15/01/2005

Too close to call

Perto da vista, perto do coração - talvez seja essa a lição do dia.
Ou ainda mais cripticamente, internet no monte, porcos às boletas...


13/01/2005

Algumas notas sobre galinhas



Desta vez não é sonho. É apenas a defesa da honra. Das galinhas, claro.
Em primeiro lugar, a declaração de interesses, como é uso:
Sim, fui durante algum tempo professor de galinhas. Sim, infligi alguns castigos corporais às minhas pupilas.
Eu e a minha prima montámos uma escola em casa da minha bisavó. A coisa funcionava sem horários e currículos rígidos mas era basto disciplinada. Conseguíamos afinal dispô-las em filas e colunas, em notáveis exibições de ordem unida.
O galo não era muito de opinião. Tanto não era que suponho que ainda hoje a minha prima tem alguma aversão aos ditos de crista. O certo é que a escola não era mista, por isso o galaró ficava de fora.
Posto que já dei conta do meu envolvimento com tais criaturas, passo à sua defesa.
Dizem para aí que as galinhas não voam.
Com toda a certeza, alguns dos meus leitores são testemunhas de que tal não passa de um vil insulto às galináceas. Pois são aves e voam. Ah, voam.
Lá no monte havia e ainda há uma velha oliveira que o diga.
Dava galinhas em vez de azeitonas. Nos troncos mais altos.
Não é que não desse de todo azeitonas. Dava. Mas as que dava, apareciam no chão e tinham uma textura estranha. Ao esmagamento, não mostravam caroço. Curiosamente, havia ovelhas lá no monte.
Abandonadas as casas, perdida a geração, perdeu-se para sempre aquela ignorância.
Não a ignorãncia que eu ministrava na escola.
Mas a que elas obtinham da mãe-galinha: ignoravam que não podiam voar.
É certo que também ninguém lhes cortava as asas.
A propósito

Este blogue é uma manta de retalhos.
Muitos outros o são.
Gosto que assim seja, talvez porque não tenha nem engenho nem arte para o fazer de outra forma.


12/01/2005

Dúvida pertinente

Qual será a valorização a que está sujeito um vale de três cêntimos três, emitido por um máquina de venda de bilhetes de comboio?
Para coleccionadores, claro.
E mais não digo, recolho a horas campaniças.

11/01/2005

10/01/2005

Heranças na paisagem


No papado de João Paulo I

A sogra dançante


foto do SNIG

Não sei a que propósito vem (veio) isto.
A senhora, em fade out, insistia em dizer-me que não queria que eu tivesse algo a ver com a filha.
Eu dizia-lhe que não, que estivesse descansada. Que nada houve, tinha havido, haveria. Mas ela insistia. Entretanto, em fade in, começava a desenhar-se na minha memória, o beijo. O beijo que feria de morte a minha argumentação. Mas não titubeava. Com ar de escroque, ou talvez não, lá continuava o desmentido. Mas o beijo vinha, insidioso, à memória. Eu desmontava-o, tirava-lhe intensidade, desejo, arrebatamento (não é o que se diz nestas alturas?).
Desconstruía-o e argumentava, num cenário triste, escuro, de cozinha às escuras em dia curto.
Desconstruía-o. Queria que fosse um desbeijo. Que a minha palavra fosse verdadeira. Às escuras, numa cozinha em dia curto.

A festa decorria no quintal, porco morto pendurado na escada de madeira à porta da garagem.
As moças dentro da adega, às escuras. Na minha adega em fim de tarde de dia curto. Sentadas em mesas de café, ali estavam discutindo gillets e saias-casaco.

Na loja, um amigo estrangeiro dialogava com uma estranha.
Uma moça engraçada e estranha, apenas por ser forasteira, apenas por não ser uma cara habitual na minha frente.
Ela falava num inglês que parecia genuíno. Ele com um acentuado sotaque levantino.
E era um caderno o que viam sobre o balcão.
O caderno tinha fórmulas, gráficos, texto.
Ele sorria, provavelmente mais interessado no cheiro dela do que na tese encadernada.
Ela retribuía-lhe o sorriso e eu vendo que "tava o balh'armado".
Meti-me na conversa e perguntei-lhe, a ela, se precisava de ajuda.
Ela disse que sim, que "bem podia usar a ajuda de alguém que soubesse de química". Traduzindo eu aqui à pressa o que ela disse. E que fora ali parar, porque alguém lhe tinha dito que na casa do largo devia haver quem percebesse do assunto. E que parecia que havia festa.
Riu-se e perguntou se eu não a convidava.
Disse-lhe que sim, às duas questões. Que lhe arranjava alguém. Tinha ali a pessoa indicada para lhe dar uma ajuda.
Ela explicou-me o que era. Qualquer tipo de análises que andava a fazer na zona. Queria discutir as amostras com alguém que estivesse dentro do assunto.
E, quanto à festa, disse-lhe que o meu amigo candiano lhe faria as honras da casa.
Ganhei um beijo e uma palmada nas costas.

Voltei ao quintal. Os moços lá estavam, de faquinha em riste, cortando côdeas e trincando o porco. O agarrafão poisado na borda do poço, vejam lá se o deixam cair lá para dentro.
As moças na mesma escuridão de Pisang Ambon e sussurros sobre roupa.
A mesa da doutora estava vazia. Perguntei por ela. Que tinha saído, quase chorona.

Voltou o beijo. Tentava apagá-lo com um apagador de escola. Lá estava na ardósia, ao fundo. Ao fundo da adega, à vista de todos. Os sussurros já não eram sobre cachecóis e blusas, eram a meu respeito.
Corri cá fora. No quintal, não estava. O portão das traseiras estava aberto. O da garagem também...

Muitos anos depois, recordo-me bem das palavras do meu par, na contradança. Não era uma proibição o que recaía sobre mim. Eram nabos da púcara o que elas pretendiam retirar.
Uma sogra dançante.

09/01/2005

Saindo da toca


Do astro

Suponhamos um referencial ortogonal e tridimensional com origem num determinado ponto teórico, definido em dado instante.
Esse ponto poderia ser um ponto o mais perto possível do centro da terra.
Suponhamos que esse referencial faz sentido, contrariando a opinião não daqueles que demonstraram que a Terra orbita em torno do Sol, mas dos que afirmam que não faz sentido estabelecer ortodoxias para enquadrar, para referenciar o espaço e o tempo do Universo.
Atrevamo-nos ainda assim a supor que faz.
Uma curiosidade que se me coloca hoje é a de saber, face a esse referencial, quais seriam as diferenças observadas na posição de uma série de corpos celestes, hoje e há quarenta e seis anos atrás.
Ou de como se mostravam evolutivas as quarenta e sete imagens assim formadas, ano a ano, contas dos humanos.

Da terra

Fidel entrava em Havana.
A barragem de Vega de Tera colapsava e a inundação matava muitos dos habitantes de uma aldeia a jusante.
Se fosse hoje, não faltariam os directos, saltitando entre o antigo reino de Leão e a imagem do filho da vizinha Galiza, do outro lado do mar, na Grande Antilha.
Mais a sul das terras de Leão e de Santiago, num dos seus caminhos, entre competentes vieiras, os berros que se ouviam tinham sotaque alentejano.
Daria um nota de rodapé, a vermelho (ou seria a verde, digo preto?).



imagem montada a partir daqui, daqui, dali e da Sky News.

08/01/2005

Os verdes e os vermelhos

Sinal dos tempos. Este ano o barulho foi menor. Ou sou eu que ando a leste das notícias?


imagem multiMap.com
Gasolim ainda a pedal


Vila Nova de Milfontes, 1972

07/01/2005

Portugal, regiões e o método de Hondt



Ponto prévio: Não acredito que a regionalização do país seja um bem. Dispenso-me de arrolar as minhas razões por agora, não é disso que se trata - se é que pode haver razões firmes em questões destas. Trata-se apenas de dizer que o princípio de que parto não me é indiferente. Mas é, por ora, apenas o princípio de que parto.

E parto do princípio de que o país não é constituído por regiões, tenham elas o nome que tiverem, sejam elas classificadas como o sejam.
Sendo o país um todo centralizado - excepção feita aos arquipélagos - por vontade expressa dos eleitores, princípio de que parto também apoiado no resultado do referendo de 1998, embora reconhecendo que apenas participaram 48,3% dos inscritos, que sentido faz escolher uma das possíveis divisões - que há outras que são igualmente reconhecidas pelo Estado e eventualmente mais utilizadas - para depois aí aplicar o método de Hondt, distorcendo completamente a proporcionalidade nacional dos votos partidários?
Por quê os distritos (sem o da Horta, o de Ponta Delgada e o de Angra do Heroísmo) e não as províncias? Por quê os distritos e não uma NUT de um nível qualquer? Por razões históricas? Teríamos que ver então todos os antecedentes.

A verdade é que a distribuição distrital, ou outra que fosse, distorce consideravelmente a proporcionalidade nacional.
Quando elegemos um parlamento, não temos em vista o governo do País?
É de um deputado que defenda os interesses do nosso círculo que se trata? Qual deles? O primeiro da lista? O penúltimo?

Uma questão falsa que já suscitou mais debate é a da proximidade entre eleitores e eleitos, como se um milagre qualquer de método aproximasse uns e outros.
Ninguém se reconhece nos deputados da Nação, enquanto representantes de uma região, essa é que é essa. Tirando umas quantas figuras que seriam sempre interventivas, fosse qual fosse o palco, o resto é paisagem. E se reflecte a paisagem do país ou não, temo que o faça. Mas não há grandes memórias de intervenções notáveis de deputados em defesa dos eleitores do seu círculo. As que há, confirmam a regra. E claro, as costumeiras medidas avulsas em final de sessão legislativa que pouco ou nada interessam.

O que realmente elegemos, o que realmente nos preocupa, é um governo e uma oposição.
Esperamos sempre que a bancada da situação seja mais ou menos apática ou aplaudente e que a da oposição seja ladina. É disso que se trata. Quais círculos!

É certo que o triste espectáculo que se repete em cada fecho de listas ocorreria igualmente fosse qual fosse o sistema. Não é lá por haver um só círculo eleitoral ou 230 (um por cada deputado) que a coisa ia ser diferente.

É também certo que um sistema mais próximo da proporcionalidade nacional favorece as minorias e dificulta assim a formação de maiorias absolutas. Se houvesse um único círculo, apenas Cavaco Silva teria obtido as duas maiorias absolutas de 1987 e 1991. A AD teria ficado aquém desse objectivo em 1979 e 1980, embora em relação a este último ano, por faltarem os dados referentes ao número de votos dos círculos da emigração, possa a afirmação ser duvidosa.

O ponto é que este sistema, embora favoreça de facto a constituição de maiorias, apenas deu quatro em dez. E dessas quatro, duas foram em coligação. Exactamente as duas que não daria se a proporcionalidade fosse nacional.
Entretanto, teríamos uma representação dos grupos minoritários que, sendo embora diminuta, por o ser, provavelmente (não é certo que assim fosse) teria colocado no parlamento os seus melhores.
Ao mesmo tempo, provavelmente também, esses lugares não seriam preenchidos pelos grandes partidos com corpos presentes.

O método de Hondt não é mau. Claro que há outras formas, mas não é mau. O que é mau é ser aplicado a círculos distritais.

Deixarei mais tarde, e a titulo de curiosidade, as composições dos parlamentos, de 1976 até 2002, tal como foram e tal como seriam se a eleição fosse nacional, com a ressalva da falta ou da imprecisão de dados que consegui obter.

Correcção: com a Assembleia Constituinte de 1975, são onze e não dez as diferentes composições parlamentares, após o 25 de Abril.

06/01/2005

Totovoto

Não é nenhum método daqueles milagrosos.
Não é a solução fornecida por um algoritmo mirabolante.
Não é wishful thinking.
É apenas um boletim de totovoto.
Já sei que vou falhar. A ver vamos quantos totalistas há.


05/01/2005

Espólio

Na minha colecção de fotos há muitas sem qualquer tipo de indicação de data ou local.
Muitas delas são de meu pai. Percebo-o pelo tipo de fotos. Mas nem sempre posso garantir que não sejam disparos de algum companheiro de viagem.
Há ainda algumas de meus tios, de meu avô.
Por considerar que há muitas interessantes, resolvi mostrá-las aqui. Com a indicação de autoria que suponho ser a verdadeira.



Espólio Campos Vilhena - foto de MSS

04/01/2005

Lista

É a lista! - gritavam antigamente das portas da rua para os patamares de velhas com bata as brigadas de entregadores - Tem a velha? Não pode dar nada para ajudar a rapaziada?

É uma pena que as eleições não sejam mais perto do prazo final para a entrega das listas.
Não decorram quando ainda está fresca a dança da cadeira, o nada para a rapaziada.
Obra

Gosto de admirar a arte e o engenho dos homens.
Mas não me interessam nada os homens por trás das obras.

03/01/2005

Adenda a um post anterior

Não sei o que me atrai nas bombas de gasolina.
A 19 de Julho p.p. , escrevi assim:

"A primeira foto desta saga tem cerca de 32 anos. É a minha primeira experiência fotográfica e retrata um posto de combustível de que muitos poucos se recordarão. Ficava mais ou menos onde hoje está o muro de suporte do parque de estacionamento do Continente da Amadora, ali onde se cruzavam então a E.N. 117 e a E.N. 249-1 e era da Shell.
A última é a do post anterior. Na área de serviço de Aljustrel. 32 anos depois, no começo e no final de duas viagens para sul
."

Aqui está a foto do pecado quase original. Na realidade, a foto da direita já não é a que se refere o texto. É do mesmo local, dias depois.

Brigadas moralistas

É o que há mais por aí.
Mesmo sendo ateu, não fará mal recordar:
"Mas, como insistissem em perguntar-lhe, ergueu-se e disse-lhes: Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra." (João 8:7)
Ou o mais prosaico:
"Diz o roto ao nu - Por que não te vestes tu?"