29/06/2007

As unidades de medida

São como o resto.
Conhecemos, lidamos com umas e nada sabemos de outras. Mesmo que um dia tenhamos visto uma equivalência algures, nada nos dizem.
É o caso do alqueire. A mim não me diz nada, não obstante ter passado a vida a ouvir falar dele.
Um destes dias ouvi um indivíduo a dizer que os pais dançavam em cima de meio-alqueire. De uma caixa de castanho com essa capacidade.
Sei da arroba, vejo-a mais do que a peso. Vejo-a nos porcos, na cortiça.
Sei do hectare, passo-o a olho também.
Sei do cavalo-vapor, do quilómetro, do minuto. Sinto-os a puxarem-me, vejo-os a passar, estimo os que faltam.
Sei do grau centígrado, na pele. Do litro, goela abaixo.
Mas falta-me essa noção de alqueire, ainda que o saiba equivalente a... , ainda que o reouça contado nas inúmeras histórias da minha infância.
De azeite.

28/06/2007

Vila Nogueira de Azeitão, 2006

Palmela, 2006

O homem com cara de manta de baile

626 páginas - perdão, 625 páginas - já que esta foi eliminada, é a quanto monta o livro das coisas que para ali estão à espera de um dia descerem ao prelo virtual desta praça.
De tudo o que lá encontrei hoje, com a minha cara de hoje, foi a esta notícia que me apeguei:
A do homem com cara de manta de baile.
Daquelas que as vigilantes mães do povo punham no regaço nas noites de invernia.
Não creio que seja preciso dizer mais nada.

27/06/2007

Tony Blair


imagem da BBC

E é hoje que o homem se vai.
O critério pelo qual se avalia hoje o desempenho de um político parece-me ser o da quantidade da variação de qualidade de vida que proporcionou àqueles a quem governou.
Seja lá como é que isso se mede.
Por não saber como é que isso se mede é que não posso pronunciar-me objectivamente sobre o homem.
Como é sabido, tinha a minha parcialidade quando avaliava os seus actos. Parcialidade que começou ainda antes de ganhar as eleições em 1997.
Passados que são dez anos, acho agora que são raros os homens como ele.
Descontando todas as barbaridades que disse, exactamente por ser político.
É que políticos, hoje, há poucos. Ele era de facto um.
Avarias

26/06/2007

Algarismos significativos

De acordo com o estudo dito da CIP, a minha freguesia encontra-se na zona de atracção da zona do Poceirão mas não na da chamada zona H, a tal que se sobrepõe em parte, nas alternativas 2 a 6, ao Campo de Tiro, quando comparadas com a Ota.
Se considerarmos as seguintes distâncias*, com um erro a menos de 10 km, erro que me parece razoável dada a dimensão do empreendimento:
À Ota – 160 km
Ao Poceirão – 110 km
À zona H – 120 km
é de duvidosa clareza que se tome por unidade significativa a freguesia.



*medidas na aplicação do IGEOE sobre a Carta Militar de Portugal, do edifício da sede da freguesia ao centro dos rectângulos ditos Ota e Poceirão e ao baricentro do polígono definido pelas linhas exteriores da conjunção dos seis rectângulos traçados na zona H, no referido estudo.

24/06/2007

Restos de colecção (59)

A propósito da data que é também quase o 44º aniversário desta ponte, relembro outros posts.



in Ponte da Arrábida sobre o rio Douro e seus acessos, MOP - JAE, 1963
clicar para ampliar

22/06/2007

Torres Vedras, 2006



O meme visto por ele próprio

Confesso que não sou muito dado a cadeias. Vejo os links que aqui tenho como elos de uma, de umas. Basta-me isso.
Mas lançado que me foi o repto, uma vez mais, acedo a integrar-me numa.

Ora, o meme. O meme é um nome que já tinha visto escrito aqui e ali. Não me despertou interesse a palavra, o conceito, a ponto de querer saber exactamente o que era, ao contrário de outras palavras, de imagens que me levam em correntes, elas sim, de novos conhecimentos. Acontece a todos, creio eu.
E recebido o convite para o meme, houve então que completar a noção pálida que tinha do conceito e que era qualquer coisa relacionada com mimetismo.
Eu faço. Tu fazes. Ele faz.
Mas não é isso, sendo-o.
Do que descobri, via aqui e acolá, posso mencionar que tropecei neste post, que daí fui à wikipedia e que por lá me quedei. Diz que o nome tem mais de 30 anos. Muito prazer.
E fiquei com a ideia de que é uma definição poética demais para ser científica.

Aceitando todavia que estes pontos de contacto nos permitem passar memórias que se apagariam de outro modo e apesar de este blogue ser em parte dedicado à preservação de algumas memórias, passando-as, aproveito o ensejo para relembrar dois factos da História de Portugal do séc. XX que parece terem sido banidos dos relatos:

O acidente ferroviário do Rápido do Algarve que ocorreu perto de Sabóia (Odemira), creio que em 1956, e parece que foi um dos mais graves acidentes ferroviários ocorridos em Portugal.
A onda de muitos metros que matou na areia uns quantos pescadores na praia de Santo André (Santiago do Cacém), apanhando-os completamente desprevenidos e que terá ocorrido ou na década de 1950 ou na de 1960.

Suponho que as tentativas que fizerem de pesquisar na rede sobre tal, irão fatalmente voltar aqui, a posts anteriores em que os já mencionei.

A minha proposta é pois: Passo este meme a quem tiver alguma informação mais sobre um destes dois factos. Ficava muito grato se me a comunicasse.

E aqui está, Errezinha.
Anços, 2006

20/06/2007

Suicidário

Tínhamos vindo das cervejas no bar da praia.
Os sete ou oito que ali andávamos entre a política e as Marinas frescas, tivemos mais tarde a certeza de lá ter visto um blusão de cabedal que de costas parecia soçobrar a uma franja decorada com fita.
Entre o manifesto de resistência mais ou menos militante, ainda que naquela hora tão efémero que se reduzia a traços na areia que a maré vazia proporcionava como quadro, e o silêncio sobre as expectativas individuais incidindo no próximo baile da Esplanada, distinguimos claramente o som da motorizada em lancinantes arranques.
Celebração finda com a pancada brutal.
Quando alcançámos o final do túnel e encontrámos a máquina ainda acelerada no fundo das escadas, já o blusão de cabedal mostrava ao cimo dos degraus reflexos metálicos da pouca luz que a cerrada noite permitia. Talvez luar apenas.
Não morri! - a frase concatenava-se com os ecos da discussão que recordávamos agora.
Pôs-se de pé. Andava, sangrava, ria, chorava.
No hospital da vila, uma empregada em traje de sono escancarou-lhe as portas. Que venha a ambulância, que estou cá sozinha.
Não cheguei a saber a quem pertencia o blusão de cabedal, apenas soube de onde viera.
Três anos mais tarde, enquanto conduzia a casa o encanto de uma noite, percebi que era conterrânea do blusão preto. Se ela sabia quem era.
Morreu no ano passado. Matou-se, disse ela.

19/06/2007

Ali, ao pé dos arcos de pedra

Ali, a partir do momento em que transpus aquela porta que direi suja, mesmo sem saber se suja estaria, e digo suja daquele baço que os vidros tomam da argamassa de pó e humidade, ali, ao pé dos arcos de pedra, assim que transpus a porta, comecei a escrever estas linhas. Ou outras que não estas, que não há maneira de saber quais foram ao certo as linhas que então escrevi.
O homem ensaiava problemas nos escaques magnéticos. Olhou-me por cima de uns óculos que direi óculos sem cuidar de saber se o seriam, se seria apenas um olhar assestado a um zénite venial.
E levantou-se, tendo o cuidado de me perguntar o que desejava.
Nesse ponto, escrevia-o parte de uma companhia de caçadores que haveria de reunir no covil do camarada de armas um destes dias. Escrevia-o em papel verde, de 45 g, A5, convocando todos e indicando dois números de telefone, ou três, com alcunhas consagradas. Mesmo que me parecesse inútil, estranho, fazê-lo assim em papel.
Com ou sem manteiga?
Respondi, pensando nos pratos por encomenda que cada um reservaria para si, no tal bródio.
O para beber veio gelado, da arca.
Nesta altura antevia o parque de estacionamento ainda com os restos da sinalização "convívio da companhia de caçadores...", um ou dois ou mesmo três carros de companheiros mais recordativos ao sétimo uísque, o cão que fareja os restos, um fio de água que vem sabe-se lá de onde e é tudo.
Despeço-me do homem que demora os óculos ou o olhar descido nos escaques. O jornal continua marcado na mesma página. Parece que o está há meses.
Subtraio o meu carro à conta do parque. A diferença é zero.
Rio Jamor (sob a E.N. 6), 2007