Jornais e lentes
Um mistério que para sempre ficará por resolver é o de os jornais haverem saído, anos a fio, daquela casa com milhentas sílabas sublinhadas a azul e, em certas épocas, só em certas épocas, com múltiplas queimadelas de aparente cigarro.
Mas não era cigarro.
Era a minha lente a funcionar.
Já nunca percebi o que levava o meu tio a sublinhar uns 5 a 10% das sílabas, não das palavras, não das frases.
Nunca ele se queixou de eu lhe queimar as margens dos jornais.
Nunca eu adivinhei o seu propósito ou lhe perguntei por quê.
Passávamos horas sem pronunciar uma única palavra.
P.S. - Além dos traços azuis subsilábicos, havia também uns números, de onde em onde.
imagem adaptada de
por MCV às 18:55 de 02 outubro 2004 
Olivença
Eu de facto não entendo por que é que, sabendo-se que os espanhóis pressionam para que se chegue a uma solução para Gibraltar, as autoridades portuguesas se limitam a apagar a fronteira da ocupação nos mapas oficiais e a desenvolverem contraditórias e insípidas reclamações sobre quem manda no Guadiana na zona da contenda.
Nem qual é o mistério por trás disto tudo.
Há um equívoco grande quando se diz que as nossas fronteiras datam do séc.XIII.
por MCV às 17:53 de 01 outubro 2004 
Uns copos a mais
Polibruno estava feliz à saída das Caldas.
No fim da semana de trabalho, ocorrera-lhe presentear a esposa com um serviço de couve.
Esperámos todos no carro, enquanto o adivinhávamos regateando preços.
Lá saiu altivo, uma boa meia hora depois, segurando o atilho.
Mal se instalou no banco do carro, desatou a desembrulhar tampa por tampa, tigela por tigela.
Mais para conferir de novo do que para nos mostrar a compra.
Claro que faltava a tampa de uma terrina.
Suplicou meia-volta mas não lhe fizémos a vontade.
O tá bem que soltou soava a soluço.
Mudou a conversa para os copos. Já trazia três ou quatro, só desse dia. Copos com publicidade qualquer um marchava. Insinuava-se junto do balcão mas não roubava nada a ninguém. Tinha portanto conseguido nesse dia os três ou quatro que agora nos mostrava.
A volta era larga. Havia que deixar um para os lados de Alcoentre, outro para os lados de Coruche e só depois a capital, já lá para o lado da meia-noite.
Chegados à zona de Coruche, o passageiro ali destinado entendeu pagar umas cervejas.
Enquanto escorria a cevada pelas goelas, Polibruno demorava os olhos pelas prateleiras de copos. Insinuou-se sem sucesso.
Foi quando reparou na panóplia de prémios pendurada na parede. Em lugar central, um relógio que parecia de cuco.
Polibruno perdia apostas regularmente. Bastou-lhe elogiar o relógio para que o outro lhe dissesse, desdenhando, que o relógio era em plástico bera.
Polibruno achava que não, que era de madeira legítima.
Estava o terreno preparado. Polibruno apostou.
Tirada a prova, Polibruno perdeu.
Que sim, que era uma boa imitação. Mas que, assim sendo, de nada valia. Mas Polibruno ainda fez preço a cada um dos itens da tábua de prémios. Lanternas, porta-chaves, isqueiros, facas, tudo avaliado. Feitas as contas, Polibruno concluiu que valia a pena investir na arrematação global, comprando os furos que faltavam.
Mas foi desimaginado disso pela nossa retirada intempestuosa.
O homem da terra convidou-nos então para um último copo em casa dele.
Depois dos cumprimentos à entrada, fomos conduzidos a uma sala onde pontificava um relógio...
Polibruno já não se deixou surpreender. Afirmou logo que era de plástico.
Não se ficou por aí. Alcançando a cristaleira, dobrou a espinha e arrebitou os olhos para a fila de trás, a dos copos marcados.
Ali mesmo fez preço à colecção. Com essa atitude, acabou estranhamente por conseguir mais dois para o pecúlio.
Saiu triunfante.
As horas já não eram para gente decente andar por aí.
O carro tinha pouca gasolina e as bombas tudo fechado.
Polibruno sugeriu Salvaterra. Nada.
Depois Benavente. Se não houver bombas, vou aos Bombeiros - dizia, puxando dos galões de voluntário.
Assim foi.
Polibruno dormia afinal quando estacionámos no parque dos Bombeiros.
Acordou estremunhado e precipitou-se para fora do carro, levando no colo os copos do dia.
Desastre. Polibruno quase chorou. Logo aqueles dois que lhe tinham dado em Coruche, tão difíceis de encontrar...
Mas lá foi.
Ao fim de uma hora, resolvemos saber da sorte do homem, desaparecido para lá de um portão de quartel de bombeiros.
Lá estava, em amena cavaqueira, junto a um auto-tanque.
Chamou-nos e apresentou-nos ao responsável de serviço.
Julguei nessa altura distinguir um brilho de alívio nos olhos do bombeiro.
Agradecemos e ainda ouvimos Polibruno virar-se para trás, confirmando:
"Têm aqui umas belas instalações!"
A razão da demora tinha sido mesmo a visita guiada ao quartel.
Ainda sugeri uma passagem pelo Colete Encarnado, que era noite da Sardinha Assada.
Mas pensando melhor...
copos daqui
por MCV às 14:59 
O mundo
Nesse tempo, o mundo chegava na camioneta das 9.
A televisão só começava lá pela tardinha.
As emissões de rádio mal se captavam ali, entre cêrros.
O mundo vinha assim dobrado e etiquetado, com o cheiro a tinta já misturado com odores de gasóleo mal queimado e outros, ocasionais companheiros de porão.
Desdobrava-se sobre o balcão e entre as letras distinguiam-se os tracinhos do linotipo.
por MCV às 13:45 
Contágio
A nossa língua é de um absurdo macroscópico quando se trata de pedras na engrenagem - aqui há gato, seja ele bicho ou peça metálica.
Como se os olhos dos que falam a nossa língua só divisassem manchas de contornos consideráveis.
Já os moços que dominam estas coisas do software se socorrem de bichos mais pequenos, sabendo nós que desses bichos à transmissão de doenças, vai um saltinho.
Vem isto ao caso de, e para meter uma data de coisas no mesmo saco (de gatos, como se verá) a minha maquineta ter vindo a dar preocupantes sinais de bronquite.
Não sei mesmo se o facto de ela se desligar quando começa as iterações à caça da chave mágica do totoloto (não sabiam que
eu era maluquinho?) tem alguma coisa a ver com o facto de outros computadores mais potentes se terem negado.
É claro que é coisa diversa. Aqui não há problemas de solução inextricável. É só passar os treze milhões e qualquer coisa de chaves pelos setenta e tal crivos, subdivididos em umas quantas condições, tal como se faz há cerca de vinte anos, sem sucesso.
Esta versão do programa, a 27ª, é até já antiga. E já está a dar as últimas. O departamento de desenvolvimento está cheio de ideias novas e já tem a coisa em fase de execução. Tem faltado o tempo.
Mas que é suspeito, é. Mal ele diz que excluiu à partida uns dois milhões de chaves, isto depois de ter feito já umas quantas iterações preliminares, dá-lhe a travadinha. E isto só aconteceu nestas últimas semanas.
Não sei o que pense. Ouvi mesmo agora dizer, e pela octogésima quarta vez, sendo dito como grande novidade, que a gripe das aves também se pode transmitir aos humanos.
Será caso?
por MCV às 21:10 de 28 setembro 2004 
O dia em que a guerra acabou
Pois foi. Foi nesse dia mesmo.
Ela ainda estava obrigada a comunicar o seu paradeiro, proibida de entrar na Cortina de Ferro, sujeita a escrutínio nas visitas que recebia.
Nesse mesmo dia, o homem reparou nela. Fazia um friozinho a mais na Praça Pigalle.
Ela tinha-se colocado sobre os ventiladores do metro.
O homem aproximou-se, dirigiu-se a mim e ao R.C., e só depois fez a vénia na direcção dela.
O francês dele era anguloso. Forasteiro como nós.
Que da primeira vez que estivera naquela praça, havia dezenas de pessoas deitadas junto dos ventiladores, pouco depois da guerra.
Quando a vira assim...
Disse que era de um dos países do Leste. Não comentámos o acontecimento desse dia, embora por todo o lado em Paris não se falasse de outra coisa.
Diziam que Mitterand havia afirmado que gostava tanto da Alemanha, que se houvesse duas, tanto melhor.
Mas ele estava mais interessado em nós. No que fazíamos, de onde vínhamos.
Quando lhe dissémos ao que vínhamos, abriu os braços. Que não acreditava.
Estava ali também para a Feira. Carteira em punho, mostrava credenciais. Dizia que eram de jornalista, de funcionário do estado, de diplomata. Vamos beber um copo. Fica para amanhã.
No dia seguinte, lá estávamos. No stand aprazado. Sem ela, que fora ver as modas.
Passámos uma primeira vez e nada do nosso amigo. Uma segunda e nada.
À terceira, foi de vez. Entrámos e perguntámos por ele.
Foi quanto bastou para nos colocarem num reservado, a sós com uma garrafa de scotch.
Mas nada de meninas, como tinha acontecido noutro sítio.
O homem não apareceu.
por MCV às 21:02 de 27 setembro 2004 