07/11/2003

Cavalos, auto-estradas e salvaguardas



A primeira vez que circulei em auto-estrada com o meu 2 cavalos, fui aparentemente escoltado com toda a cortesia.
Sim, saiu-me à frente um cavalo bem tratado embora sem arreios e sem cavaleiro.
Não terá dito o mesmo o condutor da Ford Transit que vi, pelo retrovisor, fazer meio-peão umas centenas de metros lá para trás.
Quando uns quilómetros à frente, avisei a portageira do tractor animal passeando-se a galope, esta não se surpreendeu, já estava avisada por outros condutores.
Não cheguei a saber o que aconteceu depois.

Uma das características mais bem vincadas do funcionário público é o espírito de salvaguarda.
Não se toma uma decisão sem que se esteja bem estribado e salvaguardado, ou por ordem emanada pelo chefe, ou por um papelinho qualquer que prevê a situação e recomenda a solução. Não se inventa nada.
A salvaguarda é tema de conversas em qualquer restaurante de esquina perto da repartição: "Olha lá, salvaguarda-te. Olha que isso pode dar confusão!"

Suponho assim que a referida portageira, embora não sendo uma funcionária pública, se salvaguardou, comunicando de imediato à chefia o ocorrido, alijando assim quaisquer responsabilidades indirectas em eventuais acidentes.

O que bate certo com os factos posteriores.
Sucede que, há uns dois ou três anos atrás, começaram a surgir em certos troços de auto-estrada os estranhos sinais hoje designados A19b, que antigamente surgiam sob o título de CAÇA GROSSA.
Da primeira vez que tal vi, incrédulo, preparei-me logo para enfrentar meia-dúzia de renas fugidas ao Pai Natal, uma peara brava de algum velho conhecido ou até a componente equídea da fanfarra da GNR, mas não aconteceu nada.
Depois caí em mim, não, não pode ser, vais numa auto-estrada, pagaste o serviço, não é suposto existir uma travessia de caça grossa, animais selvagens ou domésticos.
Foi então que me lembrei da portageira!
Afinal ela salvaguardou-se.
Doravante, qualquer hipopótamo que surja sobre o viaduto da ribeira da Marateca e cause algum acidente, verá a responsabilidade da dita atenuada pelo facto da sinalização respectiva se encontrar perfeitamente visível, ainda que uns bons 30 Km atrás.
Ainda que o referido hipopótamo veja mal.

O cigano Melquíades

Ou outro qualquer.
Todos os dias nos aparece no pequeno écran.
Vendendo velhas histórias como se fossem absolutas novidades.
Ficámos hoje a saber que ler continuadamente faz dor de cabeça.
...
Lembro-me de uma versão deste cigano a vender numa feira de Agosto dos idos de 74.
Segurando numa mão uma daquelas colchas de que nunca descobri a origem, mas que vagamente lembravam as Mil e Uma Noites, com os seus camelos, minaretes e árabes a preceito, gritava para os circunstantes:
“E aqui temos o Quartel do Carmo e o Capitão Maia à frente das suas tropas!”
Só custava um conto de réis e ainda ganhava um faqueiro e duas almofadas, é claro!



adaptado da pintura de http://www.labrache.com/jean-louis.htm
Tijolos na paisagem empedrada


06/11/2003

A propósito de erros de ortografia e de orçamento de Estado

QUÓRUM

É o que se lê no écran do sistema de controlo de presenças e votações do parlamento de Portugal.
É certo que eu sou um ignorante e por isso mesmo gostava de saber à luz de que acordo ortográfico é que esta grafia se justifica.
Meus caros

Como prometi, era aos brindes que viria explicar o post (a posta) anterior.
Sucede que me encontrais indignado com a garrafeira.
Ao contrário do que acontece com os meus bons amigos do Porto, que apesar da fama laborenta de que gozam, persistem no hábito das grandes almoçaradas regadas à medida (sei que são eles próprios que escolhem a garrafeira do recanto que os restaura), estou frente a um dilema assaz desagradável: ou escocês ou irlandês.
Logo eu, que sou mais adepto do napoleónico postre (não tem que ser Napoléon, basta que seja bom)...
Bem, encaro com a garrafeira do cisma (explico mais tarde) e verifico que não há nem uma medronheira de alambique não certificado, nem um Cognac, nem um Armagnac, nem sequer uma aguardente daquela que os meus amigos não tiveram outro remédio senão produzir, dado o excesso de uva lá na cooperativa, mas só coisas escocesas e irlandesas.
Há ainda umas coisas sul e centro-americanas que até não desdenho, mas só em outras ocasiões, não quando estou prestes a iniciar uma tarde produtiva.
Fica assim lavrado o meu protesto. Comunico que me rendi a uma bandeira verde-branca-laranja e que deixei em paz a cruz de Santo André.
Mais informo que não é meu hábito submeter-me às chamadas de Baco, como de resto podereis comprovar pelo histórico da coisa.
Adiante.
Quanto à posta anterior, o seguinte:
Como já disse jadis (perdoai-me a veia galicista), os sonhos são ignorantes e cheios de topete.
Ora, aqui a atrasado, tive um sonho que saiu um pouco da linha bizarra que me é peculiar, pois aludia a uma corrida de fórmula um em que participava este vosso criado conjuntamente com alguns corredores em voga nos anos oitenta do século pretérito.
A grelha de partida encontrava-se situada numa estrada nacional que esventra um dos terrenos de que é proprietária a minha progenitora e muito embora eu me encontrasse ao volante do finado Ford Escort, cedo me abeirei dos principais concorrentes à vitória final, mercê de uma série espectacular de ultrapassagens em terreno conhecido.
Onde não vislumbro correlação é no facto de, após o acidente ocorrido no entroncamento, nos encontrarmos todos, pilotos e demais comitiva, a almoçar num local perfeitamente identificável para mim, sob a direcção irrepreensível de minha bisavó que Deus guarde.
O staff era constituído pelas criadas lá de casa e a ementa que me apresentaram, entre os encontrões de um bi-campeão mundial da modalidade e de um eterno candidato era, mais ou menos, a constante da figura abaixo.
Só uma coisa me confunde: de onde vieram os erros de ortografia?
Horas de almoço



depois do dito, ou melhor, aos brindes explicarei tudo
Um dia em cheio

E de repente, uma resma de postas atafulha-me a cabeça.
Talvez inspiradas no debate do Orçamento de Estado a que estive a assistir.
A primeira nota é sobre a endognose parlamentar.
O que é que eu quero dizer com isto?
Quero dizer que há notoriamente no excesso de palavras e nas redundâncias de raciocínio um apelo à compreensão dos pares.
É necessário fazer uso intensivo de considerações e tergiversar sobre o essencial, porque se assim não fôr, há uma tradição que é quebrada e nasce a terrível dúvida sobre a eficácia do discurso.
Tal como aqui.
Aqui digo todos os dias coisas desnecessárias.
Se as não disser, fico com dúvidas sobre a razão de ter um assento nesta secretária que herdei dos meus antepassados.
A única diferença é que é suposto o meu discurso ser inconsequente.

05/11/2003

Efeméride

32 anos depois, ainda aqui ando. Dessa safei-me.
A assinatura



Tirou cuidadosamente da pasta de couro uma outra pasta de cartão.
Pousou-a calmamente sobre o balcão do notário.
Com os dedos finos e enrugados pelos anos, pegou na folha branca e virou-a, como se tivesse cima e baixo.
A empregada fitava-o com espanto: “O senhor, era para quê?”
“Bom dia, minha senhora, quero que reconheça a minha assinatura feita na sua presença.”
“Mas o senhor tem uma folha em branco...”
“Precisamente! Pois se ainda não assinei...”
“E que documento é este que consta de uma folha em branco?”
“Não é um documento por enquanto. Quero apenas que reconheça a minha assinatura feita nesta folha, na sua presença.”
“Mas isso é uma folha em branco... não posso reconhecer uma folha em branco!”
“Não estará em branco quando eu a assinar, minha senhora. Terá aposta a minha assinatura e será a minha assinatura e apenas a minha assinatura que a senhora deverá reconhecer.”
“O senhor não está a perceber, não posso reconhecer a sua assinatura numa folha em branco!”
“E porque não, minha senhora?”

O resto da história fica a vosso cargo.
Confissão



Este é um blogue incógnito.
Não tão incógnito que não haja leitores. Mas é incógnito.
Sei de um que é absolutamente incógnito, desde que lá coloquei o contador, nem umazinha visita.
Ora bem, é justamente para falar de um e de outro que serve esta posta.
O blogue incógnito, este, é feito às escondidas de toda a gente.
Por isso, não há aqui amigos a espiolhar ou outros interessados (nos negócios) e interessadas (no conhaque) a analizar os deslizes. Não há e é difícil que venha a haver. Mesmo com os motores de busca, a coisa não vai lá. Apesar dos sinais mais ou menos óbvios da minha identidade que por aí já ficaram, continuo a achar que é procurar uma agulha num palheiro.
Donde, os únicos conhecedores da coisa são os novos amigos virtuais. Excepção para...
A minha Mãe.
Claro, isso das mães saberem tudo a nosso respeito não é um mito. Descobriu logo.
E mais, exigiu o seu próprio blogue. Ora aí é que está a questão.
O tal blogue incógnito, o outro, de que só eu também sei, ainda não teve lá ninguém a espreitar.
Não, não vou dar aqui o endereço. É incógnito, pronto. Nunca se sabe o dia em que ela lá se lembrará de revelar ao mundo as minhas esquisitices.

Correcção a tempo: sabem ainda deste blogue e sabem quem eu sou mais duas pessoas - o rapaz citado na história abaixo e um professor de estatística de uma universidade grega. Nem um nem outro têm o hábito de aqui vir, um porque não se interessa, outro porque o seu português não chega a tanto.
Alegadamente

Os alegados agentes da autoridade interceptaram H G U ao volante do seu espada com doze anos.
Como o alegado condutor seguia a 38 Km/h na A 77 entre Vilarinho do Poço e a Póvoa de Cace de Baixo, foi presente a tribunal sete dias depois.
O juiz sentenciou uma medida de coacção de quinhentos mil réis a pagar alegadamente em estampilhas fiscais.

Esta notícia não saiu em lado nenhum, mas disparates destes dizem-se todos os dias. O último (ou o primeiro) ouvi-o há minutos.

Quem terá herdado o caderninho do meu tio?
Contributo para manter a fachada



esta imagem é propriedade de H Gasolim Ultramarino,
à semelhança de todas as outras sem indicação em contrário.
Gasolim à espreita

04/11/2003

Twilight zone



A estrada é agreste.
Há ainda algum caminho para fazer até ao destino, é talvez altura de parar e comer qualquer coisa.
O sítio é imponente, pedregoso, de vistas largas a bombordo.
Começam as casas da aldeia, um entroncamento à direita leva-nos para o maciço central.
Uma taberna quase na esquina, pode ser ali.
Procuro um lugar para estacionar e nenhum sítio me agrada, não há recantos e a estrada é estreita.
Continuo até à saida da povoação, faço meia-volta e quando dobro a esquina da taberna, avisto quase em frente um parque de estacionamento de uma daquelas coisas beira de estrada anos oitenta.
É para ali.
A companheira do lado diz-me, rindo: "Aqui?"
"Pois, então não é um restaurante?" - agora era sou eu que me rio da escolha.
Vamos lá ver.
O rapaz, no banco de trás, agita-se e dá um berro: "Um Diablo!!!"
É um quadro estranho, um Diablo aqui nestes confins, onde pouco mais há do que pedras...
Saímos. Ele logo para ver o carro.
A primeira porta é do restaurante. Tem ementa e está fechada.
Espreitamos para dentro e vimos gente. Tentamos outra porta, escondida por uns arbustos.
Entramos.
Depois de uma porta estilo faroeste, uma sala à média luz, com uma uma parede branca de projecção onde passa uma daquelas sequências de acidentes de competição automobilística.
No tecto, uma bola de espelhos.
Duas paredes pintadas com temas sobre azul forte.
Em frente, uma espécie de snack-bar, mais iluminado.
À esquerda a passagem para o restaurante, onde divisamos sentada a presumível cozinheira. Tudo isto envolto numa indescritível música de fundo uns decibéis acima do padrão.
Pergunto ao homem atrás do balcão se se arranjam umas sandes.
Ele diz que sim e pergunta se não nos queremos sentar.
Vamos para o fundo da sala azul e sentamo-nos nuns pufes adstritos a umas mesas baixas e vermelhas.
No balcão, quatro ou cinco homens pouco mais do que indiferentes à nossa chegada, começam a falar de qualquer coisa que tinha acontecido num baile.
O tema não é pacífico, envolve qualquer ameaça de pancadaria passada ou futura.
O pai deste, o cunhado daquele, o sobrinho do outro.
Estamos naquela situação em que os augúrios são de tempestade em câmara lenta.
Há conversa mansa mas de desafio.
A bola de espelhos reflecte tonalidades de acidentes em ovais americanas.
A companheira do lado ri-se quando eu a interrogo em silêncio se vamos ou não comer a outro lado.
Twilight zone - diz ela.
Ou Twin Peaks - acrescento.
Estamos em sintonia a desfrutar o clima.
Chegam as bifanas e a cerveja.
Atrás de mim, ouço um ronco poderosíssimo e ambos olhamos para a parede que está mesmo nas nossas costas, tendo a certeza que vai entrar um Lamborghini através dela.
O rapaz corre para a porta de vai-e-vem, passa para um compartimento onde mal se vê uma mesa de bilhar e debruça-se sobre o que parece uma balaustrada de madeira entre espelhos.
Volta entusiasmado e diz: "É que a garagem fica aqui ao lado!"

imagem encontrada aqui e tratada

03/11/2003

The milk van



Um estranho viajante que despreza monumentos e aglomerações de turistas, abriu a sua matinal janela londrina e viu tudo o que precisava:
A carrinha do leite a manobrar dois pisos abaixo.
Não tinha máquina fotográfica nem precisou de ter.

imagem montada a partir daqui e dali

Boris e eu



Falhámos a feira do Alvito.
Eu não comprei queijos, ele não farejou todos os odores.
Para o ano há mais feiras.


O velho do muro

Assim que viu o velho soube para onde ele ia.
Demorou-se um pouco mais por cerimónia.
Do largo, já o via sentado no muro.
Encostou-se à sua direita e perguntou-lhe:
Vieste buscar as palavras?
Não. Não busco palavras. As palavras não me servem. As palavras de nada servem.
As palavras usam-se.
Usam-se, é certo. Mas de nada servem.
Mas servem-nos!
Servem para ser desperdiçadas. Não é um serviço útil.
Não conheces a força das palavras?
Não. Conheço a força. A força serve-nos e serve-se de nós. As palavras nem sequer se servem de alguém.
Descrês?
De quê?
De tudo.
Não sei. Para descrer, precisava saber. E não sei.


02/11/2003

As coisas mais estranhas eu vi

Digam-me lá o que é que eu hei de pensar...
O meu fiel (per)seguidor ou outros idênticos (porque foram dois, só no dia de hoje) ainda que menos familiarizados com a nossa língua, entram aqui, pedem a tradução e ganham isto:

Therefore

Había Fidel Castro ganado la war the Fulgencio Baptista, entering triunfalmente en La Habana, mientras if rompía el wall of contención of la imprisoned of Vega de Tera, provoking la inundación del pueblo of Ribadelago.
Michel Debré eté nommé premier-gives.
Which is the translation for Portuguese of these two paragraphs?

To frighten the hunting

Vine with it in the dawn.
Of convoy.
It brought the full head of intentions and the aturdido heart.
The trip ran well.
It adormeceu with the first alvores and leaned the head to its shoulder.
"Beautiful" it thought.
Soon to follow, he looked at for the window and he exclamou: "He looks at the Hairdo"
She was sufficient it to wake up and to remove the head of its shoulder.
E to pass the hands for the hair.


entre muitas outras coisas.
Farão o quê em seguida?

(Old city in Algarve o what in followed?) - digo eu.
Em dia de

devoção e culto



a escala das coisas
BD



Não é todos os dias que se casam duas personagens Disney.
Muito mais raro é quando são nossos amigos.
Desenhei um quadro alusivo à ocasião, em que não faltava a bola de chumbo na ponta da grilheta, em cuja superfície se reflectia a tradicional janela apesar da cena se passar ao ar livre (mistérios da BD). Junto da bola de chumbo, a também costumeira e erecta minhoca pensativa (sim, com um ponto de interrogação no respectivo balão).
Para meu espanto, o quadro perdeu-se.
Dizem que não sabem o que lhe aconteceu...
Vocês acreditam?

imagem montada a partir de
http://www.museunostalgia.hpg.ig.com.br/revistalb-metralhas01.html
http://www.ucdb.br/gibiteca/Margarida/

Gasolim em ruínas

01/11/2003

Boas festas e prazos de validade

Uma coisa que sempre me intrigou é saber qual é o meu prazo de validade como cliente de uma organização qualquer.
Eu explico, se não adivinharam já:
Quando o alvo (que sou eu, com o devido sorriso alvar) compra um determinado bem ou serviço e paga o seu próprio cartão de boas-festas, é certo que o receberá nesse próximo natal.
O que já não é muito provável é que o receba de novo no natal seguinte.
Mas por vezes, ao fim de um lustro ainda recebe os votos de um próspero ano novo.
Estou convencido de que há uma fórmula secreta qualquer para calcular esse prazo.
Não, não tenho comprado coisas a prestações. Se assim fosse, eu ainda percebia que eles não se esquecessem de mim.
Uma das vezes até foi embaraçosa, porque os moços tinham lá o meu nome e a morada de uma antiga namorada e fizeram o obséquio de mandarem o cartãozinho para os pais dela. Fui interpelado na rua e lá expliquei porque é que uns tipos que alugavam apartamentos me tinham mandado as boas festas para a morada deles.
Mas há uma que me deixa perplexo:
Porque é que a minha mãe recebeu sete cartões exactamente iguais da mesma empresa, no natal passado?
Cada vez que me convenço mais que a tal fórmula é uma função da margem de lucro.

Um apoio habitual



E não se lembrou de que a única coisa que apoiava aquela pedra era o hábito.

Na noite manhã



Um concurso na rádio.
Sobre Portugal.
Perguntas para camionistas, que correm ceca e meca.
Primeira pergunta – Quais são os rios que confluem em Constância?
O Tejo. Essa sei eu.
Pois... e o outro qual é?
O outro? O Tejo sei, o outro? O outro?
Sim, são dois rios...
Outro rio?
Z... Z.... Zê....Zêze...
O Zêzere?
Claro.
Segunda pergunta (para outro concorrente) – Quantas ilhas tem o arquipélago dos Açores?
(Risos)
Para aí nunca fui.
(Mais risos)
E não sabe quantas são?
Não.
Bem, como já ajudei o outro... quem de dez tira um...
Nove.
Muito bem, vamos a outra (para o primeiro concorrente) – A que promontório está ligado o nome do Infante Dom Henrique?
....
Não sabe?
Se eu soubesse o que é um promontório...
Não sabe o que é um promontório?
Não.
E você (para outro concorrente)?
O outro sabia.

Há anos, ouvi alguém responder “O Mistério da Batalha”.

Há tanta coisa que eu também não sei.

imagem de http://www.tieh.fi/alk/english/kelikamerat/kamera-LZ.html

31/10/2003

Retábulo em quase dia de todos os santos

Quando encaixa



uma coisa na cabeça, o V.H. é lixado.
Perguntou-me hoje:
“Olha lá, quem é que disputou as eleições no Benfica com o Dr. Vilarinho?”
Vi logo que aquilo não era pergunta. Era um requerimento. Bastou-me olhar para a cara do parceiro que estava com ele a beber uns Favaios.
Não me deu tempo de responder. Olhando para o outro com um ar ameaçador, fingia dirigir-se a mim: “Foi o Bush, não foi?”
Gasolim e as passagens

30/10/2003

Pára-quedistas II

Mantendo-me nesta presunção de que sou seguido, monitorizado e me encontro prestes a defrontar-me com o sinistro agente galego, resta-me deixar aqui as pistas para que os meus amigos me possam vingar no caso do desenlace ser fatal.
Desde 12 de Outubro, em que surgiu ameaçador, levantando o véu sobre o local onde pretenderia levar a cabo a sua acção (túnel das Fontaínhas, em Setúbal), aconteceu o seguinte:

Do Brasil, a 20 deste mês, com a maior ausência entre contactos até agora, por certo devida ao meu alerta nestas páginas, faz uma ameaça digna de Joker:
- filme Disney de inundação
No dia seguinte, já em Portugal, referencia-me historicamente ao volante de um
- sado carro portugues
Reparem na sequência: Setúbal, inundação, Sado. Creio tratar-se de algum tipo de código que decerto escaparia à equipa de Turing.
E logo no outro dia, de volta ao Brasil não me dá um conselho, mas um concelho:
- concelho ultramarino
Se pudesse escolher, escolheria o de Mocimboa da Praia.
Mas fico-me nas covas, não é um concelho nem um conselho, é uma ameaça: Dou-te um conselho, Ultramarino!...
E lá está, Setúbal outra vez. Se isto não é um sinal, então não sei o que é.
Porque no mesmo dia, diz:
- postais antigos setubal
E um dia depois, repete-se e de novo em maiúsculas:
- SALSAPARRILHA
O que significa que salsaparrilha ou é algum tipo de senha, ou o vil disfarce de que pretende fazer uso, como já receava lá atrás.
Ainda nessa data, um enigmático:
- rapaz de olhos azul en braganca
Estávamos no rescaldo do disparate que todos sabem. E reparem num pequeno pormenor, enganou-se no en e não pôs cedilha, traindo assim a influência castelhana.
Dois dias depois, segue a mesma linha, já claramente identificado com o disparate da revista americana:
- rapaz semi nu fotos
Ou quem sabe querendo abrir outras frentes. Sai-lhe o tiro pela culatra.
E a 26, dia a seguir, talvez uma nova ameaça à Joker:
- imagens de sismos
A 28, mostra conhecer bem os meus interesses mais uma vez:
- história das pontes
Ficamos sem saber quais, é certo. Se são de hidrogénio, se de fim-de-semana. Mas acerta na mouche.
E a 29, com uma precisão cirúrgica. Não gosto nada desta expressão, mas já está, paciência:
- escaparates en los campos eliseos de paris
Se se derem ao trabalho de repetir a experiência, verão que esta página é a única em língua portuguesa que aguenta o embate. O estranho da coisa é que ele está então no Perú.
No mesmo dia, extraordinariamente, usa o Sapo:
- fornalhas velhas
Não acredito que seja uma ameaça de cremação, mas sim uma referência toponímica. Sabe que eu conheço, que já lá entrei nos cafés e mais do que isso, deve estar a par da célebre excursão das cabeças de borrego.
E logo depois, a 30, que é hoje, uma barragem. Primeiro, pede-me uma
- resenha ford
da minha história ao volante. Sabe então do Escort e dos outros que me passaram pelas mãos: as Transit, o Cortina, os Fiestas, etc. Fique à espera, sentado.
Depois, vulgariza-me:
- Zé Povinho
Não se sabe como, volta ao Brasil e Procurou? Zoom, achou. Outra vez, eu não digo?
- salsaparrilha
agora em minúsculas, para disfarçar.
Ainda no Brasil, retoma o mote revisteiro:
- amadora mulheres nuas
Talvez uma ameaça de tortura diferente. É possível. Quase me alicia para a boca do lobo.
Termina com isto:
- jantes porto
Ok, já não volto ao Porto sem me certificar que os parafusos das rodas estão bem apertados.
Mas será o porto de Setúbal?
Se eu não voltar aqui, já sabem o que têm a fazer.
Outro apontamento sobre a memória

No último post falei de um tempo em que não havia telemóveis. Foi uma força de expressão.
Já existia o Serviço Móvel Terrestre dos CTT. Havia carros com telefone, embora o sistema fosse outro.
O que é curioso é que ao procurar dados sobre isso, parece que tudo começou na década de 90.
Nem uma palavra sobre o antigo serviço.
As coisas parece que só existem ou existiram se houver delas registo. Se só estiverem na cabeça de meia-dúzia de elefantes, é porque nunca existiram.
Mas não haverá registos em algum lado deste serviço?
Quantos assinantes tinha em 1970?
Eu cá gostava de saber.
Também ninguém sabe "A Portuguesa" do princípio ao fim. Toda a gente conhece apenas um terço.
E, todavia, vinha nos livros da escola.
Tal como o indicativo do Serviço Móvel Terrestre vinha na lista telefónica.
Mistérios.
The serial trouble maker

Tudo começa por um acaso.
O primeiro que se lembrou de assar um porco, não se lembrou. Apanhou-o meio tostado das cinzas de um incêndio.
Ao nosso amigo B.S. aconteceu-lhe o mesmo.
Arranjou um trinta-e-um no casamento do irmão, com os carros (nesse tempo não havia telemóveis, é claro), que acabou por conduzi-lo à igreja numa carrinha do Gazcidla.
Um incidente assim tornou-o célebre. E ao casamento do irmão, também.
Então do que é que ele se lembrou?
De fazer vida disso. De fazer vida, não é bem. Ia-se divertindo.
Decidiu ser um criador de incidentes célebres.
Dizia ele que para um incidente ser célebre, tinham que se respeitar dois aspectos essenciais:
Fazê-lo numa data marcante, mas nunca num funeral, e torná-lo completamente inesperado.
Ora a coisa resumia-se a casamentos, baptizados, inaugurações e pouco mais.
E não havia ocasião dessas em que todos não estivessem de olho nele. O que lhe dificultava muito as coisas.
Respondia sempre com o ar superior que um infeliz acaso, lá para trás, lhe conferira: “Marcado é que a coisa se torna aliciante. Já viram algum bom avançado, que não seja bem marcado?”
Em matéria de casamentos, fez o que pode.
Foi o célebre grito de Fornos de Algodres, aos ouvidos dos pais da noiva: “Mas esta não é a Cristina!”
Foi o ter conduzido o fotógrafo a tirar uma foto da noiva ao lado de um chafariz onde se podia ler “Imprópria para consumo”.
Foi ainda ter trancado com correntes grossíssimas a garagem onde se guardava o carro de cerimónia.
Mas nada que lhe trouxesse a fama a que verdadeiramente aspirava.
Um dia, teve a sua oportunidade.
Um programa de rádio dispunha-se a felicitar aniversariantes, às primeiras horas do dia, desde que alguém das suas relações se dispusesse a entrar no ar e a acordar por telefone a pessoa em causa.
B.S. ligou para a rádio, deu os seus dados e disse que queria acordar a irmã, a qual não via há alguns anos, pois estava casada com um gajo americano cheio da massa e não passava cartão a pelintras. Não foi bem isto que ele disse, mas pronto.
A coisa ficou marcada para o aniversário da irmã, daí a umas semanas.
Uma semana depois, voltou a ligar para a rádio, choroso, a contar como os pais tinham falecido num desastre de viação.
Perguntaram-lhe se ainda assim, queria manter a chamada para a irmã.
Disse que sim, que afinal era uma forma de lhe mostrar afecto e que o cunhado até parecia ser bom tipo. Tinha-o visto pela primeira vez no dia do funeral.
No dia aprazado, o telefone tocou em directo na rádio. Era a chamada prévia para casa de B.S., para se estabelecer a ligação com a irmã.
Tocou, tocou, tocou.
Então ouviu-se uma voz rouca dizer: “It’s ok. The job is done, I’m out of here.”

a imagem utilizada tem uma origem que já não consigo identificar, mais uma vez as minhas desculpas

29/10/2003

Às vezes

as máquinas decidem saudar-nos



sem que saibamos porquê



Gasolim e as estradas



e o meu corcel de trabalho lá ao fundo
Ainda o Gasolim (não é narcisismo, não)

Quem fizer a pesquisa deste nome, encontra diversas entradas para o meu blogue; gentilezas de quem me citou; duas brincadeiras de garotos (uma delas, uma cópia de um post devidamente assinalada); o tal censo de 1870; uma ou duas gralhas que se percebem facilmente e um endereço .jp.
Ora aqui é que está o busílis da questão. Desde que tenho conta aberta no Hotmail como Gasolim que recebo um spam não em japonês, mas em coreano. Alguém me explica isto?

28/10/2003

Caramba, meus caros

Não é segredo nenhum que quando o indígena se dispõe a escrever aqui umas coisas, espera sempre que haja alguém algures que lhe aprecie a prosa.
E como, passe a imodéstia, les beaux esprits se rencontrent, ocorre que o indígena, sem favor algum, aprecia também os seus pares.
Ora porra, no espaço de dois dias, os meus amigos subterrâneos (a nossa anónima familiariedade andava pelos mails e pelo MSN) fazem-me a partida.
Primeiro, um prémio. Depois, um repto.
E agora, Gasolim?
Agora, o seguinte:
Quanto ao prémio, minha cara Lilian, fico à espera de mais. E mais, é mais escrita, mais impressões do outro lado do mar, de que ouço toda a gente falar e não conheço. Mais, é mais de um olhar sobre coisas que pressinto e nunca vi, de emoções de juventude que já lá vão e que podemos ler na vida dos outros, ainda que mal o façamos.
Quanto ao repto, meu caro Anarcka, fico à rasca. Lembro-me bem dos chícharos, do jantar de chícharos, com carne de porco. Diz a minha mãe que se semeavam lá na horta do monte, era produção própria. Nunca mais comi tal iguaria. A bem dizer, nem me lembro de os ver à venda.
E já que falamos disso, o que é feito da sopa de acelgas, da sopa de beldroegas com queijo de cabra, da sopa de poejo com talhadas de toucinho?
E dos agriões da ribeira?
E começou a nossa polémica com a cantada Albergaria dos Doze. Que grande desvantagem a minha, alentejano charnequeiro, face a quem é originário das redondezas!
Vá, continuem, não me deixem a falar sozinho.
Outonal

Gasolim C Walker

Já aqui referi a curiosidade de ter existido pelo menos um indivíduo com o nome que adoptei.
Só soube disso este ano, quando o nome me apareceu a primeira vez numa pesquisa.

Gasolim era aparentemente um empregado de um tal Waterman, em Mount Vernon, Illinois.
E teria nascido em 1848 ou 1849, filho de mãe estrangeira.
Tinha 21 anos à data do censo, em 1870.

O curioso do nome associa-se decerto à fabricação de gasolina. Ora, as referências que encontrei, a esta palavra, datam-na dos meados do século XIX, mas apontam para 1865.
Assim, levantam-se as seguintes dúvidas:

1 – O homem chamar-se-ia mesmo Gasolim?
2 – A chamar-se assim, seria por uma razão diferente da ligada ao aparecimento da gasolina?
3 – Terá esta designação surgido anteriormente à data apontada?
4 – Seria apenas uma alcunha, oficializada no censo?
5 – Haverá qualquer outra explicação? E precisa haver?

26/10/2003

What happened to

O leão de Rio Maior
O toureiro solitário
Os Campos Elíseos (do sopé de Monsanto)
Os programas de rádio para o mundo rural
A bola Nivea
A mira técnica
São Rústico

Nunca sei qual é o seu dia.
Falo do São Rústico, o decapitado, meu padroeiro. Por que ele parece que há outros.
Há uns anos, uma agenda apontava para 26 de Outubro, o dia de hoje.
Numa pesquisa Google, aparece para 2001, a data de 9 deste mês.
Não me interessa.
Não é todos os dias que um santo beija a própria cabeça depois de a apanhar do chão, para morrer em seguida aos pés de uma mulher.
Na imagem, no entanto, a dita senhora não figura. Só os mártires Dinis, Eleutério e Rústico e os seus algozes.



Tenho este em meu apoio e não consigo descobrir de onde é que tirei a iluminura, as minhas desculpas.
Assim

Vejo-me obrigado a divulgar mais uma lista de pesquisas pára-quedistas que aqui aterrou...
São adequadas no disparate ao lugar disparatado que este é.

25/10/2003

Um dia

explicarei o contrato que tenho com SG, que me leva a deixar aqui coisas que editou.
Hoje, é dia de borrasca e de voltar ao Cabo Carvoeiro do oeste (ele há um no sul) e lugares adjacentes.
Dizem no entanto as estatísticas do IM, se não estou enganado, que as maiores borrascas não ocorrem aqui, mas em Sines.

Baleal

Um destes dias,
Bem ou mal,
Hás-de ir comigo
Ao Baleal.

Tem que ser de Inverno
E ao fim do dia
Para passar de carro
Na maré vazia.

Tem que haver mau tempo,
Ventos a uivar.
Chuvas inundantes,
Desgraças no mar.

Tem que haver alguém
Que no velho café
Acenda um candeeiro
De bicha e chaminé.

Tens que olhar p'ra mim
Com teus olhos ternos
E dizer-me assim:
Dá-me mais invernos!

Um dia destes
Afinal
Vais ver a borrasca
Lá no Baleal.

SG, "2ª Escolha", 1993
Vulgar

É vulgar que quando por alguma razão um determinado local se torna importante na nossa vida, por ser um local de trabalho, um local de encontro ou o lugar de uma paixão, nos venha à lembrança o primeiro contacto que tivémos com o sítio, muito antes de sabermos o que ele iria significar mais tarde.
Já muitas vezes dei comigo a relembrar essas primeiras inocentes experiências.
Serve a presente para falar de uma casa.
Era uma casa de que guardo a primeira lembrança, ao passar por ela de carro de molas, em direcção ao monte da minha bisavó.
Recordo-me de mais tarde ter entrado nela uma só vez, de ver que não havia portas mas sim cortinas, que a única luz era a do postigo entreaberto. Morava lá uma família que eu conhecia.
O que eu nunca soube é que aquela casa pertencia à família e que um dia havia de ser da minha mãe.
Nem imaginava que a havia de mostrar a alguém e que daí nasceria um encanto.
Era apenas uma casa velha, um palheiro agora. Mas qualquer coisa prendeu a minha companheira àquelas ruínas.
Entrámos, onde dantes havia cortinas agora arcos vazios. Onde havia o fogo, restos de ninhos. Onde imaginei queijos a curar, canas secas.
Um pássaro perturbado entre telhas.
E no rosto dela, o fascínio.
Aprendi a gostar da casa com ela.
Quem sabe um dia...



Duas de estradas

O que é que há de fantástico

Quando a 220 entronca na 221? E na recta que segue para ENE?

Voando sobre Puentedeume

A espanhola A-9 passa sobre Puentedeume. Aguardem por um dia de inverno, com cúmulo-nimbos deixando passar escassos raios de sol e verão.
A foto misteriosa

24/10/2003

Os diamantes do C.



A conversa era sobre África.
Dos que, como eu, nunca lá puseram os pés.
Dos que lá nasceram e tinham lá voltado ao fim de vinte e muitos anos.
Era isto.
O R.C. lembrou-se então do C. e dos seus diamantes. Fez uma breve resenha do encontro de ambos e avançou com o desafio, para os que não conhecendo o C., ficaram cheios de curiosidade: “E se a gente o chamasse aqui?”
Como a coisa com ele nunca pode ser linear, o plano era o seguinte:
O F., que nasceu em África e imita bem o sotaque da cidade do Roque Santeiro fazia um telefonema enigmático, dando-lhe algumas pistas para nos encontrar. Depois, era esperar. Segundo o R.C., não seriam precisos mais do que vinte minutos.
O dono do café ouviu toda a conversa sobre os preparativos e decidiu adiar um pouco a hora de fechar, afinal a gente também estava a fazer despesa.
Saímos para a rua (já se verá porquê) e o F.:
“É o sinhô C.? Boa noite. Estou a ligar-lhe por causa daquele assunto.”
O outro deve ter perguntado qual assunto.
“O assunto. Cheguei hoje de lá e disseram-me para falá consigo.”
O C. já em pulgas, decerto.
“Não posso dizê munto, tem muita pulitica.”
O outro a perguntar onde é que você está.
“Tou aqui no parque de estacionamento, atrás de uma carrinha Toyota, matrícula Ai-eice.”
Deve ter pedido mais pormenores. O F. deu-lhos, no registo confuso que se adequava.
E depois disse:
“O meu nome é Pálo. Mas tu pergunta pelo Caldo. Eu vou agora em casa buscar o material”
Ora o Caldo é a alcunha do nosso amigo que estava a ler «A Bola» e não ligou muito à conversa. Foi por isso que saímos do café.
Não foram precisos vinte minutos. Ao fim de um quarto de hora, já o C. parava o carro à porta, deixando a número um (lembram-se da fotografia?) lá dentro, enquanto investia para o café.
Eu e o R.C. escondidos à esquina da rua, mas vendo tudo pela montra lateral.
Entrou logo direito ao balcão, devia estar a perguntar pelo Paulo ou pelo Caldo.
O homem respendeu-lhe e ele de sopetão sobre o outro, que estava a milhas, a ler o jornal.
Quando vimos o Caldo a olhar para ele de lado (o que é que este quer?), entrámos a correr, a tempo de evitar um quid pro quo.
Posso vos dizer que ninguém se decepcionou com o C..
Foi buscar a número um ao carro, sentou-se connosco à mesa e travou um debate, em que saiu claramente derrotado, com a M., que nasceu em África, esteve lá mais ou menos ao mesmo tempo do que ele e é um bocadinho mais bem informada. Para além de ter um génio dos diabos.
Como eu bem viria a saber, se não sabia já.
O C. no fim perguntou: “E o Paulo?”

imagem retirada de
Gasolim com a pedra

Registo que

Ninguém se interessou pela continuação de:
Crónicas de um quarto balnear
ZX Spectrum - 1X2

Lá se vai a auto-estima (do Sr. Estima, ali em Deixa-o-Resto)

23/10/2003

Gasolim a caminho



Diamonds

Há expressões de rosto que são indescritíveis.
O nosso amigo C. tem uma maneira muito particular de fazer olho malandro que escapa às mais ilustres penas.
Não se consegue dar uma pálida ideia daquele misto de esperteza saloia, de trangressão, de tentativa de observar o impacto que produz nos outros com a sua lábia.
Não vi a cena. Foi-me contada pelo R.C.. Mas conhecendo os dois, já a reconstituí vezes sem conta no meu imaginário.
Encontraram-se num café, após uma estadia do primeiro em terras africanas, de onde enviou aos pais, devidamente etiquetada, uma fotografia sua em traje de luces (era parecido) sendo servido por uma dama, de um cálice de vinho sul-africano.
Encontrava-se rodeado de mais quatro, todas elas com uma seta e um número a vermelho apostos.
A do vinho era a número um.
E nessa tarde, à mesa do café, C. estava particularmente entusiasmado.
Depois de saudar efusivamente o amigo, puxou de um papel e de uma caneta e escreveu "DIAMANTES".
Como se o outro não soubesse ler às avessas, virou o papel e sem o largar, colocou-o em frente do R.C..
Depois de uma pausa sigilosa e com o tal olho malandro activo, mandou às ortigas o segredo e disse bem alto: "DIAMANTES!"
O R.C. ficou à espera, já entusiasmado com a encenação, e nada disse.
Ele puxou o papel para o pé da caneta e acrescentou por baixo: "10.000 dólares"
A cena repetiu-se, voltou a colocar o papel ao alcance dos olhos do outro e após a pausa, quase um berro: "10.000 dólares!"
O R.C. conseguiu conter o riso.
Mas já arquitectava uma partida das dele.



(contarei mais tarde)
Outono



da janela de um quarto qualquer
Ainda os carros

Já contei a estapafúrdia história do carro estacionado no mesmo local.
Já contei a agitante epopeia de um sogro receoso.
O que relaciona as duas, é tão só isto:
Esse Ford Escort da segunda história, acompanhou-me em muitas paragens, incluindo certa praia do sul.
Um belo dia, fazendo a minha tradicional inspecção aos escaparates daquelas lojas de praia que se caracterizam pelo amálgama de chinelos de praia, jornais estrangeiros, bóias, livros de bolso e postais ilustrados, o que vejo eu?
O meu Ford estacionado ali a poucos metros. Só que em postal ilustrado.
Tirei o postal do expositor e chamei a minha comadre, que andava a rondar o artesanato, na porta ao lado.
“Vê lá se não é o nosso carro?”
“É muito difícil distinguir a matrícula toda.”
“Pois é, mas está lá tudo, as letras são as mesmas, os primeiros dois algarismos também. O terceiro é quase certo, as dúvidas só surgem no quarto.”
“Como é que consegues ver assim tão bem?”
“Já te esqueceste de que a minha vista vê ao perto aquilo que não vê ao longe?”
“Pois é! Havemos de ver isso à lupa.”
“De qualquer forma, matrículas consecutivas a carros iguais, é a regra. Não há nada de estranho que a matrícula quase coincida. Agora a forma do último algarismo também não tem muitas alternativas, parece que é mesmo o nosso carro!”
“Olha lá, que chapéu é este aqui no vidro de trás?”
“Não é teu? Não, não é. Nunca tiveste nenhum chapéu assim.”
“Não, tive agora cá chapéus com flores.”
“Repara numa coisa, esta casa aqui está pintada de novo... e agora olha lá para a casa, já viste? A pintura já está queimada e descascada. Isto não tem nenhuma data, mas deve ser já de há uns anos. Olha, este poste já cá não está.”
“Pois é, então quando é teria sido tirada?”
“Não sei, mas com um chapéu destes lá dentro, foi no tempo do primitivo dono.”
“Acho bem que tenha sido.”
“Alguma dúvida?”
“Não, nada.”
Depois das férias, lembrei-me do postal.
Fui buscar uma lupa e disse-lhe para ela vir ver.
Confirmou o que eu tinha dito. As dúvidas só incidiam no último algarismo. Mas também não havia grandes hipóteses de ser outro. E ela, com aquela intuição feminina:
“Mas é o nosso carro. Nem preciso de confirmar a matrícula.”
Tenho pena de nunca mais ter visto o tal militar da força aérea para lhe perguntar:
“A sua mulher ainda usa aquele chapéu com flores, quando vai à praia?”

A propósito de carros, de sogras e do Muro de Berlim

Ia eu a caminho de Paris mais o R.C. quando as notícias começaram a cair vertiginosamente.
Era agora. O muro ia abaixo.
Ainda pensámos entrar para a história, virando à direita no próximo cruzamento, mas concluímos que não nos deixariam atravessar até Berlim sem os competentes vistos.
Uma oportunidade perdida.
Serve esta introdução para relembrar um comentário então atribuído ao falecido presidente francês François Mitterand: “Gosto tanto da Alemanha que se existirem duas, tanto melhor!”
Qualquer coisa assim.
O que nos leva à minha afirmação congénere:
“Gosto tanto de sogras que quantas mais tiver, tanto melhor!”
De facto, não me posso queixar do meu quinhão.
Com uma honrosa excepção, revelaram-se do mais fino trato, gentileza e simpatia.
Creio ter-lhes retribuído, longe vá a modéstia.
Adiante.
Para felicidade minha, delas, das respectivas filhas e principalmente do próprio, todas elas trouxeram um sogro atachado (linguagem neo-náutica).
Todos eles igualmente cordiais.
Um deles era um indivíduo excepcionalmente íntegro.
Homem de uma rectidão a toda a prova. Não menosprezando os outros, igualmente honrados.
Sucede que certa vez, por ocasião de um falecimento na família, cessou um arrendamento de uma casa de férias que mantinham na praia.
Havia por lá muita coisa para retirar. Os objectos mais frágeis e valiosos foram retirados de carro e não no tradicional transporte.
Requisitaram-me e ao meu velho Ford Escort.
Quando me apercebi que uma das coisas que era para trazer, só cabia na mala de qualquer dos carros desde que viesse com uma nesga aberta, ofereci-me para a transportar.
Sabia que para ele era um melindre vir a desrespeitar o código da estrada, ainda que isso não fosse uma evidência. Bastava uma nesga de uns dez centimetros de abertura para a coisa vir acondicionada. Nada que perturbasse a visibilidade traseira ou causasse perigo para os demais.
Assim se fez.
Andados uns quilómetros, a corda que contrariava a mola da tampa da mala partiu-se.
A mala abriu.
Nada de preocupante. Parámos e voltámos a atar.
Estávamos nisto quando pára um carro em travagem brusca à frente do meu.
Sai de lá um indivíduo novo com ar de polícia, cabelo curto, cara rapada, etc.
Dirige-se ao meu sogro e pergunta-lhe, olhando para o meu Ford:
“Este carro é seu?”
Não vos vou contar a cara que ele fez, nem a modificação que se operou quando o homem continuou, com a mão a acariciar os faróis traseiros:
“Este carro era meu. Foi o meu primeiro carro, um grande carro. Nunca mais o tinha visto. É uma alegria voltar a vê-lo. Os senhores são de aqui perto? Eu sou militar ali na base aérea.”
Isto a propósito de carros. E de comprar carros em segunda mão. E de sogros íntegros. E já agora, de sogras.

22/10/2003

O carro

Não compro carros novos.
Nos tempos do meu pai, só se compravam carros em primeira mão. Porém, o mercado alterou-se e agora é possível comprar um carro em estado muito razoável por um preço muito inferior ao de um novo.
O meu amigo B. sabe disso. Vendeu-me o último carro há nove anos e agora acha que está na altura de eu trocar.
Conheço o B. há muito, ainda ele não sonhava em comerciar automóveis. O grau de confiança não é por isso o mesmo do que com um qualquer vendedor de automóveis.
Bem sei que amigos, amigos, negócios à parte. É certo que sim. Mas por alguma razão que provavelmente ele próprio desconhece, o carro que me vendeu (bato na madeira) tem sido o que menos problemas me deu em toda a história de vinte e seis anos de estrada e dos anteriores cinco de fora-de-estrada.
Ora isso faz recair sobre ele a particular responsabilidade de só me vender um carro à altura deste que agora tenho.
Como ele está estabelecido aqui perto de casa, muitas vezes chama-me para dois dedos de conversa ou para me mostrar alguma viatura que ele julga ser o que me interessa.
Estamos numa de quatro lugares e motor diesel.
Um certo dia, chamou-me com particular insistência, sem cuidar do meu esforço em transportar a cárrega habitual do supermercado.
Lá fui.
Que era uma óptima compra. Um Peugeot 206, quatro portas, motor diesel, etc.
Lá me fez pousar os sacos e ir com ele ao depósito onde guarda os carros que ainda não estão encerados para exposição.
Assim que entrei, correu logo a mostrar-me as menos-valias do carro. Estás a ver, tem este risco aqui e esta mossa ali, mas isso também se repara. De resto, está impecável. Vá, senta-te lá dentro.
Foi então que eu lhe fiz a pergunta demolidora:
“Aquele ali também é para vender?”
“É! Mas não é meu, é de um tipo conhecido que também guarda aqui os carros.”
“Sabes quanto é que ele quer por ele?”
“Acho que é xis (1).”
“Xis? Mas isso é um preço porreiro!” – e abeirei-me do automóvel, abri a porta e sentei-me – “Ò pá, isto é que é um grande negócio. Quanto é que tu dizes que queres pelo Peugeot?”
“Xis sobre dois (2).”
“Tás a ver” – eu a vê-lo patinar – “Este carro é que é uma bela oportunidade!”
“Pois, mas para ti o que é bom é aquele ali”
Nisto, chega um dos ajudantes dele. Vendedor.
Viu-me sentado no carro que não era e começou logo a gabar o outro:
“Cinza metalizado, jantes especiais, uma côr bonita...”
Não gosto muito de cinzento brilhante e jantes especiais, são especiais porquê? Mas não disse nada.
Só disse:
“Eu pouco me importa a côr, amigo. Quero é um carro que não me dê chatices.”
“Ah, mas se fôr uma côr bonita...”
“Isso o bonito ou não, é para outras coisas. Estamos a falar de carros. O seu patrão tem que me vender é um carro tão bom como o último que me vendeu. Isso é que me interessa.”
Aí, o meu amigo B. retomou as cores da esperança.
“Olha que ficas bem servido.”
Com esta conversa quase que me tinham obrigado a sentar-me no Peugeot. Anuí. Já agora via por dentro.
“Não duvido, mas tens que reconhecer que em matéria de preço, aquele ali é um bom investimento.”
“Tá bem. Mas tens a certeza de que precisas de um Silver Cloud III para as tuas idas ao monte?”
Calei-me.
E não lhe comprei o carro.



Notas 1 e 2: Ninguém tem nada que saber quanto é que eu estava disposto a pagar pelo Rolls e não estava pelo Peugeot. Mas podem ver a proporção.

foto em http://guesthome.rollsrw2k1.userarea.co.uk/R-R%20Cars.htm
Heranças na paisagem

Saber fazer

Linha do Sul

Era entre lençóis de inverno cru
Que escutava a angústia a apitar-me
De comboios rumo a Sul,
Que eu sabia entre sobreiros,
Alargando a distância.
Era entre portas
Que ao sair de casa
Me deixava cortalhar
Por facas de frio barbeiro,
Para devagar ir
Amaciando a tristeza
Em cigarros com paisagem em fundo




SG, "Inéditos", 1995

21/10/2003

Morrinha

A chuva que chora no teu rosto
Tem cheiro a Agosto.
E a madrugadas de relento
Sem nenhum vento.
A sonhos insomnes
Em noites desertas,
A horas cansadas
Em noites directas.
E esta morrinha
Que da praia vem
Acha-te sozinha
No sonho de alguém.

SG, "inéditos", 1994
Gasolim entre castelos


O perseguidor ataca de novo

Sabe tudo sobre mim.
Até deve ter fotografias minhas ao volante da Datsun Sado azul.



De facto, não posso explicar.

Veja as outras entradas aqui e aqui.
Gasolim em antigo

Actualidades

Prometi a mim mesmo não falar de actualidades.
Por isso, não direi senão o seguinte:
Faz-me muita confusão que, entre gente com uma certa formação, se repita a ideia absurda de que é possível alguém fazer prova cabal de que desconhece um facto ou uma pessoa (contemporânea).
Se esta impossibilidade não é um dos axiomas do direito, então como o meu chapéu de Chaves.

O concurso radiofónico

Lembro-me de que íamos a chegar aquela curva que considero ter a mais vasta panorâmica em Portugal.
O rádio ia sintonizado no que se apanhava.
Primeiro, uma entrevista com um oftalmologista.
"Quando chego a qualquer sítio, tenho sempre o instinto profissional de olhar as pessoas nos olhos. Vejo logo qual é a côr dos olhos de cada um."
Depois o concurso.
A ideia básica é pôr duas pessoas à conversa sobre as suas casas durante um curto período.
Depois cada um responde a perguntas sobre a casa do outro. São perguntas a que se facilita a resposta em escolha múltipla.
A dado passo, alguém pergunta a outrem quantas peças de artesanato tem em casa.
"Eu? Eu odeio artesanato!"
Foi quanto bastou para o R. ficar fã do programa.
Devem ter-se passado muitas manhãs de trabalho em que ouvimos o dito concurso no carro.
Um dia, um dos opositores quase não fez perguntas ao outro.
O apresentador admirado comentou.
Ele disse que já tinha uma ideia.
Quando chegou a vez de responder ( julgo que eram cinco as perguntas ), não falhou uma.
O apresentador à rasca:
"Então como é que foi isto?"
"Fácil. Já ouço isto há uns dias e as respostas certas são sempre a-e-d-b-b."
"Ah! Um ouvinte assíduo!"
E ouço na rádio

Um anúncio.
Uma voz feminina diz:
"Acredito na ordem natural das coisas"

E eu lembrei-me logo do J.
"É muito difícil educar um povo"

20/10/2003

Gasolim e as opções



o cinzento e o branco a chamarem-me lá de baixo
Filme Disney de inundação



Pensava eu que o meu perseguidor já tinha chegado à conclusão de que jamais conseguiria intimidar-me.
Mas não.
Hoje avisa-me de novo: "Filme Disney de inundação."
Usa agora métodos catastróficos portanto.
E está muito bem informado ou leu o post lá atrás.

Eu já não posso explicar.

De São Rústico
meu padroeiro



só se sabe que, antes de (des)falecer aos pés de uma mulher, teve tempo para beijar a própria cabeça que recolhera do chão.

imagem neste sítio
O Carlos



O Carlos era eu.
Fui sempre Carlos para aquela mulher, esposa do Zé Povinho sem barba.
Não desde a altura em que me apresentei, depois de ter descrito a curva da casa e avistado o Zé Povinho barbeado sentado num banco à minha espera.

Na taberna ondia bebia uma cerveja perguntei ao empregado por casas para alugar ao mês.
Um mês de praia para gozar em solitude.
Disse-me que não sabia.
Duas cervejas depois, mostrou-me o Zé Povinho, de cara rapada, e disse-me:
"Aqui o Ti Lebre tem uma casa para alugar."
O homem cumprimentou-me e apreciou-me. Devo ter um ar confiável, pois de imediato, me indicou o caminho e lá foi, dizendo que ficava à minha espera.
Bebi ainda mais uma, agradeci ao rapaz e meti-me no carro.

Entrei com o Zé Povinho na casa. Apresentou-me a mulher. Tomou nota do meu nome até ao momento de receber o dinheiro, a casa agradara-me. Eram dois quartos, sala com cozinha e casa de banho.
No dia seguinte, ouvi chamar pelo Carlos.
Só liguei o nome à pessoa quando a vi a espreitar pela janela da cozinha e perguntar-me: "Carlos, não quer comprar peixe fresco?"

imagem do Zé Povinho barbudo em http://manuelcarvalho.8m.com/

Apenas um quadro romântico



é uma pena que a vedação que se distingue em baixo à direita seja de uma auto-estrada.
The perfect oven

Há alguns anos li um artigo sobre um investigador americano que se dedicara a estudar a forma do forno perfeito para cozinhar um dado peru.
Ocorreu-me que ninguém, que eu saiba, se dedicou a estudar os mecanismos que conduzem ao fim de uma festa.
Quando é que a festa termina e como.
Se termina com os donos da casa a fecharem as portas depois de se despedirem da última sogra, se termina quando o amigo bêbedo vomita no corredor da casa de banho e porque é que quatro convidados saiem aos pares no auge do bródio.
Todos estes mecanismos estão mal estudados, sabe-se ainda muito pouco sobre o assunto, mas estou convencido de que quem se abalançar a tal empresa, será bem sucedido.
Terá um best-seller na mão.
O nascimento de uma lenda

Não sei se é uma dávida das probabilidades assistir ao nascimento de uma lenda.
O que quer que seja que a incorrecção e a falta de sentido da frase acima queira dizer.
Mas aconteceu-me.
Encostado ao varandim do meu castelo (a designação não é minha, é dos militares da cartografia), vi entrar pelas muralhas um conhecido.
Digo isto apenas porque talvez as lendas nasçam em castelos.
Não como o meu, que é de muralhas baixas, mas nos outros mais a sério.
Depois de alguns cumprimentos e de conversa circunstancial, vi-a nascer da boca dele, do conhecido que chegara.
Sob a forma de anedota, o que não é muito lisonjeiro para a própria.
Mas lá estavam todos os ingredientes: a façanha, o façanhudo, o desfecho e a moral da história. Tudo um tanto ou quanto anedótico.
Não fora o caso de o protagonista nomeado ser um velho amigo meu, era apenas mais uma anedota.
Mas a certeza de que a história tal como a ouvi, se vai repetir por aquelas serras, contada por aqueles que nunca ouviram falar do meu amigo, muitos anos depois de já estarmos eu e ele etiquetados em pedra, foi logo inabalável.
Já agora, a história não era verdadeira.
Não sei se os circunstantes sabiam que ele é meu amigo, talvez não. Talvez o conheçam só de fama.
Fama que se encarregam de propagar.

19/10/2003

Mudanças

Os meus avós estavam cá ainda existia o Reino de Portugal.
Os automóveis eram pouco mais do que uma experiência.
O avião também.
A energia eléctrica dava os primeiros passos.
O telefone.
A água canalizada.
A rádio.
E viveram até o homem chegar à Lua, os aviões transformarem o mundo longínquo em terra próxima, a televisão mostrar o que se está a passar nos antípodas.
Viram as refeições prontas-a-comer, as grandes migrações de verão, o computador doméstico e o telefone móvel.

Eu ainda pressenti os carros de mulas, as terras sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem telefone.
As estradas a rasgarem-se em tapetes de alcatrão e os aviões a hélice.
O leite de porta em porta, os amoladores de facas e tesouras, os jornais atirados às janelas, o plástico a mostrar as suas virtualidades em carrinhas de modernos camelots.
O que é que verei mais, se alcançar a mesma longevidade?
Será um mundo tão diferente do primeiro que vi, como foi o deles?
Os gráficos da evolução dizem que sim.
A ver vamos.

Tempo gasto

Já gastei os últimos cartuchos
Que um sentimento perdurador me permitira guardar
E vi voar alto as aves que gritavam o teu nome inacessível
Sobre pinheiros de beira-praia.
Já não sei do tempo fácil em que a música era feita de estalidos de fogo
E do marulhar das searas e do mar.
Já a estrada que tinha significados de ti
Foi adulterada por tapetes sucessivos que esconderam memórias em traços contínuos contidas.
Já o teu sorriso envelheceu longe de mim.
Qual de nós pedirá perdão desta distância que mensagens trai?
Qual de nós ouvirá o silêncio que o outro lhe propõe?

1986

SG, "Dizeres do Sul", 1993
Garranos do Gerês



Já me disseram que é quase uma impossibilidade ver tais cavalos.
Mas atravessaram-se-me à frente...
Só digo

que não é em Brasília, mas algures no Império do Cruzeiro do Sul.
Uma conversa ultramarina dura horas de prazer.
Não digo mais nada.