A artistagemA artistagem é aquela franja de artistas e quejandos bonzinhos e mentecaptos que passam o tempo a fazer apelos à paz, ao entendimento e à felicidade de todos.
Nem um só dessa franja era capaz de governar uma sociedade recreativa. Mas têm ideias sobre tudo e sobre todos, desde que seja para sermos todos felizes.
por MCV às 16:53 
Sebastião, neto do Rei, neto do ImperadorO nevoeiro não cede, este ano que entrou.
por MCV às 13:59 
Havana
É conhecida dos que me lêem há mais tempo a minha ligação à revolução cubana.
A essência dessa ligação tem a ver com a coincidência no
tempo. Com um pormenor afinal. Fidel não
entrou em Havana senão por alturas do meu primeiro grito, ao contrário do que repetem hoje os burros do costume. Coisa de horas entre uma coisa e outra.
Mas há mais.
Num mundo com tendência actual para a uniformização, é bom que existam contrapontos. Que existam formas diversas de viver em sociedade.
Há sempre aquela utopia triste de a cada um o seu regime. Há, com toda a certeza, uma porção da população cubana insatisfeita. Não faço ideia se é minoritária ou maioritária.
Há com toda a certeza insatisfeitos em todas as sociedades. Em maior ou menor grau. Em maior ou menor número.
Nunca pus os pés em Cuba embora de há muito alimente essa ambição.
Era talvez lá que gostaria de estar para a semana. Quando, sim, se comemorarem os cinquenta anos não da revolução mas da
entrada de Fidel em Havana.
por MCV às 20:09 de 01 janeiro 2009 
Papéis de músicaHouve um tempo em que cálices de Porto no casarão avoengo dos colaterais pousavam sobre o grosso pano da camilha.
Ouvia-se o Concerto. O Concerto.
Talvez subentendido o desejo de cartear.
Acima de tudo, os
papéis. De música.
por MCV às 14:23 
2009
Não me recordo de alguma vez ter sentido esta aversão à mudança de ano.
Não tem isto nada a ver com as nuvens negras com que, em todo o lado, se vê casado o ano que aí vem.
É uma coisa mesmo pessoal. Ligada com a derivada negativa que a minha função ostenta, ano após ano. Em outros tempos chamou-se a isto decadência. Sem eufemismos.
Por mim, ficava tudo nesta congelada degradação de 2008.
Por que raio há-de um homem ter em conta uma data onze dias depois do solstício?
por MCV às 23:41 de 31 dezembro 2008 
50 anos
Não sei se há se não há na literatura uma história contada de um prédio de rendimento de Lisboa, dos arrabaldes.
Cinquenta anos dessa história.
Vejo-me hoje enredado nisso, mercê da teimosia em abrir portas à memória.
O caixote que de lá trouxe é demasiado pesado. Começa a ser demasiado pesado.
Restam três mulheres viúvas e a filha de uma delas por lá. No talhão 2 da rua D.
por MCV às 18:52 
1958A coisa mais terrível ou uma das coisas mais terríveis de quem se deixa envelhecer é a tendência para evocar memórias que essa lassidão promove.
Tanto mais quando ao afastamento da juventude e da força acresce o de outros meios, o chamado caminhar de cavalo para burro.
Lá por ter consciência do cilício que uso, não me abstenho de remexer no baú.
1958 é o ano em que me fiz. Apareci por cá nos primeiros dias de 59, quando Fidel chegava a Havana. E, tal como ele, preparei ao longo de 58 essa chegada.
Nos 50 anos dessa data, tenho que anotar o fechar de portas que aqui anunciei vai para uns anos também. Portas que estiveram abertas durante exactos 50 anos. Desde esse ano de 58.

50 anos depois, fechei a porta da casa onde me fiz. Deixei a rua da minha infância, olhei pela última vez da minha janela os horizontes largos que me proporcionou e que vi povoarem-se de casas nesse entretempo.
Na rua, julguei divisar os meus amigos correndo de calções atrás da bola, emboscados algures de rifle em riste, talvez no óculo da escada do prédio do canto, talvez atrás do único carro estacionado.
Do alto, vi aviões de guerra em manobras intimidatórias e um êxodo quase bíblico por campos e estradas.
Senti ali o cheiro das manhãs e o ruído das tardinhas.
Os gritos dos meus colegas de escola no recreio.
Fiz um horário dos comboios a desoras pelos seus apitos de marcha e pelo respectivo doppler.
Entrevi a morte que ali, antes de metade da jornada, veio ao fim da tarde de um dia quente de Primavera.
Há um ror mais de coisas que são tão importantes agora. Umas esquecem-se de propósito, outras não se ousa dizê-las, outras ainda têm a distinção da memória sorrida, sem pretensões.
Tudo isso revi, senti, toquei. Este ano de 2008 pela última vez. Exactos 50 anos depois de a porta ter sido aberta.
Também o guarda-redes na fotografia fez 50 anos em 2008
por MCV às 13:30 
PRSubscrevo tudo o que PR
disse.
Talvez as consequências a tirar tivessem que ir um pouco ou mesmo muito mais longe.
por MCV às 20:24 de 29 dezembro 2008 
As pessoas boazinhasPara além dos
apelos à paz, há outra coisa que me dá volta ao estômago quando se trata destes episódios de guerra entre Israel e a Palestina – é a quantidade de pessoas boazinhas que diz que há violação disto e daquilo, atrocidades estas e aquelas. Mas só o diz de um lado, com a camisola vestida, embora o faça em nome de organizações supostamente neutras e com o chamado espírito humanitário. De pacotilha.
por MCV às 16:17 
SintomasUm sintoma da educação, da instrução geral é o número exageradíssimo de pessoas que acorre às urgências hospitalares por dá cá aquela palha.
Como diria o meu velho J.d’ é muito difícil educar um povo.
por MCV às 22:50 de 28 dezembro 2008 