29/11/2006
27/11/2006
À segunda levantou voo o franchisável (IV)
Depois de um período de confusão, em que houve de tudo como compete em casos tais de homicídio, estabeleceu-se a discórdia. Os dois partidos, pró e contra o infanticídio acabado de perpetrar, digladiavam-se em plena bancada enquanto eu e o J.M. nos colocávamos numa pose de desafio, prontos a enfrentar todas as consequências que, de facto, achávamos que fossem nenhumas.
Ora pouco depois, chegaram uns estranhos veículos séculos XXII, também eles azuis, também eles voando com as rodas em terra, que eu reconheci como da G.N.R.. Disse então ao J.M. que o melhor era a gente pirar-se.
Recuámos para um corredor interior, passámos por vários gabinetes envidraçados, julgo mesmo que, ao passarmos de nível, nos cruzámos com o J.R. que estava ali para se despedir do meu irmão que afinal embarcara a horas e, nisto, perdi-os a ambos.
Resolvi ir para o fim da pista e usar todo o combustível mental que me restava para levantar voo. Assim o fiz.
Mas a energia era pouca e tendia a diminuir rapidamente. Ao fim de pouco tempo, já voava baixinho entre portas e travessas, até que cheguei à costa.
Ali, rumei a sul. E pouco depois encontrei aquela exploração russa de peixes não-sei-quê. Foi ali mesmo que pedi asilo político, depois de contar sete versões sete do que tinha acontecido.
Uma coisa que me surpreendeu e me fez desconfiar das boas intenções dos russos, foi o terem-me mostrado como estabilizavam as formas de vida que pretendiam preservar para memória futura, melhor dizendo para tempos de mais e melhores conhecimentos científicos.
O depósito era uma espécie de grande estante SUC em plástico cinzento e rede metálica.
Ali havia de tudo como na botica. E receei ir ocupar uma das gavetas vazias.
Mas não. Chamaram as autoridades locais e fui informado que, encontrando-me eu à guarda deles, russos, havia uma negociação tendo em vista esconder-me num alçapão sob a câmara dos comuns em Londres e que isso seria um passo para ser eu trocado por quaisquer prisioneiros de guerra em qualquer zona remota que não vinha bem ao caso.
Isto colocava-me, colocou-me, na directa dependência de uma coligação anglo-russa. E, acto contínuo, fui a julgamento por cumplicidade na morte do artista. Tive a meu lado, à esquerda, uma fila de defensores britânicos; e à direita, igual fila de russos. Deste caso, e das ameaças verbais que ouvi da boca dos pais da criança, não há muito a dizer. Abandonei a sala, pela porta que dava para o mar e mergulhei.
Cheguei de novo a terra firme umas horas depois.
O paradoxo está aqui: se eu de nada me lembrava quando saí das águas, como é que fui capaz de relatar agora os sucessos desta forma?
Diende.
26/11/2006
As cheias de 67
Lembro-me do Sábado todo a chover. Da água entrar por frestas de janelas mais expostas.
De ser chuva forte e de ouvir qualquer coisa ao meu Pai sobre a inevitabilidade de haver inundações.
É disso que me lembro e de nada mais.
Não tivemos consciência da gravidade da coisa, vivendo como vivíamos num sítio alto e inclinado, onde a água escoava rapidamente.
Na manhã de Domingo, 39 anos contados até hoje, lá saí com o meu Pai, ambos ainda alheados das consequências da chuva intensa e persistente da véspera.
É a um certo ponto do trajecto que, olhando para longe, para o local ilustrado na foto abaixo, diviso uma série de lençóis brancos alinhados. Nada disse. Mas recordo-me de me ter parecido que o meu Pai, nefelibata que era, não tinha dado por tal. Acho que só quando passámos por um magote de atiçados comentadores da desgraça, que apontavam para o monte e para o vale, ele se deu conta. Mas também nada disse.
Só mais tarde tivemos noção do que realmente acontecera.
Nesse dia a precipitação no Tojal foi de 137mm e em Sacavém, de 111mm.
Dos registos do INAG, é o segundo mais elevado. Só batido pelo de 19 de Novembro de 1983 (163,7mm e 130,9mm, respectivamente).
Hoje, caem 15 ou 20mm e é o alarido que se sabe.

Fotografia de Paulo Guedes in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Queluz, c. 1900
Foto esta que, por uma estranha coincidência, encontrei ontem no blogue do amigo Bic Laranja, notando que o aspecto que mostra é muito semelhante ao de 1967.
P.S. Sugiro que se elabore uma fórmula, com base nos períodos de retorno, que dê enquadramento às indemnizações que o Estado paga a quem se queixa de ter bens destruídos por inundações. É um roubo de igreja que alguém, cuja casa se inunda todos os anos pares, venha reclamar do Estado uma compensação.
Lembro-me do Sábado todo a chover. Da água entrar por frestas de janelas mais expostas.
De ser chuva forte e de ouvir qualquer coisa ao meu Pai sobre a inevitabilidade de haver inundações.
É disso que me lembro e de nada mais.
Não tivemos consciência da gravidade da coisa, vivendo como vivíamos num sítio alto e inclinado, onde a água escoava rapidamente.
Na manhã de Domingo, 39 anos contados até hoje, lá saí com o meu Pai, ambos ainda alheados das consequências da chuva intensa e persistente da véspera.
É a um certo ponto do trajecto que, olhando para longe, para o local ilustrado na foto abaixo, diviso uma série de lençóis brancos alinhados. Nada disse. Mas recordo-me de me ter parecido que o meu Pai, nefelibata que era, não tinha dado por tal. Acho que só quando passámos por um magote de atiçados comentadores da desgraça, que apontavam para o monte e para o vale, ele se deu conta. Mas também nada disse.
Só mais tarde tivemos noção do que realmente acontecera.
Nesse dia a precipitação no Tojal foi de 137mm e em Sacavém, de 111mm.
Dos registos do INAG, é o segundo mais elevado. Só batido pelo de 19 de Novembro de 1983 (163,7mm e 130,9mm, respectivamente).
Hoje, caem 15 ou 20mm e é o alarido que se sabe.
Fotografia de Paulo Guedes in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Queluz, c. 1900
Foto esta que, por uma estranha coincidência, encontrei ontem no blogue do amigo Bic Laranja, notando que o aspecto que mostra é muito semelhante ao de 1967.
P.S. Sugiro que se elabore uma fórmula, com base nos períodos de retorno, que dê enquadramento às indemnizações que o Estado paga a quem se queixa de ter bens destruídos por inundações. É um roubo de igreja que alguém, cuja casa se inunda todos os anos pares, venha reclamar do Estado uma compensação.
25/11/2006
24/11/2006
À segunda levantou voo o franchisável (III)
Não posso precisar os detalhes da nossa chegada ao aeroclube. Mas uma coisa pode dizer-se e é certa: se fomos em meio aéreo, fizémo-lo com as rodas assentes no chão, taxiando.
Já à chegada, notava-se que o irrepreensível estado de limpeza da aeronave do meu amigo contrastava com o estado de sujeira em que se encontravam quase todas as demais. Como se o simples facto de andar no ar concorresse para o acumular de merda nas asas, na carlinga e em toda a fuselagem, enfim.
Mas depois de ziguezaguearmos pela frente e pela ré da reluzente máquina, agora exibindo o seu azul celeste ao lado da roulotte dos coiratos e das sandes de molho, e de eu ter medido bem os gestos e a pose do meu companheiro que em tudo se esforçava por estabelecer, sem a menor dúvida, o linque de posse entre ele próprio e o avião, enfrentámos as bancadas tribunícias onde algum público assistia à evolução de aparelhos e talvez até se despedisse de parentes e amigos embarcadiços.
Isto depois de um pequeno incidente de que fui protagonista, quando entrei numa área reservada e tirei algumas fotografias. Ele fazia-me gestos com a mão para que não avançasse mais e me abstivesse de fotografar, com medo de qualquer admoestação na sua qualidade de membro do aeroclube. Eu lá continuei mais um bocado mas acabei por retroceder, sem que alguém me tenha interceptado.
Foi entre a minha saída do portão gradeado da dita área e a chegada à bancada coberta, passando por uma ponte sobre um fosso na muralha que avistei, saltando de um baluarte, o franchisado.
E digo ainda que era o franchisado, por calcular que o detentor da originalidade de tão grande malícia em tão pequeno corpo não tivesse tido tempo de ali chegar, mesmo que se tivesse apressado a seguir no meu encalço. Era pois o diabo por ele. Um franchisado.
Fosse lá quem fosse, começou de imediato a arremessar-nos pedras assim que nos apanhou a tiro.
Nem sequer o facto de nos encontrarmos já então em animada conversação com duas companheiras de bancada foi impeditivo da sua maldade. Distribuía-se entre as pedradas que ora acertavam em nós ora em terceiros e as investidas com paus afiados e as vergastadas com canas verdes.
Acabámos por fazer uma retirada estratégica para a sala de espera, envidraçada, que ficava no topo da bancada e na qual havia uma abertura larga a oeste, do lado da pista de onde levantavam agora os aviões.
As nossas amigas tinham-nos acompanhado. E havia indignação maioritária entre a assistência contra o renegado infante, embora uma minoria achasse que a criança não merecia censura alguma.
Foi depois de mais uma investida pela tal abertura ocidental, que a coisa se deu. E deu-se rapidamente e da seguinte forma:
O miúdo investira com uma lança de madeira pontiaguda contra o J.M.. Este, num salto felino, apanhou-o pelo cu das calças e saindo com ele para a parte da bancada, arremessou-o contra os cabos de alta tensão enfeitados com balões vermelhos. O miúdo chamuscou-se e fez ricochete, ao som do trovão. Foi parar de novo às mãos do J.M.. Este não hesitou e arremessou-o uma segunda vez, com tais ganas que me pareceu a mim que ele também tinha sofrido na pele as agressões do primeiro. E que era o franchisável, ele próprio, que levantava voo. Talvez não me tivesse enganado. À segunda foi de vez. O ricochete que fez agora, deveu-se apenas à elasticidade dos cabos, já mortos. Já morto ele também, com o choque da primeira vez.
(continua ainda)
Não posso precisar os detalhes da nossa chegada ao aeroclube. Mas uma coisa pode dizer-se e é certa: se fomos em meio aéreo, fizémo-lo com as rodas assentes no chão, taxiando.
Já à chegada, notava-se que o irrepreensível estado de limpeza da aeronave do meu amigo contrastava com o estado de sujeira em que se encontravam quase todas as demais. Como se o simples facto de andar no ar concorresse para o acumular de merda nas asas, na carlinga e em toda a fuselagem, enfim.
Mas depois de ziguezaguearmos pela frente e pela ré da reluzente máquina, agora exibindo o seu azul celeste ao lado da roulotte dos coiratos e das sandes de molho, e de eu ter medido bem os gestos e a pose do meu companheiro que em tudo se esforçava por estabelecer, sem a menor dúvida, o linque de posse entre ele próprio e o avião, enfrentámos as bancadas tribunícias onde algum público assistia à evolução de aparelhos e talvez até se despedisse de parentes e amigos embarcadiços.
Isto depois de um pequeno incidente de que fui protagonista, quando entrei numa área reservada e tirei algumas fotografias. Ele fazia-me gestos com a mão para que não avançasse mais e me abstivesse de fotografar, com medo de qualquer admoestação na sua qualidade de membro do aeroclube. Eu lá continuei mais um bocado mas acabei por retroceder, sem que alguém me tenha interceptado.
Foi entre a minha saída do portão gradeado da dita área e a chegada à bancada coberta, passando por uma ponte sobre um fosso na muralha que avistei, saltando de um baluarte, o franchisado.
E digo ainda que era o franchisado, por calcular que o detentor da originalidade de tão grande malícia em tão pequeno corpo não tivesse tido tempo de ali chegar, mesmo que se tivesse apressado a seguir no meu encalço. Era pois o diabo por ele. Um franchisado.
Fosse lá quem fosse, começou de imediato a arremessar-nos pedras assim que nos apanhou a tiro.
Nem sequer o facto de nos encontrarmos já então em animada conversação com duas companheiras de bancada foi impeditivo da sua maldade. Distribuía-se entre as pedradas que ora acertavam em nós ora em terceiros e as investidas com paus afiados e as vergastadas com canas verdes.
Acabámos por fazer uma retirada estratégica para a sala de espera, envidraçada, que ficava no topo da bancada e na qual havia uma abertura larga a oeste, do lado da pista de onde levantavam agora os aviões.
As nossas amigas tinham-nos acompanhado. E havia indignação maioritária entre a assistência contra o renegado infante, embora uma minoria achasse que a criança não merecia censura alguma.
Foi depois de mais uma investida pela tal abertura ocidental, que a coisa se deu. E deu-se rapidamente e da seguinte forma:
O miúdo investira com uma lança de madeira pontiaguda contra o J.M.. Este, num salto felino, apanhou-o pelo cu das calças e saindo com ele para a parte da bancada, arremessou-o contra os cabos de alta tensão enfeitados com balões vermelhos. O miúdo chamuscou-se e fez ricochete, ao som do trovão. Foi parar de novo às mãos do J.M.. Este não hesitou e arremessou-o uma segunda vez, com tais ganas que me pareceu a mim que ele também tinha sofrido na pele as agressões do primeiro. E que era o franchisável, ele próprio, que levantava voo. Talvez não me tivesse enganado. À segunda foi de vez. O ricochete que fez agora, deveu-se apenas à elasticidade dos cabos, já mortos. Já morto ele também, com o choque da primeira vez.
(continua ainda)
22/11/2006
Política há
Ideias é que não.
Há muito que é assim.
A última ideia política de que dei conta - condicionada pelas circunstâncias da época - foi a da integração europeia. Daí para cá, um deserto.
Um deserto em que só os que se encontram dentro das clientelas encontram diferenças de rumo. Como se houvesse até um rumo.
Dá este governo, na linha que vinha embora mais ténue de outros anteriores, uma ideia de querer pôr a casa em ordem, o que é dizer tino nas contas.
Faz bem. Faz muito bem.
E é por isso que as costumeiras corporações já se queixam. Como se isto não dissesse respeito a todos.
Não tenho, como já disse, pachorra para ouvir as lamúrias e os queixumes de tais corporações quase sempre representadas por inenarráveis criaturas bradando por tenças, alcavalas, comedorias e acrescentamentos.
Há, porém, uma brecha grave pela qual podem acometer os protestantes - é a falta de autoridade moral dos governos, da qual é ridículo exemplo a publicação a rogo e a contragosto da lista de credores do Estado.
Como disse, no deserto não há ideias. Nem rumo que se possa mudar.
Mas há muitos pobrezinhos deslumbrados, convencidos de que vão não sei onde, com a arca que carrega o nosso dinheiro. Pobres de espírito.
Ideias é que não.
Há muito que é assim.
A última ideia política de que dei conta - condicionada pelas circunstâncias da época - foi a da integração europeia. Daí para cá, um deserto.
Um deserto em que só os que se encontram dentro das clientelas encontram diferenças de rumo. Como se houvesse até um rumo.
Dá este governo, na linha que vinha embora mais ténue de outros anteriores, uma ideia de querer pôr a casa em ordem, o que é dizer tino nas contas.
Faz bem. Faz muito bem.
E é por isso que as costumeiras corporações já se queixam. Como se isto não dissesse respeito a todos.
Não tenho, como já disse, pachorra para ouvir as lamúrias e os queixumes de tais corporações quase sempre representadas por inenarráveis criaturas bradando por tenças, alcavalas, comedorias e acrescentamentos.
Há, porém, uma brecha grave pela qual podem acometer os protestantes - é a falta de autoridade moral dos governos, da qual é ridículo exemplo a publicação a rogo e a contragosto da lista de credores do Estado.
Como disse, no deserto não há ideias. Nem rumo que se possa mudar.
Mas há muitos pobrezinhos deslumbrados, convencidos de que vão não sei onde, com a arca que carrega o nosso dinheiro. Pobres de espírito.
21/11/2006
20/11/2006
À segunda levantou voo o franchisável (II)
Sei lá eu por que é que, no meio de tanta pressa, havia de me deter naquela sala. Mas detive-me o suficiente para reparar neste e naquele, no inevitável dr. azul acinzentado e nesta ou naquela figura feminina de fino recorte.
Uma delas era portadora de uma criança amável e comportada que se encontrava sob ataque de uma outra, desbragada, quezilenta e maliciosa. A coisa descambou quando esta acertou aquela com um troço de pau de vassoura, deixando-a desmaiada.
Os pais do agressor encolhiam os ombros.
E a até ali morna atmosfera, toldou-se duma vez.
Comentários reprovadores do dr. azul acizentado, como é que esta gentinha educa os filhos, e outros reparos sobre a gravidade do galo.
Embrenhava-me eu em discurso mudo sobre os eventos junto de um homólogo quando fui acometido pelo pequeno malfeitor, que me acertava com o mesmíssimo pau de vassoura nas pernas.
Dirigi um olhar fulminante à mãe da criança, certo de que nada adiantaria, e retirei-me, lembrado da urgência da abalada.
Foi então que já não vi nem o meu irmão nem o J.R.. Procurei o carro, de ribeira abaixo, seja lá o que fôr que isto significa, a par de ser a descer a rua, e nada.
Meti por uns atalhos sob o caminho-de-ferro, era daqueles viadutos com os encontros revestidos com silhares, e lá encontrei alguém que me deu indicações muito pouco preciosas.
Desisti do comboio para voltar para casa e voltei à procura do carro, ribeira acima.
Avistei-o mais ou menos a meio caminho. Vinha com ar de quem não quer a coisa mas era certo que já me tinha escolhido como vítima, mesmo porque não se via vivalma a mais por ali.
Acertou-me primeiro com uma pequena pedra. Depois com um punhado de areia que me atirou aos olhos. Logo com uma pedra maior.
Ainda encaixei mais sete ou oito ataques, ignorando-os como se nada fosse, até alcançar de novo o pórtico das instalações.
O pequeno meliante tinha ficado para trás. Julguei infrutífero travar conversa com a mãe dele que se encontrava sentada no mesmo sítio, em amena cavaqueira com a parceira do lado.
Saí de novo e de novo fui atacado com paus e pedras.
A um certo ponto reagi, dando uma valente bofetada na cara do bandidote. Este retomou o ataque com fúria redobrada, como seria de esperar.
Para evitar exceder-me com ele, resolvi entrar pelos tais corredores de vidro e utilizar o truque de mudar de nível, calculando que, pela sua reduzida estatura, não lhe seria possível agarrar a barra que possibilitava o balanço.
Assim fiz e vi-me ao pé do velho J.M. a quem não via há uns bons tempos.
Estranhei o facto de o ver envergando um dólman de piloto e respectivos cachecol e óculos.
Sossegou-me. Era apenas o traje de aeroclube.
(continua)
Sei lá eu por que é que, no meio de tanta pressa, havia de me deter naquela sala. Mas detive-me o suficiente para reparar neste e naquele, no inevitável dr. azul acinzentado e nesta ou naquela figura feminina de fino recorte.
Uma delas era portadora de uma criança amável e comportada que se encontrava sob ataque de uma outra, desbragada, quezilenta e maliciosa. A coisa descambou quando esta acertou aquela com um troço de pau de vassoura, deixando-a desmaiada.
Os pais do agressor encolhiam os ombros.
E a até ali morna atmosfera, toldou-se duma vez.
Comentários reprovadores do dr. azul acizentado, como é que esta gentinha educa os filhos, e outros reparos sobre a gravidade do galo.
Embrenhava-me eu em discurso mudo sobre os eventos junto de um homólogo quando fui acometido pelo pequeno malfeitor, que me acertava com o mesmíssimo pau de vassoura nas pernas.
Dirigi um olhar fulminante à mãe da criança, certo de que nada adiantaria, e retirei-me, lembrado da urgência da abalada.
Foi então que já não vi nem o meu irmão nem o J.R.. Procurei o carro, de ribeira abaixo, seja lá o que fôr que isto significa, a par de ser a descer a rua, e nada.
Meti por uns atalhos sob o caminho-de-ferro, era daqueles viadutos com os encontros revestidos com silhares, e lá encontrei alguém que me deu indicações muito pouco preciosas.
Desisti do comboio para voltar para casa e voltei à procura do carro, ribeira acima.
Avistei-o mais ou menos a meio caminho. Vinha com ar de quem não quer a coisa mas era certo que já me tinha escolhido como vítima, mesmo porque não se via vivalma a mais por ali.
Acertou-me primeiro com uma pequena pedra. Depois com um punhado de areia que me atirou aos olhos. Logo com uma pedra maior.
Ainda encaixei mais sete ou oito ataques, ignorando-os como se nada fosse, até alcançar de novo o pórtico das instalações.
O pequeno meliante tinha ficado para trás. Julguei infrutífero travar conversa com a mãe dele que se encontrava sentada no mesmo sítio, em amena cavaqueira com a parceira do lado.
Saí de novo e de novo fui atacado com paus e pedras.
A um certo ponto reagi, dando uma valente bofetada na cara do bandidote. Este retomou o ataque com fúria redobrada, como seria de esperar.
Para evitar exceder-me com ele, resolvi entrar pelos tais corredores de vidro e utilizar o truque de mudar de nível, calculando que, pela sua reduzida estatura, não lhe seria possível agarrar a barra que possibilitava o balanço.
Assim fiz e vi-me ao pé do velho J.M. a quem não via há uns bons tempos.
Estranhei o facto de o ver envergando um dólman de piloto e respectivos cachecol e óculos.
Sossegou-me. Era apenas o traje de aeroclube.
(continua)
19/11/2006
Co' a breca
Duas notas, para mim curiosas, a propósito da publicidade televisiva.
O anúncio do Montepio cortou a parte do convite para jantar.
O anúncio do Ponto Verde manteve a frase "Co' a breca [...] não lembra ao careca!"
O politicamente correcto não se aplica às criancinhas, tá visto.
Para a próxima ousarão "...mariquinhas pé-de-salsa", "... do que um coxo", "... o zarolho", "... para o maneta" ?
Duas notas, para mim curiosas, a propósito da publicidade televisiva.
O anúncio do Montepio cortou a parte do convite para jantar.
O anúncio do Ponto Verde manteve a frase "Co' a breca [...] não lembra ao careca!"
O politicamente correcto não se aplica às criancinhas, tá visto.
Para a próxima ousarão "...mariquinhas pé-de-salsa", "... do que um coxo", "... o zarolho", "... para o maneta" ?
Filhos e penteados
Ainda não consegui perceber por que é que não teremos nós, todos os portugueses, direito a um emprego vitalício e respectiva tença, com valorização anual nominal positiva e valorizações extraordinárias garantidas a intervalos regulares.
É a tal parábola dos filhos e dos penteados. E eu cada vez tenho menos pachorra para ouvir e para pagar estas cobóiadas corporativas. Eu e mais quantos?
Ainda não consegui perceber por que é que não teremos nós, todos os portugueses, direito a um emprego vitalício e respectiva tença, com valorização anual nominal positiva e valorizações extraordinárias garantidas a intervalos regulares.
É a tal parábola dos filhos e dos penteados. E eu cada vez tenho menos pachorra para ouvir e para pagar estas cobóiadas corporativas. Eu e mais quantos?
18/11/2006
À segunda levantou voo o franchisável (I)
O conceito era o de levantar voo. Claro. Expresso através das minhas inúmeras olhadelas ao relógio que simbolizavam a preocupação em depositar a horas o mano na aerogare.
Em boa verdade, preocupava-me mais do que ele.
Talvez numa perspectiva de optimizar, maximizar a satisfação do cliente.
O certo é que, com o J.R. atrelado a nós, fomos buscar umas coisas que lhe faltavam, a saber uns maços de notas de euro e de dólar, e arrumar umas outras lá no gabinete dele.
Ora ele trabalhava num sítio onde, a partir de uma interessante instalação industrial dos anos 40, um edifício cor-de-rosa, se implantou num canto vago uma edificação mimética muito, mas muito, bem desenhada.
É mesmo pelo vértice do lote que se entra. Por um pórtico algo rebuscado.
Estacionámos o carro - de marca e modelo inidentificáveis - logo após a entrada.
E lá fomos, pelo intrincado labirinto de vidro que dá acesso aos diversos gabinetes.
O gabinete do homem era assim: rectangular, entrando-se por um dos lados menores; no lado oposto, uma porta; à direita de quem entra, janelas altas, uma secretária ao fundo e uma cama de sentar imediatamente antes, sobre a qual havia uma série de acessórios espalhados: cabos, cêdês, discos rígidos, etc. Do lado esquerdo, umas estantes com livros e papelada.
O monitor estava pendurado do tecto e era nele que devíamos observar a sétima maravilha em aplicações não-sei-para-quê, mas um incómodo erro no arranque - em casa de ferreiro... - que arremedava a genérico da TV Globo impedia-nos de a ela ter acesso.
A vizinha do lado, da qual não fiquei a saber se era interessante ou não, disse e trouxe quaisquer coisas que, em primeira análise, seriam necessárias para a viagem. Não sei mesmo se não as notas.
Depois de mais uns minutos daquela penosa permanência em locais de trabalho alheios, a título de visita, apareceu uma espécie de dr. das empresas, fato azul acinzentado escuro, óculos de griffe, essas coisas que sabemos. Disse ou deu, com o tal ar, timbre e asserção a condizer, uma série de bons e banais conselhos de como se comportar com um gordo maço de dólares em qualquer país da América do Sul.
Achei que esta figura era indispensável em qualquer empresa que se preze.
Mais ou menos ao mesmo tempo que achava tal, chegou o big boss - o que é o que de pior pode acontecer a quem se encontra de visita a um local de trabalho alheio, excepto se se tratar de uma grande loja de materiais de construção no Parchal, por ocasião da visita de Natal - e chegado este, urgiu ouvi-lo.
Disse uma sucessão de banalidades igual à do orador anterior, embora com o ar de quem dispõe de uma vasta colecção de automóveis "de colecção". O que era verdade, suponho. Diria até que ele começou uma frase assim: "Indo eu no meu Ferrari Dino..."
Creio que o meu irmão se desculpou com as horas e lá zarpámos.
De volta ao labirinto, lembro-me do J.R. ter mudado de nível como quem está na barra fixa. Havia uma espécie de tecto de abrir e ele, por via de uma tal barra imaginária, saltou para o corredor imediatamente acima.
Assim nos aproximámos da porta e de um salão onde decorria algo entre uma espécie de festejo e de espera por consulta ou atendimento, visto que o ambiente geral era morno e indivisível, por não ser avisado dizer indizível.
E foi aí o meu primeiro contacto com o franchisável.
(continua)
O conceito era o de levantar voo. Claro. Expresso através das minhas inúmeras olhadelas ao relógio que simbolizavam a preocupação em depositar a horas o mano na aerogare.
Em boa verdade, preocupava-me mais do que ele.
Talvez numa perspectiva de optimizar, maximizar a satisfação do cliente.
O certo é que, com o J.R. atrelado a nós, fomos buscar umas coisas que lhe faltavam, a saber uns maços de notas de euro e de dólar, e arrumar umas outras lá no gabinete dele.
Ora ele trabalhava num sítio onde, a partir de uma interessante instalação industrial dos anos 40, um edifício cor-de-rosa, se implantou num canto vago uma edificação mimética muito, mas muito, bem desenhada.
É mesmo pelo vértice do lote que se entra. Por um pórtico algo rebuscado.
Estacionámos o carro - de marca e modelo inidentificáveis - logo após a entrada.
E lá fomos, pelo intrincado labirinto de vidro que dá acesso aos diversos gabinetes.
O gabinete do homem era assim: rectangular, entrando-se por um dos lados menores; no lado oposto, uma porta; à direita de quem entra, janelas altas, uma secretária ao fundo e uma cama de sentar imediatamente antes, sobre a qual havia uma série de acessórios espalhados: cabos, cêdês, discos rígidos, etc. Do lado esquerdo, umas estantes com livros e papelada.
O monitor estava pendurado do tecto e era nele que devíamos observar a sétima maravilha em aplicações não-sei-para-quê, mas um incómodo erro no arranque - em casa de ferreiro... - que arremedava a genérico da TV Globo impedia-nos de a ela ter acesso.
A vizinha do lado, da qual não fiquei a saber se era interessante ou não, disse e trouxe quaisquer coisas que, em primeira análise, seriam necessárias para a viagem. Não sei mesmo se não as notas.
Depois de mais uns minutos daquela penosa permanência em locais de trabalho alheios, a título de visita, apareceu uma espécie de dr. das empresas, fato azul acinzentado escuro, óculos de griffe, essas coisas que sabemos. Disse ou deu, com o tal ar, timbre e asserção a condizer, uma série de bons e banais conselhos de como se comportar com um gordo maço de dólares em qualquer país da América do Sul.
Achei que esta figura era indispensável em qualquer empresa que se preze.
Mais ou menos ao mesmo tempo que achava tal, chegou o big boss - o que é o que de pior pode acontecer a quem se encontra de visita a um local de trabalho alheio, excepto se se tratar de uma grande loja de materiais de construção no Parchal, por ocasião da visita de Natal - e chegado este, urgiu ouvi-lo.
Disse uma sucessão de banalidades igual à do orador anterior, embora com o ar de quem dispõe de uma vasta colecção de automóveis "de colecção". O que era verdade, suponho. Diria até que ele começou uma frase assim: "Indo eu no meu Ferrari Dino..."
Creio que o meu irmão se desculpou com as horas e lá zarpámos.
De volta ao labirinto, lembro-me do J.R. ter mudado de nível como quem está na barra fixa. Havia uma espécie de tecto de abrir e ele, por via de uma tal barra imaginária, saltou para o corredor imediatamente acima.
Assim nos aproximámos da porta e de um salão onde decorria algo entre uma espécie de festejo e de espera por consulta ou atendimento, visto que o ambiente geral era morno e indivisível, por não ser avisado dizer indizível.
E foi aí o meu primeiro contacto com o franchisável.
(continua)
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