As sandalinhas de plásticoNum dia de calma idêntico ao de hoje – que a temperatura neste escritório citadino não desce dos
30º e a Lua lá fora (quanto lá fora? muito ou pouco?) está cheia e parece ajudar, reflectindo as ondas, à festa – num dia de calma idêntico ao de hoje, um insuspeito comprador de cortiça sentenciou para quem o quis ouvir que já ninguém se lembrava da revolução do plástico.
Ao ouvi-lo dizer tal, passaram-me pela memória os vendedores de alguidares, de jarros, de vasos, montados nas suas Austin A 40, Ford Anglia ou Thames.
Ao escrever agora isto, também me vem à cabeça que quase nada resta da indústria automóvel britânica, um pouco à medida da
British Ever Ready Export Co..
Adiante.
Atrás. Ao plástico. Ao plástico e à calma. A noite vai de altas pressões.
E nenhumas altas pressões, calor algum me fazia andar na rua de sandálias. Impossível.
Inadequável. Jogar à bola de sandálias?
Mesmo aquelas coisas mais ou menos fechadas à frente mas que se afivelavam e deixavam os lombos dos pés à mostra, mesmo essas, a custo aceitava calçar.
Quantos pares de sapatos terei desgraçado com o futebol-pedra? E com a travagem dos carros de rolamentos, rua abaixo? E biqueirando o chão para fazer piras e matas? Isso lá era possível de sandalinhas?
Ao plástico? Pois era do plástico que falava.
Às sandálias de plástico, seja (as voltas que este tipo dá para chegar a uma coisa tão óbvia como umas sandálias de plástico).
Não sei bem em que ano quase me converti a tal coisa. Uma coisa deve ser certa, devia estar longe da minha trupe e perto das minhas primas. Com elas, seria pouco provável que se desenrolasse um muda aos cinco, acaba aos dez a qualquer altura.
Nessa óptica, talvez me tenha rendido a experimentar as coisas. Afinal era só para chegar à praia. Lá, poderia de novo chutar a bola sózinho mas de pés nus.
Mas a rendição não terá sido incondicional, creio. Parecia-me aquilo coisa de mulheres.
E depois fazia-me roeduras nos dedos, ali onde encaixava nos ditos.
Era razão mais do que suficiente para preferir calçado mais másculo. Sapatos, pois.
E assim foi, até um dia.
Um dia qualquer, em que a minha masculinidade já não seria posta em causa por um calçado duvidoso, ainda que cor-de-rosa ou assim, deixei que ela me comprasse uns.
E a coisa estranha foi que não me fizeram mal aos dedos.
Devo ter ganhado calo.
Já era pois mais do que altura para me esquecer da bola e da dificuldade que era correr à frente da polícia com tais coisas nos pés.
Dispensei-me de lhe contar das minhas reticências a tal tipo de solas auxiliares e comecei a olhar com um certo carinho para as sandálias de plástico.
No verão seguinte, dado não as ter transportado na bagagem, comprei outras. De cor diferente.
E no outro, idem.
Para aí ao terceiro ou quarto verão - se fosse no terceiro tinha sido na linha de cima, não façam caso, mas terceiro a contar do quê? - fazendo a habitual paragem de meio do caminho na casa da vila, vi no meu quarto um par a olhar-me assim que suplicantemente. Leva-nos lá para a praia. Não fomos feitas para o sequeiro. E, dando-lhes razão, carreguei-as comigo.
Mas não resisti a mudar de cor, uma vez mais. E lá juntei um novo par.
Desde então, juntei umas quantas cores diferentes. Depois deixei de ver tal calçado à venda. Falo daquelas mesmo oficiais. Que imitações e apegreides é o que não falta para aí.
Deixei de ir à praia. Ou quase. Penso se terá o caso a ver com a falta de sandálias de uma cor nova. Talvez.
As penúltimas que comprei eram dessas já especiais de corrida. Pretas e com o arco-íris nas fitas. Arco-íris? Pois! Nesse tempo longínquo era apenas um arco-íris, a luz visível.
As últimas, foram há dias atrás. São amarelas, de fita cor-de-laranja.
E têm um saúrio, unzinho só, assim à maneira do Escher.
Tem que estar muito calor aqui (fui ver – estão 29º) para eu escrever tanto disparate.
E publicá-lo. Coisa que vou fazer a seguir, mesmo que não faça sentido dizê-lo assim, depois de já terem lido (corajosos!).
É do calor, acreditem.