05/01/2008

O Estreladeira

A escada era de madeira e contínua, sem patamares. Os degraus eram gomos na curva em gancho.
O Luís, que transportava sempre um sorriso que anos mais tarde e entre uns tragos de vinho verde, um de nós ao rever-nos infantes sob as asas protectoras da nossa professora, designaria como uma espécie de gula, irrompia invariavelmente impante, escorregando o bibe azul claro e os calções pelos boleados cobertores dos ditos degraus. Descia assim. Trac-trac-trac, num scú com cheiro a giz e a ardósia.

Certo dia de férias, a criada que todos os dias me ia buscar à escola, disse-me: Hoje vi o Estreladeira. Ia com o pai.
Eu fiquei assim sem dar parte de fraco. A tentar ligar o nome à pessoa.

Então aquilo que ele faz todos os dias não é uma estreladeira pela escada abaixo? – acrescentou ela.

03/01/2008

A terceira travessia do Tejo

Dizia eu que era para não me irritar tanto com tanta burrice.
Mas constato todos os dias que já não se trata de burrice, trata-se de gente que não percebe sequer o mundo em que vive. O básico desse mundo, naturalmente.
Dizer, como ouvi agora na RTP, que a Ponte das Lezírias é a terceira travessia do Tejo já não é a asneira de Sócrates que a dizia quarta, é o completo alheamento da realidade em que vive grande parte da classe dos jornalistas.
Têm um mundo de fantasia na cabeça, normalmente com designações em inglês, e é sobre ele que nos dão as notícias.
Qualquer semelhança com a realidade conhecida é, como sabemos, mera coincidência.
O caso da Saúde

Do panorama geral deste governo – feito de medíocres figuras, incapazes de alinhar duas ideias com um mínimo de lógica – salva-se o ministro da Saúde.
O homem não é mentalmente incapaz, antes pelo contrário.
E tem uma ideia para o sistema. A ideia pode ser em parte economicista em parte realista, tout court, mas é uma ideia e ele pretende pô-la em prática. Coisa de louvar.
É claro que o sistema proposto terá problemas tal como já os tem o sistema actual.
Mas tem o mérito de ser realista e de pretender racionalizar recursos.
É claro também que o pano de fundo que enquadra esta reforma é a desertificação de grande parte do país.
Ocorre-me perguntar, já não a este ministro, se há alguma ideia da capacidade que o interior tem para criar riqueza adicional e, havendo, qual é o número de pessoas, com os padrões actuais de vida, que essa riqueza pode fazer fixar.
Mesmo que estas contas incluam uma grande margem de erro, possibilitam saber se o interior desenvolvido é viável.
Tal como vai, tal como se prevê que esteja com estes parâmetros da curva, encaminha-se para o tal deserto.

02/01/2008

Caldas da Raínha, 2007

O lugar que ocupamos no concerto das nações

Deve estar relacionado com as mortes à bala nos festejos da sub-espécie.
E com um timoneiro que muda de um instituto público para uma universidade privada porque a segunda era ao lado do primeiro. E o diz na televisão. E não se apercebe do ridículo em que cai.
Ah, e o balanço

Para que não me esqueça.
O balanço é simples: 2007 foi pouco pior do que 2006.
Cumpriu a tradição da pioria gradual.

01/01/2008

Virando a página, por assim dizer

Primeiro, a mão à palmatória ou como falhei, acertando moralmente, as previsões para 2007.
Fiz, há precisamente um ano, esta aposta tripla:



Verificaram-se no mesmo dia e quem sabe se numa relação de causa-efeito, dois dos acontecimentos previstos. Dei quitação de tal acerto por mor do número das baixas associadas ser muito inferior ao predito.
Terramotos há-os todos os dias em Portugal e mar adjacente sem serem sentidos. Hoje mesmo já houve vários, um deles com magnitude superior a 4, segundo o IGN de Espanha.
Já um sismo sentido com a magnitude do de 12 de Fevereiro passado é coisa muito menos frequente. Disseram alguns que foi o maior desde 1969. Não sei se foi.
Acidentes ferroviários já são coisa rara. E com a gravidade do de 12 de Fevereiro na linha do Tua muito mais. Neste caso, à gravidade juntou-se ainda o aparato. Uma carruagem cair a um rio não sei quantas vezes terá já acontecido em Portugal, sequer se aconteceu tal.
Há, pois, uma vitória moral nessas premonições. Mas de vitórias morais...
O certo é que afirmei que haveria para aí uma centena de baixas, coisa dessa ordem. Falhei pois rotundamente.
Ora estes dois sucessos reduzem a uma insignificância, na minha bola de cristal, a probabilidade de uma aposta idêntica ter algum acerto em 2008.
Poderia apostar num desastre aeronáutico que é o que sobra da aposta feita.
A bola diz-me que não.

Farei, por ora, como um certo analista político de jornal que há uns bons anos face a um desacerto de previsões meteu a viola no saco.



Sem bola de cristal, apenas chamo a vossa atenção para o chorrilho de asneiras que vai sair da boca dos candidatos a candidatos à Casa Branca a propósito daquilo a que chamam mudanças climáticas.
O prólogo já foi farto. O que não será o acto principal.
Tinha prometido a mim próprio não me irritar tanto com as asneiras que leio e ouço este ano que entra.
Começo mal.

30/12/2007

Os simples ao volante

Quando ouço um simples dizer, com a maior naturalidade, que não conseguiu parar, no meio do nevoeiro, e embateu assim nos que já lá estavam, ocorre-me logo se não será um dos tais que tanto aplaudem a nova lei do tabaco.
Os simples são simples e nenhuma culpa têm de o ser.
Talvez a legislação é que não seja a mais adequada neste caso. O que nos leva a outros simples, é claro.
Será que morre mais gente por fumar os cigarros alheios do que na estrada, às mãos dos simples como estes que ouvi há pouco nos telejornais?
E, todavia, permite a lei que conduzam, após terem matado ou estropiado, com a boçalidade que lhes é característica.