Suponho que adquiri este hábito em férias. E talvez na época em que os semanários passaram a ser servidos em sacos de plástico. Para gozo e alguma irritação feminina, de que ainda hoje não percebi a origem visto o tempo que consagraria à leitura ser aproveitado de formas mais lúdicas, acumulava na caixa do carro as notícias da silly season. Agora a coisa alastrou a outras épocas. Já não na caixa do carro, excepto em viagem, mas pelos mais insuspeitos locais do lar. Vou acumulando assim as novidades, deixando que deixem de o ser, permitindo o amarelecimento de algumas, etc. Ora o que sucede é o seguinte: a cada ano que passa, quando me detenho a pôr a leitura em dia, o que observo é cada vez mais anedótico. E é anedótico porque em vez da notícia relembrada, do avivamento da memória, que seria a consequência natural da leitura de jornais atrasados o que acontece é que, dada a cada vez maior tentação opinativa e prospectiva, se lêem as ditas páginas como se fossem uma colecção de profecias furadas. Há pouco li uma acabada argumentação prevendo um péssimo desempenho da selecção nacional no Euro 2004. Sobre temas políticos, não vale a pena adiantar muito. É verdade, era um jornal do verão de 2002. Ainda o Sr. Boloni aparecia em destaque a fazer publicidade a uma instituição. por MCV às 17:47 de 02 abril 2005
De certa forma, este blogue é uma mentira do dia das ditas. Em primeiro lugar, porque a maioria dos que aqui chegam, vindos dos lados do Google, não encontram o que pretendem. Em segundo lugar, porque ao próprio autor às vezes lhe parece ser mentira ter escrito tantas barbaridades. Em terceiro porque não se percebe se há aqui modéstia, falsa modéstia ou vaidade. E havendo qualquer coisa dessas, seria interessante saber com que fundamento. Apesar disso uma coisa não há, de certeza. Cópias de argumentos, fotografias roubadas ou qualquer outro tipo de produção alheia sem a devida identificação. Apenas o SG aparece sem se identificar, vez por outra. Mas isso é ele que pede e eu acedo quando me apetece. Não caiam nesta. por MCV às 05:28
Um sonho que se realiza
E me faz encolher os ombros.
Houve uma época, da qual já dei aqui nota, em que não falhava uma noitada, uma tardinha ou uma matina em Sintra. Em que fui a Montejunto e a Arganil. Em que bati o poeiredo ou o lamaçal dos ralis do Algarve. Pelava-me por ver, de sítio altaneiro, os bólides. Também gostava do resto, da festa que se fazia, da parte feminina da assistência, etc. Acho que me deixei disso em 86. Com a morte simbólica do rali de Portugal, com a morte das pessoas que ficaram debaixo do RS200 do Joaquim Santos. Agora que a organização parece apostada em retirar o rali da sombra, escolhe as estradas da minha serra para o fazer. A serra é minha porque eu sou daquelas paragens, falo com aquele sotaque, bebo aquele medronho, tenho a mesma cara dos que lá moram. Sonhei com este dia, muitos anos atrás. Poder ver as máquinas entre as azinheiras e os sobreiros, com o cheiro da terra que bem conheço misturado com os odores da máquina. Contudo, hoje não me suscita mais do que o gesto dito acima. Há coisas que mudam. A última noite que passei na minha serra não me traz boas memórias.
Eu sei que sou mais um de faquinha afiada. E que de críticos está a praça cheia. E que também gosto pouco de dar lições. Muito pouco. Só que a lição não é minha. Ouvi há uns minutos uma coisa exemplar. Não que seja extraordinária. Mas é rara nos dias de hoje quando alguém se apanha na frente de um microfone. Para os que também viram, desculpem a repetição. Para os que não viram o telejornal da RTP, onde se fazia notícia de um enxame de abelhas, acho que na Rua de Santo António em Faro, valeu a resposta de um apicultor à repórter que lhe perguntou: "Então e agora?" "Agora vou lá acima e 'panho-as!" por MCV às 21:13
O biombo obrigatório
Mais uma sugestão (do R.C.) que se perdeu nestas alterações ao Código da Estrada. Não sou contra o aumento das penalizações mas chamar a uma revisão dos valores e à alteração de algumas penas, da redacção e da ordem de certos artigos e a um colete a saber, um Novo Código parece-me pouco próprio e até ridículo.
Sendo certo que são sopas depois de almoço, pois aqui chegado, o leitor já se conectou, ainda assim vos indico esta oração. Serve sempre para amanhã. por MCV às 15:23 de 30 março 2005
Notícias chegadas há pouco deram-me conta de que nesta terra de onde desapareceram os cafés da cartada e do dominó, o "Oitavo Exército" joga agora às cartas dentro do McDonald's. Parece-me bem. por MCV às 19:49 de 29 março 2005
Afinal o cigano do amor
Há um ano e tal, lamentava-me aqui de não mais me ser possível saborear um frango com pó ao som do "Cigano do Amor". Desde essa altura, em que me passava pela cabeça construir uma espécie de banda sonora do meu filme, já reuni umas 600 canções e músicas diferentes. Mas nada do "Cigano". Disseram-me que era Cauby Peixoto o intérprete. Mas algures vi uma letra que não correspondia à minha memória. Encontrei há dois ou três dias esta página onde o intérprete é Francisco Petrónio e onde a letra é de facto a de que me recordo:
Que pena eu sou, cigano do amor, nada mais Correntes não há pra me segurar, nunca mais E vai-se encontrar a forma de lhe pertencer Meu coração decerto vai morrer, ou se fechará, quem sabe, ou se fechará
Agora o que eu queria era ouvi-la de novo. Se não puder ser dentro de um disco voador amarelo ou num carrinho de choques que seja aqui sentado em frente ao monitor. por MCV às 19:30
A tendência para enegrecer o presente e o futuro e glorificar o passado é, sabemo-lo todos, imemorial. Dirão alguns que o que verdadeiramente lamentamos é já não termos vinte anos. Que o que de facto confundimos é a juventude com o concerto universal. Não sei que diga. Há coisas que de facto estão piores. Outras não sei. Algumas haverá que melhoraram desde a minha juventude. Pensando na vida que levei, não há assim nada que eu possa dizer que melhorou muito. Não sei se me ajuda muito poder chegar ao Porto ou ao Algarve em pouco mais de duas horas. Mas com toda a certeza, uma das coisas que me facilita e muito a vida é a revolução nas comunicações. Mas nas outras. Telefones móveis dão jeito, computadores, jeitão. A rede proporciona acesso rápido a informação de que necessito. O cartão de débito permite-me ir buscar dinheiro à parede. OK. Agora a questão que mais me melindra é justamente a da mesa do café. Estarei eu a desprezar os disparates que ouvi outrora? Não sei. O que sei é que hoje a influência crescente da massificação na informação, concatenada com a catadupa de bytes que nos derramam em cima a cada passo, parece que contamina mesmo as cabeças mais críticas. Oiço amplificadas e sujeitas a escrutínio as maiores enormidades. A questão não é a maior ou menor futilidade dos assuntos. Conversa de chacha também fazia falta ao fim da tarde. O que mais me sufoca é o tratamento e a atenção que merecem disparates intelectuais, opiniões obviamente sectárias e uma certa primaridade popular na avaliação dos factos, normalmente influenciada pela péssima informação transmitida. Digamos que o filtro do bom senso is off. Que o tratamento básico da informação é dispensado. Lembro-me aqui, entre outras, daquela desvalorização de 400% do peso argentino anunciada repetidamente ao longo de um dia. E do ar grave com que alguém comentava a notícia. Há de facto coisas que podem desvalorizar 400%. Não é com certeza o caso das conversas de café. Ou do olhar que lançávamos por detrás da montra dos doces às pernas das desconhecidas. Ou mesmo da moeda argentina, depois de deixar a paridade com o dólar. São outras. Mas não digo quais. E ao café, ao tal café, já não vou há anos. Também ninguém aparece. por MCV às 19:13 de 27 março 2005
Espólio (7)
Passagem ou traços brancos na paisagem.
Espólio Campos Vilhena - foto de MSS? por MCV às 16:12