O meme visto por ele próprioConfesso que não sou muito dado a cadeias. Vejo os links que aqui tenho como elos de uma, de umas. Basta-me isso.
Mas lançado que me foi
o repto, uma vez mais, acedo a integrar-me numa.
Ora, o meme. O meme é um nome que já tinha visto escrito aqui e ali. Não me despertou interesse a palavra, o conceito, a ponto de querer saber exactamente o que era, ao contrário de outras palavras, de imagens que me levam em correntes, elas sim, de novos conhecimentos. Acontece a todos, creio eu.
E recebido o convite para o meme, houve então que completar a noção pálida que tinha do conceito e que era qualquer coisa relacionada com mimetismo.
Eu faço. Tu fazes. Ele faz.
Mas não é isso, sendo-o.
Do que descobri, via aqui e acolá, posso mencionar que tropecei
neste post, que daí fui à
wikipedia e que por lá me quedei. Diz que o nome tem mais de 30 anos. Muito prazer.
E fiquei com a ideia de que é uma definição poética demais para ser científica.
Aceitando todavia que estes pontos de contacto nos permitem passar memórias que se apagariam de outro modo e apesar de este blogue ser em parte dedicado à preservação de algumas memórias, passando-as, aproveito o ensejo para relembrar dois factos da História de Portugal do séc. XX que parece terem sido banidos dos relatos:
O acidente ferroviário do Rápido do Algarve que ocorreu perto de Sabóia (Odemira), creio que em 1956, e parece que foi um dos mais graves acidentes ferroviários ocorridos em Portugal.
A onda de muitos metros que matou na areia uns quantos pescadores na praia de Santo André (Santiago do Cacém), apanhando-os completamente desprevenidos e que terá ocorrido ou na década de 1950 ou na de 1960.
Suponho que as tentativas que fizerem de pesquisar na rede sobre tal, irão fatalmente voltar aqui, a posts anteriores em que os já mencionei.
A minha proposta é pois: Passo este meme a quem tiver alguma informação mais sobre um destes dois factos. Ficava muito grato se me a comunicasse.
E aqui está,
Errezinha.
por MCV às 10:58 
Suicidário Tínhamos vindo das cervejas no bar da praia.
Os sete ou oito que ali andávamos entre a política e as Marinas frescas, tivemos mais tarde a certeza de lá ter visto um blusão de cabedal que de costas parecia soçobrar a uma franja decorada com fita.
Entre o manifesto de resistência mais ou menos militante, ainda que naquela hora tão efémero que se reduzia a traços na areia que a maré vazia proporcionava como quadro, e o silêncio sobre as expectativas individuais incidindo no próximo baile da Esplanada, distinguimos claramente o som da motorizada em lancinantes arranques.
Celebração finda com a pancada brutal.
Quando alcançámos o final do túnel e encontrámos a máquina ainda acelerada no fundo das escadas, já o blusão de cabedal mostrava ao cimo dos degraus reflexos metálicos da pouca luz que a cerrada noite permitia. Talvez luar apenas.
Não morri! - a frase concatenava-se com os ecos da discussão que recordávamos agora.
Pôs-se de pé. Andava, sangrava, ria, chorava.
No hospital da vila, uma empregada em traje de sono escancarou-lhe as portas. Que venha a ambulância, que estou cá sozinha.
Não cheguei a saber a quem pertencia o blusão de cabedal, apenas soube de onde viera.
Três anos mais tarde, enquanto conduzia a casa o encanto de uma noite, percebi que era conterrânea do blusão preto. Se ela sabia quem era.
Morreu no ano passado. Matou-se, disse ela.
por MCV às 15:22 de 20 junho 2007 
Ali, ao pé dos arcos de pedraAli, a partir do momento em que transpus aquela porta que direi suja, mesmo sem saber se suja estaria, e digo suja daquele baço que os vidros tomam da argamassa de pó e humidade, ali, ao pé dos arcos de pedra, assim que transpus a porta, comecei a escrever estas linhas. Ou outras que não estas, que não há maneira de saber quais foram ao certo as linhas que então escrevi.
O homem ensaiava problemas nos escaques magnéticos. Olhou-me por cima de uns óculos que direi óculos sem cuidar de saber se o seriam, se seria apenas um olhar assestado a um zénite venial.
E levantou-se, tendo o cuidado de me perguntar o que desejava.
Nesse ponto, escrevia-o parte de uma companhia de caçadores que haveria de reunir no covil do camarada de armas um destes dias. Escrevia-o em papel verde, de 45 g, A5, convocando todos e indicando dois números de telefone, ou três, com alcunhas consagradas. Mesmo que me parecesse inútil, estranho, fazê-lo assim em papel.
Com ou sem manteiga?
Respondi, pensando nos pratos por encomenda que cada um reservaria para si, no tal bródio.
O para beber veio gelado, da arca.
Nesta altura antevia o parque de estacionamento ainda com os restos da sinalização "
convívio da companhia de caçadores...", um ou dois ou mesmo três carros de companheiros mais recordativos ao sétimo uísque, o cão que fareja os restos, um fio de água que vem sabe-se lá de onde e é tudo.
Despeço-me do homem que demora os óculos ou o olhar descido nos escaques. O jornal continua marcado na mesma página. Parece que o está há meses.
Subtraio o meu carro à conta do parque. A diferença é zero.
por MCV às 18:55 de 19 junho 2007 