A minha aranha de estimação
Uma aranha é uma aranha. É a própria teia. É uma espécie de enredo em que nos metemos e do qual muito dificilmente saímos incólumes.
Que gand’aranha! – exclamaria o meu velho M.O. para os seus botões ao passar por mim sem me cumprimentar e vice-versa. Incógnitos. Era disso que se tratava. De uma gand’aranha onde entrávamos todos ou cada um e da qual saíamos, ou nem sequer isso, chamuscados e mais vividos.
Uma aranha é repulsão. Insecto desprezível e exterminável nos sonhos mais duros.
Uma aranha diz que é dinheiro. Que quem mata tal bicharoco imita os chineses que apontam para fora, para a perdição.
Há alguns meses, dei-me conta de que existia uma teia de aranha no espelho retrovisor da porta do condutor do meu carro.
Como o carro é utilizado, achei estranha a coisa e limpei-a sem grandes detenças.
Surpreendeu-me, sim, que no dia seguinte lá estivesse outra teia.
E no outro. E no outro.
No dia em que me resolvi – o carro estava razoavelmente limpo – a passá-lo pelas mangueiras de alta pressão e fazer incidir o jacto nos arredores do espelho, julguei ter a coisa resolvida. Ledo engano. Não no dia seguinte mas na semana seguinte, teia. Aranha. Enredo. Todavia nunca havia visto o bicho. Só a irrevogável teia.
Foi mais ou menos por essa altura que decidi deixar de importunar a aranha e considerá-la, à revelia, animal de estimação*.
Quando começaram estes dias de chuva pensei que a minha companheira de viagens me abandonaria por outro lugar mais recatado.
Ora, ontem, tendo o carro coberto de folhas secas, mas molhadas, que a chuva projectou sobre ele, vislumbrei-a finalmente. Deslocava-se do lado esquerdo do vidro para o direito, mais ou menos a meio da tabela, entre a folhagem. Deixei-a passar antes de fazer rodar as escovas.
Hoje não mexi no carro. Sempre quero ver se, removendo a teia, ela voltará, irrevogável.
*
hei-de contar a história do gato. Dos gatos.