22/02/2005

Sound bites

Ou até fragmentos de filmagem.
Vi há pouco a maldade que algum realizador de televisão fez aos líderes políticos que se dirigiam ao pano de fundo azul, com a rosa-dos-ventos da defesa atlântica, para se deixarem fotografar apertando a mão.
O cliché é velho, muito velho. Não é só desde que há fotografia, desde que há cinema, que os homens se dispõem a esta pose.
Já o faziam quando se apresentavam em público encenando actos. Já o faziam quando se pretendiam imortalizar na ponta de um pincel.
O problema do mundo actual é a banalização. A banalização de todas as coisas.
O fingimento é mais do que banal. Nas imagens, nas palavras. Seja nas populares fotos de um casamento num jardim qualquer, seja no boletim de voto supostamente VIP que fica dois minutos suspenso da ponta dos dedos à espera dos flashes.
Estamos todos fartos disso.
Das declarações de fugida quando o microfone cria a vertigem da palavra. Da oportunidade dos anónimos mostrarem a cara ao mundo.
Mas serve para quê esta encenação?
Para os arquivos encenados da história? Como o célebre e controverso beijo da mulher e do soldado? Não sei.
O que sei é que fazem falta alguns mais como o famoso engenheiro que disse para as câmaras, para os microfones:
"Agora não posso. Tenho que ir mijar!"

Nota: Não era soldado o homem do beijo de Doisneau. A minha memória juntou duas fotos. Uma da libertação de Paris e a do beijo de Doisneau. Baralhações da velhice.
Escolinha

21/02/2005

Hardware

O telefonema do MC e a falta de novidades

Já o conheço há muitos anos. De outras lutas, mais consequentes.
Ontem telefonou-me. Na certa para me perguntar se já tinha votado. Como se ele não soubesse que, se eu me decidisse a não ir, nada me arrastaria até ao autocolante dos bombeiros.
Mas como lhe disse que sim, apenas me pediu o palpite e lá fez as suas observações habituais.
Para ele, faz muita diferença que ganhe A ou B. Acredita em manhãs radiosas e dias cinzentos.
Uma das coisas que mais me intriga na espécie humana é esta maravilha de pensarmos que somos outros no dia seguinte.
Que de 24 de Abril de 1974 para 25 saíram os que cá estavam, cerca de dez milhões, e entraram outros. Que isso aconteceu de cada vez que se disse que o país virou à esquerda e à direita.
Eu confesso. Nunca me apercebi de tal coisa.
E sobre viragens à direita e à esquerda, excepção feita aos piões que se fizeram enquanto a borracha não aderia ao betuminoso, não tenho também dado por nada.
A questão do Hondt e se a minha...

O "e se...?" é daquelas interrogações, digamos condições, que nos persegue.
Quando o "e se...?" se levanta, esquecem sempre milhões de implicações que teria, pois só resta uma - a que interessa ao especulador.
Ora o "e se..." nunca aconteceu nem nunca acontecerá, porque caminhamos numa via única. Não há dois destinos para um homem, tanto quanto sabemos.
Mas fazendo tábua rasa do que acabei de dizer, noto o seguinte:
E se algum dos partidos tivesse obtido, em dado círculo, até mais 1000 votos? (claro que no "e se..." os outros teriam que ficar na mesma)
Teríamos o seguinte:
Em Aveiro, o Bloco de Esquerda com mais 206 votos tirava o último deputado ao PS.
No mesmo distrito, o PSD com mais 991 votos - sem que o BE crescesse, é claro - tirava o tal último deputado ao PS.
Em Braga, o BE com mais 418 votos, tirava o último deputado ao PSD.
Em Faro, o PSD com mais 190 votos, tirava o último deputado ao PS.
No Porto, o PS com mais 926 votos, tirava o último deputado ao PSD.
Em Viana, o PSD com mais 969 votos, ficava com o deputado do CDS.
Teríamos assim o BE com a possibilidade de alcançar mais 2 deputados.
O PSD a perder 2 e a ganhar 3.
O PS a perder 2 e a ganhar 1.
E o CDS a perder 1.
5 deputados perdidos e 6 ganhos. Como se vê, há um deputado que surgiu do ar.
Pois é. É que nestas coisas do "e se...", nunca se contam as hipóteses dos outros ganharem também qualquer coisinha.
E agora perguntam os meus leitores: Este tipo não tinha mais nada com que se entreter?

Com os dados do STAPE

20/02/2005

Arquivo

Para além do palpite do post anterior:

E agora, José? (25 de Junho de 2004)

Era pré-Socrática (30 de Novembro de 2004)
Falhei em barda

Mas não engendro explicações



em post de 6 de Janeiro
Claro que

É um exercício que me faz rir esse de mostrar que as sondagens falharam porque...
É a história das últimas eleições em Espanha e o motivo óbvio; da última vitória de Felipe González e não sei o quê; das últimas autárquicas e foi porque a sala era torta...
E muitas outras, referendo sobre a interrupção da gravidez, etc.
Ocorre-me sempre perguntar se quem assim se justifica o faz porque disso está convencido ou então se o diz apenas com desplante.
Pela minha parte, apenas dei um palpite aqui, em princípios de Janeiro. Veremos qual o grau do falhanço. Mas não matei a cabeça com estatísticas nem com amostras.
Também não sei se a maioria das sondagens vai falhar muito ou pouco. Só me cheira a qualquer coisa...
Estas cadeiras

Este recanto
Onde me sentava junto ao fogo
E ficava a ouvir os seus estalidos e o que me ensinava sobre coisa nenhuma
Para além de combustões das quais ele próprio nada sabia



Às cadeiras ainda as tenho
Do recanto alheado, nada sei
Resultados



Percentagem de pontos obtidos
(1) Falta apurar a freguesia de Guimarães. O resultado final estará compreendido entre 57,6% e 62,1%

imagens obtidas nas páginas dos clubes
A camisola nº8



Uma das minhas dúvidas existenciais é por que raio me hei-de eu chatear ou contentar com os resultados dos jogos em que participam onze tipos muito bem pagos que, na maior parte dos casos, nem sequer se chateiam ou alegram como eu sem razão.
Lembrei-me de uma camisola riscada de verde e branco, ostentando o número 8, que às vezes via pendurada num varal lá na rua onde morei.
Nesse tempo, não me sentia desconfortável ao discutir do alto do meu metro e pouco com o empregado da pastelaria, benfiquista ferrenho. O meu pai é que talvez nunca tenha percebido de onde me vinha a veia sportinguista. Nem eu. Também dele não cheguei a saber se era do Benfica, do Porto ou do Sporting. Apenas a história de uma certa moça que um andrade abandonou à sua sorte no Estádio do Lima, enquanto descia ao relvado para protestar.

18/02/2005

No comments

QI

Numa época em que absurdamente e de formas tão bizarras se quantifica tanta coisa, seria curioso que alguns dos que se dedicam a esse tipo de cálculos, nos apresentassem um QI modal para o qual falam os políticos.
Bacalhau a debate

O comandante do posto cedia de bom grado, talvez à revelia da hierarquia, uma sala para o efeito.
O resto era com o corpo social. Vinho, pão, linguiças, presunto, queijos e uns doces para as senhoras. Tudo em boa quantidade e de boa qualidade.
A sala não ficava à vista da assembleia de voto, era mais retirada.
Não havia qualquer tipo de discriminação política. O predominante PCP partilhava o segredo com as outras forças políticas, menos expressivas. Mas havia uma selecção do eleitorado, ah isso havia. Não era qualquer um que tinha direito ao convite, depois de deixar o voto na urna.
Claro que o pretexto era alimentar os membros da mesa que ficavam por ali o dia todo. E também a guarnição do posto que nesse dia dispensava a cozinha. Mas isso era o pretexto. E qualquer pretexto serve a um bom alentejano para fazer um petisco.
Fechadas as urnas, contados os votos, dado conhecimento dos resultados, seguia o debate.
Comunistas, socialistas, pê-pê-dês e cê-dê-esses batiam-se com a tradicional açorda de bacalhau em certa casa. Só os que conseguiam partilhar uma noite eleitoral com copos de vinho, apostas e as picardias naturais da divergência política. Gente com bom vinho, que era felizmente muita para uma terra tão pequena.

16/02/2005

Doutores da mula russa*

Sempre tive pouca paciência para os grandes educadores.
Para os que, em vez de exemplo, dão lições. Que se acham depositários das grandes verdades. Que teimam em evangelizar as hostes.
O mal deve ser meu. Não se preocupem.

*devia ser ruça, mas não é
Saídas

Eleições

Descobri ontem que o Sapo dá, no âmbito desta campanha, destaque a um blogue por dia.
Ontem calhou a este, na versão Sapo. Agradeço a distinção, embora reconheça que jamais me ocorreu que algum dos meus leitores pudesse mudar o seu voto em função do que aqui lê. Tenho a certeza de que não é assim por duas razões. A primeira é que, modéstia muito à parte no que respeita aos meus leitores, quem aqui vem espreitar não se deixa influenciar. A segunda é que, tendo lá a minha visão das coisas, também não me sinto no papel de evangelizador.
Sobre as eleições, já deixei lá para trás o meu palpite. No domingo, veremos quantos falho.
Ah, e hoje o destaque do Sapo vai para o João Tunes, do Água Lisa.

14/02/2005

A visão particular

Sendo que a individualidade é um mistério, algumas questões se me levantam ao atentar sobre a visão que cada um terá das coisas.
Muita coisa escrita há sobre o assunto. Mas não é da visão dos outros sobre a visão de cada um que se trata. É da minha.
Haverá uma altura da vida em que se completa e se fecha a visão que temos das coisas?
Em que tudo o que aprendemos posteriormente apenas entra como um tomada de conhecimento, que nada modifica o plano geral?
Ou, pelo contrário, existirão verdadeiras conversões?
Ora este ponto é sempre controverso. Uma conversão, a existir, pode ser sempre entendida como uma evolução anterior à fixação do olhar.
Admito que a maioria das pessoas congele uma visão do mundo a partir de determinada altura, enquadrando nela todos os conhecimentos posteriores.
Admito que isso acontece independentemente da amplitude dos conhecimentos adquiridos.
Admito entretanto que haja também uma constante interpelação, seja nos crentes seja nos agnósticos e ateus, entre o discurso racional que é o único onde nos fazemos entender e as certezas ou incertezas da fé, no caso dos primeiros, e a imperfeição da razão, no caso dos últimos.
Mas mesmo com essa interpelação, suponho que há um apelo do hábito que nos leva sempre a observar e a julgar as coisas da mesma forma, a partir de certa altura da vida. Mesmo que nos lancemos nas profundezas do abismo em busca da verdade. Verdade da qual julgamos conhecer os contornos mas não o cerne.
E alguém se lembra destes nomes ditos de seguida?

Bornes, Braga, Faro, Guarda, Gardunha, Lisboa, Lousã, Mendro, Monchique, Montejunto, Portalegre, Porto e Valença.
Espero não ter esquecido nenhum.

13/02/2005

Com eles?

Cruz credo! Ser vizinho com Santana Lopes ou José Sócrates? E ainda há quem o queira ser!
Quanto a ir comprar um carro com qualquer deles, não vejo a vantagem. Perceberão alguma coisa de mecânica?



Na primeira página do Expresso de ontem.
O mundo a seus olhos

Totoloto

Ou como um burro pensa que pode domar o acaso, baseando-se na estatística.
Ou mais comedidamente, como arranja uma forma de partir inutilmente a cabeça com algoritmos parvos.
Pois é assim que funciona o sistema de desdobramentos de que já aqui falei várias vezes.
Esta semana gerou 19 chaves:

12/02/2005

A menina das soquetes brancas

Nesse dia fui a dois casamentos ao mesmo tempo.
Para um tinha convite. Era de um velho amigo.
Decorria o copo d'água num daqueles restaurantes com vários salões quando, comigo, alguns resolveram penetrar no casamento do lado.
A surpresa foi grande. O noivo era nosso conhecido. Frequentava o mesmo café que nós. E a parte feminina da festa era mais interessante.
À algazarra inicial que promovemos, sucederam-se alguns brindes aos noivos e a uma quantas convidadas que entretanto se tinham aproximado.
Quando a coisa acalmou, abandonei os companheiros. Sentei-me no muro deserto da varanda, de frente para o mar, que era Julho e fim de tarde. O gin tónico fazia-me companhia e ainda tinha os sapatos cheios de areia depois da nossa revista às tropas em parada, mais abaixo.
Foi ao fim de um bocado que vi as soquetes. Balançando de um muro um pouco mais alto.
Foi de relance.
Mas não tardou que não me virasse. As pernas eram quase de menina, embora se notasse já o tornear das coxas que faz toda a diferença. Uns dezoito, dezanove anos.
"Então hoje viemos de soquetes?"
De réplica em réplica, já íamos na dança.
"Não posso. Está lá dentro o meu namorado!"
"Que a esta hora deve estar à sua procura. Ou intrigado por vê-la a três metros de umas costas de homem, olhando para o mar."
"Acha que se percebe que estamos a falar?"
"Não sei. Não há aqui mais ninguém. O muro é comprido e você sentou-se, ao fim e ao cabo, perto de mim."
"Mas podem pensar que nos conhecemos."
"Quem? O seu namorado?"
"Sim. Ele não conhece a maior parte das pessoas. Eu sou prima da noiva, mas ele não conhece toda a família."
"Ah, seremos até familiares. Primos que se não vêem há anos."
"Isso."
"E ele não teria já perguntado a alguém se me conhece? Ou às minhas costas?"
"Não sei. Deixe lá."

Quanto o António me chamou para nos irmos embora, abri a porta do velho Ford Cortina e recostei-me na napa vermelha.
Mas, de repente, saltei do carro e apressei-me a entrar nos salões, de novo.
Vi-a ao longe, a dançar com um tipo.
Não foi difícil colocar-lhe no bolso (sim, no bolso) do vestido branco um cartão de visita.

Uma semana depois, disseram-me que uma voz feminina tinha ligado, perguntando pelo meu nome completo.
Porta para a rua

Euro 2004

Não sei o que lhes aconteceu.
Nem à dona do quiosque que me tomou por um técnico da câmara, nem ao rapaz que me perguntou se as obras sempre iam ser feitas, tomando-me apenas por alguém que devia saber.
Ela com toda a certeza temia perder o lugar perto do estádio, agora que o negócio prometia.
Ele, sorrindo, apenas me disse que ia procurar outro local para dormir.
Malditos papéis debaixo do braço, os que eu levava nesse dia.

10/02/2005

Telefone 18 (II)

Há coincidências.
Ao escrever o post anterior, ocorreu-me uma constatação feita com o tempo. Que hoje, com a proliferação dos telefones móveis, com algum abandono da rede fixa, com a compartimentação das listas telefónicas se perdeu uma boa parte da probabilidade de encontrar alguém através delas.
Ora na caixa do correio lá estava a cartinha da PT sobre os dados pessoais e sua divulgação.
Não faço ideia se há muita gente a pedir o anonimato do seu telefone fixo. Alguns há. Sempre houve. Mas tenho a impressão de que pouca gente adere às listas de telefones móveis.
A net permite a quem a usa, e não são todos, encontrar alguém na lista.
Mas se as pessoas usam telemóvel e não o registam, é mais um contributo para este alheamento dos dias que correm.
De quantos amigos perdeu o contacto?
Passatempo

Onde é que fica esta ponte? Que ribeira transpõe? Que estrada é esta?



Tirei esta foto em 1972. Estou certo de que a maioria dos portugueses já a atravessou.
Telefone 18

Os menos novos lembram-se desses tempos.
Quando os telefones se resumiam a um ou dois algarismos. Quando era preciso dar à manivela até que do outro lado atendia uma voz mais ou menos conhecida. Ligue-me a tal sitio, Dona Ermelinda, se faz favor.
Pois bem, não sou saudosista a esse ponto. Esta coisa dos telélés faz um jeitão. Mas sou daqueles egoístas, confesso. Ando com ele desligado no bolso. Para usar só em caso de necessidade.
Tempos houve em que assim não era. Em que também era incomodado e incomodava a toda a hora os que comigo trabalhavam ou com quem mantinha relações de trabalho. A chamada agitação do dia-a-dia. É preciso isto, venha cá ver o que se fez, pode encomendar mais material, o que é que aconteceu ao Zé? Era assim, do nascer ao pôr do sol. Sete dias por semana, às vezes.
Mas agora não.
Hoje, manhãzinha cedo, ouvi algo que não ouvia há muito. Algo que se vai perdendo na urbanidade dos telefonemas do carro para casa e de casa para o carro, de vizinha para vizinha, do café para o comboio.
Alguém chamava alguém. Ó Ritinha! Ó Ritinha! Tásmaovir? Ó Ritinha! Ó Ritinha! Tásmaovir? - exactamente neste ritmo, duas chamadas, uma interrogação, duas chamadas, uma interrogação. Consecutivamente.
Era, suponho, de janela a janela. Não confirmei. Limitei-me a absorver os sons. Que me transportaram para a época em que no bico do cêrro, sobranceiro à vila, escutava os sons de fim de tarde enquanto disparava a máquina fotográfica.
Galinhas, vacas, porcos, motorizadas, chocalhos e gritos. Ó Jaquiiiiiiiiiiiim - era a hora de ele voltar da taberna. Já lá vooooooooooooooooooooou - respondia o dito, lá do fundo.
A carne é fraca

Já um homem não pode divertir-se com as amigas! Ao que isto chegou.



Num supermercado perto de si.

08/02/2005

O Carnaval de Sines


imagem em

Nunca pus os pés em cortejos carnavalescos.
O que não significa que não tenha uma certa curiosidade em apreciar de perto um, uma vez que calhe.
Há muitos anos, despontava o sol à saída da cave do Ti Guerreirinho, depois de uma daquelas açordas, deu-me para promover uma excursão de abalamos como estamos para o Carnaval de Sines.
Dividiram-se as hostes, contadas por vinte e tal. Vozes grossas pela ida, vozes finas pelo regresso imediato a casa.
Acho que fiz o caminho, embrutecido, talvez a cantar ô ô ô ô, Aurora. Era de facto o nascer do sol.
Pois

"Resta assim ao Homem completar-se na ilusão do excessivo alimento que o precavenha de escassezes futuras, no excesso de distracção da mente que impeça a tentação paradoxal de se entender a si próprio."*

Eu não sei ao certo o que isto quer dizer mas suponho que é o tradicional comam e bebam e deixem-se de filosofias.
Deixa-me no entanto uma interrogação. A ser verdade o aforismo segundo o qual as "filosofias são para quem tem a barriga cheia", há o risco de a quase circunferência se fechar ou não?

* Não é uma citação. É uma divagação.
E o prémio vai para...

Laurindinha, do magnífico Abrigo de Pastora, que acertou à primeira.
E aqui está a prova fotográfica. O antigo couto mineiro de Jales e os seus arredores valem a visita. Para quem gosta de ver os chamados restos arqueológicos da era industrial.



(e que prémio será?...)
Passatempo
(actualização)


Pistas adicionais:
São duas (que eu saiba) as localidades cuja designação inclui esta palavra ou é esta palavra.
Ambas são sedes de freguesia do mesmo concelho.
O nome da sede do concelho começa pela mesma misteriosa letra.

07/02/2005

Nuvens


Passatempo



Esta é uma palavra portuguesa, cuja primeira letra é uma consoante e todas as restantes por preencher são vogais.
A primeira letra não é nenhuma das seguintes:

B
C
D
F
G
P
S
T

nem sequer K ou W.
Algures nas memórias deste blogue está uma foto em que ela aparece.
Dificuldade

Tenho estado a magicar numa série de argumentos que levem as pessoas a votar em mim.
Não consegui alinhar nenhum.

Têm ouvido como eu os tempos de antena na rádio?
Não? Não sabem o que estão a perder.

06/02/2005

Chuva

Em homenagem à chuva que cai há uns dias lá para as minhas bandas, prepara-se por aqui um post monográfico. Sobre a água macia e sobre as cargas d'água. Sobre os pontapés que se davam nos torrões à entrada do verão e veja lá isto, só pó, só pó, nem uma humidadezinha.
Sobre os atasqueiros de invernos caprichosos. Sobre os barrancos passados a vau e sobre as carradas de pó dos verões mais malinos. Sobre os dias em que o alcatrão derretia mas em que, à noite, a samarra sabia bem. Sobre tudo isso, porque a memória destas coisas é importante.
Porque de facto o verão de 2001 foi, na altura, o mais seco do século. E do milénio, até.

05/02/2005

04/02/2005

Totoloto



Há muito que não me abalançava nos meus palpites.
Como podem ver, a obsolescência do programinha é tal que ainda marca em escudos o preço da aposta.
Vetustez que faz também com que demore mais do que a conta. Duas horas e meia, mais coisa menos coisa. Jogando com os 49 números, à partida excluiu quase ¾ das chaves. E para analisar as restantes, uma a uma, ainda demora esse tempo.
Neste momento, já passou do milhão e meio de chaves e apenas escolheu 24. Parece-me bem.
Elogios repetidos

Ao fotógrafo inumano que assim assesta as lentes, minuto após minuto, hora após hora.
Mesmo que alguém cuide do enquadramento, o fotógrafo não existe. É uma ficção, que nos dá imagem destas:



Não me canso de os fazer desde que comecei este blogue, há ano e meio. Há muito mais tempo que lá vou espreitar as fotografias.
Gasolim por aí (às compras?)


02/02/2005

À noite, em Santa Luzia (Tavira), quase uma vida atrás


A seca, as campanhas e o estado em que isto está

Talvez eu seja um rabugento. Um entre muitos. Talvez eu tenha ainda incrustadas as memórias de uma certa sociedade pobre e privilegiada.
Pobre, porque os recursos eram escassos. Privilegiada, porque a autosuficiência lhe dava o calo para suportar todos os riscos e seguir em frente. Sem grandes ajudas.
Em que ninguém se queixava, ninguém clamava por ajuda do Estado. Talvez apenas que o Estado os deixasse viver em paz.
Talvez tudo isso não fosse muito social. Talvez que a desprotecção pudesse ter posto fim à geração, nos anos da guerra civil. Lá pelo fim do primeiro terço do séc. XIX. Escapámos por pouco, sempre ouvi dizer. Os meus antepassados e todos os que eles geraram.
Mas não é essa a história de todos nós, pelos tempos fora? Escapar e sobreviver por milagre? Haverá nisso alguma singularidade?
Confesso que tenho pouca paciência para os tempos que correm.
Para os clamores da seca, para os clamores do fogo, das más colheitas, da crise.
Para os clamores dos maus políticos, do sebastianismo, da porca da vida.
O que não significa que não caia na tentação de, às vezes, me juntar a eles. Somos todos humanos e nada coerentes.
Quando ouço falar os políticos, em tempos de campanha e fora dela, já aqui o disse, temo que não exista a pessoa a quem se dirigem.
Temo que ninguém se interesse pelas patacoadas que proferem, pelos ataques que desferem, pela inconsistência do que dizem.
E não abro excepções no panorama actual. Todos me parecem bonecos do mesmo titeriteiro.
Quanto aos receptores, a julgar pela amostra que conheço mais uma vez, não encontro quem se prenda nos argumentos que ouve.
Vejo de um lado os que se riem. Vejo de outro os que jamais mudariam o seu voto em função de discursos. Vejo de outro ainda os que encolhem os ombros e nem sequer escutam. Vejo por fim os que nem dão conta do que por aí se diz.
Falarão para quem, ao certo?
Tenho para mim que um político não pode, não deve ser uma pessoa brilhante.
As pessoas que o são ou não se interessam pela coisa, abrigadas no seu próprio valor, ou rejeitam a comparação com a mediocridade geral. Não estão muito dispostas a navegar em águas de que não se conhece a profundidade. Não estão muito vocacionadas para teorias sem sustentação de nenhum tipo. Deixam-se ir, enquanto a água do barco não chega a níveis críticos.
Para ser um bom político hoje não são as características que forjaram outrora bons líderes que ajudam.
Não sei quais serão as características necessárias. Mas às vezes temo que uma delas seja a de dizer patacoadas para um interlocutor inexistente.

E aqui fica a prova de que, não tendo paciência para lamúrias, também as acompanho.
E de que também digo patacoadas ao vento.

01/02/2005

História confusa para duas Ofélias1, um carteiro e algumas centenas de queijos


imagem de http://cineclap.free.fr/?n=359

Não, o J. d'A. não é para aqui chamado. A menos que o seja por ser um dos meus melhores amigos, ter jeito para o negócio e ter, tal como eu, protelado o mais que pode a data de ir à forca. Neste último capítulo, de resto, só perdeu para mim, depois de um certo acordo que ambos firmámos e que era uma forma mais elaborada de aposta2.
Ah, e por eventualmente ter uns amigos carteiros. Sim, isso é relevante.
Ora, começando por aí. Pelos carteiros que conheci por intermédio dele.
Claro que quando se tratava de pousar à porta do café, eles não raro desfiavam o indizível: aquela cheia de curvas é do lote 3, 4º D, da Almirante Cândido dos Reis3; a que vai ali com o saco é do Miradouro, nº 13, 2º E.
Posto isto, julgo que nenhum carteiro com volta já batida ignora quem habita em vizinhanças velhas. Tem tudo em base de dados.

Ah, mas o meu amigo ainda é chamado por ter protelado o casamento ao ponto de os pais o terem presenteado com uma casa. A ver se a coisa ia para a frente. Ledo engano.
Foi a garçonnière mais famosa lá do bairro. Já nem se sabia quantas cópias de chaves havia. Eu próprio estive lá sem ter estado e das vezes em que estive, é claro que não estive.

É aqui que entra a primeira Dona Ofélia. Moradora no mesmo prédio já ia para uns 40 anos. Ainda por cima fora ela quem sugerira ao J. d'A., melhor dizendo à família dele, a compra do andar devoluto, visto ser mãe de um dos da banda. Da nossa banda. Mas já casado na época e respeitável pai de filhos.
Ora a Dona Ofélia Madeira não só reprovava as entradas e saídas do rédechaucê como ainda fora obrigada a conviver com um episódico armazém de queijos que o J. d'A. resolvera instalar na fracção do imóvel.
Não eram bem vistas na vizinhança as alegações de um sócio dele segundo as quais tal empreendimento estimulava as poupanças dos afectados. É que ele afirmava, em alta voz, que os lanches dos vizinhos dispensavam o conduto. Só o panito e o cheiro a queijo eram suficientes.
Esta fase coincidiu com uma certa decadência da garçonnière. Por mais encantos de que os amigos do proprietário fossem portadores, tornava-se hercúlea a tarefa de convencer parceiras a partilharem, por muitas vezes seguidas, o ambiente lacticinoso da coisa.
Embora muitas delas tivessem, pela primeira vez, conhecido o significado de rouparia.

Aqui chegados, de declínio em declínio, houve por bem a namorada do J. d'A. apresentar-lhe um ultimato. Lá fomos todos de fato e gravata, está claro.
Quando nasceu o rapaz, o J. disse-me que o melhor era mudar para uma casa maior. Pôs-se em campo.
Em campo também eu estava mas a tratar de outro assunto.
Calhou que os dois coincidissem. O meu assunto comprou a casa do J., sem que eu fosse perdido nem achado.
Chamava-se este assunto Ofélia Moreira. Claro que me fartei de gozar com o prédio das Ofélias.

Mas nada disto seria relevante para respeitar o título em epígrafe se não recuperássemos os carteiros. Ou um carteiro em particular.
Aquele que levava uma carta para uma certa Ofélia Moreira. Para o prédio das Ofélias. Onde havia uma há mais de 40 anos.
Dona Ofélia Madeira abriu a carta. Não estranhou ser em língua estranha. Pediu ao filho que a lesse. Lida a carta, vinda lá dos lados da antiga esfera soviética, por bem achou responder dando conta que não conhecia a signatária, jamais fora ao leste da Europa e que assim estranhava ser destinatária de tal missiva.
Uns dois anos depois, encheu-se de coragem. De envelope em riste, desfeita em desculpas, culpava o carteiro. É que não era, nunca foi seu costume abrir a correspondência alheia.

1 - As senhoras não se chamam Ofélias. Nem Madeira, nem Moreira. Os seus nomes próprios são raros e os seus apelidos raríssimos. Sendo que os apelidos, para além de raros, coincidem no número de letras, na primeira e na última, e das restantes, duas são comuns.
2 - Lembrem-me de fazer um post a propósito.
3 - Suponho que seja rara a terra onde exista uma rua Almirante Cândido dos Reis. Almirante Reis e Cândido dos Reis afinal parecem ter sido duas pessoas distintas.

Esta história é completamente verídica.

31/01/2005

Dificuldades de comunicação

Estes últimos meios dias foram dias fora do baralho.
Entretanto começa a notar-se a carga excessiva de fotos na lentidão de carregamento desta página.
Sintomas de pouca escrevinhação e de muita coisa que me passa diante dos olhos, saída mais uma vez dos caixotes da história.


29/01/2005

Meses de seis semanas

Eu sei que é esquisitice. Mas cada qual tem as suas.
Sempre embirrei com os calendários que, por terem a sua regra tipográfica assestada às cinco semanas, juntavam o 24 e o 31, o 23 e o 30.
Não vos falaria disto se não tivesse estado numa repartição pública o tempo suficiente para reparar num belíssimo calendário emoldurado a madeira, daqueles à moda antiga. E lá estavam as cinco linhas, apenas as cinco linhas, o 23 enfiado a meias com o 30, o 24 com o 31. Não há respeito. Amanhã e depois são meios dias, portantes.

A Lisboa por


Sábado

As janelas, do outro lado da auto-estrada, todas elas mostram reflexos de luz vermelha.
Como num incêndio de madrugada de verão.
No mesmo local onde vi um solitário auto-tanque cortando a manhã, um desses dias de inferno, rumo ao centro do país. Silencioso, em emissões de azul, dessa vez.
No rádio, o mesmo programa de há vinte anos. As mesmas vozes, umas só minhas conhecidas, outras perdidas nas serranias, falam do lugar, dos lugares que há no sul.
Nem tudo é tão diferente.

27/01/2005

Exclusão social

Herdei dos meus antepassados esta aversão às compras a prestações.
Ou talvez não fosse aversão, fosse impossibilidade.
Jamais possuí aquela porra em plástico que dá acesso à ilusão dos cofres cheios.
Vivi sempre com o dinheiro que tenho em cada dia e nunca com o ovo no cú(?) da galinha.
Um destes dias, pediram-me o cartão de crédito.
Como a minha resposta fosse negativa, seguiu-se uma inspecção visual.
Um mero cartão de débito é para desconfiar...
Actualidades

Descobri hoje de manhã que, ao contrário do que eu supunha, não foi 2-2 mas sim 3-3, o resultado do jogo no final do prolongamento.

Dei comigo a perguntar-me: Há quantos anos não se fala de política - de políticas - em Portugal?

26/01/2005

Abusos

Por acaso, abri esta correspondência que não era para mim.
1-LGS


Urbanidades


Desaprendendo

Na cidade, desaprende-se. Pequenas manifestações da natureza a que estávamos habituados, esquecem.
Falei disso aqui há uns meses.
Pois bem, há pouco, espantei-me de novo com a minha desaprendizagem.
Enquanto observava o matinal fluxo de automóveis, segurando placidamente uma chávena de café, embalado pelo chinfrim da pardalada nas árvores fronteiras, ouvi um estrondo. Poderia ser um tiro, uma explosão de combustível fora das câmaras em algum veículo mais envelhecido, qualquer coisa dessas.
O meu espanto adveio do silêncio imediato dos pardais.
Pensei que estes pardais urbanos, habituados a toda a sorte de ruídos, se não assustassem com coisa tão trivial.
Afinal, tudo permanece na mesma...

A quem foi ler o outro post, devo dizer que fiz outras experiências com uvas de supermercado e todas criaram bolores.

25/01/2005

Que seca

Segundo o Almanaque Borda d'Água, decidiu-se no sábado passado a sorte do tempo em Portugal.
Se o vento soprasse de leste, teríamos seca; se de oeste, chuva e ano farto.

Não me mantive a par dos dados desse dia mas suponho que o vento terá soprado entre os quadrantes norte e leste, na maior parte dos locais. O que não augura boa coisa.

Mas como aparentemente havia dias já decididos, independentemente do augúrio, aqui vai a lista. Chuva, chuva só lá para Março. Mas na próxima segunda-feira, haverá chuviscos. Diz o Borda d'Água:



Nota: Nem copiar sabem, digo, sei. A verdade é que a primeira versão do quadro estava errada. Suponho que o Almanaque adapta as previsões à medida que o tempo corre. Há umas horas atrás, dizia uma coisa. Agora, abri-o de novo e lá estava a informação alterada!!!

23/01/2005

Espalhafato

A questão não é o aviso. É útil o aviso que vêm aí dias frios. Claro que é.
A questão é o espalhafato. É a repetida vertigem do mais de sempre, do maior de todos, do nunca visto, do não há memória.
Vertigem que já começa a despontar e é claro que se agravará.
Aos que já levam disto uns aninhos, é o sorriso condescendente que suscita.
Aos que andam aqui há menos anos, mais valia que lhes explicassem que estas coisas acontecem. Podem não acontecer todos os invernos, mas acontecem.
Tal como acontecem as secas, as chuvas intensas e os calores excessivos.
Mas o jornalismo é o que é.


imagem de http://www.physics.utoronto.ca/~smorris/edl/icespikes/Ice_Spike.jpg
Sobral de Monte Agrado, como dizem os espanhóis

Houve de facto um leve, muito leve, estremecimento da cadeira.
Aí pelas seis e um quarto.
Como há muitos outros, causados por coisas mais humanas.
Mas o que achei curioso é que o epicentro tenha sido ali para os lados do Sobral de Monte Agraço.
A única história curiosa com sismos, que não posso aqui contar, mas que contarei no dia em que escreva algumas memórias, passou-se ali. No Sobral.
O sigilo profissional não me permite que o faça.
Nas memórias, se lá chegar, já o tempo decorrido tirará qualquer importância ao que ficar escrito.



P.S. O IM parece ir melhorar a informação sismológica. Para já, mais vale consultar a página do Instituto Geográfico Nacional de Espanha, de onde vem esta imagem.