06/03/2011

Caracol


21:00 de 6 Mar. 2011
(combinação de carta sinóptica de previsão e imagem de satélite das páginas do IM)
Turner ou uma visão de Mombaim



Aqui a ver umas imagens na BBC de um fogo num dos bairros miseráveis de Mombaim quando, numa delas, me pareceu ver o pincel de Turner. Ou de outro que com ele pudesse ser confundido.
O resto foi uma utilização do ACD FotoCanvas, que é o programa a que há muito me afiz.
E, claro, a grande questão continua no ar.

05/03/2011

Espólio (31)


espólio Campos Vilhena, foto de MSS

Por estradas da ilha da Madeira, em 1951.

04/03/2011

Entre-os-Rios


Fotografia da JAE em capa de livreto (seta minha).

Não há muitos qualificativos para descrever um caso em que morreram cinquenta e nove pessoas, de mais de metade das quais provavelmente nunca mais se verá o corpo.
Já foi sobre o assunto e as suas causas dita muita coisa.
Direi que tudo se resumiu à nossa incúria nacional que só a espaços é contrariada. Foi-o curiosamente, no caso das pontes, durante muitos anos.
Direi que para tudo contribuiu a nossa desorganização nacional que só de vez em quando é posta na ordem. Desorganização que levou ao ponto de se ter agora lá duas pontes em vez de uma. Como se os mortos fossem ressarcidos por tal.
Direi ainda que para o desfecho não vejo que se possa esquecer o desmembramento então recente da J.A.E. e as consequências que tal desmembramento (foi de facto uma extinção) acarretou.

Nessa noite de domingo, já estava em modo rádio para acalentar o sono quando a notícia saiu do aparelho como uma mera informação de trânsito.
Levantei-me da cama e fui ver o que diziam as televisões – a SIC N era muito recente, tinha menos de dois meses – e lá tive uma noção do que tinha sucedido.
E com essa noção, uma estranha sensação me percorreu. Coisa pessoal e intransmissível.

Jorge Coelho, goste-se ou não da personagem, ache-se o que se achar sobre a sua capacidade, era provavelmente o menos responsável pelo que aconteceu. Mas era o que estava na altura em funções. Fez o que devia.
Da cópia de asneiras que se disse então, começando por aqueles que sabiam que a ponte ia cair, não vale a pena falar.

Único mapa que conheci que mostrava a ausência da ponte:


© Guia Turístico do Norte, 2002

01/03/2011

Doutores

Já aqui escrevi sobre os licenciados de segunda, de terceira e de quarta classe.
Toda a gente sabe que há ene cursos em que a exigência intelectual dos discentes está abaixo da média de qualquer paragem de autocarro em dia de chuva.
Donde, não espanta que uma licenciatura em qualquer bizarria não conduza a nada. A emprego algum, a utilidade alguma.
Faz-se em certa escola um curso que para nada serve. Admitem-se alunos incapazes de juntar duas ideias. E depois espera-se que haja emprego para todos.
No mundo de doidos em que vivemos ainda há cursos que propiciam trabalho adequado a todos os que os concluem.
Não formam é imbecis.

27/02/2011

Treze anos depois

Aquilo a que alguns insistem em chamar justiça não pode, não consegue, passar uma semana sem nos dar a ideia de que não há uma única célula pensante em grande parte do organismo que lhe dá corpo.
Será possível que ainda toque mais fundo?

26/02/2011

Três em um

Já não sei o que diga sobre o Sporting.
De repente, onde havia três pessoas a trabalhar – Couceiro, Costinha e Paulo Sérgio – há uma só. Aquela que disse que não iria treinar o Sporting. Está a fazê-lo, ainda que interinamente.
Em três dias, comunica à CMVM uma coisa e o seu contrário.
É melhor evitar o assunto, doravante.
Salários

Uma das razões aduzidas para pagarmos copiosos salários aos funcionários superiores das empresas públicas e afins é a de só assim conseguirem elas atrair os melhores quadros.
Como perguntaria o labrego à mulher que pintava os olhos: “Então por que é que não atraem?”
Por que é que há por lá tanta mediocridade encartada?

25/02/2011

Esta rua não existe



Ao contrário de outras.
Ele também há as ruas projectadas. Que do projecto passaram à existência, mas não lograram ser existentes.

24/02/2011

Encenador


imagens da AFP (colhida aqui) e da televisão líbia, via BBC

Há qualquer coisa de verdadeiramente excepcional nos enquadramentos em que Kadhafi fez as suas últimas declarações.
Quer as da porta da camioneta1, de chapéu de chuva aberto, quer as do palácio bombardeado em que aparecia no centro alto.
Quero crer que quer na primeira circunstância por mero acaso, quer na segunda, mais por simbolismo que por encenação, com uma grande dose de improviso cenográfico, tudo resultou de forma a transmitir, pelo menos a mim, uma expressão plástica de fino recorte.

Numa altura em que a imolação de um pobre desonrado parece ter acendido um rastilho ligado a variados barris de pólvora – há quem os diga de petróleo – custa-me mais do que nunca ouvir os que têm explicações para a História e os que sabem exactamente o que vai acontecer a seguir.

Quantos mortos fez uma certa bela disparada em Sarajevo, vai para cem anos?

1 alertado por Luís Bonifácio, verifiquei que era um rotundo disparate chamar camioneta a um carrinho de golfe. A chave encontrei-a aqui.

23/02/2011

O número de eleitor



Foi dito que o número de eleitor deixará de existir.
Que a haver um número necessário à organização dos cadernos eleitorais e assembleias de voto esse número será o actual número de identificação civil (o do B.I. ou do C.C.).
Parece-me uma medida acertada.

Não sou capaz de julgar a necessidade que houve de criar aquele número, a seguir à revolução de 74.
O que se pode dizer é que funcionou bem.
E só quando começou a trapalhada da sua suposta eliminação é que deixou de funcionar. Por alguém ter convencido as pessoas que deixava de ser necessário ou até ter decidido, segundo algumas vozes, inutilizado o cartão de eleitor de pessoas que obtinham o cartão de cidadão.
Portanto, o número de eleitor (com cartão ou sem cartão) funcionou bem até que o eliminaram, na intenção ou no acto.

É claro que o número do B.I. é mais do que suficiente para encaminhar as pessoas para uma assembleia de voto.
É até muito simples criar uma regra expedita facilmente assimilável por toda a gente. E que funcione bem com a ordinária actualização dos cadernos eleitorais, permitindo que a esmagadora maioria dos eleitores não mude de mesa de voto, desde que não mude de residência. Que haja até menos gente a mudar de mesa do que com o sistema actual.
É à espera do que vai sair destas cabeças que estou agora.
Depois do que se passou nos últimos actos eleitorais e do facto de se ter percebido que nem quem tinha responsabilidades percebeu o que de facto aconteceu, não espero grande coisa.
A frase “ficando os cadernos eleitorais de cada assembleia de voto organizados segundo a ordem deste número [de identificação civil]” que aqui se pode ler, também não me inspira confiança alguma.

22/02/2011

Nos antípodas dos sismos de Christchurch, uma vez mais


Mapa do IGN de Espanha, dados do USGS dos EUA

um pouco mais a sul a zona dos epicentros, desta vez.

20/02/2011

À segunda, todos acertam

Amanhã de manhã, é ler os jornais para saber o resultado do Sporting – Benfica.

19/02/2011

Os simples

Os simples reclamavam que a GNR os não impedira, sequer os prevenira antes de atravessarem um lençol de água.
Uns achavam que por terem tracção às quatro rodas...
Outros reclamavam que os bombeiros não iam ajudá-los depois a tirar os carros, assim que se afogavam.
Diz o meu velho J.d’ que é de facto muito difícil educar um povo...

17/02/2011

Taça UEFA

Nas meias-finais de 2003 as probabilidades de duas equipas portuguesas se defrontarem eram de 1:4 (simplificando as probabilidades a 50% para cada lado em cada eliminatória).
Nunca antes tinham, me parece, ido tão alto. É coisa para se verificar no histórico.
Este ano, a probabilidade não é despicienda.
Mas anda longe do 1:4 dessa época.

adenda ainda a tempo: contas feitas em cima do joelho, anda por 1:7.

16/02/2011

E não a levam presa

Diz que o Tribunal da Relação suspendeu a pena de prisão da mulher que matou duas pessoas no Terreiro do Paço em circunstâncias extraordinárias de condução.
Diz que a mulher é psicóloga.
Diz que argumentou que o carro pareceu ganhar “vida própria” e que não sabia justificar o que aconteceu.
Dizem as fotografias dos jornais que não mostrou a cara pelo menos em certa ocasião.
Diz ainda que antes disso tinha sido o nome escondido do público.
A ser tudo isto verdade, pergunto: será avisado permitir-lhe o exercício de funções profissionais como psicóloga?
De continuar a conduzir, ninguém a impede.

15/02/2011

O velho e a ponte

De repente, como se sabe, a imprensa descobriu a velhice solitária. E as árvores que caem na floresta sem que o fragor se possa dizer que aconteceu, tal como Berkeley conjecturou.
A mim recordou-me agora um caso extremo que me foi contado numa vizinhança com relações sociais muito fortes – as faldas da serra que separa o Alentejo do Algarve.
Talvez tenha sido há vinte anos, mais coisa menos coisa.
Um velho que era de poucas falas e que, aparentemente, errava por corgos e cêrros, deixou de ser visto.
Tempos depois, acabou por ser encontrado pendurado pelos pés numa ponte de corda e tábuas que cedeu ao seu peso quando transpunha um barranco alto em sítio escuso.
As notícias continuam a avolumar o rol de mortos.
Apesar de pessoas que se dedicam a trabalho social nesta área dizerem o óbvio – nada disto é novo.
Mas se os surtos começam na televisão...

13/02/2011

A descoberta das coisas

se sabe que só acontece o que passa na televisão.
Donde não admira que os surtos se devam sempre a ela.
Toda a gente descobre a vida através dela. Ou a morte, no caso dos velhos que morreram sós e de que ninguém ou quase ninguém quis saber.
De um, rapidamente passámos a três.

Em tempos, talvez trinta anos atrás, um dos estigmas que se identificavam com a civilização dita impessoal dos países nórdicos era justamente este – o das pessoas que morriam sem que ninguém desse por isso.
Verificamos assim que estamos com trinta anos de atraso. Exactamente porque, antes da televisão o dizer agora, estes casos não aconteciam.

12/02/2011

11/02/2011

Redes sociais

Hoje em dia uma rede social é qualquer coisa que se passa na internet. Só assim merece o nome. É a semântica e as suas voltas.
Alguma jornalistagem exulta com a vitória das redes sociais no Egipto.
Como é que se poderá dizer que cabe a tal coisa, a tais coisas como tal designadas, um papel decisivo na mobilização das pessoas?
Estamos dentro da platónica caverna.

09/02/2011

Portugal, 2007

A mulher com nome de capital provisória

Conheci-a sempre assim. Pelo nome que partilhava com a capital provisória.
O que mais me espantou – e ainda hoje afinal me espanta – nela e em mim, foi a nossa proximidade gritante e a distância segura bem combinadas.
Atraíamo-nos como ímanes e mantínhamos as distâncias como pólos idênticos, sabendo que o não éramos. Um enigma vulgar entre gente da nossa idade. Adolescentes, afinal.
Dei-me hoje conta, o PCP a que ela então pertencia que o diga (devem ter fichas disso), que não me esqueci dela. Nem hoje nem nunca até tal data.
Não faço ideia – não posso evidentemente fazê-la - se a inversa é verdadeira.
E o seu nome era Isabel.

07/02/2011

Coincidência

Aqui a ver uma reportagem sobre a reportagem premiada de Paulo Pimenta sobre a Linha do Sabor, quando deparo com esta foto:


© Paulo Pimenta

Há coisas que atraem a objectiva.


Estação C.F. do Pocinho © MCV, 2005

03/02/2011

Marte

Tenho uma ideia vaga de ouvir a papagaiada sobre um mínimo na distância entre Marte e a Terra no verão de 2003.
Vaga ideia que está de acordo com a minha particular ignorância do astro.
Mas o facto é que, em Portugal, esse verão de 2003 foi o verão não só das duas vagas de calor intenso mas também do surto dos blogues.
Este mesmo começou pouco dias antes dessa efeméride astronómica.
Terá sido por influência dos marcianos?
Por alturas do mínimo anterior, podia ler-se isto n’A Capital:


(clicar para ampliar)
O ano novo chinês

Diz a voz off na SICN que o ano novo chinês começa com a primeira lua cheia do ano!
Portanto, antes de ter começado, já começara.

31/01/2011

A vermelhinha



Como se a História se explicasse, se previsse.
Apostar às cegas, não apostar, pensar que se sabe onde está a vermelhinha.
Pensar que uma aposta qualquer que seja serve os nossos interesses.
Amanhã – como dizia o outro – estaremos todos mortos.

30/01/2011

Comprar o carro de

Há quase seis anos, o Expresso compunha a sua primeira página entre outros assuntos, com isto:


Expresso

Disse na altura que ir comprar um carro com qualquer um deles me parecia ser uma aventura especialmente atractiva. Ou disse algo mais bizarro.
Disse na altura que ser vizinho fosse de quem fosse, com qualquer um deles me parecia ser um insulto despropositado. Ou disse algo mais anormal.
Supondo eu seis anos depois, que é o tempo que eu normalmente levo a perceber os jornais, que, nos casos por mim avivados a amarelo em vez de “com” deveria estar um “de”, sucedeu-me ontem, e é por isso que isto saiu a terreiro, ter a oportunidade de comprar um carro em segunda mão de...
É claro que foi o meu velho amigo que me chamou para me dar conta de que ainda não tinha a encomenda para mim mas que tinha aquele.
Para prova, não mostrou senão uma fotocópia do BI da pessoa em causa. A pessoa em causa ainda não tem portanto cartão de cidadão.
E eu julgo que apesar do muito instrutivo pequeno buraco no tapete, cerca de um pé atrás do pedal do acelerador, a pessoa em causa tem todo o aspecto e também a reputação de ser alguém a quem se pode comprar um carro.
Tenho que acreditar no meu amigo. Que não me mostrou um documento em que àquela matrícula corresponde o nome de tal proprietário.
Como podem calcular se seguiram o segundo link, há anos e anos que estou comprador e não me resolvo.

28/01/2011

Ainda não perceberam mesmo

Recebi do meu velho amigo Isabelino Abreu dos Anjos a missiva que segue e que é melhor verem ampliada, nela clicando, caso a queiram ler:



Eu próprio tinha dado pela coisa, visível que está no Telejornal de hoje, segunda parte, aos dois minutos e picos.
Depois disso, ainda continuei a ouvir uma série dos tais que não perceberam a dizerem, com toda a naturalidade, que não sabiam o número de eleitor.
O meu amigo Isabelino, usado como mau exemplo à sua revelia, é que, como ele diz, não é burro como eles.
Já não há ZLAN como antigamente



Um porta-aviões movido a energia nuclear no Tejo e não há baderna!
Os ZLAN andam apáticos ou eu ando mal informado.
Isso de haver armas nucleares a bordo era, no tempo deles, um pormenor sem importância.
Hoje não sei.
E ainda não perceberam...



Ouvi ontem uma nova e ainda mais estúpida – que os cartões de eleitor também foram destruídos aquando da obtenção do cartão de cidadão.
Que o cartão de eleitor não tinha nem nunca teve utilidade alguma para além de conter o respectivo número todos sabíamos. Ou devíamos saber.
Certa vez, há muitos anos, numa assembleia de voto em que indiquei o número respectivo sem apresentar o cartão, vi-me na contingência de ter que explicar à presidente da dita que o tal cartão era uma inutilidade legal e técnica.
Que tinham destruído tais cartões ouvi pois ontem. Não sei se é verdade mas se eles para nada serviam, nada se perdeu.
Esqueceram-se foi, pelos vistos, de dizer às pessoas a quem destruíram tais cartões que o que contava era o número, saber o número, nem que fosse apontado num papel pardo.

No meu caso, como aqui já referi, não só ninguém me pediu o cartão de eleitor para ser furado e inutilizado como me enviaram não uma mas duas cartas idênticas a indicar-me o novo número de eleitor, uma vez que no meu caso, havia uma alteração de morada.
Isento pois, no meu caso, de responsabilidade e culpa a administração.

Entretanto, há também quem diga que o número de eleitor era também para extinguir.
Espera-se que, ao fazê-lo, tenham consciência das alterações que isso provoca na elaboração e actualização dos cadernos eleitorais. Particularmente nas freguesias populosas que é onde está o busílis. Nas terras pequenas, toda a gente se conhece e há mais expediente.
Duvido, porém, que essa consciência exista. Pelo exemplo em análise.

É que continuo a achar que ainda há muita gente com responsabilidades que não percebeu o que aconteceu.
Já não vai perceber.

27/01/2011

A nesga de Cristo

Ali ninguém crê.
Naquele quarto hospitalar onde a vida reage sedadamente à agressão que ela própria se inflingiu.
Ela nunca saberá que ele se sentou, ao comando dela, frente à nesga de Cristo.
Ele só o soube, horas depois, quando o silêncio do quarto e a escuridão da janela lhe mostraram, pela estreita nesga das cortinas, pela muito estreita nesga das cortinas, o monumento iluminado. Enquadrado, aresta com aresta, limite com limite, com a estreita, muito estreita, nesga das cortinas.

25/01/2011

Dois anos com ruas

Foi a 25 de Janeiro de 2009 que iniciei a colecção das “Ruas com Dias”.
Decorridos dois anos, há nela 164 placas correspondentes a tantos dias.
E há 331 dias do ano dos quais julgo ser possível encontrar a respectiva placa em Portugal.
Daqui por dois anos tenho portanto a obrigação de ter completado as possíveis.
Quanto às outras, depois se verá.

24/01/2011

Algumas notas sobre a eleição presidencial

Mr. Gaston Smith ousou apostar contra mim na percentagem que teria Manuel Alegre.
Fê-lo, no entanto, sob reserva mental, com o único intuito de nos juntarmos para uma jantarada quando ele aportar por terras de Portugal.
Significa isto uma de várias coisas:
Ninguém lê este blogue – coisa que eu sei que não é verdadeira. Tenho provas materiais de que há quem o leia.
Ninguém que lê este blogue se interessa por apostas.
Ninguém que lê este blogue e se interessa por apostas achava que Manuel Alegre granjeava maior percentagem de votos do que a que obteve há cinco anos.
Ninguém que lê este blogue, se interessa por apostas e achava que Manuel Alegre granjeava maior percentagem de votos do que a que obteve há cinco anos, tinha algum interesse em terçar facas e garfos com o seu autor.
Pois bem, Alegre ficou abaixo dessa fasquia e eu vou palmar o jantar a Mr. Gaston Smith, tão cedo ele aporte.

Ainda hoje ninguém percebeu o que aconteceu ontem, no caso do recenseamento.
Ouvem-se os mais rotundos disparates para descrever o que se passou. Eu escrevi descrever.
E o que aconteceu foi que existiu um número considerável de gente que não sabia o seu número de eleitor. E um número considerável de gente que desconhecia o seu local de voto.
E um sistema incapaz de responder a estes problemas.

Comecemos pelas causas:

Ponto um – gente que não sabia o seu número de eleitor.
Não faço ideia se foi este o problema mais significativo.
Mas aqui começa a incompetência técnica. Começa quando se percebe que se levou muita gente a pensar que o cartão de cidadão dispunha de informação sobre o local de voto e número de eleitor, isentando assim a pessoa de o saber.
Ou seja, que tendo um cartão com chip em algum lugar haveria forma de inserir o cartão e obter a informação. Ou qualquer coisa mais mágica.
Isto evita-se chamando a atenção para o facto de essa informação ser errada e que a detenção do cartão de eleitor* que ostenta o respectivo número continua a ser necessária.
Tal como, quando é caso disso, se deve chamar a atenção para a reorganização dos cadernos eleitorais e consequente alteração do número de eleitor.

Ponto dois – o texto que se encontra disponível no portal do cartão de cidadão não diz que ao obter o cartão de cidadão se altera automaticamente o número de eleitor.
Diz, isso sim, que a alteração de morada provoca de imediato a alteração óbvia do local de recenseamento e consequentemente do número de eleitor e deixa antever que o recenseamento eleitoral passa a ficar dependente da morada, coisa que não acontecia com o bilhete de identidade, a menos que fosse solicitada pelo próprio.
Só mudam de número de eleitor e local de voto as pessoas que tinham antes um local de voto que não correspondia à morada oficial.
Ora isto supre-se com a informação vincada de que deverá aguardar uma correspondência da junta de freguesia com a indicação do seu novo número de eleitor – coisa que aconteceu comigo. E depois averiguar do local onde vota, coisa que todos devemos fazer quando mudamos de morada.
Ou que, não recebendo tal carta, será necessário deslocar-se à junta ou a outro local a indicar, caso exista, para receber essa informação.
Excluem-se os casos em que a freguesia resolveu alterar a localização das assembleias de voto, que suponho sejam em número insignificante.

Tudo isto se pode fazer com uma campanha visível nas televisões.
E pode ainda corrigir-se com uma listagem alfabética disponível em locais convenientes. Com tanto dinheiro atirado à rua, não seria por aí que iríamos empobrecer mais.

Ponto três – a resposta do sistema.
Ouvir, como ouvi, que o sistema tinha previsto o problema mas que a previsão tinha sido ultrapassada é, no mínimo, um insulto que quem tal diz desfere a si próprio.
Como o engenheiro que se desculpa por não ter previsto o vento de 140km/h mas o de 90km/h. Mas previu.
Esta é a afirmação proferida. O caso pode sempre ser assim, de erro ao prever. Ou pode ter sido de previsão certa mas de erro no dimensionamento. O resultado final é o mesmo e a causa a mesma – incompetência técnica.

Aqui chegados, verifica-se que quem gere o sistema, espalhou-se ao comprido.
Não sei se aprenderá a lição, pois este caso já se adivinhava desde 2009. Nessa altura com uma dimensão muito menor, por razões óbvias.

Depois há os tontos que comentam, que falam em falhanço das tecnologias (uma palavra que me fere os ouvidos, quando precedida do adjectivo novas) sem terem percebido o que de facto aconteceu.

*é melhor isso do que dizer que basta apontar o número.

23/01/2011

O meu boletim


a ordem dos factores não é arbitrária, mas em nada se relaciona com a ordem dos boletins oficiais.
Incompetência técnica

O caso das confusões com os números de eleitor, cartões de cidadão e cadernos eleitorais é uma mera questão de profunda incompetência técnica de quem tem a responsabilidade de organizar um acto eleitoral.
Burrice – como se dizia antigamente.

22/01/2011

Coisas que os antigos diziam de outra maneira - sentença segunda

Uma medida da idade é a frequência com que as nossas histórias, reais e inventadas, nos rebentam na mente como episódios de amor mal resolvidos.

20/01/2011

Coisas que os antigos diziam de outra maneira

Depois de construíres uma reputação, ela paga-te, destruindo-te.

17/01/2011

O anspeçada fotógrafo

Verifica-se que, desde a minha despromoção a anspeçada no final de 2006, o número de fotografias tiradas diminuiu.
O valor do ano de 2005 refere-se a cinco meses.
A azul claro, um valor médio ponderado para o ano inteiro.
Se em 2011, como espero, recuperar a minha condição de cavaleiro, isso reflectir-se-á no número de fotografias?
A ver vamos – por um óculo. Por um diafragma.

16/01/2011

Céu de 19000



E outras histórias.
A materialização de sete sonhos ali, na mesa do fundo, entre a juíza e a espanhola perdida em Trás-os-Montes.
De origem perfeitamente definida.
Boa tarde sou eu.
E assim foi. Sob o céu de 19000.

13/01/2011

Balanço do ano

Espero que o Brasil tenha fechado já o ano de 2011 no que concerne a catástrofes.

11/01/2011

Notas de viagem



Que não se fale da azeda troca de palavras ali ocorrida pouco antes.
Não se tratava senão de uma sala de viagem.
Por ali me deitava numa divã encostado à antepara de vante.
Quando a paisagem lá fora escureceu a uns milhares de pés de altitude, o meu espanto foi apaziguado pelo esclarecimento de um passageiro habituado – é o túnel de verificação de sinais, faz um espécie de check-up à aeronave, a meio do Atlântico.
Quando de imediato uma volta apertada e descendente terminou numa aterragem na ilha, calculei que o avião chumbara no teste.
Enganei-me.
Era uma paragem para desentorpecer as pernas e comer o farnel.
Estranhei que o caminho para o Brasil tocasse os Açores. Mas comi a sandes na mesma.

10/01/2011

Break-even

Tenho pensado nisto ultimamente.
Quando devo eu parar de comprar livros, por me ser já impossível lê-los?
Diz o INE que a minha esperança de vida é de 31,8 anos*, média que aliás eu fiz, e não o INE, combinando o local de residência com o de origem.
Isso dá, pela dita média, 1654 semanas.
Há dois anos e meio que me dou ao trabalho de ir tombando os livros que compro e os que vou lendo.
Verifico que, desde essa altura, leio cerca de 1,8 livros por semana.
Minoremos isso para 1,5.
Se me mantiver em estado de manter esse ritmo de leitura, ainda dá para quase 2500 livros.
Dos tombados, tenho cerca de metade disso para ler. 1222 neste preciso momento.
Dos que tenho nas estantes sem estarem registados nem lidos, creio que umas centenas.
Estou portanto na fase de só comprar muito criteriosamente.
Ainda dá tempo para os ler todos, espero.

Entretanto, já depois de ter alinhavado estas palavras acima na sexta-feira passada, tive tempo para arrematar mais 35 deles.

* Adenda em 12 de Janeiro de 2011 – não sei como é que cheguei a 31,8 anos quando o resultado é 26,7. Suspeito que troquei as contas por um palpite. Chumbo em ciências exactas.

09/01/2011

Surpresa

Quando se diz que se está surpreendido por uma revista, qualquer que ela seja, levantar um problema da governação de um país, qualquer que ele seja, sem que tal problema tenha sido debatido nas devidas instâncias, isto revela o quê?
Isto não é uma atitude semelhante à que condena ou diz não entender os mercados? – em suma uma ocasião em que mais valia nada dizer.

08/01/2011

Uma era

A SIC Notícias começou a emitir há dez anos – não falam por lá de outra coisa, hoje.
Independentemente do meu juízo normalmente negativo do jornalismo, causado pela impreparação de muita gente que aparece a papaguear coisas que não entende, a caracterizar coisas que desconhece e a empolar nadas, é positivo que haja um tal canal de televisão e os seus congéneres. Fará talvez com que deles saiam no futuro profissionais mais preparados, dadas as exigências que presidem a um canal de notícias, diferentes das que geraram grande parte dos profissionais de agora.
Mas com eles acabou uma era. A da televisão generalista e gratuita. Gratuita se fizermos um esforço para esquecermos a antiga taxa de televisão e a contribuição áudio-visual que ainda hoje se paga para o serviço público.
O que resta dessa televisão é pouco mais do que refugo, para não lhe chamar coisa pior.
Um equador



Um equador separa dois mundos - a face oculta e o lado solar. Para lá dele todos os locais distam de cada um de nós, no pólo pessoal, mais do que qualquer um dos que ficam aquém.
No nosso pólo, deitados na horizontal, caminhamos erectos sobre um ponto desse equador.
Assim nos deitemos de cabeça à roda, assim circularemos sobre tal linha.
Que cada um saiba onde passa o seu equador, dado o pólo onde escolha deitar-se.

Talvez ainda volte a falar do meu, dos sítios por onde passa.

07/01/2011

Percentagens



A título de curiosidade, o número de votos recolhidos e as respectivas percentagens pelos presidentes reeleitos:




1980 Ramalho Eanes 3262520 56,44%
1991 Mário Soares 3459521 70,35%
2001 Jorge Sampaio 2401015 55,55%


dados da CNE*

* embora o número de votos apenas conflitue com os dados do antigo STAPE, a fórmula de cálculo das percentagens, diversa de organismo para organismo, dá valores diferentes aqui e acolá.

06/01/2011

Duas notas com ano e meio

[...] Sobre isso já disse o que disse, mas cabe ainda acrescentar que, sendo leitor do Expresso desde 1973, apreciei devidamente a arrogância publicitária do BPP na Revista do dito ao longo dos anos (alguém já terá enumerado os colaboradores voluntários de tal publicidade?).
Fiquei, talvez por não ser parte do público-alvo da coisa, quase desde o primeiro momento, com a devida erisipela ao ler as notas à margem dos textos dos convidados. [...]

aqui, em 9 de Junho de 2009

Finalmente, alguém se lembrou da lista dos que fizeram propaganda ao BPP.

Alguém dizer agora, como disse Manuel Alegre, que não sabia para que serviria o texto que escreveu, não abona nada em seu favor.
Tal como não abonava a seu favor então e agora, a declaração de Cavaco Silva que tinha (tem) perdido muito dinheiro com as suas aplicações financeiras.

Diz o Presidente da República que está a perder muito dinheiro com as aplicações das suas poupanças. [...]
aqui, em 3 de Junho de 2009

04/01/2011

A burra de Wim Wenders

Tenho uma certa predilecção pelos filmes de Wim Wenders, é certo.
Não contava, porém, ver-me a braços com uma burra teimosa pertencente a um dos meus velhos amigos, figurando esta – que não eu - num filme do dito.
Tanto andava por ali, cavalgando-a em pêlo, apenas com uma corda a jeito de rédea, como via do alto a sombra de alguém sobre o caminho, a puxá-la.
A sombra, apenas. A que se acrescentava a da sirga muito para além das mãos da sombra.
No final, havia um almocreve escondido, com carroça e tudo, dentro de um retábulo.
O meu amigo foi lá acordá-lo, de má catadura.
De Wim Wenders, nem o rasto.

03/01/2011

Acordo ortográfico

Pertenço ao número dos que consideram indiferente a adopção ou não adopção do acordo ortográfico. Só por si.
Já as razões geralmente invocadas para a sua celebração sempre me pareceram equivalentes a grosseiros disparates.
Não me recordo de uma única que fizesse algum sentido.
Mas a escrita assim ou assado não é relevante para mim. Vou continuar a escrever como me parece, demorando o meu tempo a adaptar-me, tal como demorei com a última norma que, entre outras coisas eliminou o acento grave em alguns advérbios de modo. Que foi a de que mais dei conta.
Não vejo razão para alguém se agarrar a uma ortografia em particular a não ser à que lhe é ensinada em tenra idade.
Para congelarmos a ortografia, qual seria o critério para a congelarmos com a norma de ontem e não com a de anteontem, do século passado ou de há quinhentos anos?
A RTP entretanto, para falar do assunto, apresenta este quadro:


imagem da RTP
Castro Marim, 1988