19/01/2005

E.N. 394



Uma das coisas mais curiosas das informações de trânsito, quando integram o número de uma estrada, é que na esmagadora maioria dos casos falham rotundamente.
Qualquer mapa do ACP - não é preciso ter o plano rodoviário à frente - serve para verificar o que se diz.
Se calhar, era preferível omitirem o número.

A E.N. 394, prevista no plano rodoviário de 1945, nunca foi construída. É a única estrada desse plano que não teve um único troço construído.
Gasolim em linhas curvas

Em CD e K7


foto de RBC

Quando esta foto foi feita (não está tratada), uns quinze anos atrás, já o foi tendo em vista este fim. Hoje completa-se o ciclo.

18/01/2005

O mundo de Alice*

Este post poderia ser um editorial**.
É certo que já por aqui dei conta, de forma sucinta, do princípio de que parto. Mas ou por tê-lo feito mais ou menos cripticamente, como é apanágio da casa, ou por julgar que muitos (dos poucos!) dos que hoje me lêem ainda aqui não vinham quando assim o disse, lá vai:

O mundo dos sonhos é, muitas vezes, um bom termo de comparação para o mundo da razão.
E é-o porque os sonhos usam-na, misturam-na com a ilusão, baralham e dão.

Não sou seguidista de ninguém. Nunca fui ista do que quer que fosse, homem ou escola. Também não sou um homem de vasto conhecimento. Interessou-me sempre mais, dentro do que se considera ser a razão e o conhecimento humanos, perceber a dada escala o funcionamento de certas coisas. Saber do que falo, quando falo de algo, e saber a escala, os limites que se impõem. E quando falo do que não sei, fazê-lo com a consciência disso mesmo, fazê-lo com a incerteza que todos temos àcerca de tudo, fazê-lo sem dar o passo maior do que a perna, evitando o disparate.

Se o consigo ou não, isso é outra história. As mais das vezes, sei que o não consigo.

Ora o princípio de que parto, que alguns dirão determinista - eu sem saber se o é ou não, que inscrições em catálogos foi coisa que nunca me preocupou - é que tudo evolui de acordo com um mecanismo bem determinado mas indeterminável pela mente humana.
Basicamente - não haverá acasos.
Não haverá acasos, não haverá sorte, não haverá vontade, não haverá livre arbítrio.
Somos todos e tudo o que nos envolve, fruto das circunstâncias, internas e externas. Se é que o interno e o externo são de fácil distinção.
No actual estado das coisas, bem ou mal, pouco importa, supomos, os que acreditam na ciência, que somos um somatório de partículas elementares. Somos nós e tudo o que nos rodeia. Matéria e energia, assim o dizemos. Matéria e energia, tanto quanto as diferenciamos e voltamos a confundir.

O importante para mim é que, partindo desse princípio, apenas sou a resultante de qualquer coisa que desconheço. Ao estar a escrever estas linhas, não sou eu, é o conjunto de matéria e energia que tem a minha forma. É uma ordem dada algures no tempo remoto que se complicou e assim resultou. Um passo no caos, um passo na ordem, um passo no tempo, um passo seja no que fôr. Nada mais do que isso.
Como já aqui o disse, se não fosse ateu, encaixaria nos divinos desígnios toda a sorte de ordem das coisas. Não o sendo, não sei em que a encaixar. Melhor dizendo, não tenho crença onde a encaixar.

Mas partindo deste princípio, de cada vez que me dá a ilusão para julgar que existe de facto uma vontade própria, um livre arbítrio qualquer que seja, caio no mundo de Alice, que é onde de facto vivo.
É que tem que ser forte a ilusão de que mandamos nas coisas, decidimos a nossa vida, seguimos por aqui e não por ali.
Para que nos deitemos a pensar na primeira pessoa.
Sujeito-me assim ao mundo de Alice, como todos os outros.
Mas continuo convencido (e posso eu convencer-me de alguma coisa?) da mesma ilusão, dentro dela, como nos sonhos.
Como nos sonhos - e é aqui que cabem - em que por vezes, saltamos de um sonho para o outro, julgando saber que o primeiro é sonho e o segundo o não é.

Supondo que é de níveis de compreensão das coisas ou de fé numa crença de que a compreensão é por ali e não por acolá, que se trata, então suponhamos pois que os sonhos são uma boa comparação.
Quando se salta de sonho em sonho, sonhando que um é realmente um sonho e o outro o não é, podemos dizer que descemos ou subimos de nível, como se quiser.
Aqui, neste argumentário absurdo, passo ao nível seguinte, o qual é, encarando as coisas tal como o mundo de Alice dita que eu as veja, uma combinação de seres vivos e matéria desprovida de vida. E de energia.
Ora aqui convenço-me, iludo-me com o seguinte:
A vida, nas suas mais diversas formas, parece ter um único fito, o de sobreviver. Seja lá a vida o que fôr. Cada um dos seres dela animados mais não faz do que abrir caminho a esse destino. Sobrevivemos, reproduzimo-nos, cuidamos das crias, uns mais do que outros.
No mundo de Alice, chamamos amor, chamamos paixão à pulsão da sobrevivência da espécie que conduz à reprodução.
Chamamos outros nomes a outras pulsões, mas todas elas concorrem para o mesmo fim.
Regulamo-nos, convencidos da bondade das normas. O fim em vista é sobreviver.

Em alturas como a que acabámos de viver, fala-se muito em extrair ensinamentos das catástrofes.

Se a grande questão, do ponto de vista do Homem, que é o único ponto de vista que conhecemos, é a de sobreviver, então é mais que provável que alguns ensinamentos se retiraram pelos séculos dos séculos.
No entanto, não se podem ver os riscos de forma absoluta como alguns hoje teimam em ver.
É que é arriscado viver, dizem as vozes.
Ninguém abandonará as margens do Índico porque ele de vez em quando delas sai. Como ninguém o fez no Nilo, no Tigre, no Eufrates, no Ganges.
A sobrevivência está ali, o risco é conhecido, é calculado depois de cada tempestade e esquecido com o tempo.
Tal como nós o fizemos em Lisboa.

A espécie humana carece de ser vista a outra escala. À escala em que a Natureza a defende e a ataca. À escala em que dizima parte de nós com métodos que podem ser biológicos, intrínsecos e não-biológicos.
Os métodos biológicos com que nos tem regulado são de longe os mais mortíferos. Pestes, pragas de toda a sorte que, a espaços, nos controlam a disseminação pelo globo.
Depois, vêm os intrínsecos. Os que nós próprios usamos para nos deceparmos. Guerras constantes, massacres gritantes, sujeições esclavagísticas que terminam em massacre surdo, outros métodos que hão-de vir.
Só muito depois, este tipo de fenómenos. O chamado poder dos elementos. É de longe, o menos mortífero de todos. Mas talvez o que mais se teme hoje em dia.
Talvez não tenha sido sempre assim. É provável que descendamos de uma fabulosa luta contra os elementos, antes de tudo o mais.
A necessidade de controlar a espécie (se é que ela existe, em nome de uma arquitectura suprema) ou o simples acaso (e afinal existem no mundo de Alice?) mostra-nos amiúde que estas coisas acontecem. E mostrar-nos-á até que não reste um só homem sobre a Terra.

É claro que a nossa luta pela sobrevivência se encarregará de imaginar pequenas e grandes coisas em nossa defesa.
À semelhança da gaiola pombalina que, como se viu, ainda não foi posta à prova.
À semelhança das construções japonesas actuais, que apesar do seu refinamento e da constante aprendizagem, ainda não mataram o problema.
Como se fez com as vacinas, com os diversos mecanismos que desenvolvemos no combate às pragas.
Mas nada disso impedirá novas formas de destruição. Podemos disso estar certos.

Por fim, já em outro nível, mais baixinho, sempre no mundo das ilusões, continuo a espantar-me com os crentes na razão.
Com os que tanto clamam por ela, sem cuidarem de rever os seus cálculos.
Que tanto a exigem e dela fazem tábua-rasa.
Que tanto criticam e não se olham ao espelho.
Que tanta coerência pedem sem saberem o que é e em que quadro vigora, logo não a tendo em conta.
Que dividem a política no mais reles dos Sporting - Benfica, em que os da cor são sempre bons e os outros sempre maus.
Que não são capazes de extrair nem sequer as mais próximas consequências do seu argumentário. Fosse ele passado à prática.
Por mim, reitero os meus votos de que o mundo jamais seja feito de acordo com os meus desejos.

E volto a sonhar, pensando que saio do mundo de Alice.

*Também retalhos de conversas com o Gato
**E passa a ser um editorial perene

17/01/2005

Benditos

Bendito o homem que inventou as descidas*. Não, não é isso.
Benditos os homens que inventaram o suporte magnético e outros.
Avalio agora, depois de ter transportado às costas aí um terço da minha colecção de fotografias, avalio agora a totalidade aí nuns 100 kg de papel. Não é muito.
Façamos umas contas.
Partamos do princípio que o valor médio de 240g/m2 é aceitável para o papel fotográfico.
E que os 100 kg não é exagero.
Ficamos com pouco menos do que 417 m2 de papel.
Suponhamos que as dimensões médias de cada fotografia são 10x15. Dá uma área média de 0,015 m2.
É fazer a conta.
Dá qualquer coisa como 27800 pedacinhos de papel.
Supondo que se trata de rolos de 36 (não se trata, porque no formato 6 x 9 que utilizei durante anos a fio, cada rolo 120 só dava 8 negativos), dá 772 rolos e mais uns picos.
Arre macho.
Macho que carregou com eles às costas umas boas centenas de metros.
Ah, e sim, há a tendência deste blogue começar a ser mais imagens e menos texto. Será verdade?

*frase célebre ouvida de um desconhecido, num regresso de festa nas serranias de Arganil. Rali, pois. E postada em certo blogue, sem autorização do autor, mas com autorização do mediador.
Aos costumes disse ser...

[...] E depois de perguntar quais das perguntas eram as do costume, e de ter a esse respeito sido informado, concluiu afirmando (para dentro) que convencido estava de que há instruções claras para dificultar a regularização de emigrantes vindos de determinadas partes do mundo.
E por assim ter dito e ser verdade, vai assinar [...]

Este post é a conclusão esperada (por quem?) dos posts abaixo:
http://gasolim.blogspot.com/2004_12_12_gasolim_archive.html#110308149161579378
http://gasolim.blogspot.com/2004_12_12_gasolim_archive.html#110331216421554903
Pergunta parva

Qual será, tendo como universo a população mundial, a função que mais se aproxima da representação do valor modal para o número de ascendentes, masculinos e femininos, de grau n? (Supondo que os pais são o grau 1, avós grau 2, bisavós grau 3...).
E qual será o domínio dessa função?

15/01/2005

Too close to call

Perto da vista, perto do coração - talvez seja essa a lição do dia.
Ou ainda mais cripticamente, internet no monte, porcos às boletas...


13/01/2005

Algumas notas sobre galinhas



Desta vez não é sonho. É apenas a defesa da honra. Das galinhas, claro.
Em primeiro lugar, a declaração de interesses, como é uso:
Sim, fui durante algum tempo professor de galinhas. Sim, infligi alguns castigos corporais às minhas pupilas.
Eu e a minha prima montámos uma escola em casa da minha bisavó. A coisa funcionava sem horários e currículos rígidos mas era basto disciplinada. Conseguíamos afinal dispô-las em filas e colunas, em notáveis exibições de ordem unida.
O galo não era muito de opinião. Tanto não era que suponho que ainda hoje a minha prima tem alguma aversão aos ditos de crista. O certo é que a escola não era mista, por isso o galaró ficava de fora.
Posto que já dei conta do meu envolvimento com tais criaturas, passo à sua defesa.
Dizem para aí que as galinhas não voam.
Com toda a certeza, alguns dos meus leitores são testemunhas de que tal não passa de um vil insulto às galináceas. Pois são aves e voam. Ah, voam.
Lá no monte havia e ainda há uma velha oliveira que o diga.
Dava galinhas em vez de azeitonas. Nos troncos mais altos.
Não é que não desse de todo azeitonas. Dava. Mas as que dava, apareciam no chão e tinham uma textura estranha. Ao esmagamento, não mostravam caroço. Curiosamente, havia ovelhas lá no monte.
Abandonadas as casas, perdida a geração, perdeu-se para sempre aquela ignorância.
Não a ignorãncia que eu ministrava na escola.
Mas a que elas obtinham da mãe-galinha: ignoravam que não podiam voar.
É certo que também ninguém lhes cortava as asas.
A propósito

Este blogue é uma manta de retalhos.
Muitos outros o são.
Gosto que assim seja, talvez porque não tenha nem engenho nem arte para o fazer de outra forma.


12/01/2005

Dúvida pertinente

Qual será a valorização a que está sujeito um vale de três cêntimos três, emitido por um máquina de venda de bilhetes de comboio?
Para coleccionadores, claro.
E mais não digo, recolho a horas campaniças.

11/01/2005

10/01/2005

Heranças na paisagem


No papado de João Paulo I

A sogra dançante


foto do SNIG

Não sei a que propósito vem (veio) isto.
A senhora, em fade out, insistia em dizer-me que não queria que eu tivesse algo a ver com a filha.
Eu dizia-lhe que não, que estivesse descansada. Que nada houve, tinha havido, haveria. Mas ela insistia. Entretanto, em fade in, começava a desenhar-se na minha memória, o beijo. O beijo que feria de morte a minha argumentação. Mas não titubeava. Com ar de escroque, ou talvez não, lá continuava o desmentido. Mas o beijo vinha, insidioso, à memória. Eu desmontava-o, tirava-lhe intensidade, desejo, arrebatamento (não é o que se diz nestas alturas?).
Desconstruía-o e argumentava, num cenário triste, escuro, de cozinha às escuras em dia curto.
Desconstruía-o. Queria que fosse um desbeijo. Que a minha palavra fosse verdadeira. Às escuras, numa cozinha em dia curto.

A festa decorria no quintal, porco morto pendurado na escada de madeira à porta da garagem.
As moças dentro da adega, às escuras. Na minha adega em fim de tarde de dia curto. Sentadas em mesas de café, ali estavam discutindo gillets e saias-casaco.

Na loja, um amigo estrangeiro dialogava com uma estranha.
Uma moça engraçada e estranha, apenas por ser forasteira, apenas por não ser uma cara habitual na minha frente.
Ela falava num inglês que parecia genuíno. Ele com um acentuado sotaque levantino.
E era um caderno o que viam sobre o balcão.
O caderno tinha fórmulas, gráficos, texto.
Ele sorria, provavelmente mais interessado no cheiro dela do que na tese encadernada.
Ela retribuía-lhe o sorriso e eu vendo que "tava o balh'armado".
Meti-me na conversa e perguntei-lhe, a ela, se precisava de ajuda.
Ela disse que sim, que "bem podia usar a ajuda de alguém que soubesse de química". Traduzindo eu aqui à pressa o que ela disse. E que fora ali parar, porque alguém lhe tinha dito que na casa do largo devia haver quem percebesse do assunto. E que parecia que havia festa.
Riu-se e perguntou se eu não a convidava.
Disse-lhe que sim, às duas questões. Que lhe arranjava alguém. Tinha ali a pessoa indicada para lhe dar uma ajuda.
Ela explicou-me o que era. Qualquer tipo de análises que andava a fazer na zona. Queria discutir as amostras com alguém que estivesse dentro do assunto.
E, quanto à festa, disse-lhe que o meu amigo candiano lhe faria as honras da casa.
Ganhei um beijo e uma palmada nas costas.

Voltei ao quintal. Os moços lá estavam, de faquinha em riste, cortando côdeas e trincando o porco. O agarrafão poisado na borda do poço, vejam lá se o deixam cair lá para dentro.
As moças na mesma escuridão de Pisang Ambon e sussurros sobre roupa.
A mesa da doutora estava vazia. Perguntei por ela. Que tinha saído, quase chorona.

Voltou o beijo. Tentava apagá-lo com um apagador de escola. Lá estava na ardósia, ao fundo. Ao fundo da adega, à vista de todos. Os sussurros já não eram sobre cachecóis e blusas, eram a meu respeito.
Corri cá fora. No quintal, não estava. O portão das traseiras estava aberto. O da garagem também...

Muitos anos depois, recordo-me bem das palavras do meu par, na contradança. Não era uma proibição o que recaía sobre mim. Eram nabos da púcara o que elas pretendiam retirar.
Uma sogra dançante.

09/01/2005

Saindo da toca


Do astro

Suponhamos um referencial ortogonal e tridimensional com origem num determinado ponto teórico, definido em dado instante.
Esse ponto poderia ser um ponto o mais perto possível do centro da terra.
Suponhamos que esse referencial faz sentido, contrariando a opinião não daqueles que demonstraram que a Terra orbita em torno do Sol, mas dos que afirmam que não faz sentido estabelecer ortodoxias para enquadrar, para referenciar o espaço e o tempo do Universo.
Atrevamo-nos ainda assim a supor que faz.
Uma curiosidade que se me coloca hoje é a de saber, face a esse referencial, quais seriam as diferenças observadas na posição de uma série de corpos celestes, hoje e há quarenta e seis anos atrás.
Ou de como se mostravam evolutivas as quarenta e sete imagens assim formadas, ano a ano, contas dos humanos.

Da terra

Fidel entrava em Havana.
A barragem de Vega de Tera colapsava e a inundação matava muitos dos habitantes de uma aldeia a jusante.
Se fosse hoje, não faltariam os directos, saltitando entre o antigo reino de Leão e a imagem do filho da vizinha Galiza, do outro lado do mar, na Grande Antilha.
Mais a sul das terras de Leão e de Santiago, num dos seus caminhos, entre competentes vieiras, os berros que se ouviam tinham sotaque alentejano.
Daria um nota de rodapé, a vermelho (ou seria a verde, digo preto?).



imagem montada a partir daqui, daqui, dali e da Sky News.

08/01/2005

Os verdes e os vermelhos

Sinal dos tempos. Este ano o barulho foi menor. Ou sou eu que ando a leste das notícias?


imagem multiMap.com
Gasolim ainda a pedal


Vila Nova de Milfontes, 1972

07/01/2005

Portugal, regiões e o método de Hondt



Ponto prévio: Não acredito que a regionalização do país seja um bem. Dispenso-me de arrolar as minhas razões por agora, não é disso que se trata - se é que pode haver razões firmes em questões destas. Trata-se apenas de dizer que o princípio de que parto não me é indiferente. Mas é, por ora, apenas o princípio de que parto.

E parto do princípio de que o país não é constituído por regiões, tenham elas o nome que tiverem, sejam elas classificadas como o sejam.
Sendo o país um todo centralizado - excepção feita aos arquipélagos - por vontade expressa dos eleitores, princípio de que parto também apoiado no resultado do referendo de 1998, embora reconhecendo que apenas participaram 48,3% dos inscritos, que sentido faz escolher uma das possíveis divisões - que há outras que são igualmente reconhecidas pelo Estado e eventualmente mais utilizadas - para depois aí aplicar o método de Hondt, distorcendo completamente a proporcionalidade nacional dos votos partidários?
Por quê os distritos (sem o da Horta, o de Ponta Delgada e o de Angra do Heroísmo) e não as províncias? Por quê os distritos e não uma NUT de um nível qualquer? Por razões históricas? Teríamos que ver então todos os antecedentes.

A verdade é que a distribuição distrital, ou outra que fosse, distorce consideravelmente a proporcionalidade nacional.
Quando elegemos um parlamento, não temos em vista o governo do País?
É de um deputado que defenda os interesses do nosso círculo que se trata? Qual deles? O primeiro da lista? O penúltimo?

Uma questão falsa que já suscitou mais debate é a da proximidade entre eleitores e eleitos, como se um milagre qualquer de método aproximasse uns e outros.
Ninguém se reconhece nos deputados da Nação, enquanto representantes de uma região, essa é que é essa. Tirando umas quantas figuras que seriam sempre interventivas, fosse qual fosse o palco, o resto é paisagem. E se reflecte a paisagem do país ou não, temo que o faça. Mas não há grandes memórias de intervenções notáveis de deputados em defesa dos eleitores do seu círculo. As que há, confirmam a regra. E claro, as costumeiras medidas avulsas em final de sessão legislativa que pouco ou nada interessam.

O que realmente elegemos, o que realmente nos preocupa, é um governo e uma oposição.
Esperamos sempre que a bancada da situação seja mais ou menos apática ou aplaudente e que a da oposição seja ladina. É disso que se trata. Quais círculos!

É certo que o triste espectáculo que se repete em cada fecho de listas ocorreria igualmente fosse qual fosse o sistema. Não é lá por haver um só círculo eleitoral ou 230 (um por cada deputado) que a coisa ia ser diferente.

É também certo que um sistema mais próximo da proporcionalidade nacional favorece as minorias e dificulta assim a formação de maiorias absolutas. Se houvesse um único círculo, apenas Cavaco Silva teria obtido as duas maiorias absolutas de 1987 e 1991. A AD teria ficado aquém desse objectivo em 1979 e 1980, embora em relação a este último ano, por faltarem os dados referentes ao número de votos dos círculos da emigração, possa a afirmação ser duvidosa.

O ponto é que este sistema, embora favoreça de facto a constituição de maiorias, apenas deu quatro em dez. E dessas quatro, duas foram em coligação. Exactamente as duas que não daria se a proporcionalidade fosse nacional.
Entretanto, teríamos uma representação dos grupos minoritários que, sendo embora diminuta, por o ser, provavelmente (não é certo que assim fosse) teria colocado no parlamento os seus melhores.
Ao mesmo tempo, provavelmente também, esses lugares não seriam preenchidos pelos grandes partidos com corpos presentes.

O método de Hondt não é mau. Claro que há outras formas, mas não é mau. O que é mau é ser aplicado a círculos distritais.

Deixarei mais tarde, e a titulo de curiosidade, as composições dos parlamentos, de 1976 até 2002, tal como foram e tal como seriam se a eleição fosse nacional, com a ressalva da falta ou da imprecisão de dados que consegui obter.

Correcção: com a Assembleia Constituinte de 1975, são onze e não dez as diferentes composições parlamentares, após o 25 de Abril.

06/01/2005

Totovoto

Não é nenhum método daqueles milagrosos.
Não é a solução fornecida por um algoritmo mirabolante.
Não é wishful thinking.
É apenas um boletim de totovoto.
Já sei que vou falhar. A ver vamos quantos totalistas há.


05/01/2005

Espólio

Na minha colecção de fotos há muitas sem qualquer tipo de indicação de data ou local.
Muitas delas são de meu pai. Percebo-o pelo tipo de fotos. Mas nem sempre posso garantir que não sejam disparos de algum companheiro de viagem.
Há ainda algumas de meus tios, de meu avô.
Por considerar que há muitas interessantes, resolvi mostrá-las aqui. Com a indicação de autoria que suponho ser a verdadeira.



Espólio Campos Vilhena - foto de MSS

04/01/2005

Lista

É a lista! - gritavam antigamente das portas da rua para os patamares de velhas com bata as brigadas de entregadores - Tem a velha? Não pode dar nada para ajudar a rapaziada?

É uma pena que as eleições não sejam mais perto do prazo final para a entrega das listas.
Não decorram quando ainda está fresca a dança da cadeira, o nada para a rapaziada.
Obra

Gosto de admirar a arte e o engenho dos homens.
Mas não me interessam nada os homens por trás das obras.

03/01/2005

Adenda a um post anterior

Não sei o que me atrai nas bombas de gasolina.
A 19 de Julho p.p. , escrevi assim:

"A primeira foto desta saga tem cerca de 32 anos. É a minha primeira experiência fotográfica e retrata um posto de combustível de que muitos poucos se recordarão. Ficava mais ou menos onde hoje está o muro de suporte do parque de estacionamento do Continente da Amadora, ali onde se cruzavam então a E.N. 117 e a E.N. 249-1 e era da Shell.
A última é a do post anterior. Na área de serviço de Aljustrel. 32 anos depois, no começo e no final de duas viagens para sul
."

Aqui está a foto do pecado quase original. Na realidade, a foto da direita já não é a que se refere o texto. É do mesmo local, dias depois.

Brigadas moralistas

É o que há mais por aí.
Mesmo sendo ateu, não fará mal recordar:
"Mas, como insistissem em perguntar-lhe, ergueu-se e disse-lhes: Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra." (João 8:7)
Ou o mais prosaico:
"Diz o roto ao nu - Por que não te vestes tu?"
Memória e TV

Já não é a primeira vez que falo nisto.
Que a memória colectiva se modificou. Se considerarmos um referencial reduzido espaço-tempo a duas dimensões, em que o eixo dos xx se refere à distância a que os factos ocorrem do observador e o eixo dos yy se refere ao tempo decorrido entre as ocorrências e a constatação da memória, teríamos provavelmente gráficos do tipo:



Partindo do princípio de que a memória não é elástica ao ponto de poder abranger uma quantidade de factos a tender para infinito, bem ao contrário do tradicional "Saber não ocupa lugar", como de resto nos apercebemos cada vez mais quando confrontados com as capacidades de armazenamento das nossas maquinetas (espaço no sentido dimensional é outra história...), partindo desse princípio, parece justo admitir que quanto mais se alargam os horizontes de observação, mais se encolhe a memória temporal.
Entre os mais velhos, por motivos óbvios, mas entre aqueles que se encontram menos permeáveis à informação em catadupa, encontram-se memórias locais com notável acuidade.
A televisão, provavelmente pela importância das imagens, da componente fotográfica da memória, proporcionou e proporciona cada dia mais, uma quantidade de informação em excesso, que não podendo ser armazenada em "gavetas vazias", tenderá a ocupar o lugar de outra, mais antiga.
Assim, constatamos sem grande surpresa que, na maioria dos casos, factos ocorridos na vida de muitos de nós e amplamente noticiados, já só restam na memória de poucos.
O que nos coloca perante um desafio de aprendizagem. Colectivo. Se antes era dos horizontes que se tratava, muita gente não conseguindo enxergar para além dos montes que a rodeavam, com as consequentes deficiências na instrução e educação, hoje trata-se de horizontes quase universais, à escala do nosso conhecimento, mas pouco profundos no tempo, com a consequente deficiência na compreensão da relação entre os acontecimentos e as suas causas, da forma como as coisas se sucedem.
Provavelmente, é um problema que não exige solução. Que se modificará com o tempo. A espécie humana evolui, apesar de muitas vezes se ter a ideia contrária.

02/01/2005

Restos de colecção (17)

Lista de prémios do sorteio de Natal da Liga de Cegos João de Deus, em 1965


01/01/2005

Memória

É curioso que, no meio de tanto disparate produzido a respeito do "E se fosse cá?", ninguém se tenha lembrado da grande onda que matou uns quantos pescadores na praia de Santo André, junto à lagoa, há umas boas dezenas de anos.
Não consigo encontrar nada a respeito, não me lembro em que ano foi, mas sei que aconteceu.
Não sei que tipo de onda foi, mas soube-se na época que não se tratava dos habituais acidentes que infelizmente ocorrem com pescadores mais temerários e com mal alteroso.
Estes, ao que me lembro, estavam na praia no amanho das artes, não à pesca.
Suponho que estará bem gravada na memória da gente da zona.
A fruteira de loiça ou uma história de Ano Novo

Conhecia bem os cantos ao casarão. Visto a aglomeração ser grande pelas salas abertas, escondi-me, bicho do mato, numa sala pequena, do lado do largo.
Homens nas traseiras, carne de porco no quintal, vinho na cozinha.
Senhoras na frente, entre bolos e canapés.
E a miudagem, saltando entre os grelhados, os doces e o jogo da calha.
Mas naquela altura, escondi-me. Era às escondidas.
Encarei com a fruteira de loiça que talvez nunca tivesse visto. Abri uma espécie de tampa e o objecto desfez-se ante a minha pouca habilidade manual. Gomos de porcelana que deviam ter-se apenas com a tampa colocada, desvairaram a cair por sobre a madeira do louceiro.
Aflito, tentei reconstruir o instável puzzle e, assim que o consegui, bem ou mal, raspei-me.
No recanto das escadas que davam para o grande pátio, consegui dissimular-me aos olhos do buscante.
Foi então que ouvi o estrondo.
Tremendo.
Embora tivesse achado o som estupendo demais para a fragmentação da fruteira, imaginava já os pedaços no chão e o castigo que se seguia.
Os gritos que se sucederam é que já não eram a propósito. Por que é que havia alguém de gritar tão alto por causa de uma peça de loiça?
Quando vi a correria, espreitei do varandim sobre o portão. Lá em baixo, no largo, juntavam-se dezenas de pessoas. No meio delas, duas senhoras estavam caídas. A grade da varanda, por baixo delas.
Não, na grade da varanda eu não tinha mexido.
2005

Ponto um: Não dei pela meia-noite (não, não bebi demais).
Ponto dois: Não ouvi a Marcha Radetsky.

31/12/2004

Siga


MMV

"Ainda me divido entre os calendários agrícola e civil. Mesmo que as ligações ao campo se limitem hoje a presenças espaçadas.
E, por isso, vejo os anos terminarem na época balnear. Quando ela existe.
Quando não acontece, a sensação é a de emendar anos em anos, sem que 31 de Dezembro seja mais do que fim de mês.
Poucos anos passei sem molhar os pés. Mas neste século, só uma vez mergulhei nas águas do Atlântico. Com muita pena minha.
Estou portanto quase em ano seguido desde o verão de 2000
." - escrevi isto aqui em Maio passado.

Podia ser em Garvão, em Pinhel, em Cacela Velha, no Sanguinhal, em Almofala, no Sabugal, em Angeja, nos Pitões das Júnias, em Barrancos, em Vila Nova de Milfontes, em Marmelete, no Terreiro das Bruxas, em Coja, em Valhelhas, em Proença-a-Nova.
Podia ser em qualquer desses lados ou em qualquer outro que nos agradasse.
Parar o carro e escutar contigo os sons do Ano Novo, batuques, foguetes, tiros, o que fosse.
Como fizemos certa vez em São Martinho do Porto.
Como fizemos muitas vezes em muitos outros locais, sem que fosse Dezembro ou Janeiro.
E agora, és tu que dizes - passaram os anos, e agora?
Agora? Agora é tarde!

A todos os que consideram esta próxima meia-noite especial, mais do que passar de um Dezembro para um Janeiro - sempre tão apartados no tradicional JFMAMJJASOND, pois que o próximo ano cumpra os vossos desejos.

30/12/2004

Restos de colecção (16)

No tempo em que os brinquedos eram perigosos(!!!!)


in "Encyclopédie des Jeunes", Ed. Gérard & Cº, 1965
Do ano (infantil)

Uma das coisas que me atormenta é o percurso que certas ideias infantis fazem em determinados meios onde seria esperada a sua reflexão (no sentido óptico).
Este ano, há algumas - sempre as mesmas é certo - que merecem destaque.
A sempiterna obsessão com a água, com a sua existência alhures, de forma a esperar-se que tenha havido, haja ou venha a haver vida. Como se não fosse possível imaginarmos formas de vida independentes da água.
E mais uma que se repete - a questão da existência ou não de Deus, face a catástrofes como esta dos últimos dias. Nem merece comentário.
E outra igualmente recorrente, embora mais nova, que se prende com a questão da existência ou não de uma alma, face à futura mais do que provável clonagem humana.

29/12/2004

Aviso

Qualquer semelhança entre a imagem abaixo e um boletim de voto é, pois, pura coincidência.
Restos de colecção (15)

E também aparecem coisas destas, lá do fundo da memória:



Colecções dos livros infantis Majora
Samatra, Sumatra e o mais que se ouve

O grande problema de muitos linguistas, entre outros que apelidam de ciência os estudos que desenvolvem com base no homem e nas suas particularidades, é não perceberem que o seu campo de estudo evolui com base no erro e não no acerto (ainda que o acerto humano seja matéria a escalpelar), quando não com base nas modas.
Não faltam hoje, como no passado, duas versões para o mesmo nome.
Socorro-me aqui, como em muitas outras ocasiões, das palavras do intelectual de esquerda que já aqui citei, proferidas nos já longínquos anos setenta:
"Já não se diz Mao Tsé Tung. Agora é Mao Zedong que se diz." - e acompanhava esta sentença de uma longa série de argumentos.

28/12/2004

O Mar

Dizem que desta terra co as possantes
Ondas o mar, entrando, dividiu
A nobre ilha Samatra, que já d'antes
Juntas ambas a gente antiga viu.
Quersoneso foi dita; e das prestantes
Veias d'ouro que a terra produziu,
Áurea por epiteto lhe ajuntaram;
Alguns que fosse Ofir imaginaram.


Luís Vaz de Camões, Lusíadas, X:124

27/12/2004

Terceira fila

Todos os dias há problemas menores para resolver. E são esses que nos causam o aborrecimento.
Que os grandes problemas não suscitam pequenas sensações.
Assim sendo ou não, detive-me hoje na espinhosa tarefa de arrumar livros.
Não há nada que mais me aborreça, em se tratando de livros, do que ter que dispô-los em fila dupla.
Pois hoje fui mais longe. Vi-me compelido a distribuí-los em três filas. Claro que o resultado me aborrece.
Restrições espaciais, má escolha do mobiliário ou a síndrome do burro carregado de livros.

Restos de colecção (14)


Foto MOP

26/12/2004

Aferição

Quem tenha dúvidas sobre a qualidade do jornalismo hoje em dia, pode nestas alturas dissipá-las. É mau de mais.
Boxing Day

E a coisa começa a ser fatídica - há precisamente um ano, o sismo de Bam.

24/12/2004

Restos de colecção (13)

Um livrinho de Jorge de Sena pouco conhecido e adequado à época


Contributo

O meu contributo para a quadra é, mais uma vez, não pisar o asfalto.
Como dizia o outro:
Hey! Hey! Hey! Let's be careful out there!


23/12/2004

Bruxelas



Os défices das contas portuguesas, seja ele o das contas públicas, seja ele o externo - no tempo em que isso era um problema - têm uma história semelhante ao do buraco do ozono.
Não falo das curvas que não faço a menor ideia quais são. É mais da atenção que merecem. E do não se saber muito bem desde quando é que lá estão. E só virem à baila em certas épocas do ano, e ser o Valha-me Deus.
Toda a gente fala, muitos suspeitam das causas a que se devem uns e outro, mas parece que não se olha para o conjunto de forma a pôr cobro à coisa. Se é que é possível fazê-lo.

A imagem de cima é a curva das concentrações de ozono estratosférico medidas na Antártida, obtida aqui.
A de baixo, dos tendeiros, é de Bruxelas. Fotografia de Maurice Blanc.


Memórias


Alcácer do Sal, 1972

É Natal,
Cheira a lenha e a linguiça
Em Alcácer do Sal.


SG, inéditos, 1993

22/12/2004

Das pescas


Portimão, 1975
Ainda os saltimbancos

Dei-me de repente conta de que os saltimbancos de ontem não pediam votos, nem reclamavam maiorias absolutas.
Bem ao contrário do candidato a Par do Reino a quem a minha bisavó, na certa interpretando à pressa as palavras da empregada, mandou que dessem esmola.


Pablo Picasso - imagem em http://casl.umd.umich.edu/hum/spanishco/17.Miro_%20Dali%20_%20Picasso/images/165Picasso.Saltmbnco.51351c.jpg
Restos de colecção (12)


Foto MOP

21/12/2004

Aferições

Há coisas que se não conseguem aferir. Mesmo que pareça fácil fazê-lo.
Enganamo-nos quando o tentamos fazer.
Não sei se isto se aplica a tudo. Talvez se aplique, talvez seja daquelas banalidades universais.
Quero lá saber.
O caso é que passaram por aqui uns saltimbancos.
Com tambores apenas. Mero toque de caixa, um barrete de Pai Natal e uma meia onde recolhiam as moedas, lançadas das janelas.
A minha necessidade de aferir vem desse facto.
Já não há saltimbancos? Ou sou eu que os não vejo? - É que há séculos não via um espectáculo tal.

20/12/2004

Manhãs e espólios

O sol nasceu hoje no mesmo sítio. No mesmo sítio onde o vi decerto nascer pela primeira vez. No mesmo sítio onde o vi nascer em noites de vela, em noites de festa, em manhãs de tempestade, manhãs de viagem, manhãs de pré-praia. Nasceu enquanto aviões aterravam ao longe, comboios soavam na curva da linha, o bulício (ah, o bulício) dos carros se ouvia lá em baixo.
Nasceu lá hoje, depois de uns dois anos sem que lá nascesse. E, pela primeira vez na minha vida, vi o meu quarto sem a mobília. Entrei nele como quem entra numa ruína. Um espelho a um canto, duas cadeiras, cartas militares e peças desenhadas encostadas a uma parede. Nada mais que mereça destaque. O quarto dos meus pais, o meu quarto, ali estava. Mostrando bem que tudo tem um fim.
Vou a pé, pela antemanhã. Passo pela zona de pós-guerra em que se transformou o centro da vila, da cidade. O murro de Berlinda, como diria um nauta que aqui aterrou há tempos em busca dele. É ali. Ali se construiu o mais imbecil de todos os muros, de todos os murros. Mostrando a imbecilidade de quem o concebeu e a resignação de quem o aceitou.
E é de comboio que volto. Entre as caras que já não assobiam como outrora. Trago o primeiro saco do espólio fotográfico. Nem sei por onde começar. Começo por esta, a primeira que saiu.


18/12/2004

Restos de colecção (10)




in Association Internationale Permanente des Congrès de la Route - IX Congrès International de la Route, Lisbonne 1951 - Compte Rendu des Travaux du Congrès

17/12/2004

Inconfidências


Turcos e croissantes

Os padeiros de Viena talvez estejam acordados a esta hora.
O Império dos Francos e o Império Otomano terçando armas à mesa.
Confesso a minha total incapacidade para prever as consequências de uma união de ambos.
A única que me atrevo a extrair é a de que, seja o que fôr que aconteça, não será para sempre.
E, mesmo dessa, não estou cem por cento certo.
Admiro os que já sabem o que vai acontecer. Que já conhecem todos os males ou todas as vantagens de uma união. Que sabem o que acontecerá de bom ou de mau quer se aceite a Turquia ou não.
Parece óbvio que nenhum dos anteriores alargamentos da União suscitou tantas paixões. Afinal, há uma matriz comum, mais próxima, dos países integrantes. Que, dizendo ou não, alguma coisa aos povos desses países, foi, durante séculos natural entre os seus chefes. Quase todos familiares uns dos outros.
Não é o caso da Turquia otomana. Coisas do crescente e da cruz.
A ver vamos no que dá. Dez anos dá para acontecer muita coisa. Difícil de prever. Mas é já ali ao virar da esquina.
De qualquer forma, se 3 de Outubro de 2005 é a data aprazada para o início das negociações (?), cumpre dizer que é curioso que seja num dia de eclipse do Sol. Dia de sol crescente.
A moeda de 3$00



Há uma parte da humanidade que se acha destinada a ensinar os outros.
Será uma fatalidade que assim seja, uma vez que suspeito que todas as partes da humanidade são necessárias.
No entanto, às vezes, esta parte dos pisantes da ecúmena apresenta-se sob formas pouco suportáveis.
Há os que debitam nomes e obras como quem abre baús e mostra tesouros.
Há os que mostram os contornos de intrincadas reflexões sem permitirem que se tome o fio à meada.
E há os que se insinuam com aparentes disparates. Isco de pesca. Mal o incauto levanta o dedo para assinalar o suposto erro, desaba-lhe em cima uma parafernália de argumentos e de provas esmagadora.
Chamo a estes os da moeda de 3$00.
Não faço ideia de qual é a percentagem de pessoas que teve na mão uma tal moeda.
Os que viveram onde elas circulavam, devem ter boa lembrança dela.
Para muitos dos que nunca as viram ao vivo, como eu, e que não estão familiarizados com os mistérios da nossa emissão monetária, pode parecer assim, à primeira, um rotundo disparate que tenha existido tal coisa.
É dessa vertigem de correcção, quase com a avidez com que o vigarista estende o tapete, com mansa fala, àqueles a que acena com o lucro fácil, que vive o pessoal da moeda de 3$00.
Enredam o pobre convicto com insinuações e mal ele entra na contradita, sai ferrado.
Todos os dias os vemos em acção.
Não sei se já ensinaram alguma coisa a alguém.

15/12/2004

Aos costumes direi nada

Há-de ter havido umas perguntas do costume. Ignorante que sou, nada sei sobre.
Sei apenas que, depois de dar o meu testemunho, alguém há-de ler um papel dizendo que eu, aos costumes, nada disse.
Faz-me espécie esta pergunta tácita. Esta inferência das minhas palavras. Que terá a ver com algum tipo de impedimento, de suspeição de parcialidade, suponho.
Logo vos direi se aos costumes disse ou não, nada.
Rodas largas


14/12/2004

Mais ou menos

Mais ou menos arranjada a coisa, afinal.
Os comentários antigos ainda estão no limbo.
Bronquite

De bronco, mesmo.
É o que dá tocar muitos instrumentos ao mesmo tempo, a altas horas.
Lá se foi o template. Agora é preciso ir à procura das cópias e tentar repor tudo como estava.
Não há comentários nem estou com paciência para estragar mais nada a esta hora.
Em querendo comentar, favor dirigir-se ao Sapo.
Memória das coisas - 28 de Fevereiro de 1969

Afinal, a minha memória não me traiu. O meu olhar dos dez anos não ampliou as dimensões, como admiti no post anterior.
Encontrei fotografias da época.
Nas páginas do Centro de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e nas da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica.

13/12/2004

O sismo das 14:18*

Não sei quantos sismos já senti. Já lhes perdi a conta. A este senti-o bem.
E como das outras vezes, a mesma sensação de impotência.
Talvez que um sismo com maior duração permita algum tipo de reacção. O de Fevereiro de 1969 durou o bastante para isso. Mas como acordei mais com o ruído de janelas a bater do que com a vibração, só percebi que não era vento quando já tudo acalmara.
Foi nessa altura que pude ver, pela primeira vez e única até hoje, ao vivo, a destruição associada a estes fenómenos.
Poucos dias depois, passava por Bensafrim e recordo-me da quantidade de casas que estavam parcialmente derruídas. Terei ampliado em demasia os estragos? Com aqueles olhos infantis que tudo sobreavaliam? Não sei. A verdade é que nunca me entreguei a essa pesquisa. A julgar pela forma como foram tratadas as inundações de 1967 na imprensa e a forte controvérsia que sempre existiu sobre o seu balanço final, é provável que também não chegasse a nenhuma conclusão.
Mas é nestas alturas que sobreleva a impotência dos homens.
No nosso caso particular, não é a só a impotência. É também uma certa ignorância dos riscos.
A verdade é que todos sabemos que vivemos numa zona de alto risco. Mas ao mesmo tempo, a Natureza tem-nos poupado. Por alguma razão que desconhecemos, há muito que não nos confrontamos com um terramoto de grandes dimensões. Coisa relativamente comum em séculos anteriores. Toda essa ignorância, esse alheamento, tem conduzido a um descaso nada próprio de zonas de risco sísmico.
Pode dizer-se, sem grande risco de erro, que quando acontecer, terá graves consequências. Só os crédulos pensarão que grande parte das estruturas onde nos amontoamos, resistirão sem danos maiores a um abalo mais forte.
Uma das curiosidades destas alturas é, como não podia deixar de ser, o chorrilho de disparates difundido.
Desde a não confirmação oficial (?) até às tentativas de lançar o pânico, através de insistentes e capciosas perguntas a especialistas, tudo se ouve.
O bom senso, qué dele?

*no meu relógio



imagem do IM

12/12/2004

A novidade

E os shortcuts? Já viste?
Mas isso têm todos.
Eh pá, dá um jeitão. Olha aqui o 112. Carregas no 1 duas vezes, no 2, no cardinal e já está.
Realmente... podias ter posto no 111, sempre variavas. Ou no 115, à moda antiga.
Restos de colecção (9)



in Vasco Callixto, "Fala a Velha Guarda - subsídios para a história do Automobilismo em Portugal", 1º vol., Lisboa, 1962
O Código de Belém

No passado dia 19 de Outubro, quando foi apresentada a proposta de Orçamento de Estado para 2005, supus e bem, que algo de secreto se encontraria nas entrelinhas do texto.
Inspirado por um post de Rafael Reinehr, segui as pisadas dos decifradores do código da Bíblia e lá encontrei o que toda a gente sabia que existia, mas não tinha coragem de procurar.
Ganha agora particular relevo este segredo. Uma vez que é dissoluta a Assembleia, demissionário o Governo, MAS aprovado o Orçamento.
Assim sendo, procurei, pelo mesmo método, descodificar o discurso do Presidente da República e o do Primeiro-Ministro demissionário.
Não tendo o portal do Governo o conteúdo da comunicação de ontem do Primeiro-Ministro, aqui fica à vossa apreciação, o discurso do Presidente da República, matriciado a 64 colunas (passo 64).
Na falta de tempo, deixo ao vosso cuidado a busca das palavras nele escondidas.