Arroz de marisco
Hoje não é dia para essas coisas.
Vejo mais a preocupação no cabrito e no borrego.
Mas se calhar, vem a propósito falar dessas ondas de prato único que nos assolam como modas de Primavera – Verão.
Dizem-me que já não há colecções de Primavera – Verão e Outono – Inverno. Que agora a coisa é mais diluída...
Voltemos à mesa.
Mais uma vez, estas coisas não são novas. E muitas vieram de longe.
Imagino o que terá sido quando se vulgarizaram as batatas. E o bife.
Ainda hoje lhe ferramos o dente, eu que o diga.
Mas que volta e meia, há estes surtos de pratos que se encontravam confinados a meia dúzia de sítios, é um facto.
Vivi ainda tempos em que se buscavam os locais para se provarem as especialidades.
Hoje, comem-se coisas daqui e dali em qualquer local do país.
E volta e meia, vem a onda.
Assim de memória recente, vem-me o arroz de marisco e o porco preto.
Claro que há mais. Mas estas redescobertas cheiram-me sempre a whisky em cima do almoço.
E eu cá sou madronhêro.
Bom apetite e boa Páscoa.
10/04/2004
09/04/2004
A razão que eu tinha
Há poucas coisas piores do que isso.
Vês? Vês como eu tinha razão? Eu não te disse?
Em primeiro lugar, esta é uma frase que não se pode dizer.
Em segundo, contrariando o primeiro, mesmo que se diga, de nada serve.
Em terceiro, contrariando o segundo, se serve é para alargar distâncias.
Mas o diabo é que se diz. E diz-se sempre.
O outro perguntava à evangelizadora porque é que ela insistia em querer salvar os outros.
Ela respondeu-lhe com uma pergunta:
Se visse o seu filho à beira de um precipício não corria para o salvar? Não lhe chamava a atenção para o perigo?
Ao que ele respondeu:
E porque haveria eu de ver o precipício, se ele próprio o não via?
E se visse, supondo que via, o que faria?
Supondo que via, que o precipício existia, avisava-o, mandava-o recuar, abeirava-me, saltava e depois dizia: Vês? Eu não te disse?
Há poucas coisas piores do que isso.
Vês? Vês como eu tinha razão? Eu não te disse?
Em primeiro lugar, esta é uma frase que não se pode dizer.
Em segundo, contrariando o primeiro, mesmo que se diga, de nada serve.
Em terceiro, contrariando o segundo, se serve é para alargar distâncias.
Mas o diabo é que se diz. E diz-se sempre.
O outro perguntava à evangelizadora porque é que ela insistia em querer salvar os outros.
Ela respondeu-lhe com uma pergunta:
Se visse o seu filho à beira de um precipício não corria para o salvar? Não lhe chamava a atenção para o perigo?
Ao que ele respondeu:
E porque haveria eu de ver o precipício, se ele próprio o não via?
E se visse, supondo que via, o que faria?
Supondo que via, que o precipício existia, avisava-o, mandava-o recuar, abeirava-me, saltava e depois dizia: Vês? Eu não te disse?
08/04/2004
Lápide
Talvez te sintas melhor assim.
Nunca conviveste bem com a popularidade.
Achavas até que te confundiam com outro, como quando os estudantes brasileiros te disseram que te conheciam pela obra.
É curioso que não haja na rede (existe agora uma rede de comunicação e de informação à escala global) uma só menção ao teu nome.
Talvez prefiras assim.
Quantos serão os portugueses que não conhecem, não usam a tua obra? Poucos, muito poucos.
Quantos já não a admiraram, sem saberem quem fez aqueles traços, quem calculou aqueles pilares?
Demoliram uma delas. Não, não tinha nenhum problema. Foi o progresso. Coisas novas. Mas o serviço que fazia, e que não foi substituído, faz falta. Mentalidades.
De um jornal, uma pessoa atenciosa mandou-me várias fotografias da demolição.
Vê-se a qualidade da coisa, que foi má de deitar abaixo.
Retribuí com uma foto dos primórdios.
Para minha surpresa, teve destaque de primeira página. Sem que eu quisesse, lá apareceu o teu nome.
Ainda não as descobri todas. Naquele dia, no metro, em que falámos da tropa, das manobras de Pegões, das cento e tal obras, não pormenorizámos o suficiente. Fazia-me falta um arquivo, um caderno.
Assim, tenho usado as tuas agendas de bolso, uns blocos que me entregaram, cópias dos arquivos oficiais, ozalids que encontrei dentro de baús, fotografias, uns dossiers de projecto, rabiscos em mapas do ACP e já descobri cinquenta e seis. Para aí metade. Mas há muitas outras para as quais olho e em que vejo os traços de família, falta o teste do ADN.
É bom, muito bom um fim de tarde à beira do Mira. Ao pé de uma das que mais gosto. Não, não é aquela grande. É a que chamam do Salvador.
Isso deu-me outra ideia.
Um dia conto-te.
Tenho saudades tuas. Já lá vão vinte e três anos.
Pois é, ainda não tens netos. Mas as tuas árvores têm sobrevivido.
É verdade. Nunca te tratei por tu.
Talvez te sintas melhor assim.
Nunca conviveste bem com a popularidade.
Achavas até que te confundiam com outro, como quando os estudantes brasileiros te disseram que te conheciam pela obra.
É curioso que não haja na rede (existe agora uma rede de comunicação e de informação à escala global) uma só menção ao teu nome.
Talvez prefiras assim.
Quantos serão os portugueses que não conhecem, não usam a tua obra? Poucos, muito poucos.
Quantos já não a admiraram, sem saberem quem fez aqueles traços, quem calculou aqueles pilares?
Demoliram uma delas. Não, não tinha nenhum problema. Foi o progresso. Coisas novas. Mas o serviço que fazia, e que não foi substituído, faz falta. Mentalidades.
De um jornal, uma pessoa atenciosa mandou-me várias fotografias da demolição.
Vê-se a qualidade da coisa, que foi má de deitar abaixo.
Retribuí com uma foto dos primórdios.
Para minha surpresa, teve destaque de primeira página. Sem que eu quisesse, lá apareceu o teu nome.
Ainda não as descobri todas. Naquele dia, no metro, em que falámos da tropa, das manobras de Pegões, das cento e tal obras, não pormenorizámos o suficiente. Fazia-me falta um arquivo, um caderno.
Assim, tenho usado as tuas agendas de bolso, uns blocos que me entregaram, cópias dos arquivos oficiais, ozalids que encontrei dentro de baús, fotografias, uns dossiers de projecto, rabiscos em mapas do ACP e já descobri cinquenta e seis. Para aí metade. Mas há muitas outras para as quais olho e em que vejo os traços de família, falta o teste do ADN.
É bom, muito bom um fim de tarde à beira do Mira. Ao pé de uma das que mais gosto. Não, não é aquela grande. É a que chamam do Salvador.
Isso deu-me outra ideia.
Um dia conto-te.
Tenho saudades tuas. Já lá vão vinte e três anos.
Pois é, ainda não tens netos. Mas as tuas árvores têm sobrevivido.
É verdade. Nunca te tratei por tu.
Pirraça
Pois é.
Em homenagem aos mais de cem visitantes que aqui têm vindo em busca do sistema milagroso, e os quais curiosamente aqui entram através de um resumo semelhante a este:
Na verdade, o sistema existe e não está à venda. É tão elaborado, tão elaborado que nunca acertou.
Apesar disso, na semana passada por exemplo, ao desdobrar os 49 números segundo critérios que têm em conta tão só intrincadíssimas intersecções estatísticas, gerou 4 chaves.
Das 4, uma foi premiada (3 acertos).
Digam lá se não são capazes de fazer o mesmo, pedindo os números a quem está ao vosso lado no café. Acho que sim.
Mas claro que vou jogar.
Daqui a umas horitas, quando ele completar os cálculos, já que à primeira mostrou não existirem chaves que passassem por todos os filtros, lá irei eu também com o boletinzinho na mão.
Boa sorte, que ganhe o mais sortudo. Tenho a certeza de que será assim.
Há vinte anos que ando nisto. Manias.
Pois é.
Em homenagem aos mais de cem visitantes que aqui têm vindo em busca do sistema milagroso, e os quais curiosamente aqui entram através de um resumo semelhante a este:
Na verdade, o sistema existe e não está à venda. É tão elaborado, tão elaborado que nunca acertou.
Apesar disso, na semana passada por exemplo, ao desdobrar os 49 números segundo critérios que têm em conta tão só intrincadíssimas intersecções estatísticas, gerou 4 chaves.
Das 4, uma foi premiada (3 acertos).
Digam lá se não são capazes de fazer o mesmo, pedindo os números a quem está ao vosso lado no café. Acho que sim.
Mas claro que vou jogar.
Daqui a umas horitas, quando ele completar os cálculos, já que à primeira mostrou não existirem chaves que passassem por todos os filtros, lá irei eu também com o boletinzinho na mão.
Boa sorte, que ganhe o mais sortudo. Tenho a certeza de que será assim.
Há vinte anos que ando nisto. Manias.
07/04/2004
Mar das Antilhas
Descobriu a fotografia a meio da manhã
Num semi-deserto povoado de nómadas
Que pagavam caro a sua estadia sazonal.
Deixou-se ficar junto da praia,
Admirando as gaivotas na pequena lingua d'areia
E auscultando o mar.
Desejou regressar à pequena cabana de colmo
Para se bater com um peixe fresco
E provar o tal branco que fresquinho...
E recordou as tardes de água verde
Escorrentes e embaladas
Pelo som de segredos ciciados no seu corpo.
Entendeu o prazer como um corolário meditabundo
De pós-guerra
Pondo na lembrança as mulheres possuídas.
Resumiu as vivências acumuladas
Numa canção recuperada às juke-boxes
De verões sessentistas e sorriu.
Gozando sol e mar
Nas suas paragens preferidas
Largou fumaças sob as escuras lentes.
E então contemplou o casario longínquo,
De branco pintado entre palmeiras e muros,
Mirou o imponente castelo
Que parecia flutuar sobre as areias e o rio
E, àvidamente, descobriu a fotografia!
Faltavam sete minutos para o meio-dia!
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Descobriu a fotografia a meio da manhã
Num semi-deserto povoado de nómadas
Que pagavam caro a sua estadia sazonal.
Deixou-se ficar junto da praia,
Admirando as gaivotas na pequena lingua d'areia
E auscultando o mar.
Desejou regressar à pequena cabana de colmo
Para se bater com um peixe fresco
E provar o tal branco que fresquinho...
E recordou as tardes de água verde
Escorrentes e embaladas
Pelo som de segredos ciciados no seu corpo.
Entendeu o prazer como um corolário meditabundo
De pós-guerra
Pondo na lembrança as mulheres possuídas.
Resumiu as vivências acumuladas
Numa canção recuperada às juke-boxes
De verões sessentistas e sorriu.
Gozando sol e mar
Nas suas paragens preferidas
Largou fumaças sob as escuras lentes.
E então contemplou o casario longínquo,
De branco pintado entre palmeiras e muros,
Mirou o imponente castelo
Que parecia flutuar sobre as areias e o rio
E, àvidamente, descobriu a fotografia!
Faltavam sete minutos para o meio-dia!
SG, "Dizeres do Sul", 1993
06/04/2004
05/04/2004
Muda ós 5, acaba ós 10
A coisa sempre me fez espécie.
Mudava aos cinco, acabava aos dez. Mas a vantagem era sempre dos que começavam por baixo.
Eu explico.
O largo ainda é inclinado. Só que agora já não estão lá os bancos de betão que até nem eram muito bonitos, até pareciam ter sido feitos com os mesmos moldes de algumas das vedações da CP. Não daquelas dos losangos em negativo. Das outras, que se viam mais na província.
Está lá agora um chafariz mal parido. Desenhado na certa pela filha daquele senhor que se gabava de ter uma filha com jeito para o desenho.
E o largo soçobrou às exigências viárias. Como se ali houvesse horas de ponta e necessidades de três faixas em cada sentido. Um mistério.
Mas voltemos.
Fazia-me espécie.
O banco de baixo, o da direita, e o de cima eram as balizas.
A coisa chegava ao intervalo aí com um 5-0, um 5-1 para os que vinham de cima para baixo.
E terminava com uns 6 ou 7 a 10. Ganhando os outros.
Foi sempre assim.
E nunca ninguém barafustou.
No dia em que o Zé Inácio aliviou directamente para os vidros da janela do Sr. Hipólito, percebi porquê.
Ninguém disse: “Foi aquele! Não fui eu!”
Já não me lembro se fugimos todos.
A coisa sempre me fez espécie.
Mudava aos cinco, acabava aos dez. Mas a vantagem era sempre dos que começavam por baixo.
Eu explico.
O largo ainda é inclinado. Só que agora já não estão lá os bancos de betão que até nem eram muito bonitos, até pareciam ter sido feitos com os mesmos moldes de algumas das vedações da CP. Não daquelas dos losangos em negativo. Das outras, que se viam mais na província.
Está lá agora um chafariz mal parido. Desenhado na certa pela filha daquele senhor que se gabava de ter uma filha com jeito para o desenho.
E o largo soçobrou às exigências viárias. Como se ali houvesse horas de ponta e necessidades de três faixas em cada sentido. Um mistério.
Mas voltemos.
Fazia-me espécie.
O banco de baixo, o da direita, e o de cima eram as balizas.
A coisa chegava ao intervalo aí com um 5-0, um 5-1 para os que vinham de cima para baixo.
E terminava com uns 6 ou 7 a 10. Ganhando os outros.
Foi sempre assim.
E nunca ninguém barafustou.
No dia em que o Zé Inácio aliviou directamente para os vidros da janela do Sr. Hipólito, percebi porquê.
Ninguém disse: “Foi aquele! Não fui eu!”
Já não me lembro se fugimos todos.
No topo da pirâmide
Há em todos nós um pedaço de Deus. Mesmo para o ateu que vos escreve assim é.
Não se trata de fé, do sublime, do divino.
Trata-se da luz.
Todos temos a tentação da luz.
De nos sentirmos iluminados e de termos que iluminar os outros.
Não falta quem queira dar lições disto e daquilo. Incluo-me no lote, não quero ser mais divino do que os outros e gozar da suprema humildade e da suprema presunção.
Mesmo ao dizer isto, julgo poder reconhecer uma certa pesporrência. Paciência. Sou humano.
Mas no meio deste lote, há casos e casos.
Há os que afirmam mas ouvem os outros. Há os que afirmam e não querem saber.
Há os que encontraram a solução. Há os que duvidam de tudo.
Há os que estão sempre numa destas posições e há os que oscilam entre elas.
Às vezes gostava de saber em qual delas estou.
Há em todos nós um pedaço de Deus. Mesmo para o ateu que vos escreve assim é.
Não se trata de fé, do sublime, do divino.
Trata-se da luz.
Todos temos a tentação da luz.
De nos sentirmos iluminados e de termos que iluminar os outros.
Não falta quem queira dar lições disto e daquilo. Incluo-me no lote, não quero ser mais divino do que os outros e gozar da suprema humildade e da suprema presunção.
Mesmo ao dizer isto, julgo poder reconhecer uma certa pesporrência. Paciência. Sou humano.
Mas no meio deste lote, há casos e casos.
Há os que afirmam mas ouvem os outros. Há os que afirmam e não querem saber.
Há os que encontraram a solução. Há os que duvidam de tudo.
Há os que estão sempre numa destas posições e há os que oscilam entre elas.
Às vezes gostava de saber em qual delas estou.
03/04/2004
Uma guerra
Então não foi? Uma guerra dos diabos!
J. olhava em volta e interrogava-se: de quantos sítios te podes tu gabar de conheceres tal e qual como estão hoje, há mais de vinte anos?
O dono da casa nem precisava de pedidos. Servia sempre de acordo com as memórias.
Volta e meia, assegurava-se: Falta alguma coisa?
Foi ou não foi uma guerra? Tás a ver?
Mostrava-lhe uma mensagem SMS que incluía uns cumprimentos para o J.
Da Finlândia, dizia ele com ar triste.
Assim ficaram, tarde adentro, comendo e bebendo.
Foi uma guerra.
Então não foi? Uma guerra dos diabos!
J. olhava em volta e interrogava-se: de quantos sítios te podes tu gabar de conheceres tal e qual como estão hoje, há mais de vinte anos?
O dono da casa nem precisava de pedidos. Servia sempre de acordo com as memórias.
Volta e meia, assegurava-se: Falta alguma coisa?
Foi ou não foi uma guerra? Tás a ver?
Mostrava-lhe uma mensagem SMS que incluía uns cumprimentos para o J.
Da Finlândia, dizia ele com ar triste.
Assim ficaram, tarde adentro, comendo e bebendo.
Foi uma guerra.
As imagens do penalty
Chegou e disse.
Repara bem nas repetições das imagens do penalty.
Agora diz-me se és capaz, se alguém é capaz de dizer que é ou que não é.
Mas repara bem que há milhões a vociferar. Quase todos ao lado da equipa pela qual torcem. É certo que há uns quantos que tomam o partido contrário. Uma minoria. Mas não penses que são melhores, também eles estão plenamente convencidos do que viram.
E tu?
Eu? Eu não gosto de futebol.
Enganas-te com outras coisas...
Saiu e tinha dito.
Chegou e disse.
Repara bem nas repetições das imagens do penalty.
Agora diz-me se és capaz, se alguém é capaz de dizer que é ou que não é.
Mas repara bem que há milhões a vociferar. Quase todos ao lado da equipa pela qual torcem. É certo que há uns quantos que tomam o partido contrário. Uma minoria. Mas não penses que são melhores, também eles estão plenamente convencidos do que viram.
E tu?
Eu? Eu não gosto de futebol.
Enganas-te com outras coisas...
Saiu e tinha dito.
02/04/2004
01/04/2004
Logro
Vamos dizer mais mal de ti ou de mim?
Dos dois, pá. Sem personalizar.
Mas tu é que te ajoelhaste aos pés do pai dela.
Mas pensava que era ela que vinha à porta.
Enganos. Mas ponho o quê? Os teus amigos?
Sim. Os teus amigos são insuportáveis, qualquer coisa assim.
O.K.. Achas que a letra tá boa assim?
Tá. Achas que ele vai olhar muito para a letra? É letra de gaja e chega.
Então, ele mordeu o isco?
Não te disse nada?
Não.
A mim disse-me. Disse-me que não percebia nada daquilo.
Então?
Ó pá, não percebia nada daquilo. Quem é que teria escrito a carta a ela. Acho que ele pensa que foste tu!
Pensa?
Se não pensasse, tinha-te dito. Ele pensa que foste tu e está admirado por ela ter respondido.
Quer dizer que vem esperá-la ao comboio?
Vem. Deve estar a aparecer.
Devíamos ter ficado do lado de lá.
Pois é. Mas onde é que a gente se escondia?
Eh pá, não nos escondíamos. Ficávamos ali ao pé da cancela e aparecíamos como quem não quer a coisa.
Aí é que ele desconfiava logo.
Achas que sim? Assim também não vemos a cara deles...
É agora! Apostamos?
Que ele falou com ela? Pois falou. Então para que é que viria esperá-la?
Olha! Olha-me bem para aquilo!
Eu não acredito! Ela está a ler a carta!
Ele não te disse nada?
Não.
Então é porque pensa que foste tu. Mas também acha que fui eu.
Então?
Disse-me seus cabrões, foram vocês. Mas depois disse-me que não percebia porque era mesmo a letra dela, frases dela...
E engatou-a?
Não sei. Acho que sim.
Vamos dizer mais mal de ti ou de mim?
Dos dois, pá. Sem personalizar.
Mas tu é que te ajoelhaste aos pés do pai dela.
Mas pensava que era ela que vinha à porta.
Enganos. Mas ponho o quê? Os teus amigos?
Sim. Os teus amigos são insuportáveis, qualquer coisa assim.
O.K.. Achas que a letra tá boa assim?
Tá. Achas que ele vai olhar muito para a letra? É letra de gaja e chega.
Então, ele mordeu o isco?
Não te disse nada?
Não.
A mim disse-me. Disse-me que não percebia nada daquilo.
Então?
Ó pá, não percebia nada daquilo. Quem é que teria escrito a carta a ela. Acho que ele pensa que foste tu!
Pensa?
Se não pensasse, tinha-te dito. Ele pensa que foste tu e está admirado por ela ter respondido.
Quer dizer que vem esperá-la ao comboio?
Vem. Deve estar a aparecer.
Devíamos ter ficado do lado de lá.
Pois é. Mas onde é que a gente se escondia?
Eh pá, não nos escondíamos. Ficávamos ali ao pé da cancela e aparecíamos como quem não quer a coisa.
Aí é que ele desconfiava logo.
Achas que sim? Assim também não vemos a cara deles...
É agora! Apostamos?
Que ele falou com ela? Pois falou. Então para que é que viria esperá-la?
Olha! Olha-me bem para aquilo!
Eu não acredito! Ela está a ler a carta!
Ele não te disse nada?
Não.
Então é porque pensa que foste tu. Mas também acha que fui eu.
Então?
Disse-me seus cabrões, foram vocês. Mas depois disse-me que não percebia porque era mesmo a letra dela, frases dela...
E engatou-a?
Não sei. Acho que sim.
M 16
O homem tanto insistiu que eu fiz-lhe a vontade:
É o resto. Agora só depois do Natal. Já viu nos outros lados que eu lhe disse?
Já. Em Portimão, não há loja de ferragens em que não eu tenha já comprado o stock.
Vá a Faro.
Naquele dia, São Pedro estava zangado com os algarvios.
Seguiu para Lagos, decidido a bater o Algarve de lés a lés. Não podia era voltar de mãos a abanar.
A caminho do Alvor, à porta de uma oficina, um grupo de homens parecia divertir-se com as possibilidades de negócio que um enorme lençol de água mesmo em frente à porta, lhes oferecia.
Até Lagos, a fustigação não parou.
De casa em casa, feito um pinto, fez o pleno de não temos.
Até Faro, experimentou os poucos depósitos de materiais de construção que lhe faltavam. Chapéu.
Ooops, lá se vai o outdoor. Parou para tentar arrastá-lo para fora da faixa de rodagem, mas ainda bem que apareceu a BT. Nem saiu do carro.
Horas de almoço à entrada da cidade. Chuva em barda.
Entrou no grande centro comercial que lhe permitia estacionar mais ou menos ao abrigo.
Saiu com um atado de livros em saldo.
Tal como em Portimão e em Lagos, verificou a amável cooperação corporativa do comércio especializado: Já foi a tal sítio?
Como dizem os discípulos de La Palisse, foi no último que encontrou.
Já estava a tomar as coordenadas de Olhão e Tavira, quando ouviu o velhote: Quantos quer?
M 16? Tem varão M 16?
O homem ria-se. Será que o senhor quer assim tantos varões?
Levo tudo.
Ainda hoje se gaba de ter esgotado o varão M 16 no Algarve no último Natal do século XX.
Lembro-lhe que foi só entre Lagos e Faro.
Replica ele que, a acreditar no que lhe disseram, não valia a pena procurar a Sotavento.
Em São Brás de Alportel foram registados 124 mm nesse dia. 7,75 varões M16 em cima uns dos outros.
Sem comentários.
Imagem de
O homem tanto insistiu que eu fiz-lhe a vontade:
É o resto. Agora só depois do Natal. Já viu nos outros lados que eu lhe disse?
Já. Em Portimão, não há loja de ferragens em que não eu tenha já comprado o stock.
Vá a Faro.
Naquele dia, São Pedro estava zangado com os algarvios.
Seguiu para Lagos, decidido a bater o Algarve de lés a lés. Não podia era voltar de mãos a abanar.
A caminho do Alvor, à porta de uma oficina, um grupo de homens parecia divertir-se com as possibilidades de negócio que um enorme lençol de água mesmo em frente à porta, lhes oferecia.
Até Lagos, a fustigação não parou.
De casa em casa, feito um pinto, fez o pleno de não temos.
Até Faro, experimentou os poucos depósitos de materiais de construção que lhe faltavam. Chapéu.
Ooops, lá se vai o outdoor. Parou para tentar arrastá-lo para fora da faixa de rodagem, mas ainda bem que apareceu a BT. Nem saiu do carro.
Horas de almoço à entrada da cidade. Chuva em barda.
Entrou no grande centro comercial que lhe permitia estacionar mais ou menos ao abrigo.
Saiu com um atado de livros em saldo.
Tal como em Portimão e em Lagos, verificou a amável cooperação corporativa do comércio especializado: Já foi a tal sítio?
Como dizem os discípulos de La Palisse, foi no último que encontrou.
Já estava a tomar as coordenadas de Olhão e Tavira, quando ouviu o velhote: Quantos quer?
M 16? Tem varão M 16?
O homem ria-se. Será que o senhor quer assim tantos varões?
Levo tudo.
Ainda hoje se gaba de ter esgotado o varão M 16 no Algarve no último Natal do século XX.
Lembro-lhe que foi só entre Lagos e Faro.
Replica ele que, a acreditar no que lhe disseram, não valia a pena procurar a Sotavento.
Em São Brás de Alportel foram registados 124 mm nesse dia. 7,75 varões M16 em cima uns dos outros.
Sem comentários.
Imagem de
31/03/2004
Outras descrenças
Elaborar uma mentira de 1 de Abril que tenha tanto sucesso como a célebre praga (ou nuvem) de pirilampos não seria muito difícil.
Apesar da generalizada descrença, há sempre pontos fracos que se podem explorar.
Com a dependência informativa de telejornais, rádios e imprensa propriamente dita levada a níveis nunca antes experimentados, uma concordância entre estes num terreno propício a logros, levaria decerto a resultados surpreendentes.
Num plano diferente, e guardadas as distâncias, tomemos o exemplo da onda gigante que se aproximava da costa algarvia naquele dia de Agosto de 1999.
Independentemente da justeza da decisão das autoridades de mandar evacuar as zonas costeiras, há que reter que a inverosimilhança do fenómeno (ainda que possível) não deixou de influenciar multidões, ao que me disseram e ao que se viu e ouviu nos noticiários da época.
Talvez que a data de 1 de Abril já seja demasiado óbvia para pôr em campo um dispositivo de engano. Mas que precisávamos de um estímulo parvo qualquer que nos animasse e nos fizesse sorrir, nem que fosse o sorriso amarelo do desengano, não tenho grandes dúvidas.
Elaborar uma mentira de 1 de Abril que tenha tanto sucesso como a célebre praga (ou nuvem) de pirilampos não seria muito difícil.
Apesar da generalizada descrença, há sempre pontos fracos que se podem explorar.
Com a dependência informativa de telejornais, rádios e imprensa propriamente dita levada a níveis nunca antes experimentados, uma concordância entre estes num terreno propício a logros, levaria decerto a resultados surpreendentes.
Num plano diferente, e guardadas as distâncias, tomemos o exemplo da onda gigante que se aproximava da costa algarvia naquele dia de Agosto de 1999.
Independentemente da justeza da decisão das autoridades de mandar evacuar as zonas costeiras, há que reter que a inverosimilhança do fenómeno (ainda que possível) não deixou de influenciar multidões, ao que me disseram e ao que se viu e ouviu nos noticiários da época.
Talvez que a data de 1 de Abril já seja demasiado óbvia para pôr em campo um dispositivo de engano. Mas que precisávamos de um estímulo parvo qualquer que nos animasse e nos fizesse sorrir, nem que fosse o sorriso amarelo do desengano, não tenho grandes dúvidas.
30/03/2004
A resma
Como nos clássicos e nos menos clássicos (espero um dia vir a entender o critério de atribuição da clássica qualidade), apareceu-me aqui na secretária uma resma de folhas dactilografadas a espaço e meio.
O autor, é claro, é dado em parte incerta.
O portador foi de poucas falas, apenas disse que era mais velho do que o prédio onde encontrou o maço de folhas. Não percebi o significado das suas palavras, confesso.
São folhas A4, folhas de carta modelo americano, folhas quadriculadas arrancadas a cadernos comprados ao velho Carvalhosa e outras de duvidoso formato.
O tipo é de dois tipos. Temos uma Adler do início do século passado e uma Messa dos anos setenta.
O que lá está escrito, só Deus sabe.
Surpresas boas quando o calor tarda em convidar à praia.
Pensar que há dois anos, os primeiros dias de Março foram balneares...
Ah, estão depositadas num arquivador diário da Eril, com a referência 502/80. E parecem mais do que uma resma. É tudo.
Como nos clássicos e nos menos clássicos (espero um dia vir a entender o critério de atribuição da clássica qualidade), apareceu-me aqui na secretária uma resma de folhas dactilografadas a espaço e meio.
O autor, é claro, é dado em parte incerta.
O portador foi de poucas falas, apenas disse que era mais velho do que o prédio onde encontrou o maço de folhas. Não percebi o significado das suas palavras, confesso.
São folhas A4, folhas de carta modelo americano, folhas quadriculadas arrancadas a cadernos comprados ao velho Carvalhosa e outras de duvidoso formato.
O tipo é de dois tipos. Temos uma Adler do início do século passado e uma Messa dos anos setenta.
O que lá está escrito, só Deus sabe.
Surpresas boas quando o calor tarda em convidar à praia.
Pensar que há dois anos, os primeiros dias de Março foram balneares...
Ah, estão depositadas num arquivador diário da Eril, com a referência 502/80. E parecem mais do que uma resma. É tudo.
29/03/2004
Fato domingueiro
Um post de domingo, à segunda-feira
Estamos descrentes. Não é com o governo, não é com a oposição, não é com o futebol, não é com o país, é connosco.
A um ateu e agnóstico (há quem defenda que estas duas qualidades não convivem) não há sublime crença que lhe valha. É o meu caso.
Mas não considero que esteja a subsumir a partir do que sinto. Olho em volta e vejo o mesmo. Poderei estar equivocado, é uma forte possibilidade. Mas parto do princípio de que não estou.
E então, porquê?
Porquê esta descrença e este aparente fastio?
Só tem fastio quem está de barriga cheia – dizem há muito alguns.
Mas o fastio por ora fica de parte, vamos à descrença.
Alguns dirão que a queda dos deuses e dos medos é a responsável por ela.
O temer a Deus já não faz parte do vocabulário. Mesmo para os crentes.
O mundo ocidental caracteriza-se hoje pela ausência do medo. Adiante (mas não aqui) se verá se ele regressa ou não. O meu palpite é que não. Pelo menos, a médio prazo e salvo circunstâncias extraordinárias como a ocorrência de pestes ou a previsão de cataclismos de dimensão muito superior aos conhecidos.
Não há medo, não há temor, não há novidade.
E não há sonho.
Grande parte dos povos que constituem a sociedade ocidental vive numa estabilidade sem meta. Os sonhos são os que todos sabem, as coisinhas do costume.
A própria sociedade deixou de prosseguir grandes objectivos. Se é que alguma vez o fez. Mas ao conferir a grande parte dos seus elementos um certo bem-estar, deixou de ter visão prospectiva. Empenhou-se essencialmente numa maior unificação. Talvez levando o carro à frente dos bois.
Ao conseguir um certo bem-estar, a maioria da população anseia por mais qualquer coisa, sem saber o quê.
Ao atingir determinados patamares de conhecimento e de intimidade com os senhores, perdeu o medo, fez comparações e viu esfumar-se o sonho.
Apercebeu-se de que não há uma glória em ser isto ou em ser aquilo.
As próprias metas de descoberta que poderiam potenciar novos sonhos, estão pouco visíveis.
O racionalismo tropeçou na falta de dados e na dificuldade de os tratar, à medida que a precisão exigia mais.
E somos atacados pelos bárbaros, pelos novos bárbaros.
Não creio que estes, por ora, possam causar maior dano.
Mas estou convencido de que vivem num patamar onde os temores e as crenças são caldos que proporcionam o sonho e a vontade.
A vontade deles será acabar com a nossa civilização. Sem saberem muito bem como e porquê. Mas alimentam esse desidério.
Continuo ainda convencido de que o nosso maior inimigo é o sonho. A ausência dele.
Já ninguém veste um fato domingueiro.
imagem adaptada de
Um post de domingo, à segunda-feira
Estamos descrentes. Não é com o governo, não é com a oposição, não é com o futebol, não é com o país, é connosco.
A um ateu e agnóstico (há quem defenda que estas duas qualidades não convivem) não há sublime crença que lhe valha. É o meu caso.
Mas não considero que esteja a subsumir a partir do que sinto. Olho em volta e vejo o mesmo. Poderei estar equivocado, é uma forte possibilidade. Mas parto do princípio de que não estou.
E então, porquê?
Porquê esta descrença e este aparente fastio?
Só tem fastio quem está de barriga cheia – dizem há muito alguns.
Mas o fastio por ora fica de parte, vamos à descrença.
Alguns dirão que a queda dos deuses e dos medos é a responsável por ela.
O temer a Deus já não faz parte do vocabulário. Mesmo para os crentes.
O mundo ocidental caracteriza-se hoje pela ausência do medo. Adiante (mas não aqui) se verá se ele regressa ou não. O meu palpite é que não. Pelo menos, a médio prazo e salvo circunstâncias extraordinárias como a ocorrência de pestes ou a previsão de cataclismos de dimensão muito superior aos conhecidos.
Não há medo, não há temor, não há novidade.
E não há sonho.
Grande parte dos povos que constituem a sociedade ocidental vive numa estabilidade sem meta. Os sonhos são os que todos sabem, as coisinhas do costume.
A própria sociedade deixou de prosseguir grandes objectivos. Se é que alguma vez o fez. Mas ao conferir a grande parte dos seus elementos um certo bem-estar, deixou de ter visão prospectiva. Empenhou-se essencialmente numa maior unificação. Talvez levando o carro à frente dos bois.
Ao conseguir um certo bem-estar, a maioria da população anseia por mais qualquer coisa, sem saber o quê.
Ao atingir determinados patamares de conhecimento e de intimidade com os senhores, perdeu o medo, fez comparações e viu esfumar-se o sonho.
Apercebeu-se de que não há uma glória em ser isto ou em ser aquilo.
As próprias metas de descoberta que poderiam potenciar novos sonhos, estão pouco visíveis.
O racionalismo tropeçou na falta de dados e na dificuldade de os tratar, à medida que a precisão exigia mais.
E somos atacados pelos bárbaros, pelos novos bárbaros.
Não creio que estes, por ora, possam causar maior dano.
Mas estou convencido de que vivem num patamar onde os temores e as crenças são caldos que proporcionam o sonho e a vontade.
A vontade deles será acabar com a nossa civilização. Sem saberem muito bem como e porquê. Mas alimentam esse desidério.
Continuo ainda convencido de que o nosso maior inimigo é o sonho. A ausência dele.
Já ninguém veste um fato domingueiro.
imagem adaptada de
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