15/06/2007

Cartão de crédito

Escrevi aqui há dois anos e meio que me tinha sentido mal julgado por não ter cartão de crédito.
É claro que não se pode medir a opinião pública ou a pública avaliação, subsumindo a partir de um imbecil qualquer. Que foi o que fiz em tal ocasião, ainda que pretendendo ser irónico.
Daí para cá, não se deu o caso de ter voltado a ser olhado de alto a baixo por não ter uma tal coisa na carteira.
Convém dizer também que não tenho a preocupação do parecer, mas que me aborrece tropeçar em explícitas avaliações alheias. O prejuízo acaba por ser mais da irritação do que do resto.
Dito isto, não é que dou ontem com um cartão de crédito emitido em meu nome, todo bem embrulhadinho, com as devidas taxas de juro bem explicadas, na minha caixa do correio?
Já não posso dizer que não tenho um.
Não faço a menor tenção de o devolver ao meu banco. Fica aqui no meu museu. Virgem até morrer por evaporação de solventes.

14/06/2007

O melhor amigo do homem

Ando aqui há tempos com esta atravessada.
Pensava eu que o melhor amigo do homem era o cão. Pensar não será bem. Meteram-me isso na cabeça e eu não me livrei em tempo de tal ditame. Depois, o cão parece ter acompanhado o homem por tantos séculos que lá ganhei algum lastro para alicerçar uma ideia que me tinham impingido. Sabemos bem como são estas coisas.
Mas o certo é que, à medida que fui vivendo e convivendo, esbarrei com crenças díspares. Que de alguma forma beliscaram aqueloutra.

Vem um e diz, acabadinho de fechar a cerca do gado: "O melhor amigo do homem é o arame!" e logo me dou conta de que muitos mais o acompanham nesse suspiro.
Chega outro, a modos que atrasado, bate os dedos no capot quente e exclama: "O melhor amigo do homem é o automóvel!" e dá-se o caso de ouvir depois a outros que tais, sentença igual.
Estou debaixo de uma viga aparentando descaso de manutenção e logo ouço a quem parece abraçar carlingas de um só amplexo, lagrimita ao canto do olho: "O melhor amigo do homem é o betão!" e afinal há inúmeros mais que assim o dizem.
Também já ouvi discussões em que o fiel amigo vem à baila. E vai-se a ver é o bacalhau.

Com tudo isto, vejo seriamente abalada a minha crença mesmo que me recorde das intensas lambidelas com que o meu querido cão me agraciou.
Será que há por aí mais colégios, mais agremiações, deputações, confrarias que venerem a amizade unívoca de uma qualquer outra entidade material ou imaterial? A haver, qual seria esse amigo? Esse melhor amigo.
E não ando à cata de nomeações. O que quero é certezas.

12/06/2007

Das noites tais

Subir por escadas ancestrais, becos e ginjas.
Apreciar as fêmeas de alto a baixo.
Beber outra, fingir atacar o sapato e mais outra.
Agarrá-las pelas costas, à falsa-fé, e levá-las pelo braço, entoando Marselhesas.
Trocá-las por cigarros, mais acima.
Orientar pelo cheiro.
Roubar febras e até o abano.
Não pagar rodadas de cerveja.
Palmilhar São Tomé pelos telhados.
Ver os conhecidos tresmalhar o gado a custo junto.
E beber outra, ao virar da esquina.
Entrar em Medicina usando o abano, salvo o conduto.
Que eram mais sardinhas no pátio das traseiras.
Terminar cantando, sempre cantando.
Sempre os mesmos, à porta de casa.
A manhã quente.
Como a caldeira.
Amadora, 2007

11/06/2007

O ponto Foz Coa da discussão técnico-política

É onde estamos a chegar.
Recordam-se dos protagonistas?
E do chorrilho de asneiras que então se ouviu?
E da ideia de desgoverno que dali saiu?
Estamos quase lá.
Praia da Cruz Quebrada, 2007

10/06/2007

O estranho silêncio das máquinas de escrever

Diz a lenda que à volta daquele andar da Almirante Reis os vizinhos, com razão, protestavam contra o teclar metálico das dactilógrafas que, altas horas da noite, ultimavam apresentações de cálculos e memórias descritivas, a partir da letra mais ou menos legível da engenharia.
Talvez ainda soassem os carretos das Brunswiga, aproximados a duas casas decimais.
Hoje, falece-nos esse rumor quando adentramos as escriturarias onde há muito os alpacas se transformaram em gestores de produto ou coisa que o valha. Mais dados a debitarem sonoramente um chorrilho de linhas de um qualquer certificado manual de curso de formação do que a devolverem o rolo à posição de ponto parágrafo.
É uma falta poética, essa.
Mesmo que os nossos tímpanos tenham ganho com a troca.

08/06/2007

A voar sobre as oliveiras

E eu pairava enquanto ela falava ao telefone com alguém.
Estava animada da tradicional vontade de ajudar quem não queria ser ajudado.
Era qualquer coisa com um irmão que não encontrava um papel qualquer da tropa. Nem queria encontrar.
Entre duas passagens baixas, que eu andava mais para o lado da estação de caminho-de-ferro do que ali por cima das oliveiras, disse-lhe que perguntasse ao contra-almirante o que havia de fazer, que mesmo há bocado o tinha visto através daquelas vidraças velhas da porta, velhas de distorcer as imagens.

06/06/2007

Ignorância batimétrica

Segundo uma jornalista da SIC, o Rio Douro, em certo sítio, tem cerca de 400 m de profundidade.

É a chamada falta de noção das proporções.
MOPTC

Vi e ouvi um certo número de pessoas, algumas delas com responsabilidades públicas, dizerem-se ofendidas com a afirmação do ministro de que a margem sul é um deserto, não tem isto, não tem aquilo.
Não consegui ainda, vários dias volvidos, perceber em que medida pode esta afirmação ser ofensiva.
A2, 2004

05/06/2007

Um homem vestido de Pateta

Uma das reticências que se me punham em criança quando me falavam da Disneylândia era deparar-me com um tipo vestido de Pateta.
Uma palhaçada igual aos Pais Natal do Chiado.
Não mudei de reticências quarenta e tais anos depois.
Ainda me admiro é com a quantidade de gente adulta que se dispõe a figurar para a posteridade ao lado do homem vestido de Pateta.
Ou de Pim.

04/06/2007

De uma rua a outra

Vai-se, pelas minhas contas, a uma velocidade média de 8,6 x 10-4km/h. Mas isso são as minhas contas.