhar, ficavam aqui também à noite, mas... à falta de material, o que eles aqui penaram... Vocês têm tudo o que precisam? Não lhes vai acontecer como aos outros, à falta de material...?
Não. Esteja descansado. Não será à falta de material...
Mas está frio! Não têm frio?
Frio? Há lá frio que entre com a gente, homem! Estamos a trabalhar.
Pois eu tenho. Tenho que andar de um lado para o outro. Mas não trouxe o cão. Vocês sabem lá do que aquilo é capaz. Este não. Este coitado. Agora a fera... nem lhe abro a porta do canil. É perigoso. E também não sou homem para apontar uma arma a outro homem, atão e agora?... Mas não me disseram nada...
Pois é, esqueceram-se.
Não lhes disseram para irem ter comigo? É que eu nunca aponto uma arma a outro homem, atão e agora... Também nunca quis conhecer outro homem, atão e agora? Mulheres? Mulheres, já conheci muitas. Agora outro homem, nunca quis conhecer nenhum... atão e agora?
Pois é, faz bem.

Amigo, vamos embora.
Tá tudo pronto?
Tá. Se a coisa correr bem, só voltamos para a semana.
Ah sim? Atão e o que é que pode correr mal?
Pode acontecer que ainda haja chochos para preencher. Só depois do material secar, é que se vê.
Ah sim?
É. Por agora, parece bom. Mas daqui a umas horas, pode ser que apareçam pequenos orifícios, coisa pouca.
Atão e eu não posso ver isso?
Pode. Você é capaz de dar uma vista de olhos e ver se está tudo na mesma? Venha cá que eu explico-lhe o que é que pode acontecer...

Teja descansado. Daqui a umas duas horas, ligue-me.
Tá certo.
Sabe o número?
Então não é o número aqui da fábrica?
É. Mas você faz o seguinte: Dá-me uma letra. Por exemplo Z. Liga e diz Z. Não diz mais nada. Assim eu já sei que é você e digo logo: Sem novidade!

22/05/2004

Curiociosidades

Se o tabaco prejudica a saúde, e poucos ou nenhuns duvidam que assim seja, porque é que, do ponto de vista do coleccionador, se podem encontrar actualmente 28 diferentes embalagens do tradicional SG Filtro?
O mesmo se aplicará, suponho, a todas as outras marcas e modelos.
São duas mensagens diferentes de um dos lados do maço e catorze (ou quatorze) do outro.
Se alguém descobriu mais, faça o favor de dizer.

21/05/2004

Os dinheiros



Que a política é um exercício de prestidigitação parece não restarem grandes dúvidas.
Depois dos tempos da força bruta, da repressão, disto e daquilo, chegamos à idade da representação.
Os actores são quase todos maus. Os lado esquerdo e os do lado direito do palco. Eles lá se colocaram nessas posições relativas, muitas vezes sem perceberem como nem porquê.
O público é o que é.
Uns batem palmas, outros assobiam, alguns pateiam, poucos atiram ovos.
Os actores falam entre si num dialecto estranho. Ninguém os entende. Nem os esclarecidos sentados nos fauteuils de orquestra, nem os deserdados das galerias.
Julgam convencer a audiência de que quem pagou o palco, as vestes, a música, não se encontra ali. Na realidade o dinheiro dos bilhetes foi muito bem empregue. Todo para instituições sociais.

Saindo da sala, depois do espectáculo, ainda ressoam as palavras.
O dinheirinho com que se faz a festa não é vosso. Caiu do céu.

Porque é que será que o dinheiro esbanjado pelas câmaras municipais, pelas empresas públicas e por outras entidades que sobrevivem com o dinheiro que alguns de nós entregam aos cofres do estado, teima em não dizer de onde vem?

20/05/2004

Pedido de desculpas



Já com mais de trinta anos de atraso, mas lá vai.
Minha senhora:
Apesar dos boatos que fizemos correr em devido tempo, mercê das nossas técnicas de telefonia baseadas na ampliação jornalística propriamente dita. Sim, era com jornais em forma de cone que amplificávamos os nossos comunicados marginais. Sim, marginais, porque o fazíamos quase sempre na estrada da praia. Mas digo, apesar disso nunca foi proibido fazer curoché na praia. Muito o menos o foi na esplanada do Habimar, embora saibamos todos que não era do agrado da gerência.
Foi assim em vão o seu receio, em boa hora transmitido a suas amigas e depois segredado aos nossos ouvidos cúmplices. Cúmplices e autores desse falso alarme.
Previsão e prevenção



J. teve sempre uma capacidade de previsão acima da média.
Não se tratava de previsões económicas, meteorológicas ou dos habituais prognósticos da bola, tratava-se de dormir descansado.
E suportava até ao limite a irritação dos outros, como bom condutor de homens quando tinha a certeza de que estava certo.
Como daquela vez em que, de férias, com o irmão e com o melhor amigo, os fez dar voltas e voltas até estacionar o carro junto a um prédio em obras.
Aqui poderemos dormir descansados.
Os outros já quase nem respondiam, mas ainda sorriram e largaram um desconfiado huuum, ao pé de uma obra....
Que não, que era domingo e que o sol só bateria por ali, lá para a tarde. Longe da estrada, sem ruído. E assim foi, só acordaram quando as costas já não podiam mais.
Estava tão treinado nas situações, mesmo a escolher os lugares para pernoita ao relento, que qualquer sinal que lhe indicasse a perturbação do descanso era identificado e analizado. Deixassem-no dormir em paz.
De vez em quando cometia imprudências. Poucas é certo. Mas houve aquela vez em que alugou a costumeira casa algarvia pelo telefone e ao chegar avisou logo a mulher: Amanhã vamos à procura de uma casa em Espanha. Depois virou o olhar para a betoneira escondida atrás das figueiras.
Havia ainda a recordação mais remota de um Domingo de Ramos na velha cidade forte e fria (os outros efes que se acusem...) quando os pais lhe destinaram um quarto ao lado dos sinos da Igreja da Misericórdia.
Hoje J. telefonou-me.
Acordou com berbequins, rebarbadoras, martelos eléctricos ao lado da cama. Está pois à beira sabem todos do quê...

19/05/2004

O clima está a diminuir

Há uns anos esta manchete apareceu num jornal.
Não se tratava de climinha. Ou de qualquer liberdade poética. Era o clima mesmo.
Agora, ficamos a saber que um terço da costa portuguesa está a ser destruída.
Eu cá estou em dificuldades para enquadrar estas duas afirmações.
Ainda não percebi se são contraditórias, se são relacionadas do tipo causa-efeito ou vice-versa.
Mas confesso que me preocupo.
A costa a ser destruída sem que eu veja por lá as bondosas, as catrapilas, dá-me que pensar.
Quem andará a fazer tal maldade?

Falando a sério.
A linha de costa está a recuar? Receio que haja pouco a fazer nesse capítulo.
Estas coisas não se medem aos palmos, nem em séculos.
Avanços e recuos acontecem. É natural que as barragens impeçam os depósitos sedimentares nas zonas estuárias, é natural que o aproveitamento das areias favoreça o avanço das águas.
Mas o problema está muito acima desses aspectos. São ciclos de uma grandeza que nos escapa e forças a que não nos podemos opôr com eficácia.
Podemos fazer alguma coisinha? Ah sim. Os holandeses fazem-no há muito. Mas nem sempre as coisas são parelhas aqui e ali.
E não ajuda nada ouvir tanto disparate a propósito. Mas isso também é habitual. Forças cuja grandeza nos impede de as combater.
Há os revoltados. Ainda os hei-de ouvir clamar contra os movimentos tectónicos e a deriva dos continentes. Talvez reivindiquem indemnizações por nos terem separado da América. Ou talvez não.



A imagem ilustrativa é do IM e apenas nos diz que os deuses parecem ter identificado os dois pólos do nosso país. Não bradem muito alto que eles andem aí.
Ah, e a importância relativa de cada um... será que os deuses vão à bola connosco?

18/05/2004

Concessão ao basquetebol



Vinte anos depois, o caneco tá à mão. Falta dobrar o FCP.
Cães metálicos

Cães metálicos
Esculpidos por romenos
Bailam em telhados
Que são varandas
Sobre cores
Cães metálicos
E negros
Juntos em matilha
Tragam cobras
Que lhes disputam
A língua
Cães metálicos
E romenos
Em pedestais de prata
Sobre que cores
Mar de morte
De cães e víboras
De raiva e esgana
Cães metálicos
De cuspo vivo
Nas mandíbulas
Cães rosnando em ferro
Sobre estátuas



SG, inéditos, 1998
As revistas da minha sogra



O habitual portinhol com las chicas de la tuna.
Pouco antes fora a velha que pedia cocáculas e era aragonesa, não pensem.
Qualquer coisa como tiens la certeza que es esta la boîte?
Não me safo em castelhano.
Ela dizia que sim e ainda lamentava o reloj que tinha perdido algures.
O porteiro é que não estava de modas. Era uma festa privada. Não podia ser nada, mas não me peçam que retroverta a frase.
Qualquer coisa o fez mudar de ideias. Entrámos pois.
Estava farto de ver nas ruas os cartazes da peça em exibição en el Teatro del Mercado. Traduzi as fotos para a cena nacional, deviam ser os nomes que a gente sabe...
Como não sou muito de teatros, não conhecia os figurões.
Mas depois de descer a escada, já estava em casa.
Os cartazes todos ali em carne, osso e fato de noite. Um bocadinho para o sobrelotado, o porteiro lá sabia o que fazia.
Mas era ali a combinação. Lá estava o moço agarrado à sua espanhola, irmã da minha.
Bailámos, pois.
Na confusão das luzes, já foi tarde que o homem acordou:
Caramba, tenho que comprar as !Holas! todas no quiosque em frente à minha sogra!

imagem em

17/05/2004

Death toll

É o que faz separarmo-nos das raízes.
Viver num exílio anónimo de lugares para estacionar e compras de supermercado.
Nada de escolher a sombra do prédio em frente ou comprar alfaces no lugar da curva.
Nada de enfrentar a fila de cumprimentos para tomar posse de um café.
Nada de casas de tias, bolos na mesa.
Nada de tascas com facas cortando nacos de presunto e falando de porcos.
Quando o telefone toca, há sempre uma lista de mortos. Massacres gota-a-gota que nos chegam de enxurrada.
Aprendendo



Dizem que os cheiros despoletam recordações. Claro.
Também as visões, os sons, os paladares. Talvez o tacto seja o parente pobre. Talvez não. A pele transporta-nos às vezes lá para trás.
Mas os cheiros, sim. Claro.
Anos a fio, aquele perfume das areias. Eu sabia-o. Pressentia-o, sempre naquele local. Talvez que em outros também assim fosse. Mas só ali me envolvia, como desenho animado transportado numa nuvem de aromas.
E sempre às escuras, sempre nada sabendo. Apenas envolvido no aroma, como se fosse parte indefinida e indefinível do local.
O segredo só foi quebrado décadas depois do primeiro contacto.
Tinhas que ter a mania das plantas, tinhas que me obrigar a parar no Caramulo, em Moncorvo, em Monchique, em Brinches, no Cercal, em Vila Franca das Naves ou no Beliche.
Naquele dia, tive que ficar com os pés a escaldar na areia quente. Mas valeu a pena.
Ainda não sei como se chama a plantinha.

16/05/2004

Sobressalto

Ia embicado às bóias, bolas, postais e jornais estrangeiros.
Como sempre, na avidez do jornal de sábado, último hábito informativo que se permitia em férias.
O companheiro de ressaca ia calado, talvez magicando numa solução frugal para o jantar. Caldeira ainda quente.
Quando a voz chamou, os dois pararam e entreolharam-se, tentando reconhecer quem chamava e a qual deles.
É a ti - disse o companheiro.
Eh lá! Uma gaiatona. O que é que ela quererá?
Tem juízo, pá. Não vês que é uma miúda? Para aí com uns treze anos!
Atravessou a estrada na direcção da carrinha. Agora via que era uma miúda novinha. Uma carinha encantadora e sorridente.
Então quando é que volta a cantar lá no bar?
Hmmmmm. Lá no bar?
Sim, naquele da piscina. Gostei muito de o ouvir.
Ah, obrigado. Pois é, um dia destes... quem sabe?
Vá. Vá, que eu gostei de o ouvir e aos seus amigos.
Obrigado.

Olha lá, Zé, tu deste por mais alguém lá no bar ontem à noite?
Eu? Achas que sim? A gente até perdeu o outro no caminho...
É que a miúda diz que gostou de me ouvir...

Olha lá, o teu tio nunca teve uma Peugeot 504? Aqui há uns vinte anos?
Não.
Nunca andaste numa nesses anos de Algarve? Ninguém conhecido que tivesse uma?
Não me lembro. Acho que não.
E a um bar onde havia fado vadio, junto a uma piscina? Nunca foste?
Não. Porquê?
Por nada. Vamos dormir. É quase dia.

15/05/2004

Posto público



A cabina ficava dentro do café.
Ali esteve séculos de madeira.
Negócios de gado, telefone para o Sr. F., querem um carro de praça. Não, não está aqui. Deixe estar que eu logo lhe digo.
E lá tinha a lista, a de papel, manuseada, e a de madeira, graffiti utiltários de esferográfica Bic. No fundo e dos lados, até na porta havia números escritos com e sem indicativo.
Um desses números quisera-o riscado, desentranhado dos veios da madeira. Era um número útil, de acesso a serviços.
Para mim, não.

14/05/2004

Burro velho

Um dos meus velhos e bons amigos dizia há tempo que o que mais o atormentava na velhice era perder a noção das proporções e o consequente sentido do ridículo.
Assino por baixo, quero dizer, também isso me aflige.
E outra coisa mais me aflige, é o facto de os burros velhos comprovadamente não aprenderem línguas.
Se um dia me sentei frente a uma máquina que me dizia C:> e lá lidei com ela depois de um primeiro esclarecimento, sem grandes sobressaltos, um dia virá (se viver até que venha) em que face a um signo qualquer ficarei à brocha.
Terei que delegar poderes, terei que me submeter à intermediação de alguém para satisfazer necessidades básicas. Perderei a tão cantada soberania.
Acontece a todos (este pensa que é só a ele...) bem sei.
Mas que diabo não consigo preocupar-me com a reforma (qual reforma?), com a bricolage, com a jardinagem, ainda me falta o filho e a árvore, a árvore não sei. Valem os caroços?
Com essas minudências, não consigo preocupar-me. Nem sequer em pagar a quota do lar aqui do burgo.
O pior é que o grilo falante de vez em quando vem-me com esta:
"Quando lá chegares, vais arrepender-te do descaso!"

13/05/2004

Palavras-passe

Palavraquenãopercebo.
Todo o universo de utilitários que solicita o nome do meu cão, o modelo do meu primeiro carro, a minha cor preferida ou outros dados pessoais e intransmissíveis, não faz mais do que mimar os velhos filmes que metem computadores, tragédias iminentes e a miraculosa descoberta do nome da sogra do cientista maluco.
Não percebo. Nunca percebi.
Desconfiamos todos hoje que esta coisa de passwords é quase inútil. Que já não se torna necessário o tal milagre no último segundo, sempre em números vermelhos e em formato rombóide, para arrombar as nossas seguranças.
Agora a história da password com o aniversário do casamento faz-me confusão.
Então não haverá forma de inventir passwords completamente independentes da biografia de cada um?
Será que as pessoas não são capazes de usar passwords completamente desligadas de episódios com significado?
Ninguém adopta um rosinhasdetoucar, um AstonMartinsDBXVIII, um mamutecahdecasa, um tromboneafinado sem que isso tenha a ver com qualquer coisa de marcante? Será caso?
Confesso que não percebo.

E fico-me com a passwordquenuncaesquecerei.

12/05/2004

Directamente das Palavras de SG

sem mais comentários



Pinguins de papo para o ar em pleno Mar Báltico

Charge ? grito lancinante de um dos primeiros centuriões a chegar perto do cosseno ribeirinho, constatando que o decrépito olival já não pertencia a seu tio e que a ignorância dos cabelos era maior em cima do convento do que na própria azinhaga fatal.
Bolbo raquidiano é uma porção de sentinelas alcoolizados dentro de um balde de potassa, atendendo a que os olhos dela só me vêem a mim na banda permitida que vai de 4000 Å a 7000 Å, não esquecendo que um chapéu de chuva ao sol pode ficar retemperado com dietas lá na Áustria tirolesa.
A simultaneidade de critérios em casa do café não passa por uma homeostasia límpida em quatro sectores já que Decimal, o Verdugo, não se mostra condescendente com as atitudes mais ou menos vegetais da filha dos quintos logaritmos rurais e a potência do vassalo passa a assumir, a partir de certa ordem, valores incompatíveis com a sonorização da lira camoniana.
O cerne da questão passa, desta forma, a ser um celibatário não concorrente à eleição das misses do ano transacto, o que nos leva a pensar em termos de macrocefalia descritiva e geográfica, ou não fôssemos nós velhos barcarenos à procura da notícia podre do fim do dia Austral, quando as cabanas dos indígenas se revestem de tonalidades azuis-celestes e os pássaros emigrados reclamam por extenso, de cima dos fios de telefone.
A cidade perdida de Tuta-e-Meia terá sido sepultada por uma erupção do vulcão Stª Helena ou a possibilidade remota de a podermos avistar do Castelo dos Mouros assume já foros de verdadeira sensacionalidade?
Ao fim e ao cabo, prefiro o cabo.

SG, "Palavras de Dom Goda", 1980

Imagens sem fotógrafo

Já se pode ver a luz da meia-noite nestas magníficas câmaras de tráfego
Não é o caso aqui, que esta é do centro da Finlândia.


11/05/2004

As pontes de outro condado (I)

Fórmicas de várias cores, mesas de vidro. O básico café modernista.
Não se sabia se aqueles olhos mais antigos tinham pousado ali muitas décadas atrás, vindos das moradias da álea da estação.
Comboios a carvão.
Décadas de copos de vidro, chávenas de louça, colheres de alumínio e aço inox.
Estudantes, militares, esposas. Médicos e engenheiros.
O rapaz contara não mais que dez anos desde que estacionara a primeira vez ao lado da vitrina dos chocolates.
Namoros de olhos. Cervejas, aguardentes. Conversa de chacha.
A mulher pouco mais tempo contara desde que impressionara os circunstantes pela primeira vez. Ruidosa, cativante, desbocada, deslumbrante.
Falava, exaltava-se, ria, discutia.
O rapaz não lhe concedia mais atenção do que às outras peças do xadrez de mosaico hidraúlico.
Duas ou três vezes trocaram palavras. De uma das vezes, ela reclamou um cumprimento. De outra, contra-atacou um dos seus discursos de costumes.

O irmão, o colega do irmão e a namorada do colega do irmão assentavam arraiais pela noite fora, em sábados indistintos, discutindo o que apelidavam de geopolítica, uma espécie de Trivial Pursuit de medronhos, aguardentes de alfarroba, Jack Daniels e gin tónico.
E o colega do irmão que lhe contasse o que era feito da tal irmã, dele colega do irmão.
Pois é. O café fechou. Fechou, não. Acabou. Agora é uma tasca que parece um café. Espelhos, lindos mosaicos cerâmicos 30 x 30 daqueles riscadinhos. Listéis. Sim, foi o que me disse a vendedora na SIMAC. Balcão de painéis de vidro castanho, mais espelhos. Sandes diversas. Pipis. Nunca mais lá fui, o que é feito dela?

O café da bola. D' A Bola nas mesas para os fregueses. Do balcão corrido de imperiais e tremoços. Licores Beirão.
Ele, o rapaz, explicava a táctica ao colega do irmão. Talvez uma votação no Conselho de Segurança. Mas isso é estratégia. Seja.
Virou-se, transportando o último fino da noite.
Como está a senhora?
Surpreendeu-se com o grito dela. Desbocada. Deslumbrante. És tu?
Majoraram nessa noite o somatório das anteriores conversações.

10/05/2004

4 passos

Para levante, a contar da segunda sobreira junto à margem direita do barranco, contada desde o Poço da Lebre.
Enquanto os Alpha-Jet da BA11 faziam uma passagem.


27 anos de estrada

E mais uns cinco de caminhos.
Um dia de memória.



imagem em

09/05/2004

O verão de 2000 (II)

A minha geração tinha muita ilusão no ano 2000, como dizem os de Castela.
Um dos grandes desafios do homem, mesmo para aqueles que escrevem diários, é reconstruir o que lhe ia na alma, trinta, quarenta anos atrás.
Um exercício inconsequente. Mas ainda assim, um exercício interessante.
Ao rever o que foi esse ano, ao relembrar o post de há dias, vem-me justamente à memória essa expectativa.
O que foi esse ano e o que afinal trouxe (já trazia de trás) de novo.
Para mim, formado para o mundo na década de 60, no meio da corrida à lua, dos livros da colecção Argonauta e de outras projecções, parece que ficou muito aquém do sonho.
Mas era um sonho infantil, inchado de ignorância e pouco comedido.
Não andarei muito longe se disser que a grande novidade é este mundo de computadores, ferramentas todo-o-terreno, comunicações, telefones móveis, telefaxes.
Que se anteviam mal na Brunswiga cujos carretos torturei, sob o olhar complacente do meu pai.
Embora não fossem sonhos, pois eram até evoluções previsíveis.
O mundo deu um salto com a guerra. Depois da guerra aperfeiçoou as técnicas. Estava tudo ou quase tudo à vista. Talvez por isso, o sonho fosse maior.

A propósito de mais uma conversa ultramarina. Lili, como é que chegámos ao ano 2000?



imagem de uma Brunswiga em

08/05/2004

Dia de feira



Há feira na minha terra. Suponho que entre hoje e terça-feira.
As raízes perdidas são coisas que doem.
Os dois séculos da minha vida teimaram em ganhar fronteiras bem definidas, com erro de somenos importância.
O séc.XX foi o meu tempo das origens, rústico, repleto de conhecenças, onde os demais me chamavam pelo nome.
O XXI é esta difusa coisa urbana, anónima, como está?
Sempre fui bicho-do-mato. Amante dos silêncios povoados, recluso de porta aberta, onde a praça estivesse sempre à mão.
Algures no virar do século, perdi o pé.
Deixei de ver o porto onde fazia a cárrega.
Navego sem conhecenças, não diviso o rosto de outros marinheiros.
Por isso, hoje não atravessarei as ruas entre plásticos e barros, entre vergas e carrosséis.
Não ficarei à mesa para o frango com pó.
Ninguém me chamará pelo nome.

07/05/2004

O atum e a cavala



Naquela linha de cavalo e égua, muitos anos andei enganado com a suposta concubinagem entre atum e cavala.
Se ninguém me disse que eram géneros diferentes da mesma espécie, também ninguém me convenceu depois do contrário.
Deve ter havido um dia em que acordei e decidi colocar a cavala a salvo das investidas do atum.
Que era o meu preferido.
Mas havia ainda outros casos. Carapau e sardinha não eram bem o mesmo, nem faziam par.
Mas era como se fizessem.
É claro que era uma espécie de clubite gastronómica. Um Sporting-Benfica, um Simone-Madalena das coisas de comer.
E eu sempre fui mais pelo carapau até ao tal dia em que decidi trocá-lo de repente pela sardinha.
Menos borrego e mais cabrito. Mais perdiz e menos pombo. Menos lebre e mais coelho. Mais galinha e menos peru. Por aí.
Havia também os pêros e as maçãs. Definitivamente pelas maçãs. A laranja e o ananás, pelo ananás.
Hoje, graças à negação dessas dicotomias ou não, meto o dente em qualquer um. Já não vou por sons, por palavras, por supostos géneros. Até por cores.
Também não vou pela embalagem. Lembram-se todos da fase da fruta bonita. O freguês come com os olhos. Tudo a saber a nada. Pão sem sal.
Tenho saudades da fruta do Cercal, de São Luís, e lá da horta do monte da minha bisavó.
Lá na minha, já quase não há árvores de fruto. Abençoadas as poucas figueiras que restam.
Como vêem, começo a falar de alhos e acabo em bugalhos, outra dicotomia.

imagem em
Sono

E adormeceu, agarrada ao teclado de peluche...


06/05/2004

Traços

Nada batia certo.
Nem os alçados com os cortes, nem as plantas com as perspectivas nem a bota com a perdigota.

Isso foi culpa do ACAD.
Qual ACAD? Isto foi feito à unha, num programazinho do século passado, tipo régua, esquadro e compasso.
Mas atão?
Atão... nada. Deu-me para isto. Porque é que as coisas haveriam de bater certo? E a expressão artística? Queres limitar-me? Queres submeter-me a regras ultrapassadas em que tudo tem que bater certinho?

05/05/2004

O verão de 2000

Ainda me divido entre os calendários agrícola e civil. Mesmo que as ligações ao campo se limitem hoje a presenças espaçadas.
E, por isso, vejo os anos terminarem na época balnear. Quando ela existe.
Quando não acontece, a sensação é a de emendar anos em anos, sem que 31 de Dezembro seja mais do que fim de mês.
Poucos anos passei sem molhar os pés. Mas neste século, só uma vez mergulhei nas águas do Atlântico. Com muita pena minha.
Estou portanto quase em ano seguido desde o verão de 2000.
Em que não tive férias.
Mas todos os dias, quase todos os dias, levantava voo dos complexos industriais da margem sul com destino a uma das minhas praias de infância.
Fui Carlos mais uma vez. Mas por poucos dias, já que a senhoria desta vez acabou por entrar com o meu nome.
Sr. Manuel, já não lhe chamo Carlos. Mas alugou a casa e agora não a aproveita?
Não lhe consegui explicar que sim, que a aproveitava.
Que aproveitava a casa, a praia, as ruas em calçada, as casas velhas, os cafés, a noite.
Que aproveitava as viagens, a auto-estrada, a estrada nacional, o calor alentejano e as melodias que me acompanhavam no banco do Toyota e do Honda. Que encontrei nessas viagens alguns companheiros, cavalheiros da estrada. Aqueles com quem fazemos uma viagem, ora atrás, ora à frente, como dois ciclistas em fuga. Sem picanços, com muita cortesia e ajuda nas ultrapassagens.
Que aproveitava o regresso, às vezes com a neblina das manhãs, o café recém-aberto, a estrada, a auto-estrada, Paio Pires, Barreiro.
Ver os monstros industriais. Assistir à demolição triste de quarteirões fabris. Fotografar esses mundos de cabeça.
Conseguir viver em férias, em fim-de-ano, a trabalhar.

04/05/2004

Os intelectuais e a política

Meter prego e estopa em campo minado é leviandade. Mas apetece-me hoje entrar por caminhos ínvios mais uma vez.
A primeira questão que se levanta logo é definir o intelectual. O que é um intelectual?
Em tempos, dei a minha definição a um velho amigo com o qual partilhei o número suficiente de viagens de carro para termos tempo para muita conversa fiada.
Não ficou muito de acordo. Deu a dele.
Estou convencido de que hoje, se fosse caso disso, ainda trocaríamos longos argumentos sem resultado nenhum.
O que nos levaria para outro campo, o da discussão. A isso irei em outra altura.
Não estou convencido de que a definição que apresentei nesse dia seja melhor do que todas as outras. Mas estou convencido de que é um conceito suficientemente vago para ser visto e carimbado de muitas formas.
Como todos ou quase todos os conceitos que não são matemáticos.
Talvez que eu me refira a um subconjunto mal definido desse conjunto difuso de cujos elementos se diz que são intelectuais.
É isso com toda a certeza. Uma vez que qualquer conjunto é subconjunto de si próprio.
Adiante.
Há em grande parte das análises e dos comentários políticos uma base de erro que me espanta.
Essa base, passe a redundância, é partir do princípio que as coisas, a sociedade, os homens, o seu comportamento, são racionais.
Nada mais errado.
Todas as construções que se fazem com essa base, são inevitavelmente instáveis. Para não dizer outra coisa.
O que me leva sempre a imaginar o que seria a condução de uma sociedade entregue a tais cabeças.
Devo dizer que considero, não sei se erradamente, que o bom político não pode ser um homem de horizontes muito largos. Mas se o é, tem que os ter tão largos que isso lhe permita ser capaz de os encurtar.
Tudo isto que acabei de dizer tem tanta razão ou tão pouca que nem sei onde me inclua.
Se no grupo dos políticos, se no dos intelectuais, se no dos presumidos, se no dos irrefutavelmente ignorantes.
Como é que se podem dizer coisas sem pretender racionalizar ou ser artista?
Rotas demarcadas



Foto de MSMS
O Civic preto

O carro não tem travões!
Não tem, pai? Mas ainda agora funcionavam.
Não tem. Não me vês a carregar no pedal?
Caramba! Vá bombeando! Será a bomba que se foi?
Não sei, só sei que não trava.
Bolas.
Arre! Nada. Nem resistência tem o pedal.
Vai bater no Civic.
Chiça!

Então... mas tu não vês em que pedal é que eu estava a carregar?
Qual?
Neste, no da embraiagem. Tinha o pé esquerdo encostado ao pedal do mija-mija. Troquei os pedais.
Ah ah ah! E eu nem sequer me lembrei de puxar o travão de mão...
Nem eu. O que é que me dizes disto?
Digo que tal pai, tal filho. Fazer o quê? Sabe de quem é o Civic?
Não. Ainda por cima, deve ser de alguma visita. E novinho em folha.

Ó Zé, sabes de quem é o Civic preto que está lá fora?
O Civic preto? Porquê? O que é que aconteceu?
Eh pá, uma das minhas. Vinha com o carro desligado, lá de cima da oficina, e em vez de carregar no travão, vinha com o pé na embraiagem...
E bateste? Bateste no carro da minha mulher? Logo hoje que lhe pedi para o trazer, porque tenho o meu na oficina...
E é novo, ainda não o tinha visto.
Novo? Fui buscá-lo esta semana!
Foi só o farol...

(o meu pai conduziu durante décadas sem nunca ter tido um acidente, apesar de nefelibata)

02/05/2004

Concessão à bola

Reparo hoje que a minha última referência ao futebol, descontando o post anterior parece datar do último Benfica – Sporting, a 4 de Janeiro. Há uma outra a propósito dias depois, nada mais.
Falava então dos seis milhões de benfiquistas, esses alegados 60% que agora dormem mais descansados.
Faço esta concessão naquela linha tradicional do contra. O Sporting perdeu, não se fala de futebol. Pois eu falo. Já que falo tão pouco de bola, lá vai.
Disse uns dias depois no tal outro e último post que o campeonato estava arrumado desde o dia em que o Sporting ganhou ao Leiria, a 20 de Dezembro. À 15ª jornada. Ou seja, de acordo com umas tabelas que me mostraram, nos últimos não-sei-quantos anos, nenhuma equipa recuperara a distância, da 15ª jornada até ao final, para o primeiro que se verificava então (considerando a percentagem de pontos obtidos sobre os possíveis).
Pois é, nesse dia o Sporting ganhou e ficou fora da carroça. Pelo que os números ditavam.
Hoje, aconteceu o que se temia. Principalmente para aqueles que fazem contas ao dinheiro, lá se vai a hipótese de reduzir o défice.
Em algum lado da história, o futebol deixou de ser aquela coisa de clube, camisola, facção e passou a ser negócio, empresa, rendimento, mas um negócio piramidal, ruinoso e pouco empresarial. Nunca me empolguei muito com futebóis. Nesta coisa de bola, só tenho saudades é do muda aos cinco e acaba aos dez, em que fazia a minha perninha. Futebol é jogar à bola, não é ficar a ver os outros jogar. Mas sabe-se lá como, numa esquina qualquer, vi-me sportinguista. E lá tinha as minhas discussões com o empregado da pastelaria, fervoroso benfiquista, que ainda deve estar a recuperar da tareia que lhe dei quando o Lourenço (o outro Lourenço) marcou quatro na Luz (a outra Luz).
Esta minha filiação clubística é um mistério. Nunca percebi na minha família a não ser já com os meus cabelos brancos qual era o clube de cada um. E tive as minhas surpresas. Já aqui falei disso também.
As coisas hoje estão longe desse tempo em que me colocava dentro do balcão da pastelaria para melhor alvejar o meu adversário do alto dos meus sete anos.
O futebol é hoje uma necessidade ainda maior. Basta olhar para as falanges ululantes e pensar o que seria se não tivessem aquele escape para a energia (estúpida?) que acumulam.
Basta ouvir as discussões acaloradas e facciosas para perceber que, se não houvesse a bola, aquela verve incendiária cairia sobre coisas bem mais importantes, e de forma certamente desastrosa.
Ainda se lembram do “ópio do povo”?
Dito isto, acrescentar apenas que continua a tornar-se imperativo fazer o tal escrutínio para saber qual é o erro dos 6.000.000
E outra coisa, isto muito sinceramente, se calhar é melhor que vá o Benfica à Liga dos Campeões. Sempre costuma fazer melhor figura.
Como é que é possível que eu tenha falado tanto de bola?
Ah, e vi o jogo. Há muitas luas que não via um jogo de futebol de fio a pavio. Estou a ficar velho, deve ser isso.

01/05/2004

Subsídios para a eterna luta

De vez em quando, nas minhas divagações de link em link, deparo com uma bem ou mal humorada e feminina catilinária contra os machos.
Ah, la guerre...
É claro que do outro lado, do meu lado, do nosso lado, também há alguns lamentos. Se os há. Mas esses não vêm agora ao caso, ou talvez venham.
O certo é que, ou estou muito enganado, ou a coisa funciona desta forma:
Elas sabem muito bem quais são os nossos defeitos (incluindo aqueles que muitos de nós não têm, como ficar sentado num sofá a beber cerveja e a ver a bola ou colar autocolantes e pôr bandeirinhas no carrão).
Nós temos uma dificuldade do caraças em perceber sequer quais são os defeitos delas.
Resulta daqui, se não me enganei atrás, que o macho é um bicho previsível e a fêmea um bicho imprevisível, mais ou menos isto, com desculpa do atropelo jornalístico à lógica.
Mas também não é de excluir que o que se passa é que elas pensam que sabem e nós nos limitamos a pensar que nada sabemos, como dizia o outro...

(mete essa merda na SporTv e traz as b’jecas!)

30/04/2004

Que Império é este?



E que hora tem?
A esta hora, o Novo Império Europeu já tem as fronteiras quase napoleónicas.
Por aqui, ainda não é meia-noite.
Mas o facto está consumado.
Esta coisa de impérios, a julgar pela História, é cíclica.
Mas um dia a História deixa de repetir-se. É inevitável.
Nunca sabemos que lições históricas devemos considerar e que coisas novas acontecerão.
Também não sabemos se esta génese imperial é assim tão diversa das anteriores. Não há um Imperador, mas há escravos.
A difusa identidade e caracterização dos escravos ao serviço do Império.
Que domínio é este e o que pretende?
Mais um Império comigo na ponta. Aqui ou lá na ponta ocidental.
Não menosprezemos a actualidade hoje.
É um dia histórico.

imagem adaptada de
A feira dos Bentos

Ainda não é amanhã que lá volto.
Eu que sempre fui um amante de feiras à antiga.
Descobri esta por acaso.
Num Dia de Maio em que atravessava a serra de volta a casa.
Num dia em que as sandes de presunto da Fernanda ficaram para depois. Foram para a ribeira, disseram-nos.
Continuámos, entre a ameaça de trovoada e a chuva abatendo-se sobre as estevas.
Um velho fazia cestos numa esquina da estrada. Ao abrigo de umas telhas.
As cores escuras do mato sob o céu cinzento, o calor húmido da chuva grossa.
De repente, ao sair de uma portela, os carros. Carros e carros estacionados na estradinha estreita, ali no meio do mato.
A máquina fotográfica na caixa do carro, tiro, não tiro?
Chegámos à feira com a trovoada. Trazendo a chuva.
As lonas a serem rapidamente desmontadas, os guardas a correrem para evitar que a estrada ficasse bloqueada.
As pessoas a refugiarem-se nos carros.
A feira a desmanchar-se num ápice sob os nossos olhos.
A máquina na caixa do carro, tiro, não tiro?
Fiquei a dever uma à feira dos Bentos. E ainda não é amanhã.

29/04/2004

Composição global


Azedume e riso

Nem uma coisa nem outra são bom sinal.
Azedume como no post anterior, riso como às vezes me suscitam as pesquisas que aqui caem.
Só mostram a minha incapacidade. Não a dos outros.
Ninguém é perfeito, ninguém sabe tudo. Na escala disto e daquilo, sejam lá elas feitas como forem, ocupamos lugares muito distintos – numas, lá para o fundo da tabela; noutras a meio; outras ainda, na metade superior. Mas há sempre este instinto de olhar de cima para baixo os degraus que distinguimos na proximidade inferior...
Como não sou perfeito, não tenho pretensões, e isto não é imodéstia, é a pura realidade, lá vai uma resenha das últimas pesquisas excepcionais:

fotos de plebeus romanos
vendedor com cepticismo
feitiços para totoloto
fotos de mulheres goda pelada
ementas de restaurante
tatuagem diverças
imagens de avestruzes para escrever uma matéria para televisao
a pulitica ea igreja
postais de sogras
individuo excepcional cantor
O que é uma Anedota?
conclusao sobre anfibios
DEFINIÇÃO DE ANEDOTA
fotos sado mulher manda
nome para o meu cao
para que serve a ponte de h ?
molas de dar corda
quando e quem deu inicio as viagens
resenha virando a propria mesa
aumento de la gasolins

Sendo certo que nem todas são do mesmo grau, há até algumas que parecem razoáveis, descontando as gralhas.
O que continua a fascinar-me é a total incapacidade demonstrada em mais de 95% dos casos, de perceber o funcionamento (afinal tão simples) dos motores de busca.
Lá estou eu...

Nem tenho razão para me rir, muito menos para andar azedo.

Mas ainda assim, querer postais de sogras, feitiços para totoloto, nome para o cão, ementas de restaurante e fotos (!!!) de plebeus romanos (sim, cometo o erro de pensar que estes romanos são os que estão, estavam loucos, não os actuais) e ao mesmo tempo querer saber para que serve uma ponte de Hidrogénio - lá suponho eu que seja isso - quem e quando deu início às viagens e ainda por cima concluir sobre anfíbios, é dose. Digo eu.

28/04/2004

Ultrapassagem

Já aqui falei disso e o problema deve ser meu.
Desculpai-me mas às vezes fico um bocado azedo. Os grandes não azedam, toleram, compreendem, e eu sou pequeno. Fazer o quê?
Mas azedo quando abro um documento ao acaso, e ao ler umas quantas linhas, vejo etiquetada como ultrapassada uma qualquer teoria.
Confesso que não percebo.
Uma teoria, neste nosso santo e deficiente racionalismo, parece não poder ser outra coisa que certa ou errada. Ultrapassada é uma qualidade que não sei qual é.
Pretender que as teorias hoje aceites sejam certas, é estultícia. Sei-o bem.
Mas quando e se se demonstrarem erradas, erradas serão. Não serão ultrapassadas.
É que há teorias que resistem, resistem, resistem. Por séculos e séculos.
E outras que se desmoronam com fragor, ao mínimo abalo.
Pelo que sou dado a concluir, talvez erradamente, que as que efectivamente têm muita pedra partida na sua origem, chegam longe.
Outras, muitas vezes pouco capazes de até teorias serem, mais dadas a modas e a unanimidades bem-pensantes, caem como tordos.
Ora se são dadas a modas, se de teoria têm pouco, então digam lá que estão ultrapassadas. Mas não lhes chamem teorias.

27/04/2004

Aprendizagem

Há ene coisas na vida que aprendemos como supomos que os animais aprendem.
Nada mais óbvio, uma La Palissada.
Mas se pensarmos um bocadinho mais além, veremos que a contaminação do conhecimento transmitido escamoteia muitas vezes esta constatação.
Diria até que há quase a ideia generalizada de que a totalidade do nosso conhecimento nos vem por transmissão. Muitas vezes me deparo com essa sensação ao ouvir, ao ler o que outros dizem.
Não será hoje possível (quem sabe o que se experimenta por aí?) criar condições experimentais adequadas para ter uma ideia sobre o assunto.
Aparecem aqui e ali obras de ficção que andam lá perto. Mas não passam disso, de ficção.
Se me perguntarem o que é que eu aprendi animalmente, posso dizer pouco. Terei aprendido a respirar, a alimentar-me, a reconhecer os progenitores e a envolvente amiga...
Mas o resto que é, deve ser, muito, o que terá sido?
A caminhar? A ler? Que coisas?
A caminhar? E as vezes que me puseram em pé, que me instigaram a fazê-lo?
A ler? E as vezes que ouvia as palavras escritas à minha frente, ainda que fosse sem a intenção de me ensinar?
Há na aprendizagem um fenómeno curioso para mim, que sou um ignorante total.
É a colisão e a negação entre a aprendizagem animal e a transmitida, em coisas que normalmente não são ensinadas.
Lembrei-me disto a propósito de estrelas. Ver estrelas, na banda desenhada, nos filmes de animação.
Sempre pensei que se tratava de uma qualquer representação metafórica, sempre as entendi assim.
Até que um dia as vi.
Ninguém me tinha dito que era verdade. Nunca perguntei a ninguém, convencido que estava da metáfora.



imagem em

26/04/2004

Racionalismo

Os que me lêem há mais tempo, já têm a noção de que aqui há um racionalista incompleto e desconfiado (e que não joga com o baralho todo).
Divide-se entre a descrença do racionalismo por falta de dados e deficiência de compreensão e a conjectura de um universalismo dependente das condições iniciais (a terem existido) e do tempo, operando através de funções obscuras, e em que a vontade humana é uma imagem, uma ilusão.
Quando baixa à terra, preocupa-se com o preço da cortiça, as calinadas dos políticos, a ignorância dos jornalistas e a revisão do carro.
Do alto da sua ignorância, arremete com um duvidoso sucedâneo do racionalismo contra uma série de coisas.
As mais das vezes, contra os medos, as crendices, as superstições, os defensores acérrimos e outras pragas que ele lá contempla.
Mas, de vez em quando, fica de boca aberta à espera da maçã saloia.
Ele há coisas...
Como é que ele e outra pessoa juram a pés juntos que adivinharam a presença de um terceiro sem que ele estivesse por perto e sem que tivessem disso dado conta um ao outro?
Aconteceu há pouco.
Aónio, cidadão campónio

Não. Não sou o que escrevia memórias no primeiro quartel do séc. XIX. Esse registou a marca.
Mas também não me identifico aqui no blogue. Embora alguns já saibam quem sou.
Às vezes, sinto-me quase obrigado a abrir outro blogue, de forma a expressar alguns pontos de vista mais ácidos. Com a identificação do animal.
Mas como não o faço, também evito enveredar por caminhos incompatíveis com o anonimato.
Mas lá que apetecia, apetecia.
Sabendo ainda assim que todas as opiniões são inúteis.

23/04/2004

Um círio que não flameja

Gastos os pneus
Do carro cinzento
Na velha garagem
De porta de chapa esburacada.
Pelos buracos
A luz de cães errantes
Sobre a calçada.
Já mal se distinguem
Os sons do carro de parelha
Com chapa de Ourique.
Apenas o cacarejar de uma galinha choca
Se confronta com o zumbido eléctrico
Da bomba de água.
Cheira a lenha e a sul.
A cal caída sobre as ervas
E a fruta amadurecendo
Ao sol.

SG, inéditos, 2001

22/04/2004

Marcações


O gráfico



Quando ouço falar em previsões quase sempre me arrepio.
O mais estranho é que são os que mais gozam com as cartomantes e quiromantes de bilhetinho na caixa do correio, que produzem as maiores calinadas em papel milimétrico (isto do papel milimétrico é saudosismo...)
Mas se um dia se fizer uma verdadeira antologia das previsões, verificar-se-á por certo que a qualidade dos conteúdos não andará muito longe da das colectâneas de erros escolares.
Não desdenho de quem diz que a verificar-se em dado intervalo a constância das condições evolutivas actuais ou ponderadas, teremos em tal ano este valor.
Mas isso também faz a senhora dos créditos do anúncio de televisão. Diz logo ao povo quanto é que vai pagar daqui a 23 anos, se as taxas se mantiverem inalteradas.
Qualquer computador bem alimentado de dados e bem ensinado, dá respostas rápidas.
Porque será que insistimos tanto na miopia?

21/04/2004

No recesso


Deu na televisão

O pacato fim de tarde pascal no café central da vila alentejana não foi interrompido pela catadupa de notícias que o telejornal debitava por cima das cabeças indiferentes dos circunstantes.
Apenas um julgou ouvir um relato que começara assim: “Uma mulher de 29 anos...”

Conheceu Luísa no dia em que se apresentou ao serviço.
Pelas referências que se abstiveram de fazer, percebeu metade da história.
A outra metade quando encontrou Luísa.
Ela mostrou-lhe os dossiers, os apontamentos, falou dos casos complicados, entregou-lhe tudo. Despediram-se.
Dias depois, viu-a entrar na sala de aulas, cumprimentou-a de longe, viu-a falar com alguém, sair, voltar a entrar, sair outra vez.
Encontrou-a à porta da sala, no fim das aulas. Falaram um pouco, Luísa perguntou se ele ia para casa.
Aproveitaram-se a boleia no comboio nocturno.
À medida que ouvia Luísa falar, tinha a consciência de que o ténue fio se ia desfibrando, desfibrando...
Quando se despediram, marcaram um café para depois da Páscoa.

20/04/2004

Colado com cuspo

Falava de alto sobre a segunda guerra, os mapas de desembarque, Anzio, Dunquerque, depois de Tobruk, de Varsóvia, de outros lugares incidentais.
Segurança nos pormenores, um detalhe aqui, outro acolá.
O parceiro fez-se entendido. Aquiesceu e adiantou mais nomes, mais locais, mais incidentes.
A tudo dizia que sim.
A um surdo pode dizer-se um palavrão no meio, que ele não nota.
A um entendido, meia-dúzia de locais inexistentes e personagens de almanaque soam como heróis em batalhas longínquas.
Em rios


18/04/2004

Plágio

Hoje copiei de outro blogue.
Confesso-o.
Não copiei tudo, copiei só uma ou outra frases. Mas a ideia está lá.
Não vou dizer de onde, nem vou atribuir os créditos (como se diz agora) ao autor.
Já conferenciei com ele e negociámos a coisa, ele deixa-me dormir e eu fumo menos. No meio disto, perdoa-me o plágio.
Às vezes, sofremos disto. Do dois em um. Ou do um em dois. Ele e eu. Segreda-me coisas quando estou quase a dormir mas não as assume, passa-me a bola.
Eu retribuo-lhe ao volante, enquanto ele acelera ou reduz. Talvez seja perigoso, um com os pedais, outro com a manobra. Mas a Brigada de Trânsito ainda não deu por nada.
Mas é assim. Algures, o homem escreveu:
"Porque não existe essa coisa de mudar o rumo, voltar atrás... As pessoas é que traçam rotas imaginárias, umas mais rectilíneas, outras loxodrómicas e pensam que o seu destino é esse.
Mas esquecem-se das tempestades, das correntes, dos leixões, que as mandam ao fundo ou para outras paragens. E esquecem-se sobretudo do mecanismo interno, que a sua vontade não é reduzível a um traço num mapa. E que talvez essa vontade nem sequer exista. Dizendo de outra forma, não se foge nem se altera o destino. Ele é o que tem que ser."

Ora eu subscrevo e digo mesmo mais:
Onde raio é que fomos buscar a ideia de que somos um produto acabado?
Onde raio é que fomos buscar a ideia de que somos diversos de átomos, moléculas, células reagindo a outros átomos, moléculas e células, campos eléctricos, magnéticos, gravíticos?
Onde raio é que fomos buscar a ideia de que, seja o tempo lá o que fôr, não é o tempo, seja com a concordância de algo que desconhecemos ou não, que operando sobre as condições iniciais, se é que existiram, que nos coloca aqui, frente a um teclado e a um écran?
Onde e quando é que nos convencemos de que somos deuses?
Procura

Por duas razões essenciais, uma das mais procuradas imagens deste blogue é esta:



Por um lado, chegam aqui procurando referências ao livro de Paco Roca, uma banda desenhada inspirada em Dali e no quadro Jogo Lúgubre.
Por outro, procuram a carta Alberto Lúgubre de um desses baralhos fantásticos agora em voga.
O certo é que a imagem aparece em segundo lugar nos resultados do Google há bastante tempo.
Trata-se apenas do portal do cemitério de Montalegre, filmado num dia de outono. Nada mais do que isso. Uma imagem retirada do super 8 que, pelos vistos, corre mundo. Bizarrias.
Justiça a dois

O que é justo e o que o não é, é daquelas coisas em se vira o mundo ao contrário, volta-se a pô-lo na mesma posição e não se chega a conclusão nenhuma.
Até na velha e simples regra do Um parte, o outro escolhe, quando de dois se trata, há ou pode haver uma injustiça latente...
Mesmo que não se trate da criança que Salomão terá poupado.