24/01/2004

Espero que sim, mas acho que não



É, como todos sabem, a impossibilidade em futebol. Achar que não mas esperar que sim.
É porém, baseado em números a que acedi, o meu alvitre.
O Sporting não chega lá.
Pelo menos nos últimos sete campeonatos (quantos mais serão para trás?), nenhuma equipa logrou superar a diferença para o primeiro tal como estava este ano à 15ª jornada.
Lamento, meus caros confrades sportinguistas, mas este ano a coisa não vai lá.
Oxalá me engane, oxalá os números se modifiquem.

imagem da RTP
Miopias


23/01/2004

Enquanto Carlos (2)



“Carlos! Carlos! Não se importa de vir aqui..?”
Entrei.
“Ó Carlos, veja lá esta chatice. A minha televisão não está boa.”
Sentado num divã, a meio da sala, em frente a dois aparelhos sintonizados no mesmo canal, o meu senhorio balnear, Zé Povinho escanhoado, virou a cabeça e saudou-me, piscando-me o olho.
Na certa, referia-se às confidências que me fizera, instalado no banco à esquina da casa, protegido do sol quase poente mas ainda abrasador.
O problema era na televisão dela, confirmou.
A dele, colocada mesmo ao lado, embora mais pequena, tinha uma imagem perfeita.
Ela dizia-me: “Já viu? Foi logo a minha que se avariou. Se ainda tivesse sido a dele...”
Compreendi a dificuldade dela em observar as imagens em ponto mais pequeno também em virtude das confidências que me fizera sobre a doença dos olhos de que sofria.
“Vamos lá ver.” – dizia eu esperançado no milagre técnico dito português – a pancadinha no lugar certo.
Verifiquei a ligação da antena. Liguei e desliguei a ficha e continuava tudo igual. Abri a caixinha do sintonizador e zás, a imagem melhorou.
Grandes agradecimentos.
Saí.
No dia seguinte, o meu amigo e senhorio lá se confessou:
“Ela não quer ver a minha. E eu cá também não quero ver a dela.”

imagem do Zé Povinho barbudo em http://manuelcarvalho.8m.com/
ver também:
O Carlos
Enquanto Carlos

O santo e a senha



A senha eu tinha. Era o número 384.
Quando chegou a minha vez, lá entreguei o envelope e disse "Azul".
O homem do balcão colocou a carta no prato da balança, olhou para o remetente e para o destinatário, fez uma pausa e indicou o valor da franquia.
Puxei do dinheiro e paguei.
Quando iniciava o movimento de rotação para ceder o lugar ao 391, fui travado pelo funcionário que me estendia um maço de papéis.
"É uma publicidadezinha." - disse-me.
Aceitei, convencidíssimo de que se tratava da contra-senha.
Entre os diversos papéis do maço, estou agora a tentar descobrir as pistas mais úteis para completar a próxima missão.
Talvez em letra muito, muito pequena encontre um "Good luck, M!"
A grafonola do Major



Ainda me vi do lado de dentro da janela.
Da casa grande que ordenava o largo.
Já não nos tempos do seu esplendor, mas numa fase em que já tinha sido dividida em três.
Por isso, quando a grafonola ecoou na minha memória, que não podia ter, de acontecimentos do início do século passado, foi fácil olhar a janela aberta e adivinhar o fonógrafo a difundir a música.
Quase setenta anos depois, não estranhava assim que os carros se passeassem com altifalantes, distribuindo panfletos.
Nesse início de século, os panfletos eram ainda inúteis. Riscos em papel sem sentido para a maioria.
Mas a música já embalava os votos.
O major passou uns dias em que não ouviu as suas músicas preferidas.

22/01/2004

A uma escritora desconhecida



Um dos sonhos do escriba é ler.
Ler umas páginas que alguém há-de lançar das janelas de um comboio.
Páginas soltas, de cuja arrumação dependa a obra.
Sem saber quem as lançou, embora sabendo que lhe eram destinadas.
Já elegeu um sítio onde as esperará.
Fica ao fundo desta imagem. Embora não seja identificável, a linha férrea está lá.
Cortando em duas partes certa fatia de terra, de que o escriba certo dia se enamorou.
Um destes anos, a casa estará lá. E ao fundo do quintal, num dia de Outono, verá cair as folhas.
Gasolim na fronteira

21/01/2004

Gasolim e as direcções

Factos e opiniões



Há quem tenha opinião sobre qual era o nome do jogador que envergou a camisola 2 da equipa de Alguidares de Baixo, no último domingo, frente à sempre difícil equipa de Chouriçal da Serra.
É difícil convencer essa pessoa de que se trata de um facto observável e incontornável: foi o Joaquim Francisco. Toda a gente o sabe.
Ora aqui é que a porca torce o rabo.
Quanto tempo será necessário para que tal facto passe a ser objecto de opinião histórica?
Já não haverá ninguém vivo ou confiável. Não haverá a unanimidade de café em torno do nome de Joaquim Francisco, pois a maioria dos olhos que o viram já seguiram o destino que os há-de comer. Não haverá boletim de jogo. Não haverá fotografias. Não haverá video caseiro.
Deixará assim de ser um facto. Será uma hipótese histórica.
Qual será a duração de um facto?
Experiências

O que um processador faz a uma imagem de televisão:



imagem de France 5

20/01/2004

Papel e radiação



Ouve-se falar muito nos e-books e no seu insucesso face aos livros puros e duros.
A magia das folhas de papel, etc.
Pela parte que me toca, posso dizer que tenho lido poucos livros aqui. Também não me resolvi a imprimir um só que seja. Tenho alguns em stand-by, na versão disco rígido do belissimamente encadernado na estante para vizinho ver.
Mas tal como a maioria dos que por aqui andam há uns aninhos, tenho lido muita outra coisa: páginas temáticas, jornais, revistas, blogues, etc.
Provavelmente o que me afasta dos livros é o mesmo que faz com que o burro arreie na grande recta, o caminho visível a percorrer.
Há porém uma coisa em que estou convencido que os écrans batem o papel – nas paciências.
Partindo do princípio de que a maioria dos que perdiam tempo a sós com um baralho de cartas tem acesso a uma maquineta, quase me convenço de que já não voltam a baralhar e a dar de novo. Agora é mais rato e clique.
Não tenho qualquer base de observação para sustentar este disparate. É um mero alvitre.
Mas ainda hoje descobri que a expressão displicente (e sentada) do meu novo fornecedor de jornais, tabaco e revistas não se deve à atenção que dá à contabilidade da loja. É outra coisa que ele procura resolver.
Quadrados ?

Na ausência do povo, dos cavalos, dos prelados e de Suas Majestades

As coisas que se dizem (II)

Uma das frases mais habituais no discurso actual sobre a emigração e a imigração, é mais ou menos esta:
"Se Portugal foi um país de emigrantes, agora tem que acolher bem os imigrantes, também."
Confesso que não entendo a ligação.
E depois ponho-me a pensar:
"Se os Estados Unidos foram um país de imigrantes, agora têm todo o direito de começar a enviar emigrantes para todo o lado."
O que dirão as mesmas cabeças a uma frase destas?
Cruzes, canhoto.
Mas não há dúvida que é uma frase bonita, a primeira. Mas o mundo não se fez com frases bonitas, muito menos com boas intenções.
Faz-se como se faz. Com pressões e resistências, equilíbrios e catástrofes.
As coisas que se dizem

Para quem ainda se recorda, o disparate mais propalado em 2002 foi a suposta viragem à direita em França, a propósito da distribuição dos votos na 1ª volta das presidenciais.
Deu o que deu, tumultos um pouco por toda a parte. O habitual cortejo de manifestantes porque sim.
Há sempre nestas coisas quem saiba aproveitar as massas e induzi-las em erro, é a história do homem.
Em 2003, foi a história das armas do Iraque. Deu o que deu, matou quem matou, e ainda está a dar.

As diferenças são:
No caso do Iraque, as armas existiram e entraram na Guerra do Golfo (para quem se lembra, a Guerra do Golfo foi aquela que decorreu pelos anos 80 e só foi substituída nos écrans pela guerra civil jugoslava).
Em França não houve viragem à direita. É uma questão de comparar os números da eleição com os da anterior, em 1995.

As armas do Iraque não se encontraram. Mas o saldo foi de uns milhares de mortos e continua. Saber se Saddam Hussein era pior ou melhor do que muitos outros que envelheceram tranquilos, é outra questão. Sem resposta, a meu ver.
Em França, não tendo havido nada senão o equívoco e a manipulação dos simples, o saldo foi bem menor, algumas escaramuças que alastraram a outros países e eventualmente alguns mortos relacionados.
Pretextos faltam para libertar energia. Pretextos faltam para tomar posições. Pretextos faltam para justificar o que não é justificável, a natureza humana.
Foi assim e assim há-de ser, por muito tempo.
Perde tempo quem pensa encontrar razões e coerências nas atitudes do homem.
Gasolim de praça a praça

19/01/2004

Outras grandezas



M. e P. olhavam para norte, da porta de serviço.
Como dois cavaleiros de western que se deslocam até perto da cerca para travar curtas palavras e depois se voltam rumo ao horizonte.
Ali estavam, rebobinando cada um para si as ásperas palavras que haviam trocado algumas vezes durante a obra.
Agora a certeza do dever cumprido.
Depois de terem lutado contra o tempo e contra as adversidades, de se terem degladiado, depunham as armas.
Era o tempo de respirar fundo e partir para outra. Começar tudo outra vez.
P. disse que afinal o ministro já não viria para a inauguração.
M. rematou que isso não teria qualquer importância, embora desconfiando que ao outro o facto não seria indiferente.
P. entre um sorriso amarelo e um derradeiro olhar para a pilha de restos de obra que ainda não tinham seguido o destino competente, disse calmamente que os jornalistas o tinham ido entrevistar.
Depois, mostrando os primeiros sinais de desilusão, virou-se para o interior do edifício e concluiu:
"Tudo o que queriam saber era quantos quilómetros de tubagens aqui instalámos!"

imagem de http://www.maristela.com.br/produtos_comum.html (imagem já não existente)
A massa da bomba

A repetição do mesmo disparate na imprensa é uma recorrência.
Não parece haver ninguém no circuito que se aperceba da enormidade que está a retransmitir.
Eu gostava de saber como é que se determinou que a bomba de ontem em Bagdade era de 500 Kg.
(eu sei que é comummente usada uma comparação com o poder destrutivo de x Kg de TNT, mas isso não passa de uma escala do tipo da de Mercali)
Gasolim às cores

Extremo Oriente



Nos extremos da cidade. Cresci no extremo oriental da urbe. Atrás de mim, o campo. Searas de tantos em tantos anos, papoilas todos os anos.
Vastas vistas sobre o território, moínhos no topo de colinas.
Agora estou do outro lado. Também no extremo. Uns palmos de terra e a auto-estrada. Do lado de lá das faixas de rodagem, a pequena aldeia de outrora, apresenta agora aspecto de cidade, ela também.
Nunca soube muito bem qual era a minha qualidade: se rústico, se suburbano, se urbano.
Uma mistura das três, é o mais certo.
Vou mantendo as minhas janelas a oriente e a ocidente. Na mesma cidade, amanheço e anoiteço com o sol. A oriente, a manhã, as minhas recordações, os meus livros, um rádio velho e o que resta da paisagem rural. A ocidente, a tarde, as televisões, os computadores, a auto-estrada e as torres de 15 andares.
Nos meus pesadelos mais brandos e reais, vejo os meus montes rodeados de urbanidade.
Gasolim e as memórias da cidade

18/01/2004

Notícias

Juntamente com os anúncios de futuras alunagens, que já referi, há outra notícia.
Eu sei que esta sofre dos síndromas ClonAid, Antinori e de outros efeitos desmobilizadores.
Mas por alguma razão estranha, suscita-me mais confiança desta vez.
Que vai nascer algures um destes dias um ser humano clonado parece que ninguém duvida. Ou ainda haverá cepticismo entre os “esclarecidos”?
Se será desta, não sei. O que sei, todos sabemos, é que quando se aponta o farol em determinada direcção quase sempre se chega lá.
É verdade que há questões para as quais o farol está há muito apontado e parecem por ora inalcançáveis – veja-se o caso do teletransporte. Que também parece ser um campo onde ainda há muita pedra para partir. Muito conhecimento prévio e necessário em falta.
Sucede que parece haver uma espécie de manto de desalento sobre determinadas matérias que faz com que escasseiem recursos, humanos e materiais, na sua investigação. Mas um dia atinge-se a praia.
Não é o caso da clonagem. A expectativa é grande. Há resultados na sala ao lado.
Um destes dias, há notícia.
E é importante.
Quando o homem se lembra de uma coisa...
A árvore do Stingray

O progresso roubou-nos a memória.
É a velha questão da frequência do aparecimento e desaparecimento das landmarks ser superior à frequência dos ciclos de vida humana, assunto de resto largamente escalpelizado.
Mas o facto é que, se por um lado, temos oportunidade de ver as mudanças, por outro a nossa memória sente as perdas.
Muito embora eu e os meus amigos de infância há muito não desfrutássemos dos encantos do lugar onde crescemos, que nos proporcionava campos de futebol quase exclusivos, árvores para subir, veredas para descer, searas para nos escondermos em tiroteios de boca, recantos para escondermos arcas de tesouro inverosímeis, tudo isso à porta de casa, em plena urbe, muito embora esse tempo já fosse há muito, sinto a falta desses lugares.
Das centenas de árvores que existiam no talude ferroviário, não resta uma única.
Dos metros quadrados de terra onde travámos as nossas batalhas, onde fizemos correr os berlindes e de onde pretendíamos impressionar as donzelas que pressentíamos atrás de janelas, resta muito pouco.
Não sei quem baptizou a árvore do Stingray. Talvez alguém que misturou a forma do periscópio com a da escada em espinha. O certo é que era uma espécie de pinheiro a que tinham sido cortadas não cerce as pernadas mais baixas. Pelo generoso número de pernadas que a imponente árvore já tinha decepadas, se atingia um nível elevado em que as pernadas intactas proporcionavam excelente esconderijo e toca de emboscadores.
Por ser das mais longínquas (o que eram as distâncias nesses tempos...), não era das mais usufruídas, mas o seu nome era sempre dito com respeito.
Contavam-se os degraus que cada um subira. Ninguém lograra alcançar o topo, tocar no cume. Um risco que não corríamos.
Nunca algum de nós partiu um braço, uma perna, um dedo que fosse nestas e noutras andanças.
Às vezes, uma pedrada numa disputa entre ruas era mais funesta.
É da árvore do Stingray que me lembro hoje. E da excessiva protecção que se dá hoje às crianças também. O mundo estará assim tão diferente?
A feira do fumeiro e outros certames



As feiras, um pouco por todo o lado, fizeram o seu aggiornamento e agora dão-se ares.
Já há alguns anos que o bicho da curiosidade me impele a ir a uma delas.
Para mim, que às vezes tenho a pretensão de ser imune à publicidade, este é um bom exemplo de que o não sou.
Gosto de feiras como muita outra gente. Sei há muitos anos que o Almanaque Borda d’Água fornece indicações precisas dos locais e dos dias onde se realizam.
Então porque razão só agora que elas são profusamente anunciadas na rádio e na televisão é que me disponho a lá ir?
Não faço ideia. Mas a contradição depois toma conta de mim. Então se estas coisas são assim tão divulgadas, não será o caso de haver enchentes insuportáveis? Deve ser o caso – e fico-me.
Já aconteceu com a Fatacil dos primeiros tempos. Cheguei a preparar-me para a jornada certa vez, mas algo de imprevisto fez-me arrepiar caminho.
Depois, bastou um amigo fazer-me um relato da confusão de gente que era, para perder a vontade.
Feiras, decididamente, são um problema insolúvel.
A feira dos Bentos ainda será maravilhosa?

Feira do Fumeiro de Montalegre aqui

17/01/2004

A história e a rede

A rede é hoje a ferramenta de consulta por excelência.
É a grande enciclopédia sempre à mão e de pouco peso.
Mas a rede tem uma inquinação.
Os jornais já se sabe, servem para consulta do quotidiano. Cobrem épocas bem determinadas.
Os livros cobrem temas com maior ou menor extensão no tempo.
A rede aparenta cobrir tudo.
Mas ilude quanto ao tempo.
Dá uma excessiva ponderação aos factos ocorridos depois da sua generalização.
Em tempos em que a memória já é curta, potencia o seu encurtamento.
O dia do eremita que sabia adicionar aproxima-se.

(Myron Aub não era eremita e também sabia multiplicar, mas o eremitério é o destino dos quase profetas)
Para que conste
(post dedicado aos apostadores que aqui vêm à procura da sorte)

Depois de 1h e 33m de cálculos, o meu programazinho extraiu 3 chaves:
3,7,11,29,30,43
3,7,11,29,30,49
11,13,31,39,40,43


como já estamos nas 20h, podem copiar à vontade.
Assim, ficam a saber que não vale a pena cair aqui à procura de palpites. São todos furados.
Como se isto obstasse a que continuem aqui a procurar pela sorte.
Outras surpresas

Talvez isto pareça estranho aos leitores do Brasil. Aqui temos a ideia de que o Carnaval no Brasil é como as iscas aqui – ou se ama ou se odeia, ninguém fica indiferente.
Mas o facto é que nunca estive muito familiarizado com as epactas. Por isso, o Carnaval quase sempre me apanhava de surpresa.
Fazia-se anunciar pelo bzzzzz da bicha-de-rabiar, pelo estampido do estalinho, pelo sonoro bum das bombas.
E na montra das minhas predilecções, lá estavam as serpentinas e os papelinhos.
Então acordava para a época.
A mim, seduziam as bisnagas – as pistolas de água. Quantas vezes não acontecia ao James Bond de pasta para as aulas sentir a perna encharcada pela súbita descarga da traiçoeira arma escondida no bolso das calças.
Nunca gostei das vira-bicos. Nunca se sabia bem para onde é que se apontava.
Tive um bisnaga preferida. Era uma cópia 3D da pistola de João Bafo-de-Onça. De borracha azul acinzentada. Uma verdadeira bisnaga que não dependia de gatilho e de êmbolo. Era muito pouco eficaz como pistola de água, nada que se comparasse com as Parabellum de plástico translúcido.
Mas por alguma razão estranha, de que eu apenas suspeito, tomei-lhe aborrecimento. Pior, excomunguei-a. Só de olhar para qualquer outra que se assemelhasse, viravam-se-me as tripas.
Hoje, gostava de saber onde pára. Talvez ainda se encontre dentro de algum caixote nesse mundo de causas perdidas que são os depósitos de tralha que mantenho espalhados pelos quatro cantos do meu reino.
Fazer o quê?
O Carnaval deve estar a chegar, digo eu...
Água vai e a extinção das espécies

Às vezes ainda me surpreendo.
Um calmo diálogo familiar travado em português a dois sotaques pode ser interrompido pelo insólito.
De um urbano sexto andar fronteiro, enquanto discutíamos a persistência da humidade matinal no betão dos paralelipípedos, vê-se o tradicional gesto de água vai.
Pensei que me tinha equivocado, que tinha sido uma qualquer ilusão óptica. Mas não. Eis que o gesto se repete, um braço nu e uma bacia de plástico descrevem um arco a pouco menos de 20 m de altura.
De repente, vem-me à memória um passeio por Trás-os-Montes em que, numa aldeia de fronteira, acompanhado por um cicerone de ocasião que mal me viu apontar a máquina de filmar se tornou companheiro de andanças, quase me expus a um banho de águas residuais.
Por ruas desertas, conduzia-me à igreja que era na opinião dele o lugar certo para fotografar.
Detive-me por momentos olhando uma velha e seu cão, sentados ao sol de inverno na soleira da porta.
Nesse instante de imprevidência, uma outra velha mulher abriu a janela quase na minha vertical e lançou à rua um jorro de águas.
Ninguém se perturbou. Eu não reagi, de surpreendido. O meu companheiro continuava a andar paulatinamente para o adro da igreja. A velha da porta e o seu cão não mostraram quaisquer sinais de atenção ao ocorrido. A outra fechou a janela e desapareceu.
Continuei sem que nada fosse. Nada tinha sido, de facto.
Agora lembro-me da praia onde passava os meus verões de infância.
Da água que corria pelos regueirões nas ruas, sobrevoada por enormes insectos que eu apelidava de helicópteros.
Há muito que essa colónia de insectos voadores se extinguiu. Ninguém parece preocupado com isso.
Mistérios.

16/01/2004

Estruturas 2


O que é que há de novo?

De vez em quando bato na tecla das actualidades.
Quase sempre para dizer que, embora os jornalistas mostrem o contrário, não há nada de novo na frente.
E que quando há, são incapazes de o reconhecer.
Não se pode dizer que estejamos face a algo de completamente novo.
Avanços e recuos são a história do homem.
Mas voltar à lua ou a decisão de o fazer é um marco histórico.
Se realmente assim fôr, é a história a repegar as suas teias.
Mas, como já disse JPP, são os aspectos laterais da coisa que fazem notícia.
Não sei qual é a razão. Provavelmente é porque interessa a mais gente a pequena história.
Talvez desta vez os jornalistas tenham razão.
Talvez se dirijam à maioria, sem o saber.

Quantos serão os que hoje escrevem nestes espaços e que testemunharam a noitada de Julho de 1969?



imagem em
Gasolim de volta às curvas


E agora?

Bem, em primeiro lugar, quero deixar aqui bem expresso aos amigos da Brigada Anti-Lacoste que se não falei aqui há mais tempo do concurso foi porque, apesar do parco número de visitantes que tenho, temia a concorrência.
Agora que chegou ao fim, e que não há nada como palpites à segunda-feira (hoje é sexta?), já posso dizer que sabia 14 das 15 respostas.
Também posso dizer que gosto destes desafios.
E que fico à espera de mais.

Anotação posterior: Estúpido! - as respostas que sabias eram 15 em 16, nem ler sabes!
O electricista espantado

O povo lá diz "Santos de casa não fazem milagres".
E não há nada de mais certo quando se trata de dar palpites em pequenas ou grandes reparações domésticas a certa pessoa.
Certa vez foi um fio de ligação de um candeeiro de tecto que se desligou. Nada mais fácil.
Mas como a coisa não foi resolvida de imediato, pois o tal fiozinho tinha a ponta curta e era preciso fazer um enxerto e a posição de trabalho não era das mais favoráveis, a tal pessoa aproveitou o pedreiro curioso que andava lá a pôr uns mosaicos para pedir uma opinião.
Quando eu cheguei, o homem preparava-se para opinar doutamente sobre a solução a adoptar, empoleirado em cima de um escadote.
"Desligou a energia?" - perguntei-lhe.
"Não. Não é preciso. Então o interruptor não está desligado?" - já me considerava um analfabeto na matéria.
"E você não tem um busca-pólos? É que eu não tenho a certeza se o interruptor está antes ou depois da lâmpada" - insistia eu, preocupado com o à-vontade dele.
Não me respondeu. Ou eu expliquei-me mal ou ele não fazia ideia do que era um interruptor antes ou um interruptor depois.
Não me deu tempo de ir desligar a energia. Avançou com o alicate para puxar a ponta do fio e pumba, tocou com as pontas do alicate nos dois fios.
Não é preciso pôr aqui a fotografia do homem espantado que desceu do escadote. Vá lá que o alicate era isolado.
Perguntou-me se o interruptor estava avariado. Eu não lhe consegui explicar que o interruptor estava bom, mas que agora tinha a certeza de que estava depois da lâmpada.
É claro que tive que fazer eu o resto do trabalho.
É possível que ele tenha ido depois contar a um electricista amigo o que lhe aconteceu. Mas não deve ter falado em interruptores antes e depois de lâmpadas.
Os sonhos



Já falei aqui de sonhos. Não dos sonhos de cada dia, mas dos sonhos nocturnos que ainda pairam ao acordarmos.
Uns perduram, outros escorrem pelo cano a uma velocidade vertiginosa.
Já li alguma coisa sobre a interpretação dos ditos e, confesso, pareceu-me que se queria encontrar uma explicação imediata para tudo.
Há sempre um trauma, uma recordação, isto e aquilo na ponta do fio. Não sei, não me parece assim tão fácil.
Não consigo encontrar uma causa para se sonhar noites a fio com uma espécie de bandas multicor que passam da direita para a esquerda, e vice-versa, como rodapés de telejornal. Apenas as bandas em fundo vermelho a escorregar para azul. Nada mais.
Isto muitos anos antes de tais bandas surgirem nos écrans. Existiam apenas nos painéis publicitários luminosos.

15/01/2004

Gasolim (a)variando


Sombrinhas e chapéus de chuva

Fui habituado assim. O adereço masculino era chapéu de chuva (ou guarda-chuva), o feminino era sombrinha.
Mais, era vedado ao homem andar de chapéu de chuva que não fosse preto, excepção feita a certos chapéus rústicos de pano azul.
Descontando aqui a questão da côr preta, que aparentemente claudicou em último lugar aos pés desta peça de aparato, depois de ter abandonado os fatos, os automóveis, as máquinas fotográficas e os telefones, sendo primeiramente substituída nos chapéus de chuva pelas cores atribiliárias da publicidade e mais tarde por padrões vagamente escoceses, passemos aos outros aspectos.
Parece que ninguém sabe ao certo qual foi a sua função primeira: se a de sombrinha, se a de guarda-chuva, se a de adereço. Provavelmente logo as três.
Para as suas duas funções hoje essenciais, proteger do sol e da chuva, os requisitos são diferentes, quer na côr quer nas características do tecido, uma vez que se parece aconselhado a uma sombrinha propriamente dita ser branca e permeável, já um guarda-chuva, embora a côr não importe, é razoável que seja impermeável.
Ora as sombrinhas que apenas protegiam do sol, depois de terem estado muito em voga ainda no século passado, são hoje peças de museu.
Qualquer pessoa que em dias de canícula use um acessório destes opta por um chapéu de chuva.
O dois em um tomou conta destes objectos.
Mesmo que o meu chapéu de chuva azul de cabo de madeira seja permeável e que o caseiro lá do monte insista em chamar-lhe sombrinha.
Atraso e ignorância minha.
Não sei o nome da minha fada

Eu, que até tenho boa memória, não me lembro.
É estranho, tão estranho como a minha relação com ela.
Conheci-a, talvez seja melhor dizer vi-a a primeira vez, ainda menino.
Andava no mesmo colégio do que eu, e era mais velha.
Por alguma razão gostou de mim. Sorria-me sempre. Sabia o meu nome. Mas pouco falámos.
Depois perdi-a de vista.
Voltei a encontrá-la muitos anos depois, certa tarde num café. Sorriu-me e chamou-me pelo nome. Era agora uma mulher bonita, alta e elegante. Dava muito nas vistas mas tinha o ar angelical que às fadas compete.
E voltei a perdê-la.
Encontrei-a mais tarde numa rua de Lisboa. Transportava sinais de quem frequentava a mesma escola do que eu. Falámos pouco, não lhe perguntei onde estudava.
E uns tempos depois, vi-a na escola. Uma única vez.
Depois disso, encontrei-a uma vez à saída de um comboio.
Há três dias, vi-a pela última vez.
Envelheceu, a minha fada. Não disse o meu nome mas continua bonita. E continua a emanar aquela sensação estranha de bem-estar.
E é uma das poucas pessoas que me reconhece sempre, mesmo que os anos passem no meu rosto.

14/01/2004

Gasolim às curvas

Lavando mais branco



O mundo está cheio de conceitos absurdos.
Quase sempre surgidos na voragem da inovação ignorante.
Sem o devido olhar à volta, sem a mínima reflexão.
Uma das pérolas mais famosas é o conceito de lavagem de dinheiro, que de resto pegou de estaca.
Se alguém me conseguir demonstrar que existe uma forte razão para tal conceito não ser absurdo, eu fico grato.
Se alguém me explicar porque é que é crime, mais grato fico.
Na minha modesta opinião, trata-se apenas de um mecanismo para tentar apreender capitais que, de outra forma, seriam inalcançáveis. Mas que tem uma designação estúpida, lá isso tem.
Mesmo que se alegue que é uma designação histórica, que tem que ver com lavandarias.
É que hoje já não tem esse significado.
Parece bem claro que uma coisa é obter dinheiro de forma ilícita; outra, completamente diferente, é utilizá-lo depois de forma lícita.
O dinheiro deixa de ser ilícito? Claro que não. Deixa de ser sujo? Claro que não.
A questão é interceptá-lo no seu tráfego de ilicitude ou depois disso.
A questão não é, nem pode ser, o que se faz ao dinheiro depois de o roubar ou obter de outra forma.
É, e será sempre, a forma como foi obtido.
Se alguém monta diligentemente uma fábrica com dinheiro roubado, a fábrica pertence-lhe?
Se compra depois modestamente um Ferrari, fica com ele?
A questão aqui é que pouca vez é roubado, quase sempre é fruto de negócios proibidos. Mas o conceito mais uma vez não colhe. Não faz sentido.
Duas notas de rodapé:
Ainda sou do tempo em que circulavam boatos de que alguns corriam o país à cata de cautelas de lotaria premiadas para as comprar.
E também sou do tempo em que circulou o rumor de que as notas de euro quando iam à máquina de lavar perdiam muita cor. Mais dos que os nossos queridos e saudosos escudos. Com euros, ainda não fiz a experiência.

imagem tratada a partir desta

13/01/2004

A importância Google



Quem tenha activada a barra Google no IExplorer, vê a importância Google das páginas que visita. Haverá outras formas de o fazer mas não sei quais são.
A mim, apareceu-me a barra Google depois de alguma instalação do IE a que fui alheio. Nunca me preocupei muito com o assunto até que um dia pensei que raio será isto de PageRank? Que rank? Feito como?
Depois lá me pus a investigar o mecanismo da coisa. Não sabendo os pormenores completos do funcionamento, fica-se com uma noção de como são elaboradas estas hierarquias.
E sempre é o Rank do Sr.Page e do seu sócio.

E agora?
Iremos começar a dizer:
O meu nível é 3!
Nem sequer tens nível Google...
O teu nível é 0, zeeeero!
Olha, ela é uma Google 7!
Só me caso contigo quando tiveres nível 6!
Será que é isso?

Coincidências

É provável que hoje se atinjam as 1500 visitas aqui, enquanto no Blogger da Globo se chegará às 4000.
Considerando que o contador foi o mesmo até cerca das 1140 visitas, a explicação do desfasamento residirá no maior número de leitores brasileiros, nas aparições nos Fresh Blogs e na preferência do Google pela versão branca do Blogger da Globo.
Deve ser isso.

(enquanto isso JPP ultrapassou hoje os 350000!)
Vaca fria



Concluir que existe uma coerência nas notas aqui deixadas nos últimos meses é uma impossibilidade.
Creio que se aplica a todos. A todo o ser humano e à sua obra.
O mistério vem da invenção da razão. Seja lá isso o que fôr. Mas creio que não andaremos longe se identificarmos a razão e o racionalismo com a necessidade de estruturar, arrumar e fazer depender de um conjunto de regras, o pensamento humano.
Cada um terá a sua noção do que é. Não faltam tratados sobre o assunto.
O mister é saber se o pensamento humano é compaginável com aproximações mais ou menos rigorosas. Quando ele próprio é, à partida, um mistério insolúvel. E todas as construções mentais que se possam fazer sobre ele, é nele que radicam. A pescadinha de rabo na boca.
Tenho sobre as coisas a vaga suspeita, já aqui referida, de que estamos única e exclusivamente dependentes dos caprichos da vida. Não do fado cantado, mas dessa misteriosa característica que anima os seres vivos.
Que faz e desfaz espécies, que as adapta, que as mobiliza com o único aparente intuito de se perpetuar, seja sob que forma fôr.
Não estamos a salvo enquanto espécie, dos arbítrios dessa misteriosa força(?).
Até a ordem para nos extinguirmos poderemos receber. Não somos nisso diferentes das outras espécies.
Por isso, suspeito também que qualquer coisa que eu possa pensar e dizer tem mais a ver com um comando que me é dado, do que com a minha própria vontade (o que será isso?).
Coisas que penso e digo em reacção a estímulos exteriores ao indíviduo que sou e em consequência da ordem que recebo face a esses estímulos. Não creio que seja muito mais do que isso.
Se eu fosse um homem de fé (não o serei porquê?), encaixaria todos estes argumentos na vontade divina e descansava. Seria assim?
Como não sou, suspeito apenas que algo me impeliu mais uma vez a escrever estas linhas.
Apenas para mostrar a mim próprio, é disso que me convenceram as estranhas pulsões que me comandam, que escreva eu o que escrever, nunca serei coerente.
Não o serei porque apesar de todas estas suspeitas, a maior parte das vezes convenço-me de que existe uma razão e uns estão mais perto dela do que outros.
Identifico comportamentos e raciocínios criticáveis e disso dou conta.
Falo de emoções e qualifico-as.
De justiça e de injustiça.
Do belo e do feio.
Sem suspeitar então que estou a ser comandado.
E continuarei.

imagem em

12/01/2004

O pintor de memória

Na linha daquela velha história do pintor e do pastor que, para quem não sabe, se pode resumir a poucas linhas:
Um pastor encontrou um pintor no meio do campo e depois de observá-lo durante algum tempo, perdeu a timidez e perguntou-lhe: "O senhor também faz retratos?"
O pintor que sim, que fazia.
"Então, talvez me pudesse fazer um retrato do meu falecido pai. Sabe, nem uma fotografia tenho dele. Talvez se eu lhe dissesse como ele era..."
O pintor que, se ele lhe desse uma boa descrição, poderia tentar.
Lá se pôs o pastor a rememorizar os traços do pai.
Disse-lhe depois o pintor que passasse por aquelas bandas, dali a uns três dias.
E assim foi.
Ao fim de três dias, o pastor roendo-se de curiosidade, lá se chegou.
O pintor estendeu-lhe o quadro:
"Este é o meu pai?" - intrigava-se o pastor - "o que os bichos fazem à gente depois de mortos...!"
Na linha dessa história, o que os processadores de imagem fazem aos nossos rabiscos em guardanapos de papel:

Do que é que falamos quando falamos entre nós?

Essa é uma das questões mais persistentes entre os géneros.
E talvez onde o desconhecimento seja mais profundo.
Vez por outra, caem umas pistas, uma confidência: estivemos a falar de tal e coisa.
Mas não há grandes compêndios sobre o assunto.
Para mim, os temas femininos constituem ainda um mistério. Embora, parecendo que não, os blogues tenham levantado um pouco o véu.
Mas são um mistério e eu procuro não cometer a injustiça de julgar que as mulheres falam sempre dos mesmos temas e que têm todas os mesmos interesses. Isso não pode ser verdade. Claro que não é. E concerteza que um trio de mulheres não é igual a um duo, nem a uma turma de trinta e duas. O número deve fazer a diferença. A precisão da conversa deve aumentar de forma inversa ao número de participantes, digo eu.
Quanto aos homens, também não posso traçar um quadro geral.
Apenas posso subsumir a partir dos meus grupos de amigos. Das fases por que passam e da localização geográfica. Da instrução e educação que tiveram.
Mas, ao contrário do que possam supôr muitas mulheres, se é que o fazem, o tema fêmea não é uma constante nas nossas preocupações.
Talvez por ser demasiado delicado e complexo, decididamente não é prioritário.
Não que não se comente o exemplar que acabou de se sentar três mesas ao lado e que embasbacou metade da plateia (a outra metade dos sentantes era feminina). Claro que isso acontece.
Mas ele há prioridades. Descontando os temas da infância, que já vai longe, há sempre a fase militar que às vezes se prolonga até ao fim da vida, e em que os temas parecem teimar em não vestir à civil. Toda a tropa tem que ser esmiuçada, desde os copos na messe até às semanas de campo.
E há, sem dúvida, o futebol. Curiosamente, na minha pálida amostra, verifico que o tema da bola não é tão universal como o militar.
O tema da bola parece ganhar importância nas grandes zonas urbanas e perder nas rurais.
Aí, é sempre mais importante falar de vacas e de ovelhas, de tractores e de rações.
No campo, a bolsa de produtos é um tema importantíssimo. O preço do trigo já foi mais relevante, mas ainda pontua o preço da carcaça de bovino.
A política sofre da mesma variação. É analisada à escala nacional na cidade e ponderada a nível local no campo.
Não há grande apetência nas cidades para falar da vida alheia. Já no campo...
Depois os petiscos, quase uma constante. Aqui, sim, parece haver uma importância nacional. Um tema caro a pobres e a ricos, a campónios e a urbanos. Não há homem que não sorria face à perspectiva de um bom bródio.
Depois há interesses mais específicos. Sempre que encontro certos amigos, surge sempre uma conversa de cash-flow, liderança, custo-benefício. O curioso é que não são estes os que realmente lidam com o problema. Normalmente são apenas funcionários. Quanto aos que conheço que põem mesmo a mão na massa, a bem dizer o dinheiro em risco, esses normalmente falam de outras coisas, de viagens e de restaurantes. Não é estranho?
Há ainda os que só falam de desporto, que dizem que correm todos os dias não sei quantos quilómetros, etc.
Há o tema dos carros, mais na cidade do que no campo. Pelo menos hoje em dia. Creio que, em tempos mais recuados, não era assim.
Bem, quanto ao assunto de que falam os dois géneros quando em tête-à-tête, toda a gente sabe o que é. Não vale a pena dizer nada.

11/01/2004

Altura disso



Costumava ser altura disso.
De copiar números de telefone de uma agenda para outra.
Havia sempre uns que ficavam para trás.
Gente a quem recorremos e que já não é útil.
Se calhar um amigo que morreu.
E aqueles que deixámos de ver há dois anos mas cujo número mantivemos esse tempo.
É difícil definir como se perde um amigo.
A última vez que o vimos, qual foi?
O que é que lhe dissemos: Até amanhã?
Agora os telefones encarregam-se disso.
Às vezes apagam as memórias sem que a gente dê ordem.
E já não há uma época de apagar.
Quando a capacidade de armazenar se esgota, apaga-se o tal e coloca-se o do mecânico do carro.
Faz mais falta.
Falha de energia

10/01/2004

Heranças na paisagem

Assaltos na estrada



Os salteadores de estrada parece que ainda não acabaram.
Mas houve um tempo em que tinham mais fama do que proveito.
Hoje já nem isso. Ainda bem.
A verdade é que ouvi muitas histórias mas nunca conheci ninguém que tivesse sido assaltado na estrada.
Porém, certa vez, em noite de meados de Agosto, a caminho do sul e da praia, aconteceu.
Ia eu já embalado no sono pelas luzes do tablier, quando os meus tios se agitaram nos bancos da frente: "O que é aquilo?"
Aquilo eram uns carros parados à beira da estrada e pessoas cá fora.
Fizeram-nos sinal de parar. Parámos.
Não era acidente.
"Parece que este amigo ia sendo assaltado." - disse um dos presentes.
O VW tinha as duas rodas do lado direito furadas. Estava na berma e o condutor contava a história. Tinha passado por uma barreira feita com tábuas com pregos, tinha fugido aos meliantes e só parara ali.
Os circunstantes eram quase todos caçadores em fim de jornada. Todos a abrir os porta-bagagens e a carregarem as armas. "Onde é que eles estão?"
A mim, o que me fazia confusão era o estado do homem. Falava arrastadamente e dizia umas coisas sem grande sentido.
Depois, ele seguia no mesmo sentido do que nós. E não tínhamos visto ninguém nem tábuas algumas no meio da estrada.
Ainda por cima, os pneus não estavam rasgados, o que seria de supor se ele tivesse andado um bom bocado com eles furados.
Mas ele insistia. Que era uma barragem de malfeitores, que estavam armados e que tinham feito fogo. O carro não tinha uma beliscadura, estava era cheio de pó e de ervas secas do lado direito, o lado dos furos.
Um dos meus tios, pelo sim pelo não, confirmou se a arma estava a jeito. Os outros lá deram uma boleia ao homem para ir buscar ajuda, um reboque ou uma roda suplementar.
Quando reiniciámos a viagem, a conversa era sobre quantos copos teria o homem bebido e quantos metros é que ele teria andado na berma até furar os pneus.
Já o nosso companheiro de viagem, o único que viajava no mesmo sentido, num Fiat 600, de cada vez que o meu tio acelerava o 1500, começava a fazer sinais de luzes, para que ele não se afastasse muito. Naquele tempo, de Grândola para sul, mesmo de dia, era raro ver-se outro carro na estrada. O meu tio fez-lhe a vontade.
O estranho mundo

Momentos sem escrita possível

09/01/2004

Pessoal e intransmissível

La Habana e outras histórias



Apetecia-me agora invocar aqui outro blogue mas não o faço porque já é demasiado conhecido. O certo é foi mais um que me roubou um post aqui há uns tempos. Um post que mais uma vez não escrevi. Mas tinha a ver com horas.
Ora é de horas e de dias que se trata. Talvez até de locais.
Relembro aquela velha teima entre duas amigas sobre o local onde tinha ocorrido determinado acidente rodoviário. Uma afirmava que fora em Roma. Outra retorquia que fora no Crato.
Ambas tinham razão.
Que horas são as de um acontecimento? A que dia pertence?
Em que dia entrou Fidel em Havana, há 45 anos atrás? É coisa fácil de apurar, não é matéria de opinião.
Mas as referências vacilam entre duas datas: 8 e 9 de Janeiro. Os mais errados dizem que foi no Dia de Ano Novo.
É provável, mas não o sei, que a diferença se deva à diferença horária entre a Europa e a grande antilha.
Sem apurar a verdade - que horas eram e que dia era em Havana - porque a verdade pouco me interessa, digo que foi a 9.
Isto porque se impõe recordar um dos posts que primeiro aqui coloquei:

Fidel Castro había ganado la guerra a Fulgencio Baptista, entrando triunfalmente en La Habana, mientras se rompía el muro de contención de la presa de Vega de Tera, provocando la inundación del pueblo de Ribadelago.

Michel Debré était nommé premier-ministre.

Qual é a tradução para português destes dois parágrafos?


E já agora, a Sopol.

O que é que tudo isto significa? Se é que significa alguma coisa.

As horas de um acontecimento deveriam ser as locais. E a que horas chegou esta última sonda a Marte? E em que dia?
Há um velho livro de ficção científica que tem a resposta. Depois digo qual é.

08/01/2004

O homem voltou! (Os post roubados II)
um post dedicado ao Anarcka



Caramba! Voltou das férias e tem razão para estar magoado.
Primeiro: foi ele que levantou a lebre e até, posso dizê-lo, em minha atenção. O mestre não tinha nada que o citar, sem sequer indicar a fonte.
Segundo: peço desculpa por me não ter lembrado da data de 23. Mas o meu amigo também desapareceu...

Espero que venha com força para continuar.
Os posts roubados

A minha opção por não comentar os últimos acontecimentos, que se baseia na maior parte das vezes no desinteresse que me suscitam, faz todavia com que às vezes me roubem posts.
Não é que eu fosse comentar de imediato a notícia. Já há demasiada gente a fazê-lo e todos passam muito bem sem a minha opinião.
Mas é que, às vezes, há na notícia esse lado fugitivo (fugidio?) que a pode arrastar no tempo como um cavalo arrasta o cavaleiro preso aos estribos.
E é isso que me interessa. Não o diz que disse de porta de café.
Dito isto e perdoem-me mais uma vez a bizarria, roubam-me posts.
Nos últimos tempos tem sido por demais.
É na televisão, vem este e aquele e trás, lá está o ponto.
É em algum jornal ou revista, num mais recatado artigo, lá está.
Também em alguns outros blogues, já verifiquei que tem sucedido.
Ora porra, assim não dá.
Está o homem a começar a teclar e já o copiaram. Nem sequer tem ainda as ideias ordenadas em frases e as ilustrações alusivas, e já estão a bater no ponto. Não pode ser.
Se continuarmos assim, não me resta senão fazer como certo entrevistado que certo dia ouvi:
"Faço deles as minhas palavras."
Outros dirão: É falta de imaginação!
É tinto ou branco?



Um destes acasos fez com que tivesse ficado pregado a um documentário (julgo que francês) sobre o cheiro.
Passou esta madrugada na SIC Notícias sem a indicação final da proveniência.
Já aqui há uns tempos tinha aqui mencionado o museu dos odores. O cheiro a escola, a terra molhada, etc.
A verdade é que, apesar de tudo, sabe-se ainda pouco sobre os mecanismos sensoriais e particularmente sobre o tacto, o olfacto e o paladar.
Eu sou um ignorante profundo destas matérias mas como qualquer outra pessoa gosto de apreciar as questões que se apresentam.
É provável que o documentário em questão ainda passe a outras horas, não faço ideia.
Mas o que ele releva é interessante.
Toda a irracionalidade do comportamento humano (se por hipótese, considerarmos que o racionalismo é uma redução a zeros e a uns, é extraordinário que os mesmos zeros e uns nos permitam comunicar desta forma, colocar máquinas em Marte e que, ao mesmo tempo, estejamos tão longe de entender os nossos próprios mecanismos de leitura) aqui mostrada é um magnífico exemplo para outras considerações sobre a nossa forma de caracterizar as coisas.
O documentário abre e fecha com alguém que perdeu traumaticamante o olfacto. Há uma nota estranha no meio das imagens, vê-se outrem (talvez uma médica) a observar o interior da cavidade nasal do indivíduo. Como se a explicação estivesse ali, à vista desarmada. Talvez não passe de uma imagem documental absurda, à semelhança do aperto de mão para a fotografia ou do voto que fica pendurado dois minutos da ponta dos dedos.
O indíviduo em questão traça o quadro da sua incapacidade. Algo a que estamos habituados com os cegos e com os surdos, mas não com os que não têm cheiro.
Nem sequer há um designação vulgar para essa incapacidade.
Depois há uma série de observações mais ou menos apaixonadas sobre os aromas. Dados sobre a importância do cheiro na sobrevivência (todo o nosso organismo trabalha para sobreviver e para se reproduzir, digo eu), nas memórias, etc.
Há também o lado obscuro e humano dos extremos. Uma cidade canadiana (Halifax) onde parece começar a haver uma estranha luta contra o cheiro.
Sinais de "No scent" e outras particularidades que eu suponho já terão outros locais de acolhimento.
Depois, casos de pessoas que não suportam cheiros (como o mundo está trocado, o homem do traumatismo decerto acolheria de bom grado uma troca) chegando ao ponto de tentarem eliminar das suas casas as partículas que transportam da rua! Como se o cheiro só existisse lá fora, fosse coisa alheia, como se os seus aparelhos de televisão, as suas roupas, os seus alimentos não tivessem cheiro...
Há dúvidas se são ou não doentes psiquiátricos.
Depois o habitual da publicidade, a atracção dos cheiros. Sem nunca se saber se funciona ou não e como é que funciona. As habituais pérolas de que este perfume é para "uma jovem mulher, com alguma beleza, com dois filhos e um emprego, dinâmica..."
Todos os discursos ocos deste mundo. Quando se fala para comentar o que não é comentável.
E finalmente... Não foi no final, foi lá para o meio, uma prova de vinhos: cheira a palha e a limão, se fôr branco. Cheira a framboesas, a madeira, se fôr tinto.
Acontece que o tinto (parecia mais palhete) era branco colorido. Supostamente colorido com algo inodoro!!! Haverá algo que o seja completamente?
O certo é que os supostos escanções de imediato associaram a côr ao aroma.
É branco ou tinto?
Cheio!

a imagem supra saiu de um ficheiro do qual já não sei a origem - as minhas desculpas

06/01/2004

The trusty guy

Peço encarecidamente aos meus leitores que me esclareçam:
Também vós tendes sido premiados com avultadas somas nessa estranha moeda que dá pelo nome de USD only?
Por favor, dizei-me se sim ou se não.
Começo a pensar-me no centro do mundo, pois já conto com a módica quantia de 20,660,000 USD only (usando a notação de origem).
Hoje, porém, já abusando da minha sempre afável solicitude, pedem-me a colaboração a troco de nada.
Sabem-me assim já disponível para ajudar só porque sim.
Informai-me: o mal é geral ou tenho mesmo e-mail de labrego? É que já são nove as graças recebidas.
Eu sei que o dólar está a descer mas segundo os especialistas ainda não chegou aos 400% de desvalorização, tal como certas fontes disseram do peso argentino! Se fosse assim, eu percebia.
Enquanto Carlos
(para se perceber bem quando é que fui Carlos é melhor ler isto)

Enquanto Carlos fazia a minha vidinha balnear ao som de um bar de praia, de vez em quando perturbado pelo apito dum beep emprestado pelo velho amigo R.C.. Era o tempo dessas geringonças.
Mas não andava muito preocupado com as comunicações, estava de férias.
Certo dia, uma mensagem:
GANA BOA 6 FEIRA 21:00

Gana boa?
Que raio será isto?
Cheira-me a mensagem do R.C.. Mas Gana boa?
Se é dele, é para o petisco. Sexta-feira, 9 da noite, bate choco.
Lá fui eu para a praça de táxis perguntar por um restaurante ou tasca chamado Gana Boa, Gamba boa ou Gamboa, tudo o que me pareceu.
Nada. Não sabiam de nenhum.
Nem eu, que conhecia mais ou menos bem a zona.
Fazer o quê?
Não valia a pena preocupar-me. O que fosse, soaria.
Na sexta-feira, um pouco antes das 9 da noite, parei o automóvel na praça principal da vila, em local conspícuo, e lá fui para a taberna do costume. Esperei.
Às 9 e 20, e como nada tivesse acontecido, lá pedi o jantar ao meu intermediário no negócio do alojamento, que já estava farto de me ver ocupar a mesa só para beber cerveja.
Quando chegou o peixe, tocou o beep:
ESTA QUASE

Passou o tempo e nada.
Terminei o jantar pouco antes das dez.
Saí para a rua e lembrei-me de levar o carro para a zona dos cafés, mais abaixo.
Encontrei um lugar bem visível quase, quase em cima da hora certa.
Estacionei e como estava a começar o noticiário na rádio, fiquei dentro do carro a ouvi-lo. Era o tempo da discussão sobre as últimas experiências nucleares francesas nos atóis da Polinésia e sobre o filme do ET de Roswell.
E eis que passa por mim um árabe. Vestido a rigor, de fez na cabeça. Coisa estranha, nunca vi um árabe assim vestido aqui em Portugal. Só pode ser o R.C. e uma das suas entradas de leão.
Saí do carro e interceptei-o.
Começou a falar comigo em francês.
Comecei a perguntar-lhe que história era aquela de Gana boa e ele só me falava em poulets.
Perguntei-lhe se bebia um café e ele que je n'ai pas de escudos, seulement ça, e mostrava-me dirames marroquinos.
Lá bebemos o café e só depois de irmos ao jipe dele, onde trocou de roupa e me mostrou um balde com uma galinha viva dentro, me contou a história, já em português.
Que me tinha mandado uma mensagem a marcar hora dizendo "Gaja boa, 6ª feira, 21:00"
Ah, gaja boa, porra, as voltas que eu dei à cabeça.
E depois mandou outra que eu não recebi, dando a indicação do local onde se apresentou depois, vestido de árabe, com o balde com duas galinhas, as quais fingia vender.
Toda a gente lhe achou graça, mas ninguém lhe comprou nenhuma.
As moedas marroquinas eram para o troco.
Ofereceu a que faltava a um casal de namorados.
Bem, lá levei foi o homem a um petisco, que ele estava era com fome.
Depois, levei-o lá a casa para deixar o saco e a galinha.
É claro que a minha senhoria apareceu logo no quintal e assim se habilitou a ganhar o último prémio da noite.
Só achou é que a galinha estava um bocadinho magra.
Nada que não se resolvesse com ração.
Depois lá partimos à caça, mais para sul. A ver das ganas boas.
Uma semana depois, quando um dos meus primos passou por lá, veio a senhoria a correr dizer-lhe: "Já viu como é que está a galinha? Muito mais gorda."
O meu primo: "?"
Quando ela finalmente percebeu que não era o mesmo, disse:
"Pois, desculpe lá, quem me deu a galinha foi o Carlos!"

imagem obtida em www.smartbeep.com/.../motorola/ motorola_elite.htm (link perdido)
As raparigas riam-se

Às vezes, no meio de uma aula, as circunstâncias levavam a alterar o rumo da lição.
Naquele dia, a propósito de perspectivas e de fotografias que os alunos tinham trazido, levantou-se um emocionado sururu com base numa foto mais antiga que mostrava umas senhoras em trajes à moda de uma década longínqua.
Risadas - esta é a minha tia-avó. Gritinhos - esta é a minha mãe ao colo da minha avó.
Quando o professor, depois de observar as fotografias, lhes perguntou se achavam que as roupas eram assim tão diferentes das actuais, não hesitaram, ainda entre risinhos, em dizer que sim:
"Ò s'tôr, não diga que não são!"
"E concordam que as coisas evoluíram muito desde esses anos?"
"Evoluíram como?"
"Se vocês acham essas roupas estranhas, é porque hoje as vossas são muito diferentes, certo? Não foi isso que disseram? Então houve uma evolução."
Mais risinhos. Que sim. E falam das roupas dos artistas de um espectáculo de há anos, que passou há poucos dias na televisão.
"E então, o que é que acham que vai acontecer quando as vossas netas virem as vossas fotografias?"
"Nada!"
"Nada? Não acham que elas se vão rir também das vossas roupas?"
"Não. O que é que as nossas roupas têm de especial? Não andamos com vestidos de alta costura! Ai delas que se riam!"
"Pois não. E essas roupas da fotografia, eram assim tão especiais?"
"Ò s'tôr, então não são? Não diga que não são engraçadas!"
"Tão engraçadas como as vossas serão daqui a quarenta ou cinquenta anos."
A argumentação aqueceu. Mas quando a aula acabou, ouvia-os falar a caminho da porta: "Achas que sim? Achas que se vão rir das nossas roupas?"
Gasolim e as encruzilhadas

versão alargada de post velhinho

05/01/2004

O fotógrafo não estava lá



imagens de http://marsrovers.jpl.nasa.gov/gallery/all/spirit.html
Mea culpa

Depois de ter visto algumas imagens na televisão e lido alguns jornais espanhóis, fico convencido de que ontem se verificou algo mais do que o cíclico espectáculo dos meteoros. Parece que, no meio das Quadrantíadas, umas pedras maiorzinhas entraram a atmosfera. E foram anormalmente visíveis.
Sendo certo que a previsão de visibilidade destes fenómenos envolve uma diversidade de elementos, uns mais fáceis de avaliar como a nebulosidade, outros menos, como as características do corpo e o seu comportamento ao atrito atmosférico, o facto é que estão determinadas as zonas do trânsito da Terra em que há maior probabililidade de ocorrência destes fenómenos.
Sabia-se que ontem era um desses dias.
Também se sabe que, de vez em quando, caem umas maiores.
Da minha janela, há muitos anos que uma depressão de terreno de forma circular me interroga: serei eu uma pequena cratera formada por um meteorito ou uma depressão causada por abatimento natural do terreno?
Respondo-lhe quase sempre que deve ser a primeira hipótese.

O tempo dos monos



Os monos de que falo são aqueles restos de colecção que ninguém quer.
Podem ser gravatas, laços, jarras, garrafas, ursinhos de louça, alguidares de plástico, livros, qualquer pechisbeque.
Talvez eu esteja enganado, mas fico com a sensação de que se operou uma mudança profunda desde o célebre trauma da velha retrosaria.
Eu confesso que sou um tanto ou quanto nefelibata e que as coisas por vezes passam por mim sem que eu lhes preste a devida atenção. E até quando despertam em mim alguma curiosidade, desleixo-me e por vezes perco boas oportunidades.
Foi o que sucedeu com a velha retrosaria de uma terra vizinha.
Certo dia, reparei que na montra havia um conjunto de monos interessantes: gravatas estreitas, ao meu gosto, laços, um mundo de pequenos adereços masculinos que ninguém queria.
Os preços eram escandalosamente baixos. Era aquela promoção ou liquidação final, mais propriamente.
Marquei a loja com um X, na mira de lá entrar e arrematar discretamente aquele espólio.
A verdade é que também não sou muito de andar por aí a comprar peças de vestuário. É mais quando é preciso.
Assim, a minha inacção, é amanhã, é para a semana, revelou-se desastrosa.
Um dia passo para nova verificação e já estava tudo estragado.
A loja mantinha-se igual, mas não posso garantir que não tenha mudado de proprietário.
Os objectos na montra eram mais ou menos os mesmos.
Só que os preços tinham sido multiplicados por 20 e por 30, até 40.
Alguém decidira que a partir de certa altura, os monos já não eram monos, eram raridades.
Temo que todos os monos interessantes se estejam a converter em raridades e a ficar fora do meu alcance orçamental. Quem manda viver nas nuvens?

04/01/2004

A ignorância meteórica



Parece-me que hoje estou votado às actualidades.
Logo eu, que tão pouco gosto de comentar as últimas horas.
Mas esta ignorância abissal de jornalistas e comentadores, embora não seja nova, dá-me sempre volta ao estômago.
Ou eles se fazem de parvos em nome do espectáculo, da sensação, ou então não sei...
De vez em quando apregoam chuvas de meteoros como se fossem coisas verdadeiramente únicas. Muitas vezes quando as previsões atmosféricas já deixam antever péssimas condições de visibilidade.
Hoje, quando toda a gente sabia que as condições pareciam ser boas para tais avistamentos, fazem parangonas das bolas de fogo no céu. Dizem até que em Portugal já se sabe que são meteoros, mas em Espanha ainda não há explicação oficial!
Há depois um senhor que diz que foi agora informado que se trata das Quadrantidas ou Quadrantíadas e que sim, que estava previsto, segundo lhe disseram.
Não há limite para a ignorância. Mas não era suposto que quem nos informa, nos informasse mesmo?

imagem em
Vamos a votos

Já muitos outros se devem ter lembrado disto, não é nada de novo.
Mas que era um boa maneira de matar dois coelhos de uma cajadada, não há a menor dúvida.
Isto porque, apesar de não ser um amante apaixonado do mundo do pontapé na bola, hoje estou tocado pelo espírito daquela cidade britânica, como é que se chama? Derby, acho eu.
Já aqui fiz referência à minha côr clubística. Não é nada de muito importante ou talvez seja.
Mas voltando à vaca fria, dizia eu que há uma boa forma de esclarecer de vez, pelo menos por quatro anos, aquela dúvida que paira sobre todos nós:
"Haverá seis milhões de benfiquistas?"
Eu confesso que não sei. Nem sei como é que é possível saber sem irmos a votos.
As amostras não chegam. É preciso ir mais fundo.
Eu próprio nunca cheguei a saber muito da côr clubística da minha família. Às vezes, por um acaso descobre-se qualquer coisa. O espanto que foi para mim perceber que o meu avô materno tinha simpatias sportinguistas, que a minha avó era vagamente benfiquista, que a minha mãe gosta que o Sporting ganhe.
Saber ainda que um dos meus tios desligou certa vez a televisão quando o Manuel Bento sofreu o quarto golo. Nunca me tinha passado pela cabeça, confesso.
Quanto ao meu pai, nunca dei por nada. Fico hoje com a impressão, ligando isto e aquilo, que poderia ser benfiquista. Não sei.
Ora tudo isto releva, digo eu.
Como é que o cidadão comum sabe quantos torcedores tem o seu clube? Não sabe. Usa daquela magnífica manobra intelectual que é pensar de acordo com a vontade (já que hoje é dia de Derby, wishful thinking).
Por isso, é da mais elementar utilidade fazer uso da máquina eleitoral para apurar o verdadeiro sentimento do povo.
Reparem que o voto flutuante é quase nulo (não se diz que se troca de mulher, de religião e de partido mas nunca de clube?).
O voto útil já constitui um problema. Tende a eliminar os clubes de menor dimensão. Há inúmeros casos de simpatia pelo Oriental e pelo Belenenses, e é certo que sairão prejudicados todos os clubes que figuram em segunda e terceira prioridades. Mas isso é o que acontece também com os pequenos partidos. Poderíamos eventualmente considerar desde já uma revisão da lei eleitoral.
Mas o importante é conseguir chegar a um resultado eleitoral expressivo. Conhecer as verdadeiras preferências dos portugueses (porque não dos brasileiros? - mas aí eu não posso nem devo interferir).
Ao mesmo tempo, conseguia-se uma eliminação espectacular da abstenção. Integrar um referendo deste tipo numa eleição parlamentar seria um autêntico ovo de Colombo (ou Cavalo de Tróia?).
Por último, já repararam que nem sequer seria preciso fazer uma campanha eleitoral?

Não é por nada, mas

Gasolim em estradas inexistentes

Marte à vista



Se não me engano, recitava-se a Aida no Estádio de Honra, na vertente do Jamor, ao tempo em que a curiosidade apertava para ver as imagens de Marte.
É certo que já se tinham visto as fotografias da Viking, mais ou menos vinte anos atrás.
Mas já na época da informação instantânea, a coisa era diversa. Muitos nem sequer cá estavam ainda na noite em que se esperou ver e se viu como era a Lua.
Hoje, depois do ainda presumido falhanço da nave europeia, renasce a expectativa.
Só não entendo esta catadupa de comentários, aparentemente feitos por especialistas, sobre a relação entre água e vida.
Água e vida. Água e vida. Então não são capazes de imaginar formas de vida independentes da água? Tem toda a forma de vida que ser uma mistura de gato e de alface?
Se não é assim, e se ela fôr detectável à nossa escala, é bem provável que não dêem por ela, se a encontrarem algures, em algum tempo.
Fazem-me lembrar, mal comparado, aquele participante de um qualquer concurso Nem Sim Nem Não, que certa vez ouvi na rádio.
Depois de ter resistido alguns segundos sem dizer as duas palavras proibidas, lá se espalhou.
Quando o apresentador lhe perguntou: “Então, amigo, como é que foi isso?”, respondeu: “É que eu estava tão concentrado em não as dizer, que me distraí!”

imagem da página da NASA
O homem da casa

O herdeiro natural



Já me tinha apercebido de que as minhas cartas à Junta de Freguesia tinham pouco acolhimento.
Mesmo que fosse a anunciar a criação de uma página sobre a vila, oferecendo os préstimos a troco de nada.
É que há sempre a hipótese de eu estar a trabalhar para ter direito a uma placa com o meu nome numa esquina disponível.
Depois, pus-me a pensar. Não pode ser só isso. Não serei eu o herdeiro natural da cadeira de presidente dos fregueses?
Isto de carregar dois apelidos que se revezaram na referida cadeira durante décadas dos séculos XIX e XX, não terá como consequência óbvia a minha entronização no meio de foguetório e arruada?
Se calhar, tem.
Qualquer passo meu em direcção à porta da junta, mesmo que seja só por carta, deve ser visto como mais um marco na minha caminhada triunfal.
Pois é, está explicado. Já sei que nunca vou obter resposta às minhas missivas.
Aqui para nós, uma vez tive. Há uns bons anos, pedi para consultar uns canhanhos.
Puseram-me à disposição a secretária do presidente.
O que é que acham? Candidato-me ou não?
Um dia falarei das movimentações que estiveram por detrás de uma minha suposta candidatura (imaginem!) à Câmara Municipal!
Amigos do Brasil, há quem me diga que eu ando a ver muitas novelas.