Too close to call
Perto da vista, perto do coração - talvez seja essa a lição do dia.
Ou ainda mais cripticamente, internet no monte, porcos às boletas...
por MCV às 21:55 de 15 janeiro 2005 
Algumas notas sobre galinhas
Desta vez não é sonho. É apenas a defesa da honra. Das galinhas, claro.
Em primeiro lugar, a declaração de interesses, como é uso:
Sim, fui durante algum tempo professor de galinhas. Sim, infligi alguns castigos corporais às minhas pupilas.
Eu e a minha prima montámos uma escola em casa da minha bisavó. A coisa funcionava sem horários e currículos rígidos mas era basto disciplinada. Conseguíamos afinal dispô-las em filas e colunas, em notáveis exibições de ordem unida.
O galo não era muito de opinião. Tanto não era que suponho que ainda hoje a minha prima tem alguma aversão aos ditos de crista. O certo é que a escola não era mista, por isso o galaró ficava de fora.
Posto que já dei conta do meu envolvimento com tais criaturas, passo à sua defesa.
Dizem para aí que as galinhas não voam.
Com toda a certeza, alguns dos meus leitores são testemunhas de que tal não passa de um vil insulto às galináceas. Pois são aves e voam. Ah, voam.
Lá no monte havia e ainda há uma velha oliveira que o diga.
Dava galinhas em vez de azeitonas. Nos troncos mais altos.
Não é que não desse de todo azeitonas. Dava. Mas as que dava, apareciam no chão e tinham uma textura estranha. Ao esmagamento, não mostravam caroço. Curiosamente, havia ovelhas lá no monte.
Abandonadas as casas, perdida a geração, perdeu-se para sempre aquela ignorância.
Não a ignorãncia que eu ministrava na escola.
Mas a que elas obtinham da mãe-galinha: ignoravam que não podiam voar.
É certo que também ninguém lhes cortava as asas.
por MCV às 21:06 de 13 janeiro 2005 
A propósito
Este blogue é uma manta de retalhos.
Muitos outros o são.
Gosto que assim seja, talvez porque não tenha nem engenho nem arte para o fazer de outra forma.
por MCV às 13:53 
Dúvida pertinente
Qual será a valorização a que está sujeito um vale de três cêntimos três, emitido por um máquina de venda de bilhetes de comboio?
Para coleccionadores, claro.
E mais não digo, recolho a horas campaniças.
por MCV às 21:01 de 12 janeiro 2005 
No papado de João Paulo I
A sogra dançante
foto do SNIG
Não sei a que propósito vem (veio) isto.
A senhora, em
fade out, insistia em dizer-me que não queria que eu tivesse algo a ver com a filha.
Eu dizia-lhe que não, que estivesse descansada. Que nada houve, tinha havido, haveria. Mas ela insistia. Entretanto, em
fade in, começava a desenhar-se na minha memória, o beijo. O beijo que feria de morte a minha argumentação. Mas não titubeava. Com ar de escroque, ou talvez não, lá continuava o desmentido. Mas o beijo vinha, insidioso, à memória. Eu desmontava-o, tirava-lhe intensidade, desejo, arrebatamento (não é o que se diz nestas alturas?).
Desconstruía-o e argumentava, num cenário triste, escuro, de cozinha às escuras em dia curto.
Desconstruía-o. Queria que fosse um desbeijo. Que a minha palavra fosse verdadeira. Às escuras, numa cozinha em dia curto.
A festa decorria no quintal, porco morto pendurado na escada de madeira à porta da garagem.
As moças dentro da adega, às escuras. Na minha adega em fim de tarde de dia curto. Sentadas em mesas de café, ali estavam discutindo gillets e saias-casaco.
Na loja, um amigo estrangeiro dialogava com uma estranha.
Uma moça engraçada e estranha, apenas por ser forasteira, apenas por não ser uma cara habitual na minha frente.
Ela falava num inglês que parecia genuíno. Ele com um acentuado sotaque levantino.
E era um caderno o que viam sobre o balcão.
O caderno tinha fórmulas, gráficos, texto.
Ele sorria, provavelmente mais interessado no cheiro dela do que na tese encadernada.
Ela retribuía-lhe o sorriso e eu vendo que "tava o balh'armado".
Meti-me na conversa e perguntei-lhe, a ela, se precisava de ajuda.
Ela disse que sim, que "bem podia usar a ajuda de alguém que soubesse de química". Traduzindo eu aqui à pressa o que ela disse. E que fora ali parar, porque alguém lhe tinha dito que na casa do largo devia haver quem percebesse do assunto. E que parecia que havia festa.
Riu-se e perguntou se eu não a convidava.
Disse-lhe que sim, às duas questões. Que lhe arranjava alguém. Tinha ali a pessoa indicada para lhe dar uma ajuda.
Ela explicou-me o que era. Qualquer tipo de análises que andava a fazer na zona. Queria discutir as amostras com alguém que estivesse dentro do assunto.
E, quanto à festa, disse-lhe que o meu amigo candiano lhe faria as honras da casa.
Ganhei um beijo e uma palmada nas costas.
Voltei ao quintal. Os moços lá estavam, de faquinha em riste, cortando côdeas e trincando o porco. O agarrafão poisado na borda do poço, vejam lá se o deixam cair lá para dentro.
As moças na mesma escuridão de Pisang Ambon e sussurros sobre roupa.
A mesa da doutora estava vazia. Perguntei por ela. Que tinha saído, quase chorona.
Voltou o beijo. Tentava apagá-lo com um apagador de escola. Lá estava na ardósia, ao fundo. Ao fundo da adega, à vista de todos. Os sussurros já não eram sobre cachecóis e blusas, eram a meu respeito.
Corri cá fora. No quintal, não estava. O portão das traseiras estava aberto. O da garagem também...
Muitos anos depois, recordo-me bem das palavras do meu par, na contradança. Não era uma proibição o que recaía sobre mim. Eram nabos da púcara o que elas pretendiam retirar.
Uma sogra dançante.
por MCV às 18:23 
Do astro
Suponhamos um referencial ortogonal e tridimensional com origem num determinado ponto teórico, definido em dado instante.
Esse ponto poderia ser um ponto o mais perto possível do centro da terra.
Suponhamos que esse referencial faz sentido, contrariando a opinião não daqueles que demonstraram que a Terra orbita em torno do Sol, mas dos que afirmam que não faz sentido estabelecer ortodoxias para enquadrar, para referenciar o espaço e o tempo do Universo.
Atrevamo-nos ainda assim a supor que faz.
Uma curiosidade que se me coloca hoje é a de saber, face a esse referencial, quais seriam as diferenças observadas na posição de uma série de corpos celestes, hoje e há quarenta e seis anos atrás.
Ou de como se mostravam evolutivas as quarenta e sete imagens assim formadas, ano a ano, contas dos humanos.
Da terra
Fidel entrava em Havana.
A barragem de Vega de Tera colapsava e a inundação matava muitos dos habitantes de uma aldeia a jusante.
Se fosse hoje, não faltariam os directos, saltitando entre o antigo reino de Leão e a imagem do filho da vizinha Galiza, do outro lado do mar, na Grande Antilha.
Mais a sul das terras de Leão e de Santiago, num dos seus caminhos, entre competentes vieiras, os berros que se ouviam tinham sotaque alentejano.
Daria um nota de rodapé, a vermelho (ou seria a verde, digo preto?).
imagem montada a partir daqui, daqui, dali e da Sky News.
por MCV às 03:05 