Os sinos, os sinais e a morte d’homemPertenço a uma geração que ainda sabe distinguir o toque de sinais dos outros toques sineiros.
Na verdade, pertenço a uma sub-espécie dessa geração que quase só ouviu sinais e se recorda, já adulta, de ter ouvido o primeiro e estranho toque de missa.
Os sinais – esses toques ladaínhentos anunciadores da morte – quando de primeira hora, entravam-me pelo quarto a dentro quase simultâneos com a minha Avó, que me ordenava o abandono do decúbito lateral em respeito por ela, a morte.
Pertenço igualmente a uma geração que convivia, na infância, com sinais muito diversos no campo e nos arrabaldes da cidade.
Assim, os sons das sirenes dos bombeiros, das ambulâncias, vulgares por cá, eram um raríssimo mau presságio lá na vila.
E digo raríssimo porque o era de facto. Não me recordo em toda a minha vida de ter visto um carro de bombeiros por lá antes do outono desse ano de 1997.
E quanto a ambulâncias, contam-se pelos dedos as vezes que aconteceu tal, já incluindo a debatida aquisição da ambulância da Junta de Freguesia, embora essa a soubesse guardada em certa garagem.
Nessa manhã estival de há dez anos, dormelento e só na casa ancestral, julguei ouvir primeiro o som de uma ambulância, calculando pelo doppler que passara sem se deter pela vila.
Pouco mais tarde, o toque dos sinais fez-me respeitar uma recordação de infância – ergui-me.
Era uma manhã que anunciava infernos augustinos e para a qual tinha programada uma saída para oeste, para o mar.
Assim fiz. Ainda não tinha percorrido uma légua quando vi o carro. Calcinado, uns bons metros fora da estrada. Sem sinais de embate.
Estava muito longe de imaginar o intrincado mistério que representava aquele quadro, para além de me ter devolvido os antigos sinais, talvez pela última vez.
Os acontecimentos do anoA febre da antecipacão que há muito se apossou dos homens faz com que se fechem as contas antes das contas estarem de facto fechadas, passe o absurdo da frase.
Há dois dias, quando escrevi um post sobre o jogo das damas era para ter começado justamente por uma introdução que mostrasse o contra-senso de antecipar o balanço do ano.
É que, por vezes, lembrava-me de 2004, o acontecimento marcante vem depois do balanço feito.
Quantos não terão sido os analistas que então reviram as suas escolhas e quantos não o farão este ano?
A questão da resolução do jogo das damas era por si tão importante no seu campo que a probabilidade de ser ofuscada por qualquer outra era diminuta. E continua a ser.
Mas como lá disse, o ano ainda não tinha acabado e ainda não acabou.
Anda hoje nas notícias uma outra revelação importante, embora num campo onde os graus de certeza não se aproximam de 1, como no caso das damas. E cuja importância, podendo ser decisiva, não ultrapassa em “períodos de retorno” a anterior.
Fala-se, embora a Organização Mundial de Saúde na sua
página, não o diga, que há, pela primeira vez fortes suspeitas do vírus H5N1 se ter transmitido de homem para homem.
É este “primeira vez” que é sempre espectacular e suspeito. Nada nos garante que não tenha já acontecido. O vírus parece ser conhecido desde 1959. Nada nos garante que antes de ser identificada esta estirpe, ela não tinha saltado de humano para humano nem nada nos garante que depois de identificada não o tenha feito, à revelia da ciência.
Estamos ainda na infância da arte neste e noutros campos com ele relacionados.
E, como indica ainda – na altura em que escrevo esta exacta linha – a
página da OMS, nada nos garante que tal transmissão tenha ocorrido.
Uma praga – a que poderemos chamar genericamente peste – é algo a que a humanidade está exposta de tempos a tempos. Estamos há cerca de 90 anos sem nos debatermos com uma. É natural que apareça um destes dias. Provavelmente não será por via deste vírus, será por via de um outro que ainda nem sequer conhecemos.
A morte teórica do jogo das damas – embora imperfeita – mostra-nos que estamos com uma capacidade de combate suficiente para enfrentar desafios de descoberta impensáveis há pouco mais de meio século. Essa capacidade dar-nos-á talvez meios de suplantar em tempo útil uma epidemia quase qualquer que seja. Faltará o quase, como sempre.
Mas há que, independentemente de todo o ruído e de todas as vulgares campanhas que andam por uma pequena parte da ecúmena, atentar na curva da população mundial.
Essa é que é a luta decisiva. Essa é que é a questão que se coloca e nenhuma outra.
Talvez as máquinas devessem falhar e não nos dar a solução para enfrentar uma epidemia.
Mas isso é uma questão de valores e valores interessam-me pouco.
O que sei, sabemos todos, é que não poderemos continuar a reproduzir-nos ao mesmo ritmo sem que encontremos territórios novos para colonizar.
Como os vírus, exactamente como os vírus.
por MCV às 19:10 de 28 dezembro 2007 
InfinitesimãosRoucas.
Apontando gestos em paredes de cal.
Um ar de pedras lavadas pelo mar.
Remessas de ser.
Ali encostado ao olhar perdente.
Azul ao longe.
SG, inéditos, 2007
por MCV às 19:35 de 27 dezembro 2007 
O jogo das damas Dizer que o jogo das damas foi, no ano de 2007, finalmente resolvido, descoberto, posto a nu e que dá sempre empate desde que... pode levar às interpretações mais românticas.
Na verdade, o jogo das damas de carne e osso para com os cavalheiros da mesma massa, esse está longe de se ver resolvido, reduzido a algoritmos actuando em potentes e capazes máquinas. Lá chegaremos.

Mas este, o das 24 peças no tabuleiro de 8 por 8,
foi finalmente escrutinado por tais algoritmos, mostrando que a capacidade do engenho humano em avançar na resolução de problemas que esse mesmo engenho criou, séculos atrás, e que resistiram ao abrigo de uma grossa camada de zeros, contados em expoente de 10, está agora dotada de meios para vencer essas camadas de complexidade em tempo menor do que o de uma vida – este desafio durou 18 anos.
Sabendo da curva parabólica que representa a evolução no tempo da capacidade e da velocidade de processamento das máquinas, e admitindo que poderão existir pontos de catástrofe nessa curva que façam disparar ainda mais essa evolução, parece plausível que já existam as pessoas que irão ver
a resolução do xadrez.
Até hoje, este foi para mim o acontecimento do ano.
Mas o ano ainda não acabou...
por MCV às 18:46 de 26 dezembro 2007 
Restos de colecção (64)
O mais perto que consegui chegar do Pai Natal hoje aos alvores.
por MCV às 10:22 de 24 dezembro 2007 
LigaçõesEnquanto assistia a uma reportagem sobre a
manifestação para pôr termo aos acidentes mortais que ocorrem no cruzamento da 124 com a 264, em São Bartolomeu de Messines, à memória veio-me uma outra morte que relacionei de imediato com tal cruzamento.
E essa relação, a única relação que há entre essa morte e o cruzamento é de banda sonora.
De estar por ele a passar enquanto a rádio a anunciava. Isto há mais de dez anos.
Não haveria razão para me lembrar desta morte em particular – de uma figura pública – mas o facto é que me ficou agarrada àquele cruzamento.
Fiz uma pequena investigação para saber qual a data de tal passagem, para ter a certeza de que não se tratava de uma falsa memória.
Na data em que essa pessoa morreu passei de facto por aquele local.
por MCV às 03:03 de 23 dezembro 2007 