Espólio (22)
espólio Campos Vilhena, foto de MSSMértola, anos 50, construção da ponte sobre o rio Guadiana.
por MCV às 23:33 de 06 janeiro 2007 
Motivos para deserdar alguém (mais um da série de)Vê-lo pronunciar, enternecida e provincianamente, a palavra, o nome Segolène.
por MCV às 15:30 
O cão deprimido*Foi agora mesmo. Estava a ser atendido quando tocou o telefone.
A cara da empregada transfigurou-se.
Quando ela desligou o telefone e dado ter ouvido inevitavelmente a conversa, perguntei: Foi o cãozinho?
Ela disse-me que sim e contou-me do aparato policial para pôr fim aos dias do cão deprimido.
E da ameaça de despedimento com justa causa que pende sobre ela e duas colegas. Segundo ela, por terem vendido aos clientes comida para o cãozinho.
Não sei se o cão alguma vez foi de alguém. Creio ter sido, dada a sua docilidade e expressão quando reagia às palavras e carinhos dos humanos.
A ser assim, foi abandonado. Estava quase permanentemente deitado à porta daquele estabelecimento, como se tivesse em si toda a infelicidade que têm os cães.
Foi levado hoje, com aparato policial.
Imagino que fosse um perigo terrível para a saúde pública. Quanto ao aparato, é óbvio que os imbecis que nos governam, nos mais variados níveis, têm que justificar o sugadouro de dinheiro que o Estado é.
Ah sim, os imbecis não têm culpa alguma de o ser. A culpa é obviamente nossa, ao nos demitirmos das responsabilidades e ao deixarmos assim as decisões para eles. E ao permitirmos que a organização do país seja aberrante e ridícula.
Estou revoltado, é claro. E não gosto nada de escrever a quente. E este caso foi a gota que fez transbordar o copo, hoje.
*andava há uns tempos para publicar algo sobre ele.
por MCV às 17:57 de 04 janeiro 2007 
Escrita em diaJá sabia que era assim. Mas tirei a prova dos nove durante o mês em que o computador meteu baixa na caixa.
É-me estranho, cada vez mais estranho, o uso da pena. A comprová-lo o esmorecimento do calo no dedo médio direito.
A minha caligrafia, outrora quase de perfeccionista no que tocava à letra de imprensa, ganhou demasiada liberdade poética. Gatafunhou-se.
A escrita corrida, dita estenográfica, alcançou um período mnemónico ridiculamente curto. Algumas horas depois torna-se indecifrável.
Posto isto, e tal como
pretendia há algum tempo, comprei um auxiliar de memória que substitui o tradicional caderno de capa preta.
SG delirou com o aparelho e furtou-mo por uns dias. Afirmou que não escreveu o poema abaixo, disse-o de uma assentada.
Eu revelei-lhe que gravadores de som são coisa velha e relha. Ele, lá das nuvens, retorquiu: Ah, sim? Deste tamanho?
por MCV às 18:22 de 02 janeiro 2007 
Sinceramente, brincandoSincebrincando o boneco vector.
Pequenos companheiros
Admoestando poetas e pinheiros.
Sincebrincando a merenda do pastor,
Vemos vagueiros arrastando lamas e pinheiros.
Sincebrincando romenas e romeiros.
Voltamos inteiros,
Penas e sobreiros.
Sincebrincando, temendo torneiros.
Facas de lanceiros,
Copos de escudeiros,
Longe de terreiros,
Marcas de carreiros,
Prisioneiros.
Sincebrincando velas e veleiros.
Pélagos, pesqueiros.
Escasseia a vaga, é dia primeiro.
Sincebrincando um denso nevoeiro.
SG,
inéditos, 2006
por MCV às 20:16 de 01 janeiro 2007 
Deixa lá fazer umas previsões também
Na vizinhança da centena de baixas. Para aí.
por MCV às 20:11 
Portugal, 2007
Antes do levante, do local de sempre.
por MCV às 09:31 
Na MésiaVejo-te de cerejas.
Vejo-te de flores.
Recebo-me contigo.
Há setecentos anos, hoje que seja. Hoje que sejas.
SG,
inéditos, 2006
por MCV às 22:02 de 31 dezembro 2006 
Ano velhoNa preguiça de quem carrega mais um ano às costas, como se fosse eu o único, socorro-me de mim próprio, em autocitações imodestas:
de 1 de Março de 2004de 16 de Agosto de 2004de 31 de Deezembro de 2004de 19 de Novembro de 2003Talvez devesse dizer-lhe, lembrar-lhe, que não me será indiferente que às 22:00 se dê a entrada da
Bulgária na União. Talvez SG me socorra. Ele que me apareceu estes dias.
por MCV às 19:17 