Algumas notas sobre a eleição presidencialSó
Mr. Gaston Smith ousou apostar contra mim na
percentagem que teria Manuel Alegre.
Fê-lo, no entanto, sob reserva mental, com o único intuito de nos juntarmos para uma jantarada quando ele aportar por terras de Portugal.
Significa isto uma de várias coisas:
Ninguém lê este blogue – coisa que eu sei que não é verdadeira. Tenho provas materiais de que há quem o leia.
Ninguém que lê este blogue se interessa por apostas.
Ninguém que lê este blogue e se interessa por apostas achava que Manuel Alegre granjeava maior percentagem de votos do que a que obteve há cinco anos.
Ninguém que lê este blogue, se interessa por apostas e achava que Manuel Alegre granjeava maior percentagem de votos do que a que obteve há cinco anos, tinha algum interesse em terçar facas e garfos com o seu autor.
Pois bem, Alegre ficou abaixo dessa fasquia e eu vou palmar o jantar a Mr. Gaston Smith, tão cedo ele aporte.
Ainda hoje ninguém percebeu o que aconteceu ontem, no caso do recenseamento.
Ouvem-se os mais rotundos disparates para descrever o que se passou. Eu escrevi descrever.
E o que aconteceu foi que existiu um número considerável de gente que não sabia o seu número de eleitor. E um número considerável de gente que desconhecia o seu local de voto.
E um sistema incapaz de responder a estes problemas.
Comecemos pelas causas:
Ponto um – gente que não sabia o seu número de eleitor.
Não faço ideia se foi este o problema mais significativo.
Mas aqui começa a incompetência técnica. Começa quando se percebe que se levou muita gente a pensar que o cartão de cidadão dispunha de informação sobre o local de voto e número de eleitor, isentando assim a pessoa de o saber.
Ou seja, que tendo um cartão com chip em algum lugar haveria forma de inserir o cartão e obter a informação. Ou qualquer coisa mais mágica.
Isto evita-se chamando a atenção para o facto de essa informação ser errada e que a detenção do cartão de eleitor* que ostenta o respectivo número continua a ser necessária.
Tal como, quando é caso disso, se deve chamar a atenção para a reorganização dos cadernos eleitorais e consequente alteração do número de eleitor.
Ponto dois –
o texto que se encontra disponível no portal do cartão de cidadão não diz que ao obter o cartão de cidadão se altera automaticamente o número de eleitor.
Diz, isso sim, que a alteração de morada provoca de imediato a alteração óbvia do local de recenseamento e consequentemente do número de eleitor e deixa antever que o recenseamento eleitoral passa a ficar dependente da morada, coisa que não acontecia com o bilhete de identidade, a menos que fosse solicitada pelo próprio.
Só mudam de número de eleitor e local de voto as pessoas que tinham antes um local de voto que não correspondia à morada oficial.
Ora isto supre-se com a informação vincada de que deverá aguardar uma correspondência da junta de freguesia com a indicação do seu novo número de eleitor – coisa que aconteceu comigo. E depois averiguar do local onde vota, coisa que todos devemos fazer quando mudamos de morada.
Ou que, não recebendo tal carta, será necessário deslocar-se à junta ou a outro local a indicar, caso exista, para receber essa informação.
Excluem-se os casos em que a freguesia resolveu alterar a localização das assembleias de voto, que suponho sejam em número insignificante.
Tudo isto se pode fazer com uma campanha visível nas televisões.
E pode ainda corrigir-se com uma listagem alfabética disponível em locais convenientes. Com tanto dinheiro atirado à rua, não seria por aí que iríamos empobrecer mais.
Ponto três – a resposta do sistema.
Ouvir, como ouvi, que o sistema tinha previsto o problema mas que a previsão tinha sido ultrapassada é, no mínimo, um insulto que quem tal diz desfere a si próprio.
Como o engenheiro que se desculpa por não ter previsto o vento de 140km/h mas o de 90km/h. Mas previu.
Esta é a afirmação proferida. O caso pode sempre ser assim, de erro ao prever. Ou pode ter sido de previsão certa mas de erro no dimensionamento. O resultado final é o mesmo e a causa a mesma – incompetência técnica.
Aqui chegados, verifica-se que quem gere o sistema, espalhou-se ao comprido.
Não sei se aprenderá a lição, pois este caso já se adivinhava desde 2009. Nessa altura com uma dimensão muito menor, por razões óbvias.
Depois há os tontos que comentam, que falam em falhanço das tecnologias (uma palavra que me fere os ouvidos, quando precedida do adjectivo novas) sem terem percebido o que de facto aconteceu.
*
é melhor isso do que dizer que basta apontar o número.