A ficha de DeusNão me passava pela cabeça - e passava a alguém? - que as fichas de Deus (modelo de 2001) parecessem uma espécie de cromatografia.
Mas são. A que eu recebi comprova-o.
Havia no ar um ar de reconciliação. Parecendo perífrase, é-o mesmo.
Juntávamos partes do passado e pretendiamos fazê-lo à mesa, com os pais dela.
Porém, como quem quer colocar a carroça à frente dos bois, já preparávamos uma espécie de lua-de-mel no Algarve para os próximos dias.
A escolha do transporte foi ela que fez. Íamos na moto que ela deveria ter usado meia dúzia de vezes, não mais.
A ideia que eu tinha da dita era assim a da uma potente MZ, BSA ou Husqvarna fora de moda. Castanha. Num postal ilustrado que ela fizera em tempos, sentada na dita.
Vi-a atravessar a praceta em direcção ao prédio do topo. Segui-a.
Nesse rés-do-chão havia uma nave repleta de costureiras, umas a fazer mangas, outras o resto. O pai dela tinha ali uma espécie de escritório apagado, por detrás de uma porta sempre aberta, de onde saía às vezes acompanhado por dois adjuntos, um, uma espécie de feitor, o outro, de terceiro empregado bancário.
Mas a mãe é que era a dona do local.
Quando se perguntou onde é que estava a moto, alguém olhou para mim e disse: Tem que ser o senhor a tirá-la de lá que eu não tenho força.
Estava numa das prateleiras mais elevadas, daquelas onde - diz o bom senso - se guardam as coisas pouco utilizadas.
Com um pequeno esforço retirei-a.
Tal como no episódio da G3 de arame, tinha agora à minha frente um estranho veículo caricatural.
Era um quadriciclo movido a pedais que contava com um pequeníssimo motor eléctrico auxiliar que transmitia o movimento através de um anel de borracha implantado directamente sobre o veio a uma das rodas traseiras, borracha a borracha.
Foi para testar a possibilidade de empreender tal viagem que aproveitei a deixa e fui creio que ao Registo Civil na terrível maquineta.
É sabido que o dito Registo fica ao cimo de um misto de Calçada do Combro e Praça do Município da Covilhã. Não admirou pois que, vindo de cima, à procura de um lugar para estacionar, tudo corresse com a ajuda de Todos os Santos. O pior foi quando resolvi inverter a marcha e começar a subir. Nem o motor me safou. Prova dos nove.
A oficina antiga de motorizadas e bicicletas suscitou-me toda a confiança. A espécie de Gepeto - tal como o imagino - que se encontrava estranhamente em pose de sapateiro, com o regaço protegido por um cabedal e enterrado em peças soltas de alumínio e ferro, tinha um ar de idoneidade tal que não demorei um quilómetro-luz* a confiar-lhe o precioso bem - O senhor importa-se que eu pendure aqui no seu cabide a minha... hum... bicicleta a motor?
Não se importou.
No caminho para a repartição utilizei o célebre elevador que se sobe a pé, em rampas que se sucedem a ângulos rectos. Lá no alto, havia uma oferenda de bens similar a qualquer venda de rua. Podia levar-se o que estava exposto à óbvia excepção dos utensílios adjuvantes tais como as lupas com que se podiam escolher os selos e as filigranas. Pois foi uma destas que pus no bolso. Com a intenção de explorar os pormenores dos ex-libris de uma carrada de livros que comprara recentemente.
Saído do elevador e vias circundantes, entrei numa rua particular em calçada onde seis pessoas jogavam o ringue, presas por correntes de cão a postes e argolas de ferrro.
Procurei evitar interferir no jogo até que o quinto elemento - uma mulher jeitosa mas com ar de ter muito mau feitio - resolveu ser muito sobranceira e arrogante na réplica que fez a um comentário meu.
Na volta do correio, respondi-lhe que se deixasse ficar ali presa enquanto eu ia para o Algarve num raro e valioso quadriciclo, na companhia de uma mulher muitíssimo mais interessante do que ela.
Depois dos papéis tratados, já tive que entrar de gatas na oficina de motos, que o plácido patrão correra parcialmente a porta.
Lá identifiquei o veículo entre a tralha e agradeci, penhorado, a guarda.
No regresso à praceta, esperava-me um bilhete de avião para Nova Iorque. Um, não - dois. Ela quisera afinal pregar-me uma partida.
No dia seguinte, fui compar umas gusoleimas ali à pastelaria dos bolos (que há a pastelaria que não é dos bolos mesmo ao lado) para levar para o almoço tardio em casa dos pais dela.
Quando cheguei, não vi ninguém. Toquei à porta e nada.
Fui à oficina de costura e, da porta que ficava escondida pela porta aberta, saiu um dos ajudantes. Disse-me que não sabia do patrão.
Esperei ali num canto.
Quando chegou, trazia o rosto destroçado e a ficha de Deus na mão. Entregou-ma.

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Quilómetro-luz: 3,3 milionésimos de segundo. Unidade erradamente referida por certo expert da bola como sendo de distância.
por MCV às 23:37 de 11 setembro 2006 