18/06/2005

Já não sei

Se há alturas particularmente férteis em disparates, imbecilidades.
Estes últimos dias têm-no sido, sem que se possa dizer que é já uma antecipação daquilo a que alguns chamam silly season, dada a importância de alguns assuntos.
Também nunca saberemos se os disparates que se ouvem reflectem ou não o pensamento dos que os proferem.
Temo que sim.
Analisando sempre e só os sintomas, a cada dia que passa se aviva a ideia de um suicidarismo.
Longínquo, cavado, enraizado. Mas que dá à costa como as baleias, vez por outra, tornando-se visível.
A cegueira que decorre da insídia, essa que nos tolda os sentidos.
Algum rumo

16/06/2005

Rotundas

Quem disse que as regras de circulação em rotundas são fáceis de estabelecer?
Ah, mas não era nada disto que eu ia dizer.
Não.
Não fui almoçar a Peniche, isso é um facto.
Não fui à praia, disse para comigo que está muito vento.
Resolvi ir ver o correio lá onde ele se amontoa. Perdão, o que se amontoa é o spam feito de árvores côrtas. Só de pensar em árvores côrtas, arrepia-se-me a espinha.
Resolvi subir. Resgatar mais uma parte de mim.
Vieram atrelados Vergílio Ferreira, Saint-Exupéry, Pearl S. Buck, C. Virgil Georghiu, António Damásio, Almeida Garrett, Lobo Antunes, João de Deus, entre outros. Tantos quantos a braçada amiga conseguiu envolver.
Ah, e trouxe ainda mais um cinzeiro. Inútil objecto entre aquelas paredes.
Foi assim com a pilha ao meu lado que cedi a passagem à camioneta das carnes.
Quando vi o trânsito parado, fiz a habitual jigajoga por dentro. Passei pela ribeira e voltei a encontrar a camioneta das carnes. Bem feito.
Quer isto dizer que, tendo permanecido atrás da dita camioneta ou não, aparentemente chegava à rotunda ao mesmo tempo. Sabe-se lá, no entanto, o que aconteceria.
E foi, justamente quando me ria do imbecil que piscava para a esquerda, que a vi.
Lá estava ela, em fato de faxina.
Em mais de quinze anos, jamais a tinha visto à varanda.
A primeira ideia foi parar lá debaixo e gritar arraial.
Ocorreu-me que nem sempre a primeira pulsão é a mais certa. Embora o seja, na maior parte dos casos.
Tive assim que vir aqui, à base de dados, recuperar um número começado por 2.
Talvez não tivesse sido má ideia parar debaixo da varanda, vejo-o agora que já desliguei o telefone.
Não, os livros do Orwell não sou eu que os tenho. O meu 1984 é de 1955.
Quem não tem nada para fazer, faz merda.
Táiti duche


imagem em http://www.sniw.fr/images/references/815928.jpg

Era assim e não tá-í-ti ou tah-iti que ele dizia e suponho que ainda diz, o meu velho J. d'.
Já compraste o Táiti duche? - era o sinal de que, em breve, muito em breve, rumaríamos a sul.
Ele levaria, como sempre, os óculos de caminho e os óculos de povoação. E um salvo-conduto da namorada.
Eu, o tal frasco. O meu irmão, não me lembro o quê.
A minha última com eles já lá vão 19 anos. Talvez alguns leitores se recordem de nos ver. Eu era o que carregava todas as noites um tipo às cavalitas pelas escadas do então Splash. O J. d' era o que entrava todas as noites às cavalitas de uma cavalgadura no mesmo local.
O meu irmão era o que carregava, no fim da noite, o bicho para cima. Os outros trinta eram os que se riam.
Nessa última época, deu-se o caso de o moço se ter lesionado com gravidade aos 3 minutos de jogo, no primeiro jogo, no primeiro dia. Recusou-se a abandonar o torneio, embora nessa madrugada me tenha obrigado a levá-lo ao hospital de Faro, onde de resto permanecemos um dia inteirinho, de sol a sol.
Depois foi invocando a sua incapacidade a desoras e a eito, até ao fim do mês. Havia sempre alguém que o carregava.
Quanto ao Tahiti duche era uma espécie de poção mágica que, ao invés de força, proporcionava haréns, na teoria dele. E que, por uma ainda mais obscura razão mas que eu relaciono com o facto de andarmos a chouto, fora do alcance da tal polícia, a mesma que assinava os salvo-condutos, apenas era utilizada em férias. Faz sentido.
Feitas as contas agora que a história assentou, e depois de mais de dez anos dos mais diversos odores tahitianos, pois corremos a gama toda, ele era capaz de ter alguma razão.
Ainda não percebi é como é que o bicho, naquele último ano, sentado a noite toda, se safava.
Verdade seja que nunca me dei ao trabalho de o observar. Só mesmo de o carregar para baixo.
O.K. E nem todas as noites íamos ao Splash. Também gostávamos de inspeccionar as outras.
Troço cronometrado

Ontem à tardinha, e por um remoto acaso, reuniram-se as condições.
Quando dei por mim, desenhava curvas em ligeiro derrapanço no montado, alternando rapidamente esquerdas e direitas entre árvores de dupla escolha, aquelas que ficam no meio do caminho.
Dei-me também conta de que, por um caso ou por outro, havia anos que não levantava assim o pó à estrada.
Matei saudades. Apercebi-me de que andava a levar-me muito a sério.
Nem uma única porrada com a parte de baixo do carro.
Como não tive espectadores, tive que vir aqui gabar-me, é claro.

Acho que o post anterior teve a sua responsabilidade no sucedido.

15/06/2005

Sítios

Há sítios que ainda nos surpreendem.
Depois do primeiro milhão de quilómetros estrada fora ainda é possível pousar em recantos inverosímeis.
Sítios onde se supõe ninguém passa, ninguém vai. Dado o silêncio que tanto a noite como o dia comportam.
Estradas de areia onde só os incautos ou os que não fizeram outra coisa durante anos metem não o jipe mas a carripana de todos os dias.
O mar ali.
Uma casa escondida num vale entre dunas. Um escasso pinheiro rente.
Pouso fortuito de uma noite.
Uma vaga ideia de sardinhas assadas e garrafas de tinto. Dormir como os justos.
E nunca mais lá passar perto.

14/06/2005

Restos de colecção (34)

Do tempo em que os mapas eram feitos à mão:


(clique para ampliar)

do projecto da ponte sobre a ribeira da Comenda, na E.N.10-4, MOP/JAE/DSP
O mundo visto por elas

Ele: Vamos, independentemente do resto, mostrar que a > b.
Ela: Mas c também é maior do que d.
Ele: Isso agora é irrelevante. Concentremo-nos em mostrar que a > b. Adiante se verá o que se segue.
Ela: Irrelevante? Por que é que dizes que é irrelevante?

Explicações adicionais já foram há muito dadas aqui.

13/06/2005

O kit macaense

Não tive então coragem de te oferecer o kit completo.
Só o recebeste uns tempos após.
Mas nesse dia de Santo António, enquanto escondia o meu carro - na época passava despercebido, hoje é quase uma relíquia - preparava-me já para te oferecer a pataca à mesa do café.
A que era suposto ter jogado no casino improvisado, de uma só máquina, por detrás da simulada fachada de São Paulo.
A que também dissimuladamente guardei no bolso, à revelia da minha companhia, que suspeitava já dos meus anseios.
Outros, de nada suspeitaram. O tubarão confundira-se com as sardinhas, ninguém deu por ele.
Provou-se que a pataca era mesmo da sorte. Não foi sequer preciso atravessar o Alentejo, de norte a sul, do Crato a Ourique, sob a brasa de Agosto, e até ao tal sítio, para o saber.

O AMC Matador


imagem em http://www.straight-six.com/theLook/issue17.htm

Ocorre-me muitas vezes nestas épocas de romaria nas estradas, a irónica figura do Matador, matando alguns dos seus passageiros, na sequência da testemunhada imperícia do seu condutor.
Vi-o ao dito AMC, dobrado ao meio, depois de embater no velho 404 do meu tio. Apareceu-lhe o bólide, de atravessado como os comboios, à saída de uma curva, ia ele na sua habitual pachorrenta marcha.
Tanto o meu tio como o seu fiel 404 ainda vieram a percorrer mais alguns milhares de quilómetros.
O condutor do AMC, a ter sobrevivido, terá nesses outros quilómetros carregado outros fardos. Nunca terá percebido o que lhe aconteceu.
É esse o drama das nossas estradas.
Estas noites

Foram noites.
Numa delas, troquei uma mulher e um manjerico por um cigarro.