A contaminaçãoNão sei se existe uma pudicícia da escrita pública.
Não sei se se entende que é melhor não fugir dos cânones quando a exposição é grande.
Não sei se é assim.
Não sei sequer se tal resulta de uma onda de regrismo que não se sabe bem a que costa vai dar.
Ou se advém de uma contaminação que a corrente amorfa e dominante trouxe às franjas marginais.
A verdade é que constato a cada vez mais rara ousadia de dizer coisas que colidam com a normalidade. Até de dizer coisas verdadeiramente interessantes.
Apesar daquela normalidade ser aparente. Ilusória.
Lembro-me do homem que dizia à mulher:
"Não argumentes comigo como se foras primeiro-ministro!"
E estou com ele. Ainda que muitos anos tenham passado.
por MCV às 01:10 de 02 julho 2005 
PercentagensNão haverá ninguém que consiga explicar a estas criaturas que um aumento do IVA de 19% para 21% gera um aumento nos preços dos bens de 1,68% e não de 2%?
Claro que isto é na teoria. E a teoria só não se ajusta à prática quando é má teoria. Neste caso é má pois despreza, além de outros, o factor humano, seja lá isso o que fôr.
por MCV às 06:08 
O 63
Sempre me encantei com os nomes dos lugares.
E sempre gostei de ouvir as hipóteses explicativas para as mais estranhas designações. Muitas delas fabulosas, é certo. Há um grosso manto de ignorância sobre a maioria delas.
O ano passado ouvi pela primeira vez alguém designar o 63.
Não é número de polícia. Não é quilómetro constante de marco. Sequer é cota de festo. É apenas o 63. Um cruzamento de estradas perdido no mato.
No qual passei toda a minha vida sem lhe conhecer a graça.
Foto em http://ortos.igeo.pt/ortofotos/
por MCV às 04:15 de 30 junho 2005 
Restos de colecção (36)Este objecto nunca foi meu.
Mas é meu há muitos anos.
Herdei-o algures do fundo de qualquer gaveta ou adido a outros que me vieram parar às mãos.
Não era o principal do lote, era adjunto - como diria a senhora que enumerava ruas adjuntas que não eram principais, ao ser interpelada por direcções, por sentidos.
Mas eu sei que é meu, sinto que é meu, porque há muito me aparece, surgido debaixo de alguma pilha de papéis a reclamar-se meu vassalo.
Nunca o usei como horário, jamais como régua, sequer como grelha. Semanas de seis dias. Recordações do tempo em que se falava da semana inglesa. E da americana.
E ele aqui, chegou ao século XXI sem ser jogado para o lixo.
Nunca foi meu. Seria de algum familiar que o desprezou.
Hoje ganha protagonismo, um lugar na História. Sai em todos os jornais.
por MCV às 22:52 de 29 junho 2005 
Trajes regionaisPode também dizer-se que uma boa linha divisória é aquela que passa entre os que tomam como absolutos e definitivos os trajes regionais, como se o tempo tivesse parado algures pelos séculos XIX ou XX e os que acham que ele, o tempo pássaro.
Ou ainda entre os que se tomam por intelectuais de serviço e os acabados imbecis. Incluo-me sempre nos últimos grupos e no grupo dos últimos, modéstia à parte.
por MCV às 17:38 
A malga e o Estado
Fosse o caso menos sério, fosse o caso menos velho, embora como os velhos, mais se tema por ele em certas épocas, fosse o caso de nos rirmos com isto tudo, diria que:
A malga e o Estado, o Estado e a malga, me lembram uma outra malga, a dos sócios que foram à feira com um pipa de vinho. E que acabaram por bebê-la, à pipa, sem uma única pinga venderem. À malga, o fizeram. Uma de cada vez.
E o estado em que ficaram.
Não tenho jeito para contar histórias. Mas há quem jure que já bebeu vinho, talvez morangueiro, por uma nalga - eu disse nalga.
por MCV às 21:07 de 28 junho 2005 