04/12/2004

Restos de colecção (3)




Fico a saber que foi em Janeiro de 1987 que as minhas preferências se viraram para a tinta castanha da Parker.
Uma mancha azul no meio do castanho - um nome feminino, completo, ao lado de um desenho que não se interpreta bem, devia ter se destacado em devido tempo.
A injustiça do mundo é assim mesmo - sonhos que se tornam realidade e disso não nos apercebemos senão tarde de mais.
Ou será que estou a ver tudo com olhos nostálgicos e a imaginar mensagens que nunca existiram?
Mas por que raio o nome aparece primeiro sozinho e depois se repete com todas as letras, nomes próprios e apelidos num caderno meu?
E por que é que não tinha dado por isso antes?
E aquele desenho é um esquisso de quê? De uma infiltração de um líquido?
Restos de colecção (2)



Sempre me interessei pelas publicações antigas do MOP que incorporavam fotografias de obras.
Algumas ainda resistem por aqui, saídas agora de dentro de caixotes. Outras, de que ainda retenho memória visual, desapareceram sem deixar rasto.
Esta fotografia é notável. Mostra uma obra em vias de conclusão (ainda faltava o zimbório) que quando foi iniciada, ninguém poderia imaginar que no seu final existiriam técnicas que permitissem obter uma imagem instantânea e ainda por cima do ar.
Para os mais novos, aqueles que não sabem de onde vem a expressão "Obras de Santa Engrácia".
Restos de colecção

O pessoal das mudanças devia ser obrigado a sigilo profissional.
De entre os muitos profissionais a quem temos de confiar partes da nossa vida, estes são os que mais a escrutinam. Desde o pó por detrás do guarda-fato à colecção de livros, passando pelas marcas que deixamos um pouco por todo o lado.
Não faço ideia dos destaques que farão quando escalpelizarem o dia de trabalho que incluiu o transporte de dois pesadíssimos estrados escada acima e escada abaixo.
Talvez que estas mobílias já não se usam.
À parte a referência expressa ao peso dos caixotes de livros, que um burro carregado de livros já se sabe o que é, tudo o resto foi feito em silêncio. Muito profissional.
E, aqui chegados, eu sabia que tinha esta fotografia.
Está na capa de um livreto editado pela JAE em 1954.
A seta aponta o pilar que caiu em 2001. Que não estava, na estiagem presume-se, no leito do rio.


Foto JAE

03/12/2004

Madeira



A capital do móvel não me deve nada.
A minha pouca apetência consumista, as heranças avoengas e um certo esgar face aos aglomerados de madeira que se dão ares de cerejeira, de azinho, de pinho ou de castanho, faz com que não seja cliente de lojas de mobílias.
Ainda me surpreendo com as peças em boa madeira que encontro abandonadas no lixo, enquanto os seus anteriores proprietários se deliciam com as últimas modas dos hipermercados do ramo.
Hoje fui levado a um desses santuários.
A sensação que tive foi a de ter recuado até aos anos 30. Ou até um pouco mais. Lá estava a Bauhaus reinterpretada, quase noventa anos depois. Nada de novo, portanto.
Mas a ideia com que se fica é que estas coisas são assim mesmo. Que se vendem como novos, conceitos e formas de arte que já fizeram quase um século de caminho.
No caso do mobiliário, com materiais muito mais perecíveis.
Pela minha parte, também prefiro o que já resistiu mais de cem anos. Mas ao serviço. Mesmo que a minha cadeira não seja tão confortável como as que se vêem hoje por aí.

02/12/2004

Não sei que dia é hoje

Hoje deve ser um dia especial.
Durante anos foi-o por uma razão que já não faz sentido.
Mas hoje, hoje, não comemora nada. Hoje abre uma nova era.
Em que não se vislumbram vantagem pessoais. Mas em que se deseja, se espera que outros, próximos, as tenham.
Ainda não sei que dia é hoje. Sei que perdi algo. Sei o que perdi, mas não sei quanto.

30/11/2004

Era pré-socrática (três posts em um)

Vem aí mais uma época de argumentos extraordinários.
Da chamada retórica política, que é das coisas mais vazias que existe.
Sobre o que aconteceu hoje, já tinha dito tudo o que pensava, antes até da coisa explodir aqui nos blogues. Fi-lo aos primeiros rumores mais consistentes da partida do ex-primeiro-ministro para Bruxelas.
Considero que não há em Portugal, há muito tempo, muito tempo mesmo, qualquer tipo de opção política. Saber se as há noutras paragens, é outra questão sobre a qual não me pronuncio.
Não a havendo, vamos tendo cada vez mais do mesmo, até que a corda parte. É assim há séculos.
Temos por vezes a sorte de ter dirigentes mais iluminados, outras o azar de contar com medíocres.
Os tempos que se avizinham não são famosos.
Seja qual fôr o resultado das próximas eleições, o caminho não será cheio de pétalas.
E é isto que marca o actual momento. A ausência total de saídas. O beco.
É certo que com a integração europeia abdicámos de instrumentos políticos para actuar desta e daquela forma na nossa posição no quadro internacional e que isso também não deixa grande margem de manobra internamente.
Vivemos há muito a gerir a nossa sobrevivência. Os tempos que aí vêm serão, de qualquer forma, prenunciadores da abdicação total.
Tanto faz que seja fulano ou beltrano a fingir que governa.

No plano pessoal, a notícia do dia é outra, e é ela própria, uma notícia esperada e não esperada.
Daquelas que é importante, que é de Estado, que merece a solenidade do fato preto.
Que é recebida com um sorriso, nunca se sabendo que repercussões traz.

Esta amplitude térmica diurna, à volta dos dois graus, reflecte ou proporciona o gesto de encolher os ombros.

29/11/2004

As condições mundiais, bacalhau a pataco e literatura de cordel

Acabo de fechar a porta, com a polidez possível, a duas senhoras vestidas de bege (será que o bege faz parte da conspiração?) que me pretendiam elucidar sobre as condições mundiais.
Assim que me lembre, apenas uma vez acedi a trocar algumas palavras com estas brigadas evangélicas. Face à minha argumentação conjecturalmente darwiniana, voltaram dias depois à carga coadjuvadas por um senhor de gravata. Empate técnico, como se diz agora.
Nas minhas memórias consta também um certo domingo (seria sábado?) de manhã, em que acordei ouvindo vozes estranhas na sala de estar.
Com curiosidade adolescente, abeirei-me da porta e distingui a voz de meu pai que placidamente argumentava com as senhoras, numa manifestação de disponibilidade para estas coisas, que eu lhe desconhecia.
A questão do fechar a porta, a questão de ter já uma vez cumprido a penitência, como se fosse obrigatória a passagem, ao menos uma vez na vida, por essa experiência de indígena que carece de evangelização, dá pano para mangas.
Desde logo porque a sociedade actual é uma espécie de ditadura do diálogo. Que nos obriga a ouvir e a respeitar as opiniões dos outros.
Ora a verdade é que nem ouvimos nem respeitamos todas as opiniões que nos colocam à frente.
Esse é o primeiro equívoco.
Como dizia há dias a uma blogueira amiga, a espécie humana divide-se em variados tipos, sem embargo de me esquecer de algum:
Os cépticos
Os crentes
Os crédulos
Claro que estas categorias não são estanques. Interpenetram-se.
Mas um céptico será sempre um céptico, um crente sempre um crente e um crédulo só deixará de o ser se descobrir os pés de barro do seu ídolo ou ídolos, o que nem sempre acontece.
É pouco provável que os dois primeiros modifiquem a sua opinião sobre as coisas.
Já o crédulo pode ou não mudar de opinião, consoante o vento. Mas isso normalmente não depende da argumentação alheia, depende mais do ascendente que o outro exerça sobre ele.
Parece assim que qualquer embate de palavras é um mero exercício argumentativo, que pode ou não deixar-nos mais aliviados, mas que seguramente não conduz a lugar nenhum.
Ora isto traz-nos aqui, à cultura dos blogues.
Afinal não ando de porta em porta a apregoar o meu bacalhau a pataco ou a minha literatura de cordel mas o resultado é quase o mesmo.
Dir-se-á que a diferença reside precisamente no facto de não andar a perturbar o quotidiano alheio com toques de campaínha. Talvez.
Mas a verdade é que, invertendo as coisas, procuro as novidades nos blogues que acompanho. E se, muitas vezes, o que lá está escrito me agrada, também há vezes em que me irrita. Outras considero que é um tremendo disparate.
Voltando a inverter, assumo que o mesmo ocorrerá com quem aqui vem ler o que escrevo.
E isso, de alguma forma, interfere com os outros.
Poder-se-á dizer mais uma vez que mais fácil do que fechar a porta é clicar Back ou fechar a janela. Mas há uma opinião escrita, há uma visão das condições mundiais que já foi lida. Mesmo que os meus leitores sejam cépticos, e eu suspeito que a maioria o é, alguma coisa fica. Tal como fica na minha cabeça o que leio com agrado ou desagrado.
Nada de novo nisto.
Mas pela mesma razão que raramente comento nos blogues meus favoritos, também não me apetecia hoje comentar no blogue das senhoras de bege.
Quem paga as favas são os meus leitores.
O mundo está perdido.

28/11/2004

A estatística dos marcelinhos

Nos últimos dias já foram duas as vezes que falei na minha velha casa.
É provável que o assunto escorra por estas linhas mais algum tempo.
Com toda a probabilidade, o ano de 2005 será o ano do adeus definitivo.
Em pouco mais de três anos, terei esvaziado as minhas memórias por duas vezes. A verdade é que nunca contei ter que me despedir de nenhuma casa. E acabo por fazê-lo das duas onde cresci em curto intervalo.
Eu ligo às coisas, aos espaços, às memórias que acalentam. Fechando a porta pela última vez, despeço-me de mim também. Não é agradável. Os que já passaram por isso, sabem do que falo.
Mas como em todas as coisas, também há efémeras alegrias no meio do desalento. Encontram-se objectos que julgávamos perdidos para sempre.
Ontem encontrei uma caixa de moedas. Daquelas de dez centavos em alumínio ditas marcelinhos.
Como não há uma inutilidade sem duas, nem duas sem três, aqui fica a segunda em poucos dias. A terceira não tardará.
É que achei curiosa a distribuição por anos das moedas que lá encontrei.
Como podem ver, as quantidades de moedas de 1971, 1972, 1973 e 1979 mantêm-se numa proporcionalidade aproximada à cunhagem respectiva, enquanto que as quantidades referentes aos anos de 1974 a 1978 seguem proporções diversas e menores.
Claro que de 1969 e 1970 não tenho nenhuma.



A quantidade de moedas cunhadas obtive-a em http://moedas.org/

27/11/2004

Foi hoje, 27 de Novembro de 2004

Foi hoje que fui caçado.
Foi uma rigorosa investigação jornalística da RTIG. Na linha das grandes reportagens de há vinte e cinco anos atrás, quando era uma televisão ao serviço do partido - o CCP, pois claro.
Lá se vai o anonimato.

Nem pombal, nem pardieiro

Não passou de uma exagerada versão dos acontecimentos por parte da vizinhança, a suposta invasão columbina do post anterior.
Ainda que houvesse alguns vestígios de penas entre a janela e as cortinas, não havia espaço para os pombos se instalarem.
Entretanto, ao ler o blogue do Fernando, esse espaço admirável sempre repleto de novidade e de bom gosto, que vejo eu?
Este recorte do jornal O Globo:



E se eu tivesse apanhado os bicharocos em flagrante?
Seria detido? Estaria com TIR a esta hora?
Haveria autópsia aos restos do jantarinho?
É que há um amigo que diz que pombos de rua também se comem.

26/11/2004

A invasão columbina



Pardieiro não parece ter na sua origem o pardal pardo que tanto palra.
Parece que o étimo é pariete > parede. Paredes velhas, telhas soltas, rebocos caídos, madeiras desencaixadas, pardais lá dentro. Vem dar ao mesmo.
Há muito que percebi que a casa de cada um é onde habita.
Isto de termos a ideia de que controlamos algo mais do que as paredes onde nos inscrevemos, é mera ilusão. Para mim, é.
Apesar disso, ainda chamo meus a alguns pardieiros espalhados entre os chaparros.
Talvez pudessem ser um sonho neo-rústico de qualquer ave presa em galinheiros de betão. Não o são para mim. São ruínas.
Mas desta vez não se trata de pardais. Melhor dizendo, não se tratará só de pardais.
Nem se trata de montes caídos onde às vezes encontro cadáveres de aves que julgava desaparecidas daquelas bandas.
Trata-se de um galinheiro de tijolo e cimento. Betão tem pouco. Uma casa de onde me retirei sem me retirar. Onde deixei o meu espólio, as minhas memórias, e de onde, mais uma vez, fui o último a sair.
Lá ficou o que ninguém quer roubar. Livros, papéis, fotografias. Roupas, objectos constituídos em amostras sem valor. Sem valor para outrem. Móveis. Pratos e talheres. O bastante para quem é frugal. Como eu.
Mas retirei-me.
Recebi agora a notícia. Os pombos - livres ou escravos - ocuparam-me o espaço. Alguma janela mal fechada deu-lhes abrigo.
O que farão eles com as minhas memórias?
Mais um pardieiro na cidade.
Perdão, pombal.

25/11/2004

Inutilidades várias



É da natureza humana. Pelo menos assim parece.
Mesmo que se duvide que os nossos mais remotos antepassados tivessem tempo e oportunidade para se deterem com inutilidades. Em algum tempo elas terão entrado na vida dos homens para não mais saírem. Por enquanto.
É certo que o conceito de inutilidade não é muito seguro. Mas sobre isso falarei noutra altura.
Esta de hoje, que me tem consumido algum tempo, é tão bizarra como todas as outras que não sabemos para que servem. É apenas mais uma.
Saído da crise de processamento a que o velho Pentium me submeteu, lembrei-me de um jogo que não conseguia correr nem que a vaca tossisse e que sempre me agradou - o tal que dá pelo nome de Scrabble.
Pois lá encontrei uma versão utilizável e pus-me a jogar contra o algoritmo. Sucedia que o dicionário do bicho era obviamente inglês. E, apesar das bizarrias que encontrava no dicionário, cedo verifiquei que não era adversário para quem tantas palavras conhecia.
Foi então que me decidi por jogar em casa, isto é a construir um dicionário português adaptável à coisa. As exigências são simples - só valem palavras até doze letras e nada de acentos ou cedilhas.
É claro que há o problema da quantidade de KK, WW e YY que aparecem no jogo. Mas isso é de somenos. O busílis foi e é construir o tal dicionário.
A minha versão do Word não tem dicionário português. Já tive um mas foi para o maneta. Também não sei do dicionário que construí ao longo dos tempos, o tal de Custom Dic. Foi para as urtigas, também.
Socorri-me enfim desta página, que é subsidiária do Jornal de Notícias. Reúne palavras encontradas na versão electrónica.
É claro que contém muitos estrangeirismos, gralhas, hifenações de fim de linha, etc. Mas aproveitou-se. O Word nisso é bom. Transforma num ápice vogais acentuadas em vogais átonas. Tira as cedilhas aos cês. O Excel elimina as palavras com mais de doze letras. Mas o dicionário continua pobre.
Foi então que me lembrei de um utilitário que fiz para ajudar um estrangeiro a aprender as nossas flexões verbais. Lá se introduz o nome do verbo (regular, pois claro) e se obtêm todas as flexões. Nada de mais.
Agora fiz outro. Como o dicionário quer tudo ordenadinho alfabeticamente, é preciso não só obter as flexões verbais como ordená-las assim. Já agora incluiram-se os advérbios e adjectivos relacionados.
Se isto não é inutilidade, então o que é?
Já consigo ganhar ao moço.
Os WW e os KK? Valem KW, OK, KO, GW, entre outros.
Efeméride



imagem em http://ellisctaylor.homestead.com/Henkiss.html

Passam hoje trinta e sete anos sobre a última grande catástrofe natural ocorrida em Portugal Continental.
Na parte continental do país, salvo algum esquecimento, há a registar durante todo o século XX três dessas catástrofes, por terem sido muito mais mortíferas do que todas as outras:
23 de Abril de 1909 - o sismo de Benavente
15 de Fevereiro de 1941 - o ciclone que assolou todo o país
25 de Novembro de 1967 - a tempestade que desabou sobre Lisboa e zonas limítrofes
Nos Açores, houve entretanto diversos episódios mortíferos, todos eles causados pela actividade sísmica.
Para além destas, associadas aos ditos elementos naturais, há que não esquecer a epidemia mundial que dizimou milhares de portugueses no final da primeira guerra.
E é hoje que voltam as notícias sobre o eventual perigo de uma nova catástrofe. Mundial. De contornos semelhantes a essa.
Já aqui tinha discorrido sobre essa eventualidade, que é tão certa como a ocorrência de novo terramoto em Portugal. Só não se sabe quando cai sobre nós.
E sobre a dificuldade de combater hoje uma pandemia.
Pela facilidade e velocidade de propagação.
Sobretudo pela instalada mentalidade do politicamente correcto, pouco dada a perceber necessidades radicais face a problemas de dimensão catastrófica.
A Natureza dá-nos lições periódicas. Quase parece que o faz quando nos esquecemos que fazemos parte dela.
Esperemos que não seja desta.

24/11/2004

Civilização

Às vezes penso que o melhor sinónimo de civilização é frieza. Apenas isso.

22/11/2004

Borda d'Água

Comprei hoje o Almanaque Borda d'Água. Não sei quantas vezes o terei feito. Poucas, decerto. Algumas delas nos velhos serões da Cervejaria Trindade. Há muitos séculos.
Pois o Reportório útil a toda a gente foi durante muitos anos, ainda antes dos tais séculos, uma longínqua referência que eu ouvia de velhos e que associava a uma espécie de oráculo que circulasse pelos caminhos do Alentejo, debitando sentenças sobre ventos, águas, sementes e calmarias. Mas não era isso.
De todos os dados dele constantes, o que sempre me fez espécie foi a antecipação das ditas calmarias, do fresco, do limpo, do tempo revolto, da chuva.
Confesso que nunca aferi tais premonições. Aferi outras, mais talhadas pelo atavismo, que estas não sei se o são.
Ouvi ditos sobre semanas de nortada, dias de levante, geadas e águas. Moles e rijas.
De quase todos se adivinha uma certa capacidade para se alinharem com a estatística. Mesmo quando ainda se percebem erros de palmatória, talvez amplificados pela reprodução oral.
Mas esta certeza a um ano ou mais de vista, tem que se lhe diga.
Em 2005, vou estar atento.
O eclipse de 3 de Outubro, esse sim, conto caçá-lo lá para Trás-os-Montes.

21/11/2004

O coração da Filipa


imagem em http://tubes.ominix.com/art/holiday/valentine/ (link perdido)

Passei muitos e bons anos da vida ao lado do velho amigo R.C..
Entre as suas qualidades conta-se uma inevitável queda por tudo quanto mexa e use saias.
Queda essa que eu partilho, embora com modéstia quanto ao sucesso.
Sofri na pele os caprichos do homem.
Como da vez em que cheguei derrotado a Saragoça, morto de sono, e tive mesmo assim de completar a viagem até Barcelona, porque o homem, em vez de estar preparado para me substituir ao volante, tinha deixado que as musas o inebriassem e estava impróprio para prosseguir viagem a menos que fosse de pendura.
Actuámos em palcos dessas espanhas.
Jantámos em inglês em tocos de árvores da capital francesa, irrepreensívelmente ataviados, apenas para acirrar os passantes contra os moços do outro lado do canal.
Corremos Ceca e Meca e o vale de Santarém, metendo copos, mulheres e trabalhos, muitos trabalhos pelo meio.
Mas naquele dia, tratava-se apenas de um insuspeita incursão aos Algarves d'aquém-mar.
Coisa outonal.
A paragem para o pequeno-almoço foi na costa transtagana. Em casa de família.
E aí apareceu a Filipa.
Que nem um nem outro conhecíamos.
A Filipa era mais corpo. Pernas e busto. Uma cara daquelas de lavar como a roupa branca.
Mas disse uma coisa que jamais seria esquecida.
Foi quando mencionou aquele acidente numa estrada com dois sentidos.
No dia seguinte, pela manhã, ao entrar no escritório, reparei no mapa das obras.
Entre os pins verdes, vermelhos e azuis, havia um coração. Verde.
Estava espetado na costa alentejana.

P.S. Este post foi influenciado pela gentil deferência do amigo Santos Passos
21, é claro

A pergunta era a habitual: A quantos estamos hoje?
Ao dar a resposta acima, de forma automática, mais não fiz do que usar o cognome de vinte e um, coisa que muitos de nós faz em virtude de atavismos vários, de deixas apreendidas por aí, talvez em salas de loto clandestinas dos tradicionais clubes de bairro:
22, dois patinhos.
69, para cima e para baixo.
11, o número da cabeça.
90, nas ventas.
Mas o 21 não vem daí.
É história lendária de cujos contornos sei apenas o essencial.
Era de Inverno e fazia-se serão à roda do lume.
Os de casa e uns quantos de fora.
Foi quando um surto de espirros sacudiu a conversa. Uma das visitas desfazia-se em acenos de cabeça convulsivos e sonoros.
Perante a cena, calaram-se as vozes.
Quando o acesso terminou, perdurava ainda um silêncio pré-hilário.
Coube ao paciente, dar a deixa: "Vinte e um, é claro!"
Nunca se soube da regularidade contabilística de tais acessos. Mas a convicção com que as palavras foram proferidas não fez só desprender o riso. Deixou muita gente à espera de outra ocasião para os contar. Creio que nunca aconteceu.

20/11/2004

Sonhos


imagem em http://simcity4.free.fr/Elt/lots01.php?page=2&icnx=

Três quartéis, uma prisão, dois cemitérios, um aeroporto, duas igrejas, mais de meia-dúzia de moínhos, algumas centenas de hectares de terras agrícolas, duas matas e muitas casas - era o que eu via das minhas janelas.
Hoje ainda diviso algumas destas coisas, muito mais casas, um hospital e aí um terço da terra agrícola. As matas, sim, permanecem lá.
Vejo é uma forma de dizer. A casa ainda a tenho. Mas passa mais de um ano que de lá não me assomo.
Um destes dias, deixarei mesmo de a ter. O cerco aperta-se. Daqui apenas vejo prédios e tenho uma vaga ideia de pastagens. Uma auto-estrada que apostei ia ser construída e cuja aposta ganhei de alguém incapaz de prever os problemas de estacionamento à porta de casa, passa ali ao fundo.
Mas hoje não. Hoje via a minha mãe clicar o rato e fazer desaparecer loteamentos inteiros.
Agora quero ver as ceifas. Clique.
Tire-me dali o hospital, mãe. Clique.
Aquela torre e a escola, clique.
Quero ver aquela rampa onde adormeci ao volante. Clique.
Um pouco mais de contraste, carregue nos verdes, clique.