26/04/2012

Pavilhão hasteado

Demora calma e poucamente
O tempo que em teu rosto
Terno passa,
Porque afagos caem cedo
Nas manhãs em que o Inverno
Duro, grassa.
Chove limbo
De folha seca
Em tarde morna
Se teu rosto tão pequeno
Triste torna.
Suado verão
Sobre o celeiro
Que apoucado
É de modorra,
Deixando leve
Que o teu sorriso
Em mim se morra.
Volta a flor
A namorar
Sobre a janela,
Que assim és tu,
Teu corpo em Maio
Em flor tão bela!


1986

SG, "Dizeres do Sul", 1993

25/04/2012

Feminino singular

Um dos mistérios da fé é acreditarmos, os que o fazem, que existe o tal íman que, por muito singular que seja, é todavia feminino em barda.
A experiência de encontrar tais magnetos dá-me ideia que será electrizante até ao fim dos dias.
Para quem a tem e tem consciência de que ele, o magneto, por ser gerado electricamente poderia estar desligado. E não está.

22/04/2012

Se em 2002

Se em 2002 a parte folclórica da dita esquerda francesa veio para a rua protestar contra os resultados eleitorais, teria hoje ainda mais razão para o fazer.
É que obteve uma percentagem de votos muito semelhante à de 2002.
E viu a candidata dita da extrema-direita obter maior percentagem do que o seu pai obteve então.
Mas tudo está bem porque ao contrário de então não dispersaram os votos de forma a não conseguirem colocar um dos seus candidatos na segunda volta.
É essa a única diferença. Desta vez têm esperança.
Não irão para as ruas autoflagelar-se em desmandos, culpando a democracia de permitir os votos que lhe são aziagos, sem perceberem que o caso era apenas de responsabilidade própria.

Quanto ao que aqui escrevi, a resposta à questão está dada - mais ou menos ao mesmo nível de 2002, assim parece.

Corrigenda (cerca das 9:00 de 23 de Abril): de facto, a percentagem de votos à esquerda é inferior em menos de 1% dos votantes à de 2005. Marie Le Pen obteve mais 1% dos votantes do que Jean-Marie. Ambos os factos corroboram o espírito do post.
Estação C.F. de São Martinho do Porto, 2012

21/04/2012

Do melhor pior que há*

Os tipos do Blogspot conseguiram arranjar maneira de complicar o que era simples.
Acontece sempre que há uma tentativa de adaptar ainda mais às massas o que às massas já está acessível. Uma espécie de paradoxo.

* com preito a um primo que gosta de usar esta expressão.
Números

A única questão que as presidenciais francesas parecem suscitar é saber se a soma dos votos dos candidatos ditos de esquerda ultrapassa ou não à primeira volta os 50% dos votos expressos.
Na V República, apenas sucedeu uma vez – em 1981, quando Mitterand foi eleito para o primeiro septanato.
Parece pouco provável. Mais provável é que ultrapasse os 45% de 2002, quando a habitual corte de imbecis bradou que a França virara à direita, quando na realidade os votos à esquerda haviam superado em percentagem (45% contra 41%) os obtidos sete anos antes.
Desse brado resultaram os tradicionais desmandos nas ruas.



Observe-se que a esquerda obteve sempre que logrou passar, uma percentagem maior de votos à segunda volta.

19/04/2012

Do fim

Haverá quem tenha a necessidade de deixar para os tempos depois da sua morte um legado de segredos.
Um legado que contenha informação desconcertante, que tire aos outros a imagem que dele tinham, substituindo-a por outra.
Dele constando ou as peripécias acontecidas a monte ou os desejos nunca revelados ou as antipatias superadas a custo ou os sonhos sonhados ou as obras escondidas. Ou tudo em conjunto ou em combinações de subconjuntos.
Na literatura haverá cópia de tais instâncias. Umas mais à vista, outras não.
Ocorre-me fazer uma escolha de tais elementos, codificá-los com esperança num destinatário incógnito e esperar, depois de morto, pela satisfação de os ver decifrados e absorvidos. Não por quem de mim tenha uma imagem formada mas por um longínquo leitor.
Vai-se o impacto da desconcertação observado da tumba, fica a esperança de um interesse qualquer.

17/04/2012

Um século e...

Há exactamente 100 anos, ocorreu um eclipse do Sol cujo máximo se projectou a cerca de 160 km a WSW do Cabo Raso.
A linha de maior eclipse cortou o país na direcção SW-NE, tendo, ao que rezam as crónicas, Ovar sido considerado o lugar onde a observação seria mais proveitosa, por ser o local em terra sobre a linha de maior eclipse mais perto do seu máximo.
No entanto, a minha fotografia favorita é esta. Aposto que foi tirada antes da ocultação estar no máximo ou, em alternativa, que se trata de uma excelente representação para o fotógrafo, dados a luminosidade e o contraste.
Atribuída a Joshua Benoliel e tirada onde?



A Capital traz este boneco de Silva Monteiro* que nos diz que passado um século, tudo está igual no ex-Reino de Portugal.



* Quem me decifrou a assinatura foram a Teresa e uma colega sua, a quem agradeço.

A fotografia atribuída a Benoliel está depositada no Arquivo da CML sob a cota B093963.
A Capital pode ler-se na Hemeroteca Digital da mesma CML.

16/04/2012

A semântica

Sofre evoluções ao ritmo da vertigem comunicacional.
Uma palavra recomendada passa com grande facilidade a palavra proibida (e hoje há ene palavras proibidas pelo dictatum do autoritarismo dito politicamente correcto que inda ontem eram canónicas).
O intervalo de tempo que leva a adquirir o tal significado que é classificado como daninho é o de um fósforo a arder.
Ardem hoje palavras soltas como outrora arderam alinhadas em livros.

10/04/2012

Maternidade Dr. Alfredo da Costa



Sendo eu um alentejano nascido em Lisboa nas instalações da Maternidade Dr. Alfredo da Costa, partilho com os meus conterrâneos de São Sebastião da Pedreira, essa freguesia de incontáveis fregueses nascentes, a indignação provocada pelas notícias do fecho de tal instituição.
A indignação é minha e deles, nossa, e não deve ser justificada nem sobre ela se discorrer, porque pelos valores não há conversa.
Se conversa houvesse, creio bem que, do outro lado e neste caso em particular, só se ouviriam asneiras e decorrências de erros. Ainda que alheios a quem se justificasse.
Estamos num país há muito desgovernado.

09/04/2012

Estádios

Há uma fase na vida em que se troca a geometria descritiva pela geometria analítica.
Uma repetição da fase em que se deixam os livros com bonecos e se passa a livros com texto.