15/09/2012

Rua

Raras são as vezes em que o povo sai à rua sem ser para protestar contra si próprio.
Ou como diria o velho J.d’ é muito difícil educá-lo.

14/09/2012

Impressionado

Impressionado, surpreendido, espantado, maravilhado, qualquer que seja o adjectivo que escolha, parecerá adequar-se ao meu estado hoje a meio da tarde quando me vi ou no meio de uma cena godardiana ou ao volante atravessando um sonho.
Cada um dos estados a que se refere cada adjectivo é, para mim, uma espécie de primitiva cuja derivada se pode exprimir poeticamente pela mesma função – fico sempre surpreendido quando me surpreendo. E isto não é pleonasmo. Nem é o conde corado de O’Neill.
A pervertura himenente* (da vida) contribuiu mas não foi decisiva para compôr o quadro.

* Se este blogue fosse feminino (o blogue, não o autor) chamar-se-ia assim.

12/09/2012

Filme

É insuportável um filme onde de um lado há uns histéricos cheios de direitos e de outro uns tristes cheios de razões.
Vê-se claramente visto que, não havendo como não há solução para se sair do poço, tudo apodrecerá longe do sol.

11/09/2012

Os sítios

Os sítios desaparecidos que nos informam a alma, como os diaporamas incluem pessoas. E trazem anexos sons, aromas e episódios.
Pertenço a uma geração que tem provavelmente o discutível privilégio de ter assistido à maior revolução topológica no país. Recorde que até pode manter, como Bob Beamon por alguns anos mais, a julgar pela quantidade de entropia do sistema.
Faz isto com que me depare com bastante frequência com locais que pouco ou nada contêm da memória que deles tinha.
Tropecei hoje num homem que pertence a um desses diaporamas virtuais.
Anos a fio atendeu-me atrás de um balcão que de pedra passou a aço inoxidável e cujo pano de fundo passou das pipas que vertiam mesmo vinho às estantes igualmente inoxidáveis contendo garrafas para consumo exclusivo na casa. Essas mudanças porém não alteraram o essencial, tudo era reconhecível de dia para dia.
É difícil hoje sem a ajuda de um teodolito dizer exactamente onde ficava o balcão, a porta de entrada, a mesa das traseiras com vista para o vale. De um teodolito e de uma carta antiga que mostrasse como era o alinhamento da rua, as suas cotas, etc.
Foi-me hoje difícil perceber que aquele rosto pertencia a tal quadro. Foi à segunda e com reservas.
Quase como se fosse necessário o levantamento topográfico para saber de quem se tratava.

ERRATA: onde se lê diaporamas deverá ler-se dioramas

08/09/2012

As grandes questões universais - episódio q+23

Pode um pai orgulhar-se de passear na rua uma criança que guincha como um cão atropelado?
Perguntas que não se podem fazer

Onde foram estas cabeças buscar a ideia peregrina que distribuir um 13º mês pelos doze meses do ano é da preferência dos assalariados?
Do ponto de vista das contas do Estado pagá-lo de uma só vez em Dezembro não seria sempre preferível?


extracto do discurso de ontem do PM

Nota: Bem sei que já quase respondi a isto.

07/09/2012

Sangue

Ou como eu me vou repetindo sobre o tema.
Aquela velha (de mais de dez anos) sentença de um dos meus velhos amigos que uma cavalgada com reiunas se torna mais ou menos inevitável à medida que o tempo passa e o despautério grassa nas hordas de mentecaptos e de chicos-espertos que comandam a coisa, vai, à medida que o mesmo tempo passa, caducando.
No entanto, a mim cheira-me a sangue, agora mais que nunca. Não se trata de duas facções em confronto, pois os que não dão um chavo pela situação calculo que sejam em número esmagador, quase à beira das unanimidades do medo. Esta unanimidade não é do medo, é do nojo.
Calculo que haja entre os que nisto ainda mandam noção de tal. E aí sim, um certo medo.
Não vai haver guerra nenhuma mas não aposto meio-tostão furado na sorte de certas cabeças.
Lembram-se de umas certas FP?

05/09/2012

Aeroporto de Lisboa, 2009

Circunscrito

Um destes dias, surpreendentemente, ouvi um jornalista discorrer sobre um incêndio de forma acertada. Não merece parabéns, merece sim ser reconhecido como capaz de fazer o trabalho que lhe compete. Se a grande maioria dos outros não o sabe...
Uma das coisas que o homem mostrou foi saber exactamente o sentido da palavra circunscrito, palavra que tendo sido, por desconhecimento profundo de jornalistas e informadores, quase sempre confundida com a palavra extinto, acabou por deixar de ser utilizada tanto no site da ANPC como, por tabela, na maioria das redacções, na certa por decisão de alguém mais esclarecido.
Fez uma série de observações lógicas, fez perguntas relevantes e arredou-se de explorar as sensações primárias. Ele há gente capaz. Está é demasiado escondida no meio dos tristes.

01/09/2012

Procuração harmónica

A literatura está cheia de exemplos. A vida, sendo ou não espelho da literatura (há quem bizarramente, estabeleça a relação reflexa – pondo a literatura a espelhar a vida) não o está menos.
É portanto um caso vulgar.
Diria um velho amigo que ser um homem pai é das coisas mais vulgares do mundo. Porém, com ele, até aquele dia, nunca tinha acontecido.
Continuamos portanto no domínio dos lugares comuns.
O facto é que comigo nunca tinha acontecido. E aconteceu duas vezes, num intervalo curto.
Procuração pode ser o acto de procurar algo ou alguém e pode ser o acto de dar a outrem os poderes que se detêm.
A harmonia pode ser muita coisa. É um conceito demasiado vago e com significados quase diversos para que se possa extrair dele um sumo muito particular. Mas serve aqui vagamente como desígnio artístico e como modulador de frequências.
Da frequência com que se procura que vai sendo multiplicada.
Do encaixe artístico de uma silhueta num vulto. Por procuração.
E Ela assim se multiplica. Nesta e naquela. Cada vez mais frequentemente se procura.

31/08/2012

Fina-se



Uma designação que já significou, no meu jargão mental, uma entidade espacio-temporal bem definida.
Aquecimento

Não me dirijo a quem recolhe dados e os trata mais ou menos.
Ou a quem os analisa com espírito crítico. Sabendo que um ínfimo troço de uma curva não nos diz absolutamente nada sobre o seu desenvolvimento.
Dirijo-me, inutilmente, às entidades cavalares que nos sintomas concordes vêem e cantam a desgraça que eles anunciam e se calam aos sintomas discordes.
Ora isto de querer descobrir o futuro a partir de uma folha de excel é qualquer coisa que só ocupa almas equídeas.
Ouvir dizer que em Agosto se registou uma temperatura de -1,2ºC * na zona leonesa de Sanabria é uma curiosidade.
Os cavalos, tivesse a coisa sido de 48,8ºC (mais 50ºC), haveriam de vir ameaçar os crentes com volteios litúrgicos do século XVI. Como o sintoma discordou muito da cartilha que aprenderam, calam-se e metem a viola no saco.
Alguma vez os equídeos perceberão que nada sabem do mundo?
Alguma vez os homens perceberão a exacta mesma coisa?


quadro da AEMET de Espanha
* link perecível