10/04/2004

Arroz de marisco

Hoje não é dia para essas coisas.
Vejo mais a preocupação no cabrito e no borrego.
Mas se calhar, vem a propósito falar dessas ondas de prato único que nos assolam como modas de Primavera – Verão.
Dizem-me que já não há colecções de Primavera – Verão e Outono – Inverno. Que agora a coisa é mais diluída...
Voltemos à mesa.
Mais uma vez, estas coisas não são novas. E muitas vieram de longe.
Imagino o que terá sido quando se vulgarizaram as batatas. E o bife.
Ainda hoje lhe ferramos o dente, eu que o diga.
Mas que volta e meia, há estes surtos de pratos que se encontravam confinados a meia dúzia de sítios, é um facto.
Vivi ainda tempos em que se buscavam os locais para se provarem as especialidades.
Hoje, comem-se coisas daqui e dali em qualquer local do país.
E volta e meia, vem a onda.
Assim de memória recente, vem-me o arroz de marisco e o porco preto.
Claro que há mais. Mas estas redescobertas cheiram-me sempre a whisky em cima do almoço.
E eu cá sou madronhêro.

Bom apetite e boa Páscoa.

09/04/2004

A razão que eu tinha

Há poucas coisas piores do que isso.
Vês? Vês como eu tinha razão? Eu não te disse?
Em primeiro lugar, esta é uma frase que não se pode dizer.
Em segundo, contrariando o primeiro, mesmo que se diga, de nada serve.
Em terceiro, contrariando o segundo, se serve é para alargar distâncias.
Mas o diabo é que se diz. E diz-se sempre.
O outro perguntava à evangelizadora porque é que ela insistia em querer salvar os outros.
Ela respondeu-lhe com uma pergunta:
Se visse o seu filho à beira de um precipício não corria para o salvar? Não lhe chamava a atenção para o perigo?
Ao que ele respondeu:
E porque haveria eu de ver o precipício, se ele próprio o não via?
E se visse, supondo que via, o que faria?
Supondo que via, que o precipício existia, avisava-o, mandava-o recuar, abeirava-me, saltava e depois dizia: Vês? Eu não te disse?
E sítio



imagem do SNIG

08/04/2004

Lápide

Talvez te sintas melhor assim.
Nunca conviveste bem com a popularidade.
Achavas até que te confundiam com outro, como quando os estudantes brasileiros te disseram que te conheciam pela obra.
É curioso que não haja na rede (existe agora uma rede de comunicação e de informação à escala global) uma só menção ao teu nome.
Talvez prefiras assim.
Quantos serão os portugueses que não conhecem, não usam a tua obra? Poucos, muito poucos.
Quantos já não a admiraram, sem saberem quem fez aqueles traços, quem calculou aqueles pilares?
Demoliram uma delas. Não, não tinha nenhum problema. Foi o progresso. Coisas novas. Mas o serviço que fazia, e que não foi substituído, faz falta. Mentalidades.
De um jornal, uma pessoa atenciosa mandou-me várias fotografias da demolição.
Vê-se a qualidade da coisa, que foi má de deitar abaixo.
Retribuí com uma foto dos primórdios.
Para minha surpresa, teve destaque de primeira página. Sem que eu quisesse, lá apareceu o teu nome.
Ainda não as descobri todas. Naquele dia, no metro, em que falámos da tropa, das manobras de Pegões, das cento e tal obras, não pormenorizámos o suficiente. Fazia-me falta um arquivo, um caderno.
Assim, tenho usado as tuas agendas de bolso, uns blocos que me entregaram, cópias dos arquivos oficiais, ozalids que encontrei dentro de baús, fotografias, uns dossiers de projecto, rabiscos em mapas do ACP e já descobri cinquenta e seis. Para aí metade. Mas há muitas outras para as quais olho e em que vejo os traços de família, falta o teste do ADN.
É bom, muito bom um fim de tarde à beira do Mira. Ao pé de uma das que mais gosto. Não, não é aquela grande. É a que chamam do Salvador.
Isso deu-me outra ideia.
Um dia conto-te.
Tenho saudades tuas. Já lá vão vinte e três anos.
Pois é, ainda não tens netos. Mas as tuas árvores têm sobrevivido.

É verdade. Nunca te tratei por tu.
Pirraça



Pois é.
Em homenagem aos mais de cem visitantes que aqui têm vindo em busca do sistema milagroso, e os quais curiosamente aqui entram através de um resumo semelhante a este:



Na verdade, o sistema existe e não está à venda. É tão elaborado, tão elaborado que nunca acertou.
Apesar disso, na semana passada por exemplo, ao desdobrar os 49 números segundo critérios que têm em conta tão só intrincadíssimas intersecções estatísticas, gerou 4 chaves.
Das 4, uma foi premiada (3 acertos).
Digam lá se não são capazes de fazer o mesmo, pedindo os números a quem está ao vosso lado no café. Acho que sim.
Mas claro que vou jogar.
Daqui a umas horitas, quando ele completar os cálculos, já que à primeira mostrou não existirem chaves que passassem por todos os filtros, lá irei eu também com o boletinzinho na mão.
Boa sorte, que ganhe o mais sortudo. Tenho a certeza de que será assim.
Há vinte anos que ando nisto. Manias.

07/04/2004

Mar das Antilhas

Descobriu a fotografia a meio da manhã
Num semi-deserto povoado de nómadas
Que pagavam caro a sua estadia sazonal.
Deixou-se ficar junto da praia,
Admirando as gaivotas na pequena lingua d'areia
E auscultando o mar.
Desejou regressar à pequena cabana de colmo
Para se bater com um peixe fresco
E provar o tal branco que fresquinho...
E recordou as tardes de água verde
Escorrentes e embaladas
Pelo som de segredos ciciados no seu corpo.
Entendeu o prazer como um corolário meditabundo
De pós-guerra
Pondo na lembrança as mulheres possuídas.
Resumiu as vivências acumuladas
Numa canção recuperada às juke-boxes
De verões sessentistas e sorriu.
Gozando sol e mar
Nas suas paragens preferidas
Largou fumaças sob as escuras lentes.
E então contemplou o casario longínquo,
De branco pintado entre palmeiras e muros,
Mirou o imponente castelo
Que parecia flutuar sobre as areias e o rio
E, àvidamente, descobriu a fotografia!
Faltavam sete minutos para o meio-dia!

SG, "Dizeres do Sul", 1993

05/04/2004

Muda ós 5, acaba ós 10

A coisa sempre me fez espécie.
Mudava aos cinco, acabava aos dez. Mas a vantagem era sempre dos que começavam por baixo.
Eu explico.
O largo ainda é inclinado. Só que agora já não estão lá os bancos de betão que até nem eram muito bonitos, até pareciam ter sido feitos com os mesmos moldes de algumas das vedações da CP. Não daquelas dos losangos em negativo. Das outras, que se viam mais na província.
Está lá agora um chafariz mal parido. Desenhado na certa pela filha daquele senhor que se gabava de ter uma filha com jeito para o desenho.
E o largo soçobrou às exigências viárias. Como se ali houvesse horas de ponta e necessidades de três faixas em cada sentido. Um mistério.
Mas voltemos.
Fazia-me espécie.
O banco de baixo, o da direita, e o de cima eram as balizas.
A coisa chegava ao intervalo aí com um 5-0, um 5-1 para os que vinham de cima para baixo.
E terminava com uns 6 ou 7 a 10. Ganhando os outros.
Foi sempre assim.
E nunca ninguém barafustou.
No dia em que o Zé Inácio aliviou directamente para os vidros da janela do Sr. Hipólito, percebi porquê.
Ninguém disse: “Foi aquele! Não fui eu!”
Já não me lembro se fugimos todos.
No topo da pirâmide



Há em todos nós um pedaço de Deus. Mesmo para o ateu que vos escreve assim é.
Não se trata de fé, do sublime, do divino.
Trata-se da luz.
Todos temos a tentação da luz.
De nos sentirmos iluminados e de termos que iluminar os outros.
Não falta quem queira dar lições disto e daquilo. Incluo-me no lote, não quero ser mais divino do que os outros e gozar da suprema humildade e da suprema presunção.
Mesmo ao dizer isto, julgo poder reconhecer uma certa pesporrência. Paciência. Sou humano.
Mas no meio deste lote, há casos e casos.
Há os que afirmam mas ouvem os outros. Há os que afirmam e não querem saber.
Há os que encontraram a solução. Há os que duvidam de tudo.
Há os que estão sempre numa destas posições e há os que oscilam entre elas.
Às vezes gostava de saber em qual delas estou.

03/04/2004

Uma guerra

Então não foi? Uma guerra dos diabos!
J. olhava em volta e interrogava-se: de quantos sítios te podes tu gabar de conheceres tal e qual como estão hoje, há mais de vinte anos?
O dono da casa nem precisava de pedidos. Servia sempre de acordo com as memórias.
Volta e meia, assegurava-se: Falta alguma coisa?
Foi ou não foi uma guerra? Tás a ver?
Mostrava-lhe uma mensagem SMS que incluía uns cumprimentos para o J.
Da Finlândia, dizia ele com ar triste.
Assim ficaram, tarde adentro, comendo e bebendo.
Foi uma guerra.
As imagens do penalty

Chegou e disse.
Repara bem nas repetições das imagens do penalty.
Agora diz-me se és capaz, se alguém é capaz de dizer que é ou que não é.
Mas repara bem que há milhões a vociferar. Quase todos ao lado da equipa pela qual torcem. É certo que há uns quantos que tomam o partido contrário. Uma minoria. Mas não penses que são melhores, também eles estão plenamente convencidos do que viram.
E tu?
Eu? Eu não gosto de futebol.
Enganas-te com outras coisas...
Saiu e tinha dito.

01/04/2004

Logro

Vamos dizer mais mal de ti ou de mim?
Dos dois, pá. Sem personalizar.
Mas tu é que te ajoelhaste aos pés do pai dela.
Mas pensava que era ela que vinha à porta.
Enganos. Mas ponho o quê? Os teus amigos?
Sim. Os teus amigos são insuportáveis, qualquer coisa assim.
O.K.. Achas que a letra tá boa assim?
Tá. Achas que ele vai olhar muito para a letra? É letra de gaja e chega.

Então, ele mordeu o isco?
Não te disse nada?
Não.
A mim disse-me. Disse-me que não percebia nada daquilo.
Então?
Ó pá, não percebia nada daquilo. Quem é que teria escrito a carta a ela. Acho que ele pensa que foste tu!
Pensa?
Se não pensasse, tinha-te dito. Ele pensa que foste tu e está admirado por ela ter respondido.
Quer dizer que vem esperá-la ao comboio?
Vem. Deve estar a aparecer.

Devíamos ter ficado do lado de lá.
Pois é. Mas onde é que a gente se escondia?
Eh pá, não nos escondíamos. Ficávamos ali ao pé da cancela e aparecíamos como quem não quer a coisa.
Aí é que ele desconfiava logo.
Achas que sim? Assim também não vemos a cara deles...
É agora! Apostamos?
Que ele falou com ela? Pois falou. Então para que é que viria esperá-la?
Olha! Olha-me bem para aquilo!
Eu não acredito! Ela está a ler a carta!

Ele não te disse nada?
Não.
Então é porque pensa que foste tu. Mas também acha que fui eu.
Então?
Disse-me seus cabrões, foram vocês. Mas depois disse-me que não percebia porque era mesmo a letra dela, frases dela...
E engatou-a?
Não sei. Acho que sim.
M 16

O homem tanto insistiu que eu fiz-lhe a vontade:



É o resto. Agora só depois do Natal. Já viu nos outros lados que eu lhe disse?
Já. Em Portimão, não há loja de ferragens em que não eu tenha já comprado o stock.
Vá a Faro.
Naquele dia, São Pedro estava zangado com os algarvios.
Seguiu para Lagos, decidido a bater o Algarve de lés a lés. Não podia era voltar de mãos a abanar.
A caminho do Alvor, à porta de uma oficina, um grupo de homens parecia divertir-se com as possibilidades de negócio que um enorme lençol de água mesmo em frente à porta, lhes oferecia.
Até Lagos, a fustigação não parou.
De casa em casa, feito um pinto, fez o pleno de não temos.
Até Faro, experimentou os poucos depósitos de materiais de construção que lhe faltavam. Chapéu.
Ooops, lá se vai o outdoor. Parou para tentar arrastá-lo para fora da faixa de rodagem, mas ainda bem que apareceu a BT. Nem saiu do carro.
Horas de almoço à entrada da cidade. Chuva em barda.
Entrou no grande centro comercial que lhe permitia estacionar mais ou menos ao abrigo.
Saiu com um atado de livros em saldo.
Tal como em Portimão e em Lagos, verificou a amável cooperação corporativa do comércio especializado: Já foi a tal sítio?
Como dizem os discípulos de La Palisse, foi no último que encontrou.
Já estava a tomar as coordenadas de Olhão e Tavira, quando ouviu o velhote: Quantos quer?
M 16? Tem varão M 16?
O homem ria-se. Será que o senhor quer assim tantos varões?
Levo tudo.
Ainda hoje se gaba de ter esgotado o varão M 16 no Algarve no último Natal do século XX.
Lembro-lhe que foi só entre Lagos e Faro.
Replica ele que, a acreditar no que lhe disseram, não valia a pena procurar a Sotavento.
Em São Brás de Alportel foram registados 124 mm nesse dia. 7,75 varões M16 em cima uns dos outros.


Sem comentários.

Imagem de

31/03/2004

Outras descrenças

Elaborar uma mentira de 1 de Abril que tenha tanto sucesso como a célebre praga (ou nuvem) de pirilampos não seria muito difícil.
Apesar da generalizada descrença, há sempre pontos fracos que se podem explorar.
Com a dependência informativa de telejornais, rádios e imprensa propriamente dita levada a níveis nunca antes experimentados, uma concordância entre estes num terreno propício a logros, levaria decerto a resultados surpreendentes.
Num plano diferente, e guardadas as distâncias, tomemos o exemplo da onda gigante que se aproximava da costa algarvia naquele dia de Agosto de 1999.
Independentemente da justeza da decisão das autoridades de mandar evacuar as zonas costeiras, há que reter que a inverosimilhança do fenómeno (ainda que possível) não deixou de influenciar multidões, ao que me disseram e ao que se viu e ouviu nos noticiários da época.
Talvez que a data de 1 de Abril já seja demasiado óbvia para pôr em campo um dispositivo de engano. Mas que precisávamos de um estímulo parvo qualquer que nos animasse e nos fizesse sorrir, nem que fosse o sorriso amarelo do desengano, não tenho grandes dúvidas.
Nunca mais é sábado


30/03/2004

A resma

Como nos clássicos e nos menos clássicos (espero um dia vir a entender o critério de atribuição da clássica qualidade), apareceu-me aqui na secretária uma resma de folhas dactilografadas a espaço e meio.
O autor, é claro, é dado em parte incerta.
O portador foi de poucas falas, apenas disse que era mais velho do que o prédio onde encontrou o maço de folhas. Não percebi o significado das suas palavras, confesso.
São folhas A4, folhas de carta modelo americano, folhas quadriculadas arrancadas a cadernos comprados ao velho Carvalhosa e outras de duvidoso formato.
O tipo é de dois tipos. Temos uma Adler do início do século passado e uma Messa dos anos setenta.
O que lá está escrito, só Deus sabe.
Surpresas boas quando o calor tarda em convidar à praia.
Pensar que há dois anos, os primeiros dias de Março foram balneares...
Ah, estão depositadas num arquivador diário da Eril, com a referência 502/80. E parecem mais do que uma resma. É tudo.

29/03/2004

Contador

Testando a possibilidade de unificar a contagem das visitas aos três blogues.
Fato domingueiro
Um post de domingo, à segunda-feira



Estamos descrentes. Não é com o governo, não é com a oposição, não é com o futebol, não é com o país, é connosco.
A um ateu e agnóstico (há quem defenda que estas duas qualidades não convivem) não há sublime crença que lhe valha. É o meu caso.
Mas não considero que esteja a subsumir a partir do que sinto. Olho em volta e vejo o mesmo. Poderei estar equivocado, é uma forte possibilidade. Mas parto do princípio de que não estou.
E então, porquê?
Porquê esta descrença e este aparente fastio?
Só tem fastio quem está de barriga cheia – dizem há muito alguns.
Mas o fastio por ora fica de parte, vamos à descrença.
Alguns dirão que a queda dos deuses e dos medos é a responsável por ela.
O temer a Deus já não faz parte do vocabulário. Mesmo para os crentes.
O mundo ocidental caracteriza-se hoje pela ausência do medo. Adiante (mas não aqui) se verá se ele regressa ou não. O meu palpite é que não. Pelo menos, a médio prazo e salvo circunstâncias extraordinárias como a ocorrência de pestes ou a previsão de cataclismos de dimensão muito superior aos conhecidos.
Não há medo, não há temor, não há novidade.
E não há sonho.
Grande parte dos povos que constituem a sociedade ocidental vive numa estabilidade sem meta. Os sonhos são os que todos sabem, as coisinhas do costume.
A própria sociedade deixou de prosseguir grandes objectivos. Se é que alguma vez o fez. Mas ao conferir a grande parte dos seus elementos um certo bem-estar, deixou de ter visão prospectiva. Empenhou-se essencialmente numa maior unificação. Talvez levando o carro à frente dos bois.
Ao conseguir um certo bem-estar, a maioria da população anseia por mais qualquer coisa, sem saber o quê.
Ao atingir determinados patamares de conhecimento e de intimidade com os senhores, perdeu o medo, fez comparações e viu esfumar-se o sonho.
Apercebeu-se de que não há uma glória em ser isto ou em ser aquilo.
As próprias metas de descoberta que poderiam potenciar novos sonhos, estão pouco visíveis.
O racionalismo tropeçou na falta de dados e na dificuldade de os tratar, à medida que a precisão exigia mais.
E somos atacados pelos bárbaros, pelos novos bárbaros.
Não creio que estes, por ora, possam causar maior dano.
Mas estou convencido de que vivem num patamar onde os temores e as crenças são caldos que proporcionam o sonho e a vontade.
A vontade deles será acabar com a nossa civilização. Sem saberem muito bem como e porquê. Mas alimentam esse desidério.
Continuo ainda convencido de que o nosso maior inimigo é o sonho. A ausência dele.
Já ninguém veste um fato domingueiro.

imagem adaptada de

27/03/2004

Um conto



Um conto sobre varão roscado?
Sim. Por que não?
Um conto sobre varão roscado? Parafusos e porcas?
Sim. Mas o essencial é a demanda. A demanda pelo varão, o clima, a chuva copiosa, as pessoas, a estrada, os livros em saldo.
Os livros em saldo?
Sim. Se não fosse pelo varão, jamais teria comprado aquele lote em saldo.
E depois? Achas que chega para um conto?
E o que é que chega para um conto?
Sei lá.
Mas sabes que uns metros de varão roscado, mesmo que seja M16, não chegam...
Não sei, acho que não...
Nem com aquele painel publicitário a cair rés vés ao carro da polícia? Ou os mecânicos à porta da oficina à espera que alguém ficasse no lençol de água?
Não te lembras de mais nada?
Do recheio das casas de ferragens...
Não escrevas.

imagem de
Uma tíbia à porta do cemitério

Ia às vezes para aqueles lados.
Entre muros, as ervas escondiam antigas lápides, algumas belamente trabalhadas.
O panorama para o exterior, junto ao muro baixo dos fundos, era deslumbrante.
Naquele dia, estranhei encontrar uma tíbia, esquírolas e restos de dentes junto à porta.
Entrei e vi o que não queria.
Pedras partidas, grades arrancadas, fezes de animais, uma triste revolução sobre as sepulturas.
Fiz uma ronda e levantei grosseiramente os estragos de um estranho vandalismo, dificilmente atribuível.
No posto da guarda, assim que vi que o plantão era maçarico, e que não o conhecia, limitei-me a descrever o que tinha visto e a pedir que comunicasse ao comandante, depois de me identificar.
No dia seguinte, encontrei o comandante do posto. Tal como eu suspeitava, não fora informado.
Falámos demoradamente e ele quase se desculpou por deixar que tal tivesse acontecido.
E que falaria com os responsáveis locais. Estava convencido de que ninguém, a não ser eu, se apercebera do ocorrido.
Retorqui com uma pergunta respondida: “Sabe de quem é a culpa? É de nós todos.”

Nas eleições seguintes, houve até quem incluísse uma alínea no programa para falar na valorização do cemitério velho.
Houve depois até uma reportagem num dos canais de televisão.
Tudo continuava na mesma, da última vez que lá fui.
A culpa é de quem?

26/03/2004

Água


Faladura

Que o povo fale de cor, na rádio e na televisão, tudo bem. Sempre foi assim, agora só é mais visível.
Que certas personagens falem do que não sabem, é normal. Sempre foi assim, agora só são repetidos mais vezes os seus dislates.
Que haja uma espécie de opinião unânime a respeito de um facto, é normal. Nada mais fácil do que criar unanimidades.
Que seja tudo baseado em disparates, em coisas que muitos viram sem ter visto, em coisas que muitos sabem sem saberem, também é normal. É a história que o diz.
Mas ainda há quem não ceda a estas unanimidades emocionais.

25/03/2004

A estranha palavra ou os sinais imprevisíveis

Usara aquela palavra a despropósito.
Sempre designara assim certas coisas desde que se lembrava.
E nunca percebera porquê, como se isso pudesse ser percebido.
Naquele dia, desmanchava a tenda, depois de uma feira de cem anos.
Abriu até pela primeira vez em mais de meio século, uma certa porta.
Viu o azul celeste debaixo do amarelo, debaixo do cinzento, debaixo do branco, nas camadas de cal.
Fosse para onde fosse que demorasse o olhar, sentia a alma da casa a ranger.
Era a ele que cabia fechar as portas, à quarta geração.
Nesse momento, a sua ama entrou-lhe pela porta. Não a via há alguns anos.
Como se os sinais se houvessem de se juntar teimosamente, ouviu-a na outra ponta dos dois quartos, feitos um, feito espaço público, murmurar:
“As voltas que eu dei para perceber porquê...”
E ali mesmo, revelou o segredo, quarenta anos depois.

24/03/2004

Gasolim às portas

Ei-lo de volta



Por um bambúrrio, não pode ser outra coisa, o sol bate no écran do monitor exactamente entre equinócios.
Não houve aqui mão de astrónomos antigos, apenas o concurso de técnicos mais mão na massa.
Este exactamente é uma simplificação óbvia. Mas entre o primeiro dia de Primavera e o último de Verão, já sei que para o fim da tarde tenho encadeamento.
Reparti a minha vida durante 42 anos por duas casas diferentes. Em nenhuma delas verifiquei qualquer relação especial entre esta astronomia solar e os meus espaços preferidos.
Talvez nunca me tivesse preocupado com o assunto.
Nunca construí nenhum relógio de sol em nenhuma delas, mesmo que imaginário.
Mas tinha e ainda tenho na que me resta a possibilidade de desfrutar de uma câmara escura que me permite captar as imagens da rua no tecto do quarto.
Nada mais do que o acaso permite que em certas circunstâncias de luz e de inclinação do sol tenha uma nítida imagem do que se passa lá fora projectada sobre a minha cama.
Nada disto é novidade para muitos de vós. Terão com toda a certeza observado muitas destas incidências nos locais onde vivem.
Acontece que este é o segundo equinócio de Primavera que passo sentado a esta secretária.
E no ano passado, tinha observado o fenómeno. Mas esquecera-me. Agora o sol fez questão de me o recordar.
Fica registado.

imagem adaptada de

23/03/2004

Outra vez a memória



Possa um homem convencer-se de que possui uma boa memória, que ela não tardará em pregar-lhe uma boa partida.
Costumava desprezar os comentários em programação, por inúteis.
Quem programa sabe o que faz e saberá o que fez, amanhã como hoje.
Ora não é bem assim, já o sei.
Já me aconteceu ter o trabalho de perceber o raciocínio que seguira, anos antes, ao fazer determinado programa.
É que ao olhar para aquelas variáveis e funções, estava quase como o jumento defronte do paço.
Depois de agarrar a ponta do fio, foi fácil dobar a meada. Mas descobri-la levou tempo.
Fui buscar uma fotografia minha desse tempo e coloquei-a ao lado de uma actual. Depois, disse à mais antiga: “Se encontrasses este homem na rua, também não o reconhecias, pois não?”
Senti-me vingado.
Paixão seguindo São Romão (II)



Sentiu o costumeiro arrepio quando o primeiro solavanco do comboio deu ordem de marcha.
Ia despedir-se do último dos homens do seu sangue.
Absurdamente, transportava consigo um caderno preto e a máquina fotográfica.
Alternava entre a tinta e os raios de luz para registar as impressões fortes da jornada.
A tristeza do objectivo, a beleza da paisagem tantas vezes percorrida e a tanta luz diferente, que notas lhe mereceriam?
Ou seria pela ilusão de uma mulher na ponta da linha?
Na ponta da linha, presa a que estranho feitiço?
Gostava que este comboio se mantivesse assim, com poucas alterações desde o tempo em que o tomara pela primeira vez, recordando os criados de branco chamando para a segunda leva de bife com mostarda.
Isso não se mantivera.
Mas ficara o alumínio canelado, as portas de correr, o cheiro metálico.
E logo os combinava com a imagem da mulher com a qual partilhara nas vésperas uma primeira cumplicidade arrebatadora e clandestina. Agitava-se.
Poucos companheiros de viagem.
Altas vozes, afectadas por sotaque algarvio.
Um certo cheiro de casa.

22/03/2004

Manhã


Paixão seguindo São Romão (I)

Outra vez os semáforos a compasso na rua deserta.
Na manhã morna e azul, ouvia claramente os disparos electromecânicos e avançava na onda verde.
Nem vivalma.
Ao chegar à praça, ouviu o longínquo toque d’alvorada vindo do outro lado do mar.
Se não é um mar este rio...
Do convés, ao olhar para montante, não adivinhou que exactamente quatro semanas depois, traria consigo para sul tudo o que lhe importava. Por sobre aquela ponte ainda não atravessada e com a qual sonhava desde menino.
E ela lá estava, recortando-se na luz crua da manhã.
À popa, o estandarte nacional transportou-o para mais um episódio recente do fim do Império.
Distinguia claramente a bandeira das quinas lado a lado com a do Cruzeiro do Sul recortando-se no perfil do cargueiro retirante.
Na fotografia, o espectro dessa massa metálica povoada de gente sob o sol do Equador.
Em terra, entusiasmou-se com algumas velhas locomotivas que posavam para ele, entre ervas secas e cheiro de manhãs.

21/03/2004

Outras formas, outras cores



Foto de MSMS
Estranhas emoções

Nos dias que correm, há uma certa arrogância racional.
Eu sei do que falo, porque dela padeço. E julgo vislumbrá-la aqui e ali.
É o não admitirmos a surpresa dos argumentos alheios. Repito, não são os argumentos, é a sua novidade.
É o não admitirmos que haja outras hipóteses para além das que considerámos. Não é que defendamos uma ou outra em especial, é não admitirmos a novidade de uma outra qualquer. É a necessidade de a encaixarmos num determinado lote bem classificado.
São muitos outros sinais de arrogância face à novidade.
Mas, depois, há um estranho contraponto.
Face a um depoimento emocional, uma catadupa de reacções de encanto.
Face a uma imagem, um delírio de maravilha.
Face a um poema, uma exaltação.
Isto para mencionar só as reacções emocionais positivas.
São essas que interessam para serem confrontadas com a anti-surpresa racional.
O que é que isto quer dizer?
E não terá sido sempre assim?

20/03/2004

A análise consensual

A análise consensual é aquela que se baseia no que se considera ser a opinião da maioria.
Nunca se sabendo efectivamente qual é a opinião da maioria, salvo quando expressa e mesmo assim com todas as reservas sobre a coincidência entre o pensamento e a sua expressão.
Mas a análise consensual é fortemente contaminadora.
Num primeiro estádio, é tudo menos análise e muito menos consensual, é mais um estado de espírito que se começa a transmitir.
Depois propaga-se rapidamente e quase desemboca em certeza absoluta.
Mesmo os sinais contrários a essa certeza, são facilmente assimilados.

19/03/2004

Assobios

A diferença de atitudes entre os protagonistas dos programas de rádio do tipo forum, nocturnos e diurnos, lembra-me aquela estação ferroviária que às cinco e meia da manhã tem gente que assobia e às oito tem gente de trombas.

18/03/2004

À esquina

Verde é o teu encanto

Ela deixou atrás de si um rasto verde que o confundiu.
Da seguinte vez que a viu
Quis levá-la dali para um encanto qualquer.
E docemente tomá-la mulher.
Num cavalo, como ela quereria
Ou num tapete voador como pertence à euforia.

SG, inéditos, 1996

17/03/2004

Dar uma curva


Quem é quem?

Todos nós temos umas quantas fotos de desconhecidos.
Seja num grupo, seja numa foto oferecida daquelas a que chamam de passe, lá estão os estranhos a olhar para nós, sem nos conseguirem dizer que parentesco, que amizade, que cumplicidade tiveram com os nossos antepassados.
Às vezes dá-me vontade de colocar aqui uma ou outra (tenho mesmo muitas) na esperança de que alguém os identifique.
Depois, a consciência. Será legítimo fazê-lo? Não quererão eles que os deixem os paz?


16/03/2004

Devoção e pano de fundo


Serão todos estúpidos?

O drama dos dirigentes políticos é não saberem se o povo é estúpido, assim tão estúpido ou nem por isso.
O drama dos eleitores é não saberem se os políticos (todos os políticos) são estúpidos, assim tão estúpidos ou nem por isso.
Espreitando


15/03/2004

O (9+n)º planeta

Pela nª vez, anuncia-se a descoberta do décimo planeta do sistema solar.

O livro

Nunca lerei todos os livros que reuni.
De herança, os mais de entre eles. Comprados, muitos.
Houve um no entanto que não herdei nem mais o vi.
E é desse que sinto a falta.
Comprá-lo não posso. Não existe. Não está referenciado em catálogo algum.
Só existe na minha memória e porventura na posse de poucos, muito poucos mais.
Decerto esquecido em sótãos ou em segundas filas de estantes recônditas.
Poucos, muito poucos se lembrarão dele.
Talvez o tenham desprezado como eu um dia.
Talvez não se lhes tenha aguçado a curiosidade ao ponto de o quererem perceber.
Não o compraram com toda a certeza. Foi-lhes oferecido tal como o exemplar que conheci.
Para que é que alguém quer um livro que apresenta uma teoria há muitos séculos comprovadamente errada?
Ninguém se apraz com erros grosseiros.
E os que gostam de os analisar não souberam da sua existência.
Um livro ao nada. Nunca existiu.
Senão na minha memória.

Mas com o livro, outras memórias.
Todas as memórias do mundo, de mosaicos hidráulicos desenhando um padrão, de mesas à sombra entre flores, de vinhos variados em tardes estivais.
De uma tardinha, um encontro fatal.
De ver franqueada a porta de todos os dias por um vulto juvenil encadeante e logo ali sentir o perfume que descia sobre as coisas.
Das batalhas inevitáveis que travámos com o resultado previsível, o esquecimento. Como o livro que se guardava de nós (de mim) entre as paredes iniciais, nos esquecemos (me esqueci).
Nem se fale já da viagem estonteante no verão de ananases por rectas derretidas onde as cobras se confundiam com ondas de calor.
Nem se mencione a louca noite em que as dunas nos alijaram a queda fatal ou a desvairada procissão de febre que desenhámos a eito e à revelia dos demais.
Sequer a jornada ao local secreto, a que poucos, muito poucos se atreviam então.
Não há nada para recordar senão o livro.
Nunca o li de fio a pavio, era só aquela inquietação no título, e o folhear desesperado à procura do erro fatal. Com a pressa dos anos pueris.
E só eu sei onde ele ficou.
Provavelmente não soubeste sequer que ele existia, apesar de estar sempre ali à mão.
Não o imagino nas tuas mãos de menina.

Vê-se agora que de nada me esqueci.
O livro talvez ainda lá esteja, entre gente que não faz a menor ideia do que possui.
Militão por um dia



Foi amor à primeira vista. Já sabia que me era destinado, só não o tinha visto.
Aquela amostra de cão que encontrei empoleirada no banco do carro, esticando-se para o volante, ia ser o meu cão.
Tinha que se chamar Militão.
O rapaz que eu não conhecia, mas parecia entender de cães e que estava ali para ensinar cães e donos, perguntou-me porquê.
Eu respondi que não sabia. Era apenas porque me tinha vindo à cabeça.
No dia seguinte, a notícia. Revoltante e trágica.
O cão foi rebaptizado, contra a minha vontade. Uma triste e não menos curiosa coincidência, argumentava eu, já em dificuldade.
Ainda hoje, o tal rapaz deve pensar que eu sabia muito mais do que disse naquela tarde.
O nome que escolhi para a cadela, meses depois, foi bem aceite.
Morreu com sete meses.
Para a que veio depois, não adiantei nenhum palpite em tempo útil. Mais tarde, sugeri um nome português, ao ver a cadela baptizada com nome de bolacha americana.
Mas vejo agora que essa opção se revelaria também tragicamente premonitória.
Nunca mais baptizo nenhum cão.
Para o Douro


Urbanidades

Ser rústico é uma qualidade ou um defeito.
O rústico é autocrata. O urbano democrata.
As opções de côr que o meu avô tomava incidiam praticamente todas sobre as barras da casa.
Conheci-as amarelas, azuis, vermelhas, ocres, verdes, cinzentas. Isso no tempo em que o Alentejo e o Algarve não estavam normalizados, em que havia montes vermelhos, amarelos e barras de todas as cores.
Nunca o vi levar em consideração quaisquer critérios que não a sua vontade ou a da minha avó.
Hoje, Alentejo e Algarve estão normalizados e muito piores.

E por aqui, abriu a campanha eleitoral.
Já há quem tenha iniciado a propaganda.
Que não pode haver entendimento entre os verdes e os vermelhos, é o que me dizem.
Eu olho para o boletim de voto e para as opções e não espero influências de última hora.
Vou votar no verde.
Estamos a escolher a côr da porta do elevador.


13/03/2004

Memória colectiva



De que é que depende a memória colectiva de um povo?
Partindo do princípio simplificado que a memória colectiva é o conjunto de factos e de conceitos que constam da memória da grande parte das pessoas, quer por experiência quer por comunicação, como é que ela se estreita e se alarga?
Não será muito difícil adivinhar que na memória colectiva dos portugueses, até à unificação do último século, com a rede escolar, as comunicações e outros factores como os jornais, a rádio e a televisão, não haveria muita coisa.
Episódios verdadeiramente nacionais como pestes, guerras e sismos seriam a essência dessa memória. Perdida muitas vezes no tempo, que nem sempre a tradição oral tudo transporta.
Se falarmos apenas nas últimas décadas, e descontarmos os conhecimentos escolares, o que é que fica?
Acho que fica pouco mais do que o que passou na televisão.
Julgo não ser necessário ter amplo e fundamentado conhecimento para aqui chegar.
E se isto é verdade, a nossa memória enquanto povo será desta vez filtrada pelas câmaras. Só os factos que merecem (quem decide isso, é outra história) ser transformados na sua tele-imagem ficarão nessas gavetas.
Será que a multiplicação de imagens de acontecimentos conduz ao aumento proporcional dessa memória?
Ou eles acabam por substituir-se nas gavetas e apenas restarão meia-dúzia deles?
O que mais me intriga nisto é apenas uma questão, que até se pode dizer não é de memória colectiva nacional, é de memória tout court:
Tendo eu privado de perto com grande número de pessoas, das mais diversas idades, dos mais diversos graus de instrução, mas tendo em comum a rusticidade, apercebi-me sempre da sua relação com a memória (regional, local, da natureza) ser pautada pela noção de que o mundo não havia começado ontem, nem no dia em que nasceram.
E hoje, cada vez mais, se assiste ao apagar dessa base. A maioria das pessoas acha que o mundo é coisa nova, o conceito mais presente é o da novidade.
Que as televisões o façam, é esperado. Vivem do espalhafato que promovem. Mas se elas marcam assim tanto, a ser verdade o que disse acima, a memória colectiva, não restarão grandes dúvidas de que a surpresa será o pão nosso de cada dia.
Basta ya

Quando ouço estas palavras, tragicamente repetidas ao longo de anos, interrogo-me sempre sobre o destinatário e a sua utilidade.

11/03/2004

Hoje como ontem

... quando entrou uma mulher velha que vinha ao avio.
O homem mais perto da porta desafiou-a de chofre: "Ó ti' Ana, diga lá o que é que manda mais!"
Ela não se demorou com a resposta, pegando no ponto: "O que é que manda mais? É a força!"
...


Podia ter sido qualquer de nós, hoje em Madrid, ontem em Nova Iorque, anteontem em Belgrado, em Sarajevo, em Paris, em Bolonha, em Telavive, em Bagdade, em Istambul, em Moscovo, em Beirute, em qualquer lado, vítima de bomba, de míssil, de bala, de energia libertada.
David e Golias repetem-se de forma cada vez mais sangrenta.
Ou a energia que continuamente se acumula e se liberta, matando tudo à volta.
É provável que seja cada vez pior.

Hoje falei de actualidades, mas esta história não tem nada de novo.
O diálogo acima presenciei-o numa taberna da serra alentejana. Lapidar, a meu ver.
Em itálico porque reproduz um post antigo.

Auto-retrato de beira de estrada


10/03/2004

Desinquietação

Há coisas que me desinquietam.
Quando se juntam duas ou mais paixões no mesmo prato, está o caldo entornado.
Então o amigo Almariado não tratou de me pôr água na boca, de uma forma que é um autêntico convite à perdição?
Fala-nos de petiscos, de serra algarvia, do barrocal.
Arre porra, que é difícil resistir.
Eu que sou um velho amante daquelas paragens, um caso perdido em se tratando de bons manjares, fico-me à nora ao ler aqueles posts (1 e 2).
Mesmo sabendo da proliferação destas iniciativas um pouco por todo o lado, a magia do Algarve mais remoto é algo de muito forte. E os petiscos muito bons.
Os dez mais



Li no Expresso que a RTP vai fazer a eleição dos dez mais, à semelhança do que se tem feito noutros países.
Os dez mais serão os dez portugueses mais importantes (ou mais famosos?) de sempre. Não sei bem se é uma coisa se é outra, porque fama e proveito como sabemos são bem distintos, mas confundem-se.
Estranhei que a notícia falasse de um acordo com a BBC.
Acordo porquê?
Terá a BBC os direitos sobre todas as ideias do género?
Será a RTP incapaz de fazer tal eleição sem recorrer a espertos das mais diversas origens?
Pois não sei, mas faz-me sempre lembrar a velha máxima funcional: "Não se inventa nada!"
Agora o resultado vai ser decerto curioso.
Alguém votará em Fernão de Magalhães, Fernando de Bulhões, Pedro Nunes ou Pedro Julião?

09/03/2004

As viagens



Modificaram-se muito desde que me recordo de as empreender, no banco de trás.
Já não são uma aventura.
E isto não tem a ver necessariamente com a infância e os seus mitos. Para os adultos também o eram.
Ficaram muitos episódios na minha memória.
Do encontro imprevisto com a praga de gafanhotos (quem se lembra hoje que tivemos uma nos anos 60?), das estradas que se finavam debaixo de água no vale de Santarém, dos incêndios e das tempestades atravessadas, às inúmeras explorações de estradas em perspectiva, atravessamento de barrancos, atasqueiros, paisagens remotas, ficou um mundo de impressões ainda hoje presentes.
As viagens hoje são uma maçada com destino.
Pouca gente atenta aos percursos. O que lhes interessa é chegar depressa. Auto-estradas, áreas de serviço, pouco mais se conhece.
Uma viagem é o seu destino.
Há pouco quem ande por aí sem destino certo, ao sabor de sinais, de marcas na paisagem.

Foto de MSMS
De volta à estrada


08/03/2004

Ponte no fim do país


Animaje

Não sou antropólogo, sociólogo ou possuo qualquer qualificação que me permita tecer grandes considerações sobre o actual estado do conhecimento nessas áreas.
Dito isto, refirir-me-ei apenas a uma certa tendência mais ou menos evidente no discurso político e social que podemos ouvir todos os dias.

Não se sabe desde quando, mas o homem assumiu a dada altura a sua diferenciação no mundo animal.
E passou o tempo todo desde essa altura a imaginar-se mais do que um animal.
Lá terá as suas razões.
Mas seria de supor que, com o actual estado da ciência, nomeadamente com o conhecimento das últimas décadas sobre alguns dos mecanismos sensoriais, que nos voltássemos a encarar como animais.
Mas não é isso que no discurso corrente e corriqueiro acontece.
Dir-se-á que a política tem como último objecto o esquecimento desse facto.
É provável que sim.
A minha questão aqui é só uma:
Serão os conhecimentos científicos decisivos para a organização social? Ou ela é demasiado complexa para poder ser compreendida e enquadrada, de forma a aperfeiçoar-se com o conhecimento?
Bem sei que não há sistemas perfeitos. E que os mais cientifizados deram bota.

07/03/2004

Torre e escada


A 7 de Março



Até há alguns anos, 7 de Março não tinha significado especial.
Quem não fosse imune a televisão, saberia que é o aniversário das emissões regulares.
Sem que fosse sempre a 7, existiu durante alguns anos a coincidência entre a data do Festival da Canção e a noite de Sintra do rali de Portugal.
Não teriam relação nenhuma as duas coisas se não fosse o caso de durante a preparação da nossa escalada da serra, sermos confrontados ainda na vila, com os televisores a debitarem as últimas ocorrências festivaleiras.
Lá mais para o final, no meio da excitação dos carros e das meninas, havia um sempre que fazia a pergunta em voz alta: "Quem terá ganho o festival?"
Essa pergunta ecoou durante anos na minha memória, por ser inusitada e irrelevante face às circunstâncias. Ninguém sabia ou queria saber.
Foi substituída por outras igualmente irrelevantes e inusitadas em outras circunstâncias.
Mas ficou.
A partir do ano em que o rali ficou moribundo, a data passou a ter um significado pessoal.
Não por essa razão, mas por outra.
E o certo é que merecia comemoração. E a pérfida pergunta surgia sempre na altura mais inoportuna.
De tal sorte, que fosse ou não dia de festival, era um excelente bálsamo para o que queiram imaginar.

imagens aqui e aqui
Imagens ao acaso