29/09/2007

O truque das cartas

Não pude deixar de espreitar.
O homem, todo encafuado num preparo para enfrentar a chuva, estava rodeado de crianças.
O íman era um baralho de cartas.
Sendo pouco provável que com tal público se preparasse uma vermelhinha, haveria de haver qualquer magia por ali.
Foi há pouco, aqui ao pé da porta, ao abrigo do temporal.


William Roberts, The Card Trick (óleo sobre tela), c. 1968
© The Estate of John David Roberts



Queria ilustrar isto com outro truque de cartas, mas estranhamente não o encontrei.
Lisboa, 2007

27/09/2007

La mort e outras personagens

Muito raramente ando de transportes públicos. Já houve tempo em que o fazia todos os dias.
Por isso hoje reconheci no comboio uma série de personagens – o cego adormecido, a mulher do pokémon, a do livro empinado, as secundárias de qualquer noite de estroinice e mais umas quantas de menor importância.
Mas a que mais se destacou foi a moça com cara de morte.
Era ela mesmo, num qualquer filme francês, ali mesmo à minha frente.
Olhei-a nos olhos. Se dúvidas houvesse...
Lisboa, 2007



26/09/2007

O homem que imergia em champagne e que há pouco morreu por engano

Fui lá a negócios. A casa do homem. Ou ao seu despacho.
Não tinha muito que saber a sala do dito.
Uma banheira com grades tipo cama de criança cheia de champagne. O próprio lá dentro, irrepreensivelmente vestido, de flor na botoeira.
Ao lado apenas uma caixa de cartão, encetada, talvez de meia dúzia. Um pouco atrás um pequeno frigorífico de onde retirava gelo e baldes arrefecidos. Mais afastada, a pilha de baldes usados e um número de garrafas vazias fazia notar a ausência de empregados.
Depois de tratada a nossa questão e era intrincada a coisa, embora resolvida num ápice, contemplou-me com uma garrafa nova. Os gestos que fez, de dentro do berço, pareceram-me naturalmente maquinais. Torceu à direita alta, abriu a porta do frigorífico, tirou um balde, abriu o congelador, tirou gelo, inclinou-se a bombordo e fez mais um rasgão no cartão da caixa. Retirou a garrafa e colocou-a no balde. Depois fez o improvável, semi-mergulhou o balde no leito da cama, deixando entrar champagne do molho para dentro dele, balde.
Acendeu um charuto que tirou juntamente com os fósforos de onde não percebi e deixou-se ficar à espera da minha pergunta.
E eu fi-la. Pedindo desculpa por ser indiscreto após a formalidade do nosso acordo, perguntei quantas garrafas bebia por dia, sem me referir às que gastaria com o caldo.
Ah, umas quatro a cinco caixas por semana – respondeu-me displicente.
Fiz as contas rapidamente. Se as caixas fossem como esta, de seis garrafas, dava um número entre vinte e quatro e trinta garrafas por semana. A dividir por sete... achei pouco.
Saindo da banheira, explicou-me a forma como era tratado pelo fornecedor francês, era uma coisa quase just in time, sem falha alguma desde o começo.
Face ao que me acabara de dizer e isto referia-se à parte da conversa que aqui não posso mencionar, perguntei-lhe se nada temia.
Mostrou-se tão ou mais displicente do que ao servir-me ou ao dar-me o número de caixas – Não!
Foi nessa altura que julguei ver no olhar que alvejava ao meu lado esquerdo, para lá da janela que estava nas minhas costas, um ligeiro estremecimento.
Virei-me. Divisei, quase escondidos pelo altíssimo muro do pátio, dois helicópteros ao longe. A um longe de meio minuto talvez.
Os helicópteros! – exclamei. Não pareceu ser isso o que o incomodava.
Acerquei-me da janela. No pátio, avistei um Fiat 127 que tinha um cão na chapeleira. Era um cão a sério, de carne e osso, que me fitava, embora eu estivesse uns bons cinco andares acima.
O tipo que estava ao volante iniciou uma manobra de saída do carro mas ficou a meia haste, com parte do corpo de fora mas a cabeça dentro, talvez dando ordens ao cão.
Divisei ainda uns outros tipos suspeitos, uma espécie de TP21 da Polícia e ao voltar-me vi que o homem se tinha transfigurado. Estava assustado, enfim.
Reparei então que a porta que dava para o exterior não tinha nenhum tipo de fecho. Era apenas a mola que a mantinha encostada.
Precipitei-me para ela, ainda pensando no que haveria de usar para a trancar.
Ainda não a tinha atingido quando ela abriu, ligeiramente. Com pouca força impedi que abrisse. Olhei pela fresta e vi uma cara de rapazola com cabelo espesso que me interpelava. Queria falar com o boss e eu não o deixava. Porquê?
Está aqui um rapaz que lhe quer falar, disse.
Ele, já reconhecendo a voz, disse que a mandasse entrar. Era afinal uma mulher. Ginândrica e com voz rouca, de homem.
Entabularam rápida conversação e eu percebi que ela não estava a par do perigo.
Saímos. O meu guarda-costas aguardava-me ao fundo de uma rampa.
Fomos para uma espécie de varanda de onde avistávamos os remates circulares das coberturas das varandas do Ritz. Recordo-me de ter enquadrado com as mãos a 90 graus, o céu azulíssimo e estes círculos de betão amarelecido, pairantes.
Depois de esperarmos algum tempo, fui ver se alguém se aproximara do escritório. Nada.
Resolvemos então sair em direcção às garagens. Optámos por fazê-lo pela nave central que era em planta um rectângulo vazado de vértices arredondados. Em cada piso havia uma galeria a toda a volta, com cerca de dois metros de largo e que comunicava com os pisos restantes por uma esbelta rampa da mesma largura e que era lançada a meio dos lados menores da projecção em rectângulo, de um para o outro.
Assim que me debrucei, vi imediatamente os homens que corriam pelas laterais.
O meu guarda-costas surgiu com uma espécie de carro eléctrico de bagagens das estações ferroviárias e fez-nos subir aos três.
Das várias peripécias que se seguiram até eu perceber que os homens estavam no encalço de outrem não há nem conta nem espaço para as narrar, apenas que o boss e a moça com ar de rapazola se precipitaram no vazio, mortos por engano.
Os verdadeiros caçadores chegaram depois.
E eu já só tinha uma bala no carregador. Usei-a bem.
E ainda fiz melhor, canalizando uma energia domada através das paredes para derrubar o segundo contendor. Eram só dois, afinal.

24/09/2007

23/09/2007

Erros quimicamente ditos

Um anúncio relacionado com a Direcção-Geral de Saúde (da responsabilidade desta?) falar em “substâncias químicas” é grave, muito grave ou pandémico?
Lisboa, 1996 / 2007



22/09/2007

A dignidade do Estado

O conceito de dignidade do Estado é como todos os outros conceitos subjectivos. Varia com os tempos e com as circunstâncias e com a mentalidade de cada um.
Coisas absolutamente impensáveis numa época passam a ser modais em outra.
Deparei-me com esta imagem há dias atrás.
Impressionou-me por ser, na minha medida, uma triste condescendência à indignidade do dito Estado e da sua autoridade.



Não adianta o argumento de que há muitas coisas com que nos preocuparmos.
Esta parece tão simples de resolver e cuidar.
Ainda assim não me abstenho de a divulgar. Talvez o faça com a mesma inconsciência que a tornou possível.

21/09/2007

Coruche, 1995




Esta foto já foi aqui publicada e é provável que volte a sê-lo um dia que eu consiga uma cópia decente e não uma fotografia digital de uma prova de contacto 24x36 como é esta.
A sentinela

A primeira coisa que vi, que vimos, quando o carro dobrou a esquina foi a posição de à-vontade da sentinela.
Destacava-se na linha do edificado do espaço-canal, para usar uns termos dos livros.
Havia uma certa convexidade na pose que lhe acentuava interesse.
Demorámo-nos a inspeccionar o fim da rua. Vimos o que restou da indústria pesada, entrámos no café onde dormitava o dono e onde os poucos clientes aproveitaram a nossa presença para pedirem mais cerveja sem se responsabilizarem pelo sobressalto do justo.
Demorámo-nos a ver mais coisas. O J.J. dizia que nunca tinha andado por aquela Lisboa.
Foi assim que, já esquecidos das formas que víramos ao virar, nos encaminhámos para a estação.

O soldado de guarda era um soldado da Guarda. Era cabrito e bonito, o soldado.
Quando passei por ele, soldado, dei pela primeira vez na vida as boas tardes a uma sentinela.
O soldado bonito fez um sorriso desarmante, deu um passo à frente, bateu os tacões, fez continência e retribuiu-me o voto.
Após uma ligeira vénia, continuei rua abaixo.
O J.J. tinha ficado para trás, apreciando qualquer coisa.
Esperei que se reunisse a mim e censurei-o – então não deste as boas tardes à senhora?
Eu?! Ela tinha cara de poucos amigos!
Talvez, meu caro. E talvez eu seja um desses poucos.
E prosseguimos, já com a mira na estação de caminho-de-ferro.

20/09/2007

Bizarrias

Fui lá fora. Em certos pontos da rua, cheira a lagar de azeite.
Não percebo nada disso. Disto. De lagares de azeite.
Isto não é publicidade

É antes uma amostra das minhas incapacidades.
Eu sei o que é o sudoku. Não faço ideia há quantos anos as pessoas se entretêm com tal coisa, mas sei que jogos – diria passatempos – semelhantes são coisa velha e relha.
Eu próprio não sendo um aficionado deste tipo de coisas, gostava particularmente de resolver alguns do género.
Surpreendi-me foi com o ar de novidade que a coisa teve aqui há poucos anos. Como se fosse caso de me surpreender com a surpresa dos outros face à sua própria ignorância.
Mas chega.
A incapacidade aqui é minha. Eu explico:
Há uns dias atrás, folheando alheado um suplemento do Expresso, pensei ter visto uma espécie de sudoku numa das páginas. Mas por achar que tinha qualquer coisa de estranho, vi com mais atenção.
Era a figura que postei ontem aqui.
E postei-a tal e qual com o rótulo de passatempo, na esperança de ver se o mesmo tipo de engano sucedia a algum dos meus leitores.
Cometi aqui mais dois erros. O primeiro, dispenso-me de o mencionar, por ser óbvio. O segundo foi não ter percebido que esse tipo de ilusão é fácil de acontecer quando se manuseia distantemente um jornal mas pouco provável face a um écran de computador.
Dito isto, anuncio aqui a perspicácia do João Espinho que acertou em cheio e a ironia iluminada do Bic Laranja que acertou no conceito subjacente, em cenário alternativo.
Trata-se da planta da Interpescas, que decorrerá de hoje até domingo, em Aveiro.
E isto não é publicidade.



Encontrei no dito suplemento para além desta imagem, um fio de meada. Para outras memórias.

19/09/2007

A Terra não é esférica (III)



Legenda:
B - Sol
A - Luz solar
C e C' - Zonas de penumbra
T - Terra

BENEDY, H.; “A Terra não é esférica...”, Lisboa, 1952, fig. 17, p. 89
Passatempo


( o esquema não é da minha autoria - solução na próxima semana se houver interessados )

17/09/2007

Entrada em vigor

Os papagaios repetem-se uns aos outros, naturalmente.
Mas em que medida em que é importante a data da entrada em vigor quando uma Lei foi mal parida ou mal alterada?
Além de se adiarem as dores de cabeça, há mais alguma razão?
Ouço dizer que são precisos cerca de seis meses para se discutirem e perceberem as consequências...