Ano XXII Pargos e pontes, que sei eu? ![]()
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Que é difícil, é A Brigada Anti-Lacoste lançou o seu terrível sétimo desafio. Quem quiser participar nesta disputa face a perguntas bem tramadas, siga por aqui ![]() Não basta ter iniciativa ![]() A história de Nicolas (um nome fictício) terminou em bem. É uma das muitas histórias de comportamentos de risco com um final feliz, razão pela qual fomos entrevistá-lo a Faro, sentados tranqüilamente numa esplanada (o trema tinha que ser). H Gasolim Ultramarino: Então conte-nos lá como tudo aconteceu... Nicolas: Bem, é uma longa história. Temos que recuar alguns anos... HGU: Temos tempo. (pedimos uns cafés e uns bolos de amêndoa) N: No final dos anos 80, no decurso de uma excursão a Espanha, arranjei por lá uma namorada. Por sinal, era um amigo meu que se estava a preparar para a caçar, mas eu consegui manobrar a coisa cá para o meu lado... HGU: Então e isso faz-se? N: Podia (re)citar-lhe vários ditados portugueses alusivos, mas não o faço. Aconteceu, o que é que se há-de fazer? Ademais, o meu amigo era casado. HGU: E o Nicolas à época, era solteiro? N: Eu? Não. Claro que não. Só em Espanha é que era solteiro. É que nunca me casei em Espanha. HGU: Ah! (os bolos são espectaculares) HGU: Traga mais dois, se faz favor! N: Estas esplanadas fazem-me lembrar Espanha! HGU: Se calhar é por causa dos espanhóis que aqui estão. N: Acho que não. Tudo me lembra Espanha, entiendes? HGU: Sim. Mas ainda não está muito clara a relação entre esse episódio e a sua história... N: Pois, a vida é assim, nem sempre é fácil chegar onde se quer. Eu, por exemplo, demorei uns anos e corri inúmeros riscos... HGU: Voltemos ao assunto, arranjou uma namorada em Espanha... N: Sim. Não é isso uma tradição portuguesa? HGU: É? N: Creio que sim. HGU: Muito bem, seja. Continue, por favor. N: Ora, o meu amigo calcula o que foi. A namorada lá, a mulher cá. O problema que era o telefone... HGU: E a caixa do correio... N: O correio, não. Dei-lhe a morada dos meus pais. Se perguntassem alguma coisa, seriam cartas de uma antiga namorada. HGU: E quanto tempo durou isso? N: Quanto tempo durou? Anos a fio. HGU: Quer dizer que ia frequentemente a Espanha? N: Ia, claro. Mas ela também veio algumas vezes a Portugal. Até aos Açores foi comigo. Imagina o que é uma lua-de-mel nos Açores... HGU: Mas e aqui, no continente? Como é que isso era feito, onde é que ela ficava? N: Ficávamos por aí, em zonas turísticas. A minha vida itinerante proporcionava isso. HGU: Sempre longe da sua casa... N: Sempre longe da minha casa. Apesar disso, uma vez ao jantar cruzei-me com um grupo de amigos dos meus pais. Mas foram de um discrição completíssima, nada de comprometedor, antes pelo contrário. HGU: E nunca ela lhe sugeriu o casamento, ao fim de tantas aventuras? N: Ah, mas sim, claro! Chegámos a noivar. HGU: E depois como acabou? N: Bem, acabou. Chegou uma altura em que já era impossível mantê-la longe da minha casa... HGU: Claro que isso nunca fez... N: Ah, mas fiz! HGU: Fez? Quer dizer que a trouxe a sua casa? N: Sim. Vou contar-lhe como foi. Numa altura em que a mulher e os filhos se encontravam de férias, resolvi convidá-la. HGU: Cafés? N: Venham eles! Mas dizia eu que a convidara para minha casa. Assim que me decidi, havia apenas que superar uma dificuldade, a qual era esconder anos de vida da família ali passados. Digo-lhe que não é tarefa fácil. Tenho a sorte de morar num prédio com uma uma geometria muito peculiar em planta, o que possibilitou a eliminação de dois quartos e de uma casa de banho, onde ocultei tudo o que pude, sem que essa ocultação suscitasse a mais pequena suspeita. HGU: Eliminou dois quartos e uma casa de banho? Mas como? N: No corredor de acesso, construí um tabique em placa de gesso e encostei-lhe uma estante pesada, de forma a evitar qualquer acidente com a frágil placa. Ficou tão aceitável que ninguém diria que por detrás daquela estante havia mais casa. HGU: Foi então que... N: Sim, um fiscal da câmara que me viu a transportar baldes de gesso, bateu-me à porta. Já tinha a obra nos acabamentos, estava a fazer os remates... HGU: E ele foi lá ver de que obra se tratava? N: Sim, queria saber se estava a fazer algumas alterações na casa. É claro que eu lhe disse que não, que eram só uns retoques no estuque das paredes... HGU: E depois? N: Ele lá fez um relatório, mais ou menos de cenho franzido, e não sei porquê foi verificar o cadastro da casa. Viu então que era um T6. Voltou lá e viu um T4, que era exactamante do que ele se lembrava. A coisa deu um pequeno sururu, porque eu tinha feito alterações ao projecto sem licença. HGU: E como é que se resolveu? N: Meu caro amigo, você imagina a minha dificuldade em explicar isto a quem não esteja como o meu amigo, receptivo a certas liberdades de imaginação... HGU: Calculo. E a sua mulher, não deu por nada? N: Deu. Viu as marcas na parede e perguntou o que era aquilo. HGU: E o que é que lhe disse? N: Disse-lhe que tinha experimentado fazer um arco no corredor, mas que não tinha ficado em condições, por isso tinha desistido. E que depois logo lixava as imperfeições. Sabe que este pormenor de desleixo é necessário para credibilizar o argumento... HGU: Recebeu então a espanhola? N: Claro. Correu tudo na perfeição. Mas depois fui a Espanha e acabámos tudo. Sabe, eu já frequentava a casa dos pais dela, conhecia a família... HGU: Deixou-se de aventuras... N: Não exactamente. Sabe o que é que é estranho? Cada vez que saio com uma mulher, dou com ela a perguntar-me: "Porque é que me estás a falar em espanhol?" ![]() Agradecimento Se não fosse o amigo do Descalabro, a opção dos comentários ainda estaria a dar erro. Esta besta que se assina Manuel e mantém o H Gasolim nem se lembrou de testar os ditos comentários... Por favor, não comentem este post... Eu sei que fui burro. Confianças cegas... Um obrigado ao homem do Descalabro. ![]() A volta ao mundo por um centavo ![]() Uma das histórias preferidas de um dos meus avós era a aventura de um homem dele conhecido que certa vez viera da serra a Lisboa, em primeira viagem. De entre as inúmeras coisas com que ficara maravilhado, havia a visita ao Jardim Zoológico. Feitas as contas pelo viajante, exultava frente ao meu avô: “Sabe que não saiu a tostão cada bicho?” As voltas da vida puseram-me há pouco mais de um ano frente a umas caixas e a uns caixotes contendo moedas, vindas de heranças e de ajuntamento próprio, que quase se constituem em colecção. Olhando para elas, decidi-me a acrescentá-las com as novas moedas correntes. Mas como as moedas correntes são hoje cunhadas em várias origens, meti-me num desafio um bocadinho complicado. Percebi entretanto que o facto de não ter uma colecção mas um conjunto desarrumado de moedas significava que me faltavam moedas facilimas de obter e, pasme-se, tinha algumas moedas valiosas e raras. E, de repente, em pouco mais de um ano, eis que quase duplico o número de moedas diferentes que possuo. É tudo uma questão de empenhamento, está visto. Ora isto coloca-me frente ao meu agora habitual fornecedor de jornais, revistas e tabaco, comentando a moeda que acabara de me entregar num troco. A figura que ali estava no papel de comentador, encostada ao balcão dos totolotos, saiu à liça. Se não seria o caso de eu ter um certo cêntimo grego que pudesse trocar com ele. Disse-lhe que sim. A cara do homem não me era estranha. Nesta nova vizinhança, já começo a fixar alguns rostos que disputam comigo um espaço ao balcão do café. E por isso lhe disse que contasse com a moeda tão cedo nos cruzássemos na senda da cafeína. Mas por não o ter encontrado no espaço de uma semana, lá resolvi fazer fiel depositário o fornecedor de jornais. Hoje, fui interceptado na rua. O homem agradecia-me o gesto e trazia com ele um saco de moedas de onde esperava poder recompensar-me. Recompensou-me com um volta ao mundo. Começando em Marrocos, passando pela URSS, por Cuba, pelas duas Alemanhas, pelo Irão, por vários países africanos e terminando na terra dos filisteus. Com objectos que não vi, mas que me descreveu. Tapetes persas, jarras marroquinas, relógios russos, microprocessadores, um mundo de aventuras. Não saiu de facto a tostão cada bicho. E ainda me quer recompensar. ![]() A peste negra A última grande praga abalou o mundo há cerca de oitenta e cinco anos. Tive oportunidade de ouvir alguns relatos da época, pelos meus avós que eram já adultos na altura. A dama da gadanha deixou um largo rasto por onde passou. Volta e meia, há destes alarmismos. E se... A questão é como a do terramoto em Lisboa. Não é uma questão de se, mas de quando. Temos armas a favor. Afinal, a medicina embora navegue ainda em águas escuras, evoluiu. A bioquímica era quase embrionária na época e desenvolveu-se consideravelmente. Mas temos muita coisa em desfavor. A mobilidade dos homens, dos micro-organismos. E a consolidação dos conceitos de liberdade individual. É esta última a mais problemática. A luta será entre a sobrevivência da espécie e a dos indivíduos que a compõem. Mas em última análise, será da própria vida, independentemente da forma em que se apresenta. ![]() imagem de ![]() Confiança cega ![]() O que é a confiança? Quando alguém que conhecemos bem e nos merece a dita, nos diz algo de insólito, acreditamos sempre? Estás a brincar! Estás enganado! Não acredito! É muitas vezes a nossa reacção. Sabemos que a pessoa não nos está a mentir, mas pode estar a brincar connosco ou até estar equivocada. Temos sempre um limite de credulidade. Nas notas de 1000 escudos de chapa 12, com a efígie de Teófilo Braga, havia um teste e uma aposta que se fazia amiúde. Perguntava-se quantas vezes se conseguia ler "Banco de Portugal" na nota em causa. A resposta mais frequente era: duas! Alguns mais atentos diziam mais umas quantas que correspondiam às do filete de segurança. Quase ninguém descobria mais. Se era um apostador a desafiar, a aposta era quase sempre a mesma: "Aposto que consigo encontrar pelo menos mais dez vezes a mesma designação do que tu!" E muitas vezes a coisa pegava, o outro virava e revirava a nota, atentava aos pormenores e aceitava o repto por umas quantas cervejas. E perdia. Certa vez, fiz essa aposta com uma pessoa que mostrava ter alguma confiança no que eu dizia. Quando lhe demonstrei que tinha perdido a aposta, não aceitou. Dizia que não conseguia lê-las. Pediu-se uma lupa. Continuava a dizer que não conseguia ler. Pediu-se aos presentes que, com a lupa, confirmassem o que estava escrito aqui e ali. Confirmaram. Depois, lá acedeu em dizer que com a lupa parecia que eu tinha razão. Mas não acreditava que eu ou outro alguém fosse capaz de ler aquelas letras sem auxílio de lentes. Ficámos por aí. Não acreditava assim no que eu lhe dizia. Hoje, ao lembrar-me disto, ocorre-me também que ela poderia estar a enganar-me. Poderia ter lido com facilidade as letras mas, danada por ter perdido a aposta e os dois cafés envolvidos, recusava-se a aceitar o veredicto. Seria isso? Haverá alguém que tenha confiança cega em outrem? ![]() Um teste Depois de ter activado os comentários na versão ultramarina e de o balanço ter sido positivo (menos comentários vazios e mais críticas e mais conhecimento de outros parceiros), resolvo também aqui deixar essa possibilidade, para além do habitual e-mail. Espero que batam forte e feio. ![]() Surpresa Ainda me surpreendo com os motores de busca. Alguém chegou até aqui, mercê de um busca por fertilizantes, palavra que nunca utilizei neste blogue. Mas porque o google reconheceu um ficheiro nitchile.jpg como sendo relacionado com a palavra em causa, aterrou aqui. Notável ou não? ![]() ![]() A caligrafia ![]() Quem conhecesse a caligrafia de J. aos três anos de idade, teria dificuldade em imaginar que se viesse a tornar um perfeccionista de proporções milimétricas. O gaiato escrevia as suas palavras apenas em maiúsculas de imprensa, sempre separadas por travessões. Quando lhe perguntavam porque é que ele não escrevia na mesma forma dos textos que lia, respondia que não lhe era possível mostrar às pessoas que o lessem quais as palavras em que estava a pensar. Não tinha a capacidade de controlar os espaços inter-palavras e apercebia-se disso. Para separar uma palavra de outra, lá punha o travessão. O seu maior pavor eram as palavras que incluíssem já um hífen. Nesse caso dava sempre uma explicação oral adicional. Para se vingar do passado, vejo-o hoje adequar o tamanho da letra ao espaço disponível. Com aparos de 0,1mm, escreve em tipo tão pequeno que muitos não conseguem ler. Mas a escrita é perfeita. Quase saída de um escantilhão. Dir-se-ia que a necessidade aguça o engenho. ![]() Evoluções É tudo uma questão de zeros e uns – de uns que passam a zeros e de zeros que passam a uns. Segundo regras simples. De uns rabiscos, saem estanhas formas. A evolução em pequeno formato. ![]() ![]() O que é um acidente? Eu não sei. Como todos os conceitos vagos que dependem de balizas, é difícil dizer quando é que começam e quando é que acabam. Comummente, um acidente é algo que acontece independentemente das preocupações de prevenção que se tomaram. Em abstracto, pode-se dizer que quanto maior fôr o conhecimento sobre um determinado campo, menor será a ocorrência de acidentes. Porque existindo conhecimento sobre o funcionamento das coisas, não se desculpam as falhas que desencadeiam catástrofes (em sentido lato). Ora o que sucede é que o homem, não obstante ter conhecimento dos riscos que a vida apresenta, não se demite de viver. Subestima riscos quotidianamente por não ser viável tudo prevenir. Em todas as actividades, em todos os tempos, o fez. A paranóia da prevenção é o contraponto da inconsciência face aos riscos. Parece que a vida se encarrega de formar estas correntes opostas para nos colocar no meio-termo. Em qualquer actividade, e sem procurarmos muito, identificamos riscos desnecessários. Em algumas actividades, à vista de todos, há uma prevenção redundante. Se é verdade que o seguro morreu de velho, também o é que é impossível tomar todas as precauções. Se olhássemos mais para o que nos rodeia, deixaríamos de procurar bodes expiatórios para tudo o que nos acontece. É a vida! ![]() A televisão ![]() Certos efeitos da televisão estarão porventura ainda mal estudados. Sei que há muita coisa de que se fala, deste efeito e daquele, mas verifico que na maior parte dos casos não passam de teses momentâneas, sem bases e sem aprofundamento. Não pertenço ao clube dos que acham que o que é importante é fazer as perguntas. Muito menos ao dos que têm respostas para tudo. As perguntas que se fazem normalmente não têm pés nem cabeça. São pretensas originalidades, acompanhadas de exagerada ênfase. As respostas que se dão, têm o hábito de se reconhecer como definitivas e universais. Outro logro. Continuo convencido de que a curiosidade de um indivíduo qualquer é a chave mais perfeita para a entrada no caminho da descoberta. E que, sendo ou não o próprio a chegar a uma conclusão, ela será sempre cativa da estatística, da escala e do tempo. Posto isto, recordo-me hoje de um episódio trágico que ocorreu há uns anos nos meus sítios. Depois da tragédia e da morte que todos tinham presenciado, fazia-se uma pausa (catársica?) ao balcão do café. Quando começou o telejornal e as imagens que todos tinham na memória fresca, começaram a surgir no écran, não se ouvia uma mosca e as lágrimas corriam na face de alguns. Estranho momento esse. Curiosamente, como no jogo dos espelhos, os jornalistas estavam ali a dez metros, dentro ou fora dos estúdios móveis. imagem da RTP ![]() Geometrias Em tempos, colaborando com uma velha amiga, andei às voltas com estudos de estacionamento. Para além dos aspectos normativos e do bom senso, há uma certeza: os traços amarelos ou brancos que delimitam os lugares de estacionamento são uma necessidade. A incapacidade do comum dos mortais para arrumar de forma optimizada a sua viatura, de modo a permitir a outros que o façam também, requer as baias pintadas no chão. Caso não estejam lá, acontece o que vejo da minha janela: no parque em frente, das três zonas de estacionamento em espinha onde, em cada uma, cabem arrumados doze carros, nenhuma delas tem os doze. Há uma que tem nove, e não cabe mais nenhum. Venham as baias, para os cavalos se arrumarem. Ou seremos mais felizes sem elas? ![]() ![]() O meu vizinho do rés-do-chão O homem escrevia num semanário. Não era por seu meu vizinho, mas era duma lucidez notável a comentar a imprensa e os seus meandros. Escreveu certa vez que a quantidade de disparates na imprensa era directamente proporcional à importância que essa mesma imprensa dava aos factos. Deixou de escrever. Continua a dar aulas na universidade. Mas não é cá. ![]() Droga asfaltowa Os polacos têm razão, a estrada é uma droga. Uma droga de cujo fascínio dependem alguns, sem saberem bem como tudo começou. Como se se sentassem num cinema e embalados, dessem ordens ao realizador. Comigo, é disso que se trata. Não é da vertigem da velocidade, ou da competição com o da frente. Nem sempre a posso desfrutar, mesmo quando nela estou. Mas esforço-me por isso. A estrada quer-se deserta. Mas toma-se tanto molhada como seca. De noite ou de dia. Fria ou quente. ![]() ![]() Quando me falam De coisas alternativas, radicais ou biológicas, fico sempre estarrecido. Não se conseguiriam arranjar melhores definições? Ou os próprios conceitos são vazios? ![]()
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