25/06/2011

Ocorrências de um sol posto sem maresia

Faz-se uma apreciação do cheiro a sardinha assada.
Se o cheiro a sardinha assada é sempre suportável, se só o é de barriga vazia, se só o é no exterior...
Não confundir com o cheiro pós-sardinha assada. Nem esquecer os que detestam tal coisa.
Mais adiante, observa-se uma fêmea da espécie que se entretém no canteiro talvez junto ao prédio onde reside, a mondar.
Olhando com mais atenção, verifica-se que a fêmea não monda. É recolectora. Apanha moedas de entre as ervas como quem minera.
Abre o palmo bem aberto e as moedas reluzem, com que sol? Quase se diria não serem moedas de euro.
E há então uma altura em que se ascende à consciência de ter deixado para trás o fundo musical do talvegue para se estar no limite da audição do que toca no festo.
E eu.
Depois de há dias me ter entretido a ouvir uma emissora cuja playlist é miseravelmente curta, também me dou conta de que o reportório dos conjuntos de baile não vai muito além.
Deveria talvez ter-me apercebido de tal há uns séculos. Sei que sim.

24/06/2011

Mitos desfeitos

Um dos mitos que a sociedade actual desfez em pedaços foi aquele que fazia constar ser mais fácil controlar uma sociedade de analfabetos do que uma de gente forma(ta)da.
Alfabeto latino



Ainda faltava o resgate.
O resgate que haveria de ser feito por resistentes emboscados na beira da auto-estrada.
O resgate que haveria de ser feito depois de intensa fuzilaria contra os ocupantes da Hanomag amarela que também eles eram amarelos.
Antes mesmo disso, tínhamos desembocados nus ali onde o êxodo se fazia pelas duas faixas, sem que alguém pretendesse dirigir-se para o horizonte.
E nus, corríamos perante a chuva de letras pretas de um céu azul estival. Na berma da auto-estrada amarela.
Eram essas letras sinais de uma qualquer invasão?
Uma mensagem? Enviada por quem?
Julguei ouvir alguém comentar que o facto de se tratar do alfabeto latino era um sinal qualquer na guerra contra os amarelos. Mas ali estávamos só nós. Nus e a correr.
Até que a Hanomag se aproximou, os seus ocupantes esboçaram um ataque e foram num ápice eliminados pelos nossos semelhantes, ali emboscados.
Da roupa que nos deram - a minha era verde mas não era propriamente uma farda - das armas que nos forneceram, das munições que catámos, de nós próprios há-de ter restado pouco quando o bunker finalmente soçobrou.


os carros da composição resultam de fotografias de autores alheios

23/06/2011

Das divisões do Mundo (episódio n+7)

O mundo também se divide entre os que já beberam um lourenço, estando em linha com a janela atrás do balcão e o farol a menos de meia dúzia de milhas em revolução óptica, e os outros, os incontáveis outros.
Brisa

Está hoje aqui uma brisa marítima que transporta o cheiro do crime Nívea.
Com cinquenta anos de atraso.

21/06/2011

Diário íntimo

E é justamente quando os dias começam a ser cada vez mais curtos que, pela primeira vez, sou governado por um tipo mais novo do que eu. Coisa que, decerto, passará sempre a acontecer doravante.
Eu sei que não estou sózinho neste particular (que assim o não é) mas isso não me serve de muito.

20/06/2011

Exame

É sintomático que o palavroso anúncio de uma coisa qualquer que se passou num exame no Centro de Estudos Judiciários não permita, em nenhuma das versões jornalísticas que me passaram pelos olhos e ouvidos, ter uma ideia minimamente assertiva dos factos.

19/06/2011

Sentenças

E a resposta do velho foi: “Isso já não é ir a lado nenhum. É só mudar de sítio.
É um homem com sentenças. Quase analfabeto. São estes que eu gosto mais de escutar.