Gotas lentasPara mim, tudo o que não seja balizado e regrado é poesia.
Talvez também poesia seja o que se diz entre balizas e consoante as regras. Não sei.
Três homens, primos entre si.
Uma porta de jazigo aberta ao crepúsculo.
Não se faziam balanços nem se pronunciavam as habituais lengalengas de ocasião.
Eram palavras lentas como as gotas que fingiram cair no preciso momento.
Cada vez menos luz. Outros ao longe, já na parada.
Pareceu que estas portas, aquela porta, são uma espécie de passagens para a história.
Dito isto, até me soa a lugar comum. Talvez o seja.
Mas o chão, de sete palmos, parece ser muito mais inacessível.
As gotas, lentas.
por MCV às 21:45 de 19 março 2005 
As voltas do tempoTal como há cinco anos atrás, os dias frios e os dias quentes surgem pouco espaçados. É Março.
Março, Marçagão, de manhã, inverno, à tarde, verão.
por MCV às 10:38 
Lisboa 1982
Rua Barros Queirós (cópia manhosa em papel de jornal)
por MCV às 09:38 
Os sinaisParece indiscutível que uma das preocupações da vanguarda da espécie humana é, desde há algumas décadas, o cenário futuro das condições climatéricas e o consequente risco para a sobrevivência da espécie.
É esse sinal que recolho, mais do que a primaridade de muita da argumentação de repetidores, de muita especulação pouco científica, de muita inconsistência nas argumentações.
Interessa-me sempre o panorama geral. Muito pouco a opinião particular.
Uma das verdades de La Palisse é que mais gente no mundo conduz a um aumento de temperatura. Outra é a de que mais combustão, mais conversão de energia em calor, dá o mesmo resultado. Outra ainda é que propiciar a criação de filtros à irradiação também conduz à acumulação de calor. Podem somar-se outros mas quase tudo desemboca no número de viventes e na forma como se organizam as coisas à face da terra.
Uma das questões que se levanta é caracterizar bem essa evolução. Ora aqui é que começa o problema. Sabemos ou julgamos saber que ao longo da evolução, antes de existirem criaturas vagamente parecidas com o que somos hoje (como se fosse possível estabelecer um tempo em que não existiam e um tempo imediato em que faziam parte da fauna) e depois desse dia, ocorreram várias modificações no clima do planeta. Saber se existiriam homens sem essas modificações é daquelas perguntas interessantes mas desnecessárias porque sem resposta.
Mas para a caracterizar, dizia, são precisos dados. Dados que escasseiam. Dados que apenas se referem a umas décadas, com a precisão datada, mas que ainda assim podem servir para traçar gráficos e olhar para eles.
Não nos dão estes gráficos nenhuma novidade. Se olharmos para as
temperaturas em Lisboa, vemos claramente uma subida. Comparemos essa subida com os dados existentes sobre a população e outros indicadores que nos possam dar uma ideia sobre a evolução da transformação de energia em calor e teremos com toda a certeza uma relação entre uma coisa e outra.
Já para o campo, a coisa é diversa. Analisei temperaturas médias mensais de várias estações do sul de Portugal e, no intervalo de tempo a que correspondem os registos, cerca de 60 anos, não é possível concluir por mudanças significativas. Ainda que pareça haver um aumento e uma menor variação nas temperaturas médias mais baixas, correspondentes aos meses de Inverno.
Ora o risco que corremos quando olhamos para estas séries é pensarmos que elas são representativas de alguma coisa. Como é que se pode concluir seja o que fôr, em termos gerais, mais latos, a partir de uma amostra de um troço infinitamente pequeno de uma curva?
Mas supondo que há de facto uma tendência acentuada de alteração das condições climatéricas, qual será essa alteração? Que efeitos terá de facto sobre a nossa espécie e sobre as outras? Alguém os sabe determinar? Alguém faz ideia da capacidade de adaptação que temos?
Ainda assim, e dada a crescente preocupação que o assunto suscita e que me leva a concluir que há razão para o encararmos de frente, é natural que medidas haja a serem tomadas.
Saber exactamente quais é que é mais difícil. Não me parece que tudo se resuma a excesso de concentração de determinados gases. Nada deste mundo se resume a bolotas. E mesmo que assim fosse, é esse objectivo, o de reduzir essas concentrações, alcançável?
E sendo que a população continua a crescer, haverá medidas que se possam tomar para travar esse crescimento? Ou viramo-nos decididamente para fora e vamos à procura de locais para colonizar?
No meio de tudo isto, alegram-me sempre os disparates ditos com convicção. Aqueles cenários que se traçam do modo mais primário, quase sempre encerrando a contradição e a incompatibilidade entre conclusões.
Ninguém sabe que alterações advirão do aumento segmentário da temperatura.
Ninguém sabe os efeitos sobre as diferentes espécies que essas alterações desconhecidas acarretarão.
Ninguém está por isso em condições de afirmar que isso será catastrófico ou benéfico.
Ninguém sequer pode garantir que não se verificará uma catástrofe, no sentido físico da palavra, uma alteração repentina das condições que não permita a readaptação.
Mas havendo inquietação entre os homens, isso mostra claramente que haverá alteração de comportamentos.
É já um aspecto da adaptação das espécies, da nossa espécie, ao meio.
O problema da sobrevivência já se colocou muitas vezes. E ainda aqui estamos.
por MCV às 19:47 de 17 março 2005 
A marmota que desceu no meu quintalAs esquírolas encontradas no assento traseiro
Eram decerto bocados de cóccix
Que o antrópofago se esqueceu de digerir
Na segunda manhã do rali de Monte Carlo.
E, mesmo que o não fossem, tinham estatuto de VIP
Na deslocação aprazada para quinze do corrente
Às traseiras do palácio da princesa adormecida
Onde, adrede, o gâmeta masculino tinha marcado
Presenças dignas de um grande senhor fariseu.
Claro que a solicitude com que foi recebido
Tinha algo a ver com a sempre apregoada hospitalidade
Avulsa dos arautos em torneio complementar.
Bosquejando aquilo que seria o seu amor interrompido,
O ente encontrava-se absorto e meditabundo
Contemplando duas relíquias guardadas num sacrário.
SG, "2ª Escolha", 1993
por MCV às 11:25 de 16 março 2005 
A fórmula de HeronQualquer um que tenha (que tivesse, que hoje há calculadeiras para todos os efeitos) necessidade de calcular uma área agrícola, por exemplo, socorrer-se-ia de triangulações e provavelmente da fórmula de Heron para obter o resultado.
Suponho que hoje a maioria dos não iniciados desconhece esta velha fórmula de conhecer a área de um triângulo dados os lados.
É que a "base vezes altura sobre dois" apesar de ser de conhecimento generalizado, não permite de facto calcular com precisão uma área de um triângulo qualquer cujos lados são fáceis de medir.
Para que o permitisse, era preciso que se soubesse com rigor o valor da "altura". E esse valor não é facilmente determinável no terreno como o são os lados do triângulo.
por MCV às 12:19 
Memórias de Manel LoendrêroParece que o autor fazia questão do anonimato.
Nunca conheci os pormenores associados às crónicas tão pouco o seu autor.
Limitava-me a ler com muito agrado as fotocópias que me davam do jornal.
Ontem dei com
uma página que lhe faz referência.
Senti-me transportado para adegas cheias de tralha, comendo pão com banha por essas quatro da manhã, enquanto o cão da casa assentava arraiais sob o improvisado púlpito de onde um mais capaz declamava as aventuras dos moços dos lados do Ardila.
Há vinte e tal anos...
por MCV às 18:24 de 14 março 2005 
Os fortalhaços a monteFui dar com o meu caseiro debaixo de um chaparro, a dormitar.
Saudou-me com um sorriso malandro e atordoado.
Disse-lhe ao que ia. À procura de quem me tinha dado uma carga de porrada ali no monte, na véspera.
Respondeu-me de pronto:
"Não sabe quem foi? Foi o Sr. Vidêra mais o Sr. Madronhêra. Também me bateram a mim!"
fotos dos meliantes capturadas aqui e aqui
por MCV às 09:42 