O motorista belga
A primeira vez de que me lembro da história do motorista que, em contramão, achava que todos os outros iam do lado errado, aplicava-se a um automobilista belga numa auto-estrada francesa.
Há pois uma tendência universal entre os simples de achar que quem se comporta de maneira diferente é estúpido.
Entre os simples, quem está do outro lado da barricada política é néscio. Só pode ser.
Suponhamos agora que aquele fatídico dia de muitos acidentes em 1928 nunca aconteceu, que continuamos todos a circular na estrada pela esquerda.
Naturalmente, os imbecis teimarão a circular pela extrema-direita (é o que vemos, corrigida a imagem ao espelho, nas auto-estradas, ainda que do lado certo do separador central).
Ora é justamente essa a figuração que por cá se faz do extremista de direita, um grunho.
Descontando a ideia absolutamente estrondosa que há uma franja de extremistas de direita – saberá quem os assim define, definir uma ideia de direita? – temos sempre a garantia, por tal teoria, de que os grunhos, os mentecaptos, circulam sempre mas sempre pela extrema-direita.
Revisitemos o motorista belga. Todos os que vão do outro lado do separador são uma bestas.
Em Portugal todas as bestas são de extrema-direita, pois continuamos a circular pela esquerda – é o que acha o mentecapto que se julga de esquerda.
Sucede que desde o tal dia de 28 – vai fazer em breve um século – a circulação automóvel é pela direita.
