O Estreladeira
A escada era de madeira e contínua, sem patamares. Os degraus eram gomos na curva em gancho.
O Luís, que transportava sempre um sorriso que anos mais tarde e entre uns tragos de vinho verde, um de nós ao rever-nos infantes sob as asas protectoras da nossa professora, designaria como uma espécie de gula, irrompia invariavelmente impante, escorregando o bibe azul claro e os calções pelos boleados cobertores dos ditos degraus. Descia assim. Trac-trac-trac, num scú com cheiro a giz e a ardósia.
Certo dia de férias, a criada que todos os dias me ia buscar à escola, disse-me: Hoje vi o Estreladeira. Ia com o pai.
Eu fiquei assim sem dar parte de fraco. A tentar ligar o nome à pessoa.
Então aquilo que ele faz todos os dias não é uma estreladeira pela escada abaixo? – acrescentou ela.
05/01/2008
03/01/2008
A terceira travessia do Tejo
Dizia eu que era para não me irritar tanto com tanta burrice.
Mas constato todos os dias que já não se trata de burrice, trata-se de gente que não percebe sequer o mundo em que vive. O básico desse mundo, naturalmente.
Dizer, como ouvi agora na RTP, que a Ponte das Lezírias é a terceira travessia do Tejo já não é a asneira de Sócrates que a dizia quarta, é o completo alheamento da realidade em que vive grande parte da classe dos jornalistas.
Têm um mundo de fantasia na cabeça, normalmente com designações em inglês, e é sobre ele que nos dão as notícias.
Qualquer semelhança com a realidade conhecida é, como sabemos, mera coincidência.
Dizia eu que era para não me irritar tanto com tanta burrice.
Mas constato todos os dias que já não se trata de burrice, trata-se de gente que não percebe sequer o mundo em que vive. O básico desse mundo, naturalmente.
Dizer, como ouvi agora na RTP, que a Ponte das Lezírias é a terceira travessia do Tejo já não é a asneira de Sócrates que a dizia quarta, é o completo alheamento da realidade em que vive grande parte da classe dos jornalistas.
Têm um mundo de fantasia na cabeça, normalmente com designações em inglês, e é sobre ele que nos dão as notícias.
Qualquer semelhança com a realidade conhecida é, como sabemos, mera coincidência.
O caso da Saúde
Do panorama geral deste governo – feito de medíocres figuras, incapazes de alinhar duas ideias com um mínimo de lógica – salva-se o ministro da Saúde.
O homem não é mentalmente incapaz, antes pelo contrário.
E tem uma ideia para o sistema. A ideia pode ser em parte economicista em parte realista, tout court, mas é uma ideia e ele pretende pô-la em prática. Coisa de louvar.
É claro que o sistema proposto terá problemas tal como já os tem o sistema actual.
Mas tem o mérito de ser realista e de pretender racionalizar recursos.
É claro também que o pano de fundo que enquadra esta reforma é a desertificação de grande parte do país.
Ocorre-me perguntar, já não a este ministro, se há alguma ideia da capacidade que o interior tem para criar riqueza adicional e, havendo, qual é o número de pessoas, com os padrões actuais de vida, que essa riqueza pode fazer fixar.
Mesmo que estas contas incluam uma grande margem de erro, possibilitam saber se o interior desenvolvido é viável.
Tal como vai, tal como se prevê que esteja com estes parâmetros da curva, encaminha-se para o tal deserto.
Do panorama geral deste governo – feito de medíocres figuras, incapazes de alinhar duas ideias com um mínimo de lógica – salva-se o ministro da Saúde.
O homem não é mentalmente incapaz, antes pelo contrário.
E tem uma ideia para o sistema. A ideia pode ser em parte economicista em parte realista, tout court, mas é uma ideia e ele pretende pô-la em prática. Coisa de louvar.
É claro que o sistema proposto terá problemas tal como já os tem o sistema actual.
Mas tem o mérito de ser realista e de pretender racionalizar recursos.
É claro também que o pano de fundo que enquadra esta reforma é a desertificação de grande parte do país.
Ocorre-me perguntar, já não a este ministro, se há alguma ideia da capacidade que o interior tem para criar riqueza adicional e, havendo, qual é o número de pessoas, com os padrões actuais de vida, que essa riqueza pode fazer fixar.
Mesmo que estas contas incluam uma grande margem de erro, possibilitam saber se o interior desenvolvido é viável.
Tal como vai, tal como se prevê que esteja com estes parâmetros da curva, encaminha-se para o tal deserto.
02/01/2008
O lugar que ocupamos no concerto das nações
Deve estar relacionado com as mortes à bala nos festejos da sub-espécie.
E com um timoneiro que muda de um instituto público para uma universidade privada porque a segunda era ao lado do primeiro. E o diz na televisão. E não se apercebe do ridículo em que cai.
Deve estar relacionado com as mortes à bala nos festejos da sub-espécie.
E com um timoneiro que muda de um instituto público para uma universidade privada porque a segunda era ao lado do primeiro. E o diz na televisão. E não se apercebe do ridículo em que cai.
01/01/2008
Virando a página, por assim dizer
Primeiro, a mão à palmatória ou como falhei, acertando moralmente, as previsões para 2007.
Fiz, há precisamente um ano, esta aposta tripla:

Verificaram-se no mesmo dia e quem sabe se numa relação de causa-efeito, dois dos acontecimentos previstos. Dei quitação de tal acerto por mor do número das baixas associadas ser muito inferior ao predito.
Terramotos há-os todos os dias em Portugal e mar adjacente sem serem sentidos. Hoje mesmo já houve vários, um deles com magnitude superior a 4, segundo o IGN de Espanha.
Já um sismo sentido com a magnitude do de 12 de Fevereiro passado é coisa muito menos frequente. Disseram alguns que foi o maior desde 1969. Não sei se foi.
Acidentes ferroviários já são coisa rara. E com a gravidade do de 12 de Fevereiro na linha do Tua muito mais. Neste caso, à gravidade juntou-se ainda o aparato. Uma carruagem cair a um rio não sei quantas vezes terá já acontecido em Portugal, sequer se aconteceu tal.
Há, pois, uma vitória moral nessas premonições. Mas de vitórias morais...
O certo é que afirmei que haveria para aí uma centena de baixas, coisa dessa ordem. Falhei pois rotundamente.
Ora estes dois sucessos reduzem a uma insignificância, na minha bola de cristal, a probabilidade de uma aposta idêntica ter algum acerto em 2008.
Poderia apostar num desastre aeronáutico que é o que sobra da aposta feita.
A bola diz-me que não.
Farei, por ora, como um certo analista político de jornal que há uns bons anos face a um desacerto de previsões meteu a viola no saco.

Sem bola de cristal, apenas chamo a vossa atenção para o chorrilho de asneiras que vai sair da boca dos candidatos a candidatos à Casa Branca a propósito daquilo a que chamam mudanças climáticas.
O prólogo já foi farto. O que não será o acto principal.
Tinha prometido a mim próprio não me irritar tanto com as asneiras que leio e ouço este ano que entra.
Começo mal.
Primeiro, a mão à palmatória ou como falhei, acertando moralmente, as previsões para 2007.
Fiz, há precisamente um ano, esta aposta tripla:

Verificaram-se no mesmo dia e quem sabe se numa relação de causa-efeito, dois dos acontecimentos previstos. Dei quitação de tal acerto por mor do número das baixas associadas ser muito inferior ao predito.
Terramotos há-os todos os dias em Portugal e mar adjacente sem serem sentidos. Hoje mesmo já houve vários, um deles com magnitude superior a 4, segundo o IGN de Espanha.
Já um sismo sentido com a magnitude do de 12 de Fevereiro passado é coisa muito menos frequente. Disseram alguns que foi o maior desde 1969. Não sei se foi.
Acidentes ferroviários já são coisa rara. E com a gravidade do de 12 de Fevereiro na linha do Tua muito mais. Neste caso, à gravidade juntou-se ainda o aparato. Uma carruagem cair a um rio não sei quantas vezes terá já acontecido em Portugal, sequer se aconteceu tal.
Há, pois, uma vitória moral nessas premonições. Mas de vitórias morais...
O certo é que afirmei que haveria para aí uma centena de baixas, coisa dessa ordem. Falhei pois rotundamente.
Ora estes dois sucessos reduzem a uma insignificância, na minha bola de cristal, a probabilidade de uma aposta idêntica ter algum acerto em 2008.
Poderia apostar num desastre aeronáutico que é o que sobra da aposta feita.
A bola diz-me que não.
Farei, por ora, como um certo analista político de jornal que há uns bons anos face a um desacerto de previsões meteu a viola no saco.

Sem bola de cristal, apenas chamo a vossa atenção para o chorrilho de asneiras que vai sair da boca dos candidatos a candidatos à Casa Branca a propósito daquilo a que chamam mudanças climáticas.
O prólogo já foi farto. O que não será o acto principal.
Tinha prometido a mim próprio não me irritar tanto com as asneiras que leio e ouço este ano que entra.
Começo mal.
30/12/2007
Os simples ao volante
Quando ouço um simples dizer, com a maior naturalidade, que não conseguiu parar, no meio do nevoeiro, e embateu assim nos que já lá estavam, ocorre-me logo se não será um dos tais que tanto aplaudem a nova lei do tabaco.
Os simples são simples e nenhuma culpa têm de o ser.
Talvez a legislação é que não seja a mais adequada neste caso. O que nos leva a outros simples, é claro.
Será que morre mais gente por fumar os cigarros alheios do que na estrada, às mãos dos simples como estes que ouvi há pouco nos telejornais?
E, todavia, permite a lei que conduzam, após terem matado ou estropiado, com a boçalidade que lhes é característica.
Quando ouço um simples dizer, com a maior naturalidade, que não conseguiu parar, no meio do nevoeiro, e embateu assim nos que já lá estavam, ocorre-me logo se não será um dos tais que tanto aplaudem a nova lei do tabaco.
Os simples são simples e nenhuma culpa têm de o ser.
Talvez a legislação é que não seja a mais adequada neste caso. O que nos leva a outros simples, é claro.
Será que morre mais gente por fumar os cigarros alheios do que na estrada, às mãos dos simples como estes que ouvi há pouco nos telejornais?
E, todavia, permite a lei que conduzam, após terem matado ou estropiado, com a boçalidade que lhes é característica.
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