19/03/2005

Gotas lentas

Para mim, tudo o que não seja balizado e regrado é poesia.
Talvez também poesia seja o que se diz entre balizas e consoante as regras. Não sei.

Três homens, primos entre si.
Uma porta de jazigo aberta ao crepúsculo.
Não se faziam balanços nem se pronunciavam as habituais lengalengas de ocasião.
Eram palavras lentas como as gotas que fingiram cair no preciso momento.
Cada vez menos luz. Outros ao longe, já na parada.
Pareceu que estas portas, aquela porta, são uma espécie de passagens para a história.
Dito isto, até me soa a lugar comum. Talvez o seja.
Mas o chão, de sete palmos, parece ser muito mais inacessível.
As gotas, lentas.
Astronomia de secretária

Ele aí vem. Milagres do acaso.

18/03/2005

Espólio (6)


Mértola - anos 50

Espólio Campos Vilhena - foto de MSS
As voltas do tempo

Tal como há cinco anos atrás, os dias frios e os dias quentes surgem pouco espaçados. É Março.
Março, Marçagão, de manhã, inverno, à tarde, verão.
Lisboa 1982



Rua Barros Queirós (cópia manhosa em papel de jornal)

17/03/2005

Os sinais

Parece indiscutível que uma das preocupações da vanguarda da espécie humana é, desde há algumas décadas, o cenário futuro das condições climatéricas e o consequente risco para a sobrevivência da espécie.
É esse sinal que recolho, mais do que a primaridade de muita da argumentação de repetidores, de muita especulação pouco científica, de muita inconsistência nas argumentações.
Interessa-me sempre o panorama geral. Muito pouco a opinião particular.
Uma das verdades de La Palisse é que mais gente no mundo conduz a um aumento de temperatura. Outra é a de que mais combustão, mais conversão de energia em calor, dá o mesmo resultado. Outra ainda é que propiciar a criação de filtros à irradiação também conduz à acumulação de calor. Podem somar-se outros mas quase tudo desemboca no número de viventes e na forma como se organizam as coisas à face da terra.
Uma das questões que se levanta é caracterizar bem essa evolução. Ora aqui é que começa o problema. Sabemos ou julgamos saber que ao longo da evolução, antes de existirem criaturas vagamente parecidas com o que somos hoje (como se fosse possível estabelecer um tempo em que não existiam e um tempo imediato em que faziam parte da fauna) e depois desse dia, ocorreram várias modificações no clima do planeta. Saber se existiriam homens sem essas modificações é daquelas perguntas interessantes mas desnecessárias porque sem resposta.
Mas para a caracterizar, dizia, são precisos dados. Dados que escasseiam. Dados que apenas se referem a umas décadas, com a precisão datada, mas que ainda assim podem servir para traçar gráficos e olhar para eles.
Não nos dão estes gráficos nenhuma novidade. Se olharmos para as temperaturas em Lisboa, vemos claramente uma subida. Comparemos essa subida com os dados existentes sobre a população e outros indicadores que nos possam dar uma ideia sobre a evolução da transformação de energia em calor e teremos com toda a certeza uma relação entre uma coisa e outra.
Já para o campo, a coisa é diversa. Analisei temperaturas médias mensais de várias estações do sul de Portugal e, no intervalo de tempo a que correspondem os registos, cerca de 60 anos, não é possível concluir por mudanças significativas. Ainda que pareça haver um aumento e uma menor variação nas temperaturas médias mais baixas, correspondentes aos meses de Inverno.
Ora o risco que corremos quando olhamos para estas séries é pensarmos que elas são representativas de alguma coisa. Como é que se pode concluir seja o que fôr, em termos gerais, mais latos, a partir de uma amostra de um troço infinitamente pequeno de uma curva?

Mas supondo que há de facto uma tendência acentuada de alteração das condições climatéricas, qual será essa alteração? Que efeitos terá de facto sobre a nossa espécie e sobre as outras? Alguém os sabe determinar? Alguém faz ideia da capacidade de adaptação que temos?

Ainda assim, e dada a crescente preocupação que o assunto suscita e que me leva a concluir que há razão para o encararmos de frente, é natural que medidas haja a serem tomadas.
Saber exactamente quais é que é mais difícil. Não me parece que tudo se resuma a excesso de concentração de determinados gases. Nada deste mundo se resume a bolotas. E mesmo que assim fosse, é esse objectivo, o de reduzir essas concentrações, alcançável?
E sendo que a população continua a crescer, haverá medidas que se possam tomar para travar esse crescimento? Ou viramo-nos decididamente para fora e vamos à procura de locais para colonizar?

No meio de tudo isto, alegram-me sempre os disparates ditos com convicção. Aqueles cenários que se traçam do modo mais primário, quase sempre encerrando a contradição e a incompatibilidade entre conclusões.

Ninguém sabe que alterações advirão do aumento segmentário da temperatura.
Ninguém sabe os efeitos sobre as diferentes espécies que essas alterações desconhecidas acarretarão.
Ninguém está por isso em condições de afirmar que isso será catastrófico ou benéfico.
Ninguém sequer pode garantir que não se verificará uma catástrofe, no sentido físico da palavra, uma alteração repentina das condições que não permita a readaptação.

Mas havendo inquietação entre os homens, isso mostra claramente que haverá alteração de comportamentos.
É já um aspecto da adaptação das espécies, da nossa espécie, ao meio.
O problema da sobrevivência já se colocou muitas vezes. E ainda aqui estamos.
Gasolim por aí

16/03/2005

A marmota que desceu no meu quintal

As esquírolas encontradas no assento traseiro
Eram decerto bocados de cóccix
Que o antrópofago se esqueceu de digerir
Na segunda manhã do rali de Monte Carlo.
E, mesmo que o não fossem, tinham estatuto de VIP
Na deslocação aprazada para quinze do corrente
Às traseiras do palácio da princesa adormecida
Onde, adrede, o gâmeta masculino tinha marcado
Presenças dignas de um grande senhor fariseu.
Claro que a solicitude com que foi recebido
Tinha algo a ver com a sempre apregoada hospitalidade
Avulsa dos arautos em torneio complementar.
Bosquejando aquilo que seria o seu amor interrompido,
O ente encontrava-se absorto e meditabundo
Contemplando duas relíquias guardadas num sacrário.

SG, "2ª Escolha", 1993

15/03/2005

Restos de colecção (20)

Betão e...



Foto MOP
A fórmula de Heron

Qualquer um que tenha (que tivesse, que hoje há calculadeiras para todos os efeitos) necessidade de calcular uma área agrícola, por exemplo, socorrer-se-ia de triangulações e provavelmente da fórmula de Heron para obter o resultado.
Suponho que hoje a maioria dos não iniciados desconhece esta velha fórmula de conhecer a área de um triângulo dados os lados.
É que a "base vezes altura sobre dois" apesar de ser de conhecimento generalizado, não permite de facto calcular com precisão uma área de um triângulo qualquer cujos lados são fáceis de medir.
Para que o permitisse, era preciso que se soubesse com rigor o valor da "altura". E esse valor não é facilmente determinável no terreno como o são os lados do triângulo.

14/03/2005

Memórias de Manel Loendrêro

Parece que o autor fazia questão do anonimato.
Nunca conheci os pormenores associados às crónicas tão pouco o seu autor.
Limitava-me a ler com muito agrado as fotocópias que me davam do jornal.
Ontem dei com uma página que lhe faz referência.
Senti-me transportado para adegas cheias de tralha, comendo pão com banha por essas quatro da manhã, enquanto o cão da casa assentava arraiais sob o improvisado púlpito de onde um mais capaz declamava as aventuras dos moços dos lados do Ardila.
Há vinte e tal anos...
Os fortalhaços a monte

Fui dar com o meu caseiro debaixo de um chaparro, a dormitar.
Saudou-me com um sorriso malandro e atordoado.
Disse-lhe ao que ia. À procura de quem me tinha dado uma carga de porrada ali no monte, na véspera.
Respondeu-me de pronto:
"Não sabe quem foi? Foi o Sr. Vidêra mais o Sr. Madronhêra. Também me bateram a mim!"


fotos dos meliantes capturadas aqui e aqui

12/03/2005

A chapelada

As senhoras estavam indignadas e desapontadas.
Havia suspeitas de chapelada na mesa onde tinham estado. De nada se tinham apercebido mas eram implicitamente o objecto das críticas.
Enquanto uma fila de golas altas, camisolas vermelhas, azuis bébé, barbas grisalhas e anoraques, em jornada de luta, mostrava a sua indignação pelo supostamente ocorrido, elas contavam-me o que não tinham visto. Ainda por cima aquela mesa era simbólica, diziam, funcionava no qualquer coisa das mulheres de um sindicato qualquer.
Nessa altura, enquanto mirava a longa fila de manifestantes que pareciam ainda alinhados para votar e a porta da pastelaria dos bolos mais adiante (sim, há ali uma pastelaria que não é dos bolos, é só dos cafés, mesmo ao lado), resolvi-me a comentar que em matéria de chapeladas teríamos também que considerar o que passara há trinta anos, quando a gente que agora protestava punha e dispunha e fazia igual ou pior.
Por qualquer milagre, as minhas palavras foram, embora aceites com indignação e protestos, decisivas. Em menos de um fósforo, desmobilizaram. Creio que no meio de alguma barafustação entre eles.
Nessa altura, o rapaz recém-chegado ouviu ainda os restos da minha diatribe. As minhas tias e sogras pareciam consoladas com o desfecho.
Uma das minhas primas não sabia da mãe. Talvez no clube, no teatro, naquela sala que fica na rua calcetada e imaginária, quase paralela à que sobe do largo da vila.
N. estava na sala às escuras. Na segunda sala, a que tem ao palco ao fundo. Era a única pessoa em pé, com a saia e casaco brancos recortando-se contra o cenário cinzento.
Encontrada a tia que faltava, bailava com N. quando ela me beijou. Retribuí, espantado.
"Uma gaivota voava, voava..." - era isto que se ouvia nos altifalantes.



imagem composta a partir desta e desta

11/03/2005

Too many Murphys

Ou talvez não.
Não me parece que a frase do capitão Murphy, tão semelhante às que ouvimos diariamente nas mais diversas actividades, tenha, tivesse tido, a força suficiente para explicar o clima actual.
Precisamos de facto de uma lei nova. De uma frase interrogativa sobre o que poderá correr bem.
E alguma coisa correrá bem.
Serei como muitos um pessimista reflexivo mas um optimista emocional. Quem carrega uma nuvem negra sobre a cabeça deve sofrer à farta com isso. Mas talvez nada possa fazer para o evitar.
A questão é que, para onde quer que seja que nos voltemos, só ouvimos profetas da desgraça.
Seja no ambiente, seja na paz, seja na segurança, seja na economia, as vozes só nos traçam cenários negros.
Há muitos anos, a minha conversa era semelhante. Mas não fazia disso uma missão evangélica. Só quando me obrigavam a dar opinião, lá expunha o que pensava serem os anos que viriam. Devo dizer que acertei em muitas coisas. Não que disponha de excepcionais qualidades divinatórias. Limitei-me a observar os sinais. São os sinais que me interessam sempre. Interessa-me ouvir os outros mais para perceber os grandes números do que uma opinião em concreto.
Talvez que a questão da nossa sociedade, da nossa civilização, seja ter atingido um patamar de conforto que não lhe abre grandes perspectivas de melhoria.
O facto de não haver grandes desafios para completar pode conduzir a esta apatia insatisfeita e maldisposta.
Precisávamos de qualquer coisa que nos levasse a agir com voluntarismo. Uma saga. Uma descoberta qualquer. O que se perfila, no entanto, é que seja mais uma vez uma grande desgraça a abrir as portas do empenhamento e a fazer-nos arregaçar as mangas, sem sorriso mas com vontade.
Waiting for the sun

10/03/2005

É entrar

As reservas estratégicas

Um destes dias foi daqueles em que quase se tornou necessário utilizar as reservas monetárias.
A ATM aqui ao pé de casa enviava os clientes para trás do sol-posto. Não sei se com propriedade, por haver qualquer tipo de restrição na zona, ou se por mero erro.
Foi então que me veio à cabeça a questão das reservas.
De todo o tipo de reservas.
Há quem tenha a sua reserva de comida, de água, de gás, de pilhas, etc. E quem leve isso a sério.
Há quem as tenha mas não leve a coisa a sério. Tem água já velha, comida em lata fora de prazo, pilhas sem carga, etc.
E há quem nunca tenha pensado no assunto.
Convivi em tempos com alguém que fazia anualmente a sua festa de substituição de reservas.
Não era festejo que atraísse muita gente.
Lá se consumiam os atuns enlatados das mais escassamente diversas formas.
Se passava o dente pela sardinha em tomate, pelo feijão pré-cozinhado, pela panóplia de iguarias conservadas em lata.
Mas o dinheirinho debaixo do colchão às vezes faz falta. Nesse dia quase fez.
Um dia ainda contarei como achámos certa vez uma pipa de massa debaixo de um colchão.
Num quarto de hotel. E o que fizemos com ela.

09/03/2005

Notícias limpas

A tentação de botar opinião sobre as coisas mais bizarras e desinteressantes instalou-se há muito entre os jornalistas. Mesmo que não seja uma opinião formal há-de ser um dichote a propósito.
Ignoro se os despachos das agências já incluem alguns destes elementos e se são assim meramente reproduzidos. O que se percebe muitas vezes é que uma história bizarra é apenas uma história mal contada a que se juntaram os ingredientes para a tornar publicável.

08/03/2005

As coisas que eu sei

Que todos nós sabemos, sem saber que sabemos.
E que quando ficamos frente a frente com um écran de televisão onde passa um concurso de perguntas nos saltam de debaixo da língua.
Não me detive nunca a ler o que foi já escrito sobre a atenção, a memória, a selecção dos dados na mente. Ninguém sabe ao certo como esta funciona. Dão-se palpites como em tudo na vida.
Houve uma época da minha vida em que, surpreendentemente, tinha respostas para quase todas as inquietações de um companheiro de noitadas, fossem elas de trabalhos de grupo ou de mera diversão.
Sabes como é que ficou o jogo do Barreirense? 77-87.
Quando é que é o concerto dos Supertramp? Na semana que vem.
A quantos segundos está o Markku Alen? 13.
O pior é que eu tinha a perfeita noção de que, por um acaso qualquer, acabara de ouvir na rádio a informação solicitada.
Com as horas de rádio que então ouvia era até provável que soubesse os resultados dos regionais de futebol. Às vezes sabia. Sabia mesmo os do hóquei em campo e como se tinha portado o Ramaldense nesse fim-de-semana.
Havia também um que sabia quantos parafusos tinha a Torre Eiffel. Julgava que sabia.
Esquina

Espólio (5)



Fissuras nos apoios

Espólio Campos Vilhena - foto de MSS

07/03/2005

Da antiga E.N. 125

Margens



Baias

Embirro com carneiradas, visitas guiadas, percursos pedestres.
Dou-me, no entanto, conta de que se justificam algumas baias. Seria o bom e o bonito se se deixassem ao critério de cada um o que se pode e não pode pisar.
Sabemos todos isso. Sabemos também que o problema não é um a pisar a relva. É a horda.
Mas todos nós ansiamos por desfrutar certas paragens dispensando os outros. Se não somos todos, é uma boa parte.
Reclamamos a torto e a direito contra as enchentes, as filas, as aglomerações. Há os que as evitam e os que nelas persistem, continuando a reclamar. É a vida! - como diria o outro.
Sempre me fez confusão que as pessoas se dispusessem a enfrentar longas filas de trânsito para sul e para norte quando ali ao lado havia estradas desertas. Fazia-me confusão e dava graças por isso ao mesmo tempo.
Há uns tempos que andava intrigado com uma coisa. Que tem a ver com baias ou com a ausência delas. Aqui perto de casa, num daqueles típicos arranjos feitos em planta e que ficam muito interessantes no papel, era necessário subir dois lances de escada e descer depois um certo declive para aceder de uma rua a outra. Pelo meio ficava um passagem muito viável sobre um canteiro. Claro que nasceu uma vereda. Há poucas semanas a vereda foi substituída por uma suave escadaria empedrada. Bom trabalho.
Esta ideia de que os percursos devem ser deixados aos peões e mais tarde "oficializados" é interessante mas não é praticável em todos os casos.
Nos tempos que correm, quando as veredas quase só existem nos tais percursos balizados, em que a quantidade de obstáculos urbanos é grande, é preciso ver em planta mais do que o papel permite.
Não parece muito difícil prever os caminhos mais utilizados e a forma como devem ser implantados. Mas não é isso que acontece. Todos os dias somos confrontados com voltinhas do Marão para passar de A para B.
Na leva anterior de melhoramentos que por aqui se fez, obrigaram-se as criaturas a descer e a subir umas escadas para transpôr um desnível de 1 metro. Também aí existia a vereda sobre o canteiro. Mas foi contemplada com um muro de Berlim. Coisas...
7 de Março

A verdade é que não me esqueci. Não me esqueci da serra de Sintra, com e sem rali. De todos os troços cronometrados por onde andámos. Do cabo da Roca e dos ventos de finisterra.
Em termos náuticos tenho ouvido referências à boca do Tejo como compreendida entre o Cabo Raso e o Cabo Espichel. A nossa história, como sabes, é pouco diversa. Compreende-se entre o Cabo da Roca e o Espichel. Não foi trágica nem marítima, não me deixo levar pelas palavras.
Mas entre os cabos e os fins, juntou muitas areias de Portugal.
Terras de Espanha, também.
Não te digo mais nada, nunca adivinharás que estas linhas estão aqui.
Repara apenas que o Sahara estava deserto. Já nem existe.

06/03/2005

Espólio (4)



Lembrando as cheias do Sado, antes de haver Barragem da Rocha. Talvez em Março de 56.

Espólio Campos Vilhena - foto de MSS A fotografia cuja autoria estava erradamente atribuída é de José Raposo Nobre

05/03/2005

O primeiro burro



Há mistérios insondáveis. O que é que irá na cabeça de um cãozinho que vê pela primeira vez um burro? Ou que lhe sente o cheiro?
Este burro, que pasta tranquilamente à beira do caminho, foi o primeiro que o meu cão viu. Assustou-se com bicho tão diferente.

04/03/2005

03/03/2005

01/03/2005

Frio

Foi de rijeza a noite passada. Foi.
Mas aqui onde me encontro, com uma história de observações limitada a pouco mais de dois anos, não foi nada que se comparasse à madrugada de 15 de Janeiro de 2003.
Na manhã que se seguiu, já o sol ia alto, ainda havia gelo nos vidros dos carros.
Nada disso se viu hoje.
E essa não foi a única ocasião em que isso aconteceu por estas bandas, em sentido mais lato. Outras houve.
Ainda pela 2



(antiga ponte sobre o Douro da E.N. 2)
Hoje sim

Está uma rijeza das antigas.
Pela 2



E eu sem saber que o Rali este ano vai andar pelas minhas bandas

28/02/2005

A morte política do Zé Bastos

Auscultem-se as redacções, inquiram-se os políticos, sonde-se o povo, releiam-se os provérbios: Quem não aparece, esquece.
E a morte política de qualquer protagonista é a sua ausência das headlines, das intrigas, das conversas de cafés, dos cartazes, das pichagens nos muros.
Ora é mais deste último local, os muros da Pátria, que quase desapareceu Zé Bastos.
E é relevante porque era ali e nas carteiras de escola, liceu e faculdade e em muitos outros suportes que funcionavam como antecessores dos outdoors que a sua imagem preponderava.
Hoje é um ilustre desconhecido. Qualquer representação sua, a duas dimensões, é uma raridade.
Não admira pois que lhe preste singela homenagem, ao encontrá-lo desenhado a branco na valiosa pele de uma sobreira, um destes verões.

26/02/2005

Não tarda nada

Linhas

O Braga e o Farense

Relembrando um post de há séculos.
Por alguma razão obscura ou apenas porque a primeira vez que pus os pés em casa do M. a noite correu bem, afeiçoei-me ao lugar.
Em muitos anos, desde que ele lá comprou o apartamento nos inícios dos oitentas, não foram mais do que três ou quatro as visitas que lhe fiz. Mas todas elas muito aprazíveis. Descobri até que há poucos locais no mundo onde durma tão descansado como naquela casa. Acho que todos nós temos estas esquisitices com certos sítios, de encontrarmos uma estranha paz onde menos se espera e sem razão aparente. Adiante.
O que a seguir narro é no mínimo estranho. Pelo menos para a época em que os factos ocorreram.
E é-o porque, tendo isto se passado em meados da década de noventa, já era o Algarve dessa época do conhecimento generalizado dos portugueses. Pelo menos eu assim pensava.
Ora a casa do M. era e é muito perto do Estádio de São Luís, como verificou quem se deu ao trabalho de ler o post mencionado acima.
Nessa manhã tardia de domingo, depois de uma noitada das antigas, acordei com uma história insistente na cabeça. Uma história bem contada e muito nítida, dessas que se deixam escrever quase palavra a palavra. Saí para a rua, abri o carro, tirei de lá um bloco de notas e instalei-me num café ali perto, disposto a escrever. A conversa por lá era monotemática. Só se falava do sismo que ocorrera nessa manhã e do qual eu estava completamente a leste. Entre os relatos de susto, de loiças a bater, de candeeiros bandeantes e de corridas para a rua, lá consegui, coadjuvado pelo café quente, reduzir a escrito o que tinha a transbordar-me da cabeça. Por ali fiquei mais um tempo a fazer horas para qualquer coisa indefinida. Talvez para o almoço, talvez para o regresso do M. que tinha desaparecido com a família sem deixar rasto, apenas um bilhete. "Não te quisemos acordar".
Quando saí para a rua, havia autocarros estacionados por ali. Burburinho generalizado, alguns feirantes em preparos, músicas diversas gritando sabia-se lá de onde.
Percebi então que era pessoal de Braga. Daqueles que fazem jus à expressão "Não sou de cá. Vim só ver a bola."
Não sei por quê, misturei-me com eles. Talvez para desfrutar o sotaque minhoto mais de perto, em contrabalanço com o do Algarve.
Segui um grupo mais pândego para um outro café. Enquanto tomava mais um, os risos, as exclamações e as pequenas provocações incidiam sobre o nome que devia levar uma chávena pequena de café com leite.
Percebi então que a maioria daquelas pessoas nunca tinha posto os pés no Algarve. Trocavam rapidamente expressões designando bebidas e comidas com o dono do café. Faziam perguntas, gozavam com os indígenas. Tudo em ar galhofeiro, na santa paz.
Não sei o resultado do encontro de futebol.

25/02/2005

É já ali

O partido que não existe

O 25 de Abril apanhou-me com 15 anos. O clima desses dias somou-se à disponibilidade da juventude.
Mas nunca me enquadrei em nenhum rebanho. A primeira e a única vez em que o meu nome constou de uma lista foi para umas eleições para uma associação de estudantes e foi a rogo, quando me apanharam de baixa.
De qualquer forma, nunca existiu o partido que enquadrava essa lista. Que pagou os autocolantes, que fez as cópias. Nunca existiu como nunca existiram os partidos de que muitos outros se reclamaram. Basta ler o que se diz hoje do PSD, o que do PPD disseram os que dele se afastaram em cisões antigas, o que disseram do PS os que dele saíram e depois voltaram, e mais recentemente, o que disseram e dizem do PCP os que de lá saíram ou foram empurrados. E do CDS, os que foram saindo a pouco e pouco. Nunca existiu o partido dessas pessoas. O meu também não.
Mas coloquei a cruz no mesmo sítio. De há vinte e tal anos. Burro velho...
K será constante?



imagem em http://www.stape.pt/img_geral/bvoto75ac.jpg
K não é constante

E não é. Nós é que simplificamos. Alguns com mais convicção do que outros.
Veja-se o caso particular de c, que tanta gente defende com unhas e dentes que seja e tenha sido constante.
Mas não há constantes.
Vem isto a propósito de coisas bem mais comezinhas. E caras a todos os que se dedicam a linhas de código ou a meras folhas de cálculo.
Quantas vezes não incluímos já uma constante aqui ou ali que depois se verifica desactualizada?
Desde o ridículo 0,17 para o I.V.A. até ao 19 para as centenas de anos, passando pelo 13 para os jogos do totobola.
De algumas delas tínhamos a certeza que perderiam a validade e até sabíamos quando.
Com outras, foi o deixa andar, que depois se corrige, se ainda fizer falta. De outras ainda, não nos passava pela cabeça que se alterassem.
No entanto, bastava que em vez da constante se tivesse colocado uma variável para a coisa ficar logo mais definitiva.
A previsão é uma arte, mais do que uma ciência. Embora esta afirmação seja fortemente controversa, continuo a achar que ciência é captura de dados e estabelecimento de relações, de teorias. A previsão é a técnica, que encerra um nível considerável e artístico de incerteza, que se baseia nos dados que a ciência lhe fornece e na utilidade que lhe atribuímos.
Tanta conversa para dizer que onde coloquei uma constante devia ter posto logo uma variável.

22/02/2005

Sound bites

Ou até fragmentos de filmagem.
Vi há pouco a maldade que algum realizador de televisão fez aos líderes políticos que se dirigiam ao pano de fundo azul, com a rosa-dos-ventos da defesa atlântica, para se deixarem fotografar apertando a mão.
O cliché é velho, muito velho. Não é só desde que há fotografia, desde que há cinema, que os homens se dispõem a esta pose.
Já o faziam quando se apresentavam em público encenando actos. Já o faziam quando se pretendiam imortalizar na ponta de um pincel.
O problema do mundo actual é a banalização. A banalização de todas as coisas.
O fingimento é mais do que banal. Nas imagens, nas palavras. Seja nas populares fotos de um casamento num jardim qualquer, seja no boletim de voto supostamente VIP que fica dois minutos suspenso da ponta dos dedos à espera dos flashes.
Estamos todos fartos disso.
Das declarações de fugida quando o microfone cria a vertigem da palavra. Da oportunidade dos anónimos mostrarem a cara ao mundo.
Mas serve para quê esta encenação?
Para os arquivos encenados da história? Como o célebre e controverso beijo da mulher e do soldado? Não sei.
O que sei é que fazem falta alguns mais como o famoso engenheiro que disse para as câmaras, para os microfones:
"Agora não posso. Tenho que ir mijar!"

Nota: Não era soldado o homem do beijo de Doisneau. A minha memória juntou duas fotos. Uma da libertação de Paris e a do beijo de Doisneau. Baralhações da velhice.
Escolinha

21/02/2005

Hardware

O telefonema do MC e a falta de novidades

Já o conheço há muitos anos. De outras lutas, mais consequentes.
Ontem telefonou-me. Na certa para me perguntar se já tinha votado. Como se ele não soubesse que, se eu me decidisse a não ir, nada me arrastaria até ao autocolante dos bombeiros.
Mas como lhe disse que sim, apenas me pediu o palpite e lá fez as suas observações habituais.
Para ele, faz muita diferença que ganhe A ou B. Acredita em manhãs radiosas e dias cinzentos.
Uma das coisas que mais me intriga na espécie humana é esta maravilha de pensarmos que somos outros no dia seguinte.
Que de 24 de Abril de 1974 para 25 saíram os que cá estavam, cerca de dez milhões, e entraram outros. Que isso aconteceu de cada vez que se disse que o país virou à esquerda e à direita.
Eu confesso. Nunca me apercebi de tal coisa.
E sobre viragens à direita e à esquerda, excepção feita aos piões que se fizeram enquanto a borracha não aderia ao betuminoso, não tenho também dado por nada.
A questão do Hondt e se a minha...

O "e se...?" é daquelas interrogações, digamos condições, que nos persegue.
Quando o "e se...?" se levanta, esquecem sempre milhões de implicações que teria, pois só resta uma - a que interessa ao especulador.
Ora o "e se..." nunca aconteceu nem nunca acontecerá, porque caminhamos numa via única. Não há dois destinos para um homem, tanto quanto sabemos.
Mas fazendo tábua rasa do que acabei de dizer, noto o seguinte:
E se algum dos partidos tivesse obtido, em dado círculo, até mais 1000 votos? (claro que no "e se..." os outros teriam que ficar na mesma)
Teríamos o seguinte:
Em Aveiro, o Bloco de Esquerda com mais 206 votos tirava o último deputado ao PS.
No mesmo distrito, o PSD com mais 991 votos - sem que o BE crescesse, é claro - tirava o tal último deputado ao PS.
Em Braga, o BE com mais 418 votos, tirava o último deputado ao PSD.
Em Faro, o PSD com mais 190 votos, tirava o último deputado ao PS.
No Porto, o PS com mais 926 votos, tirava o último deputado ao PSD.
Em Viana, o PSD com mais 969 votos, ficava com o deputado do CDS.
Teríamos assim o BE com a possibilidade de alcançar mais 2 deputados.
O PSD a perder 2 e a ganhar 3.
O PS a perder 2 e a ganhar 1.
E o CDS a perder 1.
5 deputados perdidos e 6 ganhos. Como se vê, há um deputado que surgiu do ar.
Pois é. É que nestas coisas do "e se...", nunca se contam as hipóteses dos outros ganharem também qualquer coisinha.
E agora perguntam os meus leitores: Este tipo não tinha mais nada com que se entreter?

Com os dados do STAPE

20/02/2005

Arquivo

Para além do palpite do post anterior:

E agora, José? (25 de Junho de 2004)

Era pré-Socrática (30 de Novembro de 2004)
Falhei em barda

Mas não engendro explicações



em post de 6 de Janeiro
Claro que

É um exercício que me faz rir esse de mostrar que as sondagens falharam porque...
É a história das últimas eleições em Espanha e o motivo óbvio; da última vitória de Felipe González e não sei o quê; das últimas autárquicas e foi porque a sala era torta...
E muitas outras, referendo sobre a interrupção da gravidez, etc.
Ocorre-me sempre perguntar se quem assim se justifica o faz porque disso está convencido ou então se o diz apenas com desplante.
Pela minha parte, apenas dei um palpite aqui, em princípios de Janeiro. Veremos qual o grau do falhanço. Mas não matei a cabeça com estatísticas nem com amostras.
Também não sei se a maioria das sondagens vai falhar muito ou pouco. Só me cheira a qualquer coisa...
Estas cadeiras

Este recanto
Onde me sentava junto ao fogo
E ficava a ouvir os seus estalidos e o que me ensinava sobre coisa nenhuma
Para além de combustões das quais ele próprio nada sabia



Às cadeiras ainda as tenho
Do recanto alheado, nada sei
Resultados



Percentagem de pontos obtidos
(1) Falta apurar a freguesia de Guimarães. O resultado final estará compreendido entre 57,6% e 62,1%

imagens obtidas nas páginas dos clubes
A camisola nº8



Uma das minhas dúvidas existenciais é por que raio me hei-de eu chatear ou contentar com os resultados dos jogos em que participam onze tipos muito bem pagos que, na maior parte dos casos, nem sequer se chateiam ou alegram como eu sem razão.
Lembrei-me de uma camisola riscada de verde e branco, ostentando o número 8, que às vezes via pendurada num varal lá na rua onde morei.
Nesse tempo, não me sentia desconfortável ao discutir do alto do meu metro e pouco com o empregado da pastelaria, benfiquista ferrenho. O meu pai é que talvez nunca tenha percebido de onde me vinha a veia sportinguista. Nem eu. Também dele não cheguei a saber se era do Benfica, do Porto ou do Sporting. Apenas a história de uma certa moça que um andrade abandonou à sua sorte no Estádio do Lima, enquanto descia ao relvado para protestar.

18/02/2005

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QI

Numa época em que absurdamente e de formas tão bizarras se quantifica tanta coisa, seria curioso que alguns dos que se dedicam a esse tipo de cálculos, nos apresentassem um QI modal para o qual falam os políticos.
Bacalhau a debate

O comandante do posto cedia de bom grado, talvez à revelia da hierarquia, uma sala para o efeito.
O resto era com o corpo social. Vinho, pão, linguiças, presunto, queijos e uns doces para as senhoras. Tudo em boa quantidade e de boa qualidade.
A sala não ficava à vista da assembleia de voto, era mais retirada.
Não havia qualquer tipo de discriminação política. O predominante PCP partilhava o segredo com as outras forças políticas, menos expressivas. Mas havia uma selecção do eleitorado, ah isso havia. Não era qualquer um que tinha direito ao convite, depois de deixar o voto na urna.
Claro que o pretexto era alimentar os membros da mesa que ficavam por ali o dia todo. E também a guarnição do posto que nesse dia dispensava a cozinha. Mas isso era o pretexto. E qualquer pretexto serve a um bom alentejano para fazer um petisco.
Fechadas as urnas, contados os votos, dado conhecimento dos resultados, seguia o debate.
Comunistas, socialistas, pê-pê-dês e cê-dê-esses batiam-se com a tradicional açorda de bacalhau em certa casa. Só os que conseguiam partilhar uma noite eleitoral com copos de vinho, apostas e as picardias naturais da divergência política. Gente com bom vinho, que era felizmente muita para uma terra tão pequena.

16/02/2005

Doutores da mula russa*

Sempre tive pouca paciência para os grandes educadores.
Para os que, em vez de exemplo, dão lições. Que se acham depositários das grandes verdades. Que teimam em evangelizar as hostes.
O mal deve ser meu. Não se preocupem.

*devia ser ruça, mas não é
Saídas

Eleições

Descobri ontem que o Sapo dá, no âmbito desta campanha, destaque a um blogue por dia.
Ontem calhou a este, na versão Sapo. Agradeço a distinção, embora reconheça que jamais me ocorreu que algum dos meus leitores pudesse mudar o seu voto em função do que aqui lê. Tenho a certeza de que não é assim por duas razões. A primeira é que, modéstia muito à parte no que respeita aos meus leitores, quem aqui vem espreitar não se deixa influenciar. A segunda é que, tendo lá a minha visão das coisas, também não me sinto no papel de evangelizador.
Sobre as eleições, já deixei lá para trás o meu palpite. No domingo, veremos quantos falho.
Ah, e hoje o destaque do Sapo vai para o João Tunes, do Água Lisa.

14/02/2005

A visão particular

Sendo que a individualidade é um mistério, algumas questões se me levantam ao atentar sobre a visão que cada um terá das coisas.
Muita coisa escrita há sobre o assunto. Mas não é da visão dos outros sobre a visão de cada um que se trata. É da minha.
Haverá uma altura da vida em que se completa e se fecha a visão que temos das coisas?
Em que tudo o que aprendemos posteriormente apenas entra como um tomada de conhecimento, que nada modifica o plano geral?
Ou, pelo contrário, existirão verdadeiras conversões?
Ora este ponto é sempre controverso. Uma conversão, a existir, pode ser sempre entendida como uma evolução anterior à fixação do olhar.
Admito que a maioria das pessoas congele uma visão do mundo a partir de determinada altura, enquadrando nela todos os conhecimentos posteriores.
Admito que isso acontece independentemente da amplitude dos conhecimentos adquiridos.
Admito entretanto que haja também uma constante interpelação, seja nos crentes seja nos agnósticos e ateus, entre o discurso racional que é o único onde nos fazemos entender e as certezas ou incertezas da fé, no caso dos primeiros, e a imperfeição da razão, no caso dos últimos.
Mas mesmo com essa interpelação, suponho que há um apelo do hábito que nos leva sempre a observar e a julgar as coisas da mesma forma, a partir de certa altura da vida. Mesmo que nos lancemos nas profundezas do abismo em busca da verdade. Verdade da qual julgamos conhecer os contornos mas não o cerne.
E alguém se lembra destes nomes ditos de seguida?

Bornes, Braga, Faro, Guarda, Gardunha, Lisboa, Lousã, Mendro, Monchique, Montejunto, Portalegre, Porto e Valença.
Espero não ter esquecido nenhum.

13/02/2005

Com eles?

Cruz credo! Ser vizinho com Santana Lopes ou José Sócrates? E ainda há quem o queira ser!
Quanto a ir comprar um carro com qualquer deles, não vejo a vantagem. Perceberão alguma coisa de mecânica?



Na primeira página do Expresso de ontem.
O mundo a seus olhos

Totoloto

Ou como um burro pensa que pode domar o acaso, baseando-se na estatística.
Ou mais comedidamente, como arranja uma forma de partir inutilmente a cabeça com algoritmos parvos.
Pois é assim que funciona o sistema de desdobramentos de que já aqui falei várias vezes.
Esta semana gerou 19 chaves: