Popularucho
ç os sonhos mais lindos... r
É verdade, de quando em vez, lá vem o apelo popularucho fazer das suas.
Acordei há uns dias atrás um tanto ou quanto incomodado com a minha imperícia.
Então não tinha deixado uma marca de bandoleira num imaculado vestido de noite de uma conhecida senhora...
O pior é que a marca não era de bandoleira, mas sim fruto da seiva de uma planta, que ela designou com um esgar gentil como sendo «as areias». Ora a dita planta constava de um bouquet que eu próprio confeccionara a partir de flores roubadas à beira do caminho, depois de me certificar de que tinham as raízes em terreno público.
E fi-lo apressadamente para não chegar de mãos a abanar, ao jantar para que fora convidado pela dita senhora.
É que o outro convidado, um bem conhecido trovador português, já badalava na mão uma garrafa de vinho com que contava apresentar-se.
Bem, a história não começa aqui.
Começa com a dona a regressar de algum lugar estrangeiro, com muitos repórteres a cobrir o acontecimento, com gritos de senhorinhas de janelas de sacada, num intervalo da apanha de alfinetes: "Chegou a tia, chegou a tia!"
Sucede que, por essa altura, estava eu preocupado com um assentamento nas fundações de um prédio onde às vezes habito e que se reflectira na queda de uma parte da platibanda que remata o topo das paredes exteriores, e que se manifestara também por um largo buraco no chão, junto às fundações, no alçado tardoz.
Tudo isto, motivara uma velha senhora que, sabe-se lá porquê, mudara do rés-do-chão para a cave a fazer uma espécie de cadeia humana a solo, transportando baldes de terra das traseiras para a frente do prédio, onde os despejava com a ajuda de um velho amigo meu sobre um monte de areia e lama que ali se encontrava desde o tempo em que alguém fizera umas obras.
Este meu amigo não se limitava a ajudar a senhora, também joeirava o tout-venant, parecendo deixar areia onde estava areia, lama onde estava lama e retirar as pedras para, de novo em baldes, as levar para mais longe.
É numa destas viagens que faço com ele que encontramos primeiro o cantor, já munido de sua garrafa, e logo após a senhora, aparentemente perdida numa rua de bairro social (creio que o cantor fez qualquer comentário comparando o estatuto da senhora com o dos moradores e que eu o secundei, mas de forma delicada).
E é talvez por isso que somos ambos convidados para o jantar de chegada da senhora.
O meu amigo, certamente discriminado por se encontrar com os baldes na mão, não foi contemplado com convite algum.
Ora aí, dividido entre a atenção que queria prestar à ocorrência telúrica e suas sequelas na estrutura do prédio e a que era devida à gentil anfitriã, consegui por breves momentos escapar-me e colher algumas flores que me pareceram as mais adequadas ao momento, olhando intermitentemente para os danos no prédio e, despeitado, para a garrafa de tinto que o outro trazia na mão.
Quando depois da poeira assentar, consegui finalmente dirigir-me ao restaurante, tive a infeliz ideia de cortar caminho, atravessando, da porta da frente para a das traseiras, um outro local de restauração e afins, de cariz popular.
E é então que, para meu espanto, uma criancinha dos seus sete ou oito anos, começa a gritar:
"Olhe, olhe, a minha mãe está aqui!"
Quando percebi que era comigo, parei. Olhei para a família, mãe e filha de frente para mim, pai virado de cabeça à banda, mirando-me de alto a baixo, filho indiferente comendo a sopa.
"Então, não conhece a minha mãe?"
O marido dividia-se entre expressões de incredulidade e de desconfiança, a mãe da criança olhava para mim com um ar igualmente espantado e repetia: "Tá calada, tá calada!"
"Então, não a conhece?"
Eu de facto não conhecia nenhum deles.
"Então, não se lembra? No outro dia, estava no café a falar da minha mãe com uma amiga sua!"
O marido levantou-se e já se preparava para interromper o senhor do cozido à portuguesa que ocupava a mesa que nos separava um do outro, quando eu retorqui:
"Não, menina, não conheço a tua mãe. Deves estar enganada."
"Não estou, não. Você disse que conhecia a filha do caseiro do Monte das Peeiras."
Fiquei um bocadinho atónito. De facto tinha dito isso uns dias atrás a uma amiga, à mesa de um café. Mas aquela mulher não era definitivamente a filha do tal homem a que eu me referira.
O pai da criança já conseguira convencer o parceiro de trás a suspender por momentos a garfada de couve e farinheira e a chegar-se à frente para lhe dar passagem. É então que eu caio em mim e digo: "Pois é, mas o monte das Peeiras de que eu falei, não é o do teu avô. É o que fica ao pé do Seixo Barrento. E o do teu avô não é para esses lados, pois não?"
E é nesse ponto que entra uma prima minha e consegue, por artes mágicas, desfazer o equívoco, depois de eu lhe explicar quem era a moça em causa.
Abandono de imediato o local, deixando a minha prima a conversar com a família e julgo ter ouvido o tal parceiro do cozido dizer entredentes: "Eu cá só conheço um Monte das Peeiras, e é ao pé do Seixo Barrento."
Fiquei mais descansado, afinal era uma testemunha a favor, mas também mais intrigado. Se não havia outro Monte das Peeiras, então que família era aquela e o que queriam de mim?
Mas pouco depois, já não me preocupava com isso.
Entrava no restaurante e divisava toda uma corte de senhoras em torno da recém-chegada. O meu companheiro das trovas antecedera-me e já fizera solene entrega do tinto que eu nunca percebi de onde era.
Hesitei entre distribuir uma flor a cada senhora e entregar todo o bouquet à raínha da festa.
Entreguei-lhe o bouquet.
Pouco depois, tendo sido abraçada por alguns amigos entretanto chegados e sem ter largado o bouquet, a tal marca de bandoleira foi notada pela convidada da direita baixa.
Foi aí que se gerou um ligeiro burburinho e que eu fiquei a saber que nódoa de areias não sai.
Argumentava eu para mim próprio que um vestido daqueles só servia para uma ocasião, sem cuidar que o jantar ainda não se iniciara e que era uma indelicadeza permitir que a senhora permanecesse maculada para o resto da noite... quando acordei.